-Pessoas podem morrer de solidão.
Ela disse, olhando em seus olhos com a tranquilidade de águas paradas, sorvendo um único gole daquele drink forte demais.
Ele concordou, pensando que ao chegar em casa escreveria sobre isso. Porque é quando a solidão o abarcaria como um abraço indefectível e esmagador, que lhe tiraria todo o ar, e então, nesses momentos, a única saída é escrever. Escrever para sobreviver.
-É verdade. - Concordou, sem absolutamente nada a acrescentar. Apesar do fato de que, intimamente, pensava que matar era apenas uma das capacidades possíveis da solidão. A última. Antes disso, ela também é capaz de enlouquecer alguém e, ainda, fazê-lo perder-se de si.
Esquecer quem é ou o que quer, o que tem como valioso. Sujeitar-se à dor de companhias desprezíveis e a ser machucado. Instigá-lo a cometer todo tipo de atrocidades. Tudo para fugir dela. Também é capaz de fazer alguém ir embora de si mesmo. Substituir a mente e coração por figuras e sons externos, preenchendo os dias com o vazio, até ele tornar-se maior que a própria solidão. Maior que tudo. E a tudo engolir. Até a capacidade de sentir do coração.
-Você tem duas opções. Pode encara-lá ou não. Se encará-la, tem que ter cuidado para não se desesperar. Segurar o grito sufocado de realidade.
Ele concordou mais uma vez, como sempre, vendo aquela imagem cada vez menos nítida começar a desvanecer em sua frente. Partículas esfumaçando no ar, como nuvens antigas que se desmancham no céu da memória.
A voz, agora distante, de um sonho ou lembrança, ecoou, já com timbre de passado:
-Ou pode fingir que ela não está lá. E fugir e fugir e fugir...
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