domingo, 10 de março de 2024

Às vezes um ato de maldade é só um ato de tristeza

Voltei a um lugar familiar
Desconectado e irracional
Vejo a poeira sobre a mesa, os móveis cobertos com panos brancos.
É verdade, eu sou a mesma. Nada mudou. (Tudo mudou)
Ainda saboreio do gosto amargo e persistente da emoção doente, ainda sinto na minha língua, nos meus dentes, a antecipação por carne.
Carne fresca, humana e inocente. Carne mastigável. Coração.
Não, eu nunca soube ser saudável.
Quando o botão do amor se desliga na minha mente, essa frieza atroz e cínica me domina. Me ilumina. Me fascina.
Me sinto bem assim. Ausente e entediada. Intrigada. Obcecada.
Pelo próximo objeto vez. Escolho um, qualquer um, o mais próximo. Detalho em minha mente suas falhas, minhas travas de segurança. Dessa vez não vou deslizar. Dessa vez me previno para não me render ao óbvio do desafio. Tão vazio. Para não confundir o tédio com algo parecido, como paixão.
Não é não.
É só mais um acidente na contramão.
Lugar errado, hora inadequada. Fome, aleatoridade e um sofá na minha sala. O cenário propício para mentirosos e canalhas. Gente como eu.
Ignoro as contradições com minha essência, tão mais pueril do que esse texto pensa. Ignoro a origem ferida do abandono da minha inocência. Me apego apenas a esse sentimento: potente, feroz e incandescente. Ele atrai energia, ele expulsa gente. Ele é magnético e preenche minha mente. Me faz emocionar com alegria pelo alívio da solidão. Me faz sorrir sem humor ao segurar a tua mão. Levar aos teus lábios o mais vil dos beijos sensuais. Coisas demais, vazias demais. E me despreocupar em demasia com minha ausência de sinceridade. Por favor, entenda. Não chame isso de maldade.

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