Eu não te amo mais.
Algo foi retirado de mim.
Não você, mas o amor que eu sentia. Uma vez que eu descobri que a pessoa por quem eu sentia não existia.
Eu estava tão enganada e por tanto tempo.
Eu fui tão ingênua.
Essa ingenuidade foi esmagada de um dia para o outro, tão rápido, que me deixou confusa e atordoada.
Todos esses dias foram os dias que precisei para assimilar isso: a verdadeira perda da minha inocência. Agora sim.
Nada nunca mais poderá ser idealizado, encantado, após a percepção sobre o tamanho erro de cálculo que eu cometi. A minha visão, temo, está irreversivelmente desencantada.
Você para mim brilhava.
Eu amava verdadeiramente a forma como você pensava. Amava sua existência em si.
Eu estava tão inconsciente do fato de que todas as minhas percepções de insegurança eram fundadas na realidade.
Você não me olhava. Não me via. Não me ouvia.
Eu não entendia porque era doloroso quando um terceiro, em um grupo em que estávamos, perguntava sobre mim. Sobre meus interesses, meu trabalho, minha pesquisa, meus gostos. Eu sempre era pega de surpresa e me sentia triste e confusa. Eu não consigo lembrar com clareza uma única vez nos últimos tempos em que você olhou para mim de verdade. Em que se interessou pela minha mente. Eu não sei se algum dia você já sentiu isso, que eu sentia por você com tanta naturalidade.
Eu era um acessório seu. Uma companhia íntima e confortável.
E eu permaneceria sendo.
Para mim estar com você era tão mais que suficiente que mesmo nessas condições eu jamais, nunca, cogitei ainda que por um segundo te deixar.
Como poderia? O homem perfeito. Não existia ninguém assim como você. Um anjo.
Meu sentimento por você era mais do que amor, era uma incompreensível devoção. Uma que você não fez nada para merecer. Eu via seus defeitos (alguns) mas nenhum deles conseguia rebaixar a sua imagem para mim. Nenhum deles era motivo de comparação ou dúvida ou ainda a menor hesitação. Eram coisas que eu queria que fossem resolvidas, mas se não fossem, tudo bem. Discutiríamos um pouco. Abandono estava fora de questão. Esse é o quão consistente era o meu amor.
Quando você me deixou, parece que arrancaram uma venda dos meus olhos.
Porque o homem que eu adorava, ele nunca faria isso. Por mais que fosse egoísta, insensível e apático, era com os outros, era nas coisas bobas, nunca nas cruciais. Ele nunca me abandonaria de uma forma tão desrespeitosa e superficial. Ele nunca me pisaria com grosseria e indiferença. Ele nunca daria tão pouco valor a toda a dedicação que eu lhe tinha. De fato, ele não faria isso. A questão é que ele não existia. Quem existia era você. Alguém que eu não posso admirar. Alguém que eu não amo, agora que eu compreendo.
Todas as pistas para esse final estavam muito claras, muito visíveis. Ainda que fossem inconcebíveis para mim. Ainda que para mim tudo tenha sido um choque. Uma surpresa tão previsível.
A única verdade tangível dessa história é o quão tragicamente enganada eu estava, por minha própria inocência.
E o quão imerecida foi a sua sorte. Por ter sido tão amado assim por mim.
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