Dois olhos castanhos e grandes me encaram. A pureza da ignorânca quase me soa inocência, quase soaria, se eu ainda fosse outra. Se ainda buscasse pintar cenários à partir de retalhos perdidos no esgoto. Se ainda procurasse o amor nas mais indigestas valas.
Seus olhos piscam, cobertos por cílios grandes. São brilhantes e bobos, líquida substância oca. São a única coisa que se destaca em seu rosto comum.
Um homem vazio, eu penso, quando toco sua barba cheia, sorrindo e sendo sorrida de volta. Quantos parecidos já não conheci, beijei, vivi. Um homem sem qualidades, apesar de um forte senso de auto apreciação. É nisso que penso, enquanto ele segura a minha mão.
Suas opiniões são rasas, superficiais, envolvidas por critérios de valor que me nego a justificar. A forma como as enuncia, nesse primeiro momento de encanto, poderia me parecer ingênuo e não estúpido, se eu tivesse outra disposição. Mas já concluímos que, depois de tudo, não farei mais essa operação.
Escuto sua voz grave, tão cheia quanto o vazio de seus posicionamentos. E penso, é lento, o processo de se apaixonar.
Se eu quisesse,
Se estivesse disposta
Se ainda fosse ela,
O grave sensual dessa voz poderia sobrepor-se ao resto.
O calor dos seus lábios anestesiar-me-ia do que é indigesto.
Poderia, por um momento, ignorar o evidente,
Ajustar em meus óculos a sua lente,
Como estive fazendo por tantos anos.
Mas o que eu ganho?
Esse punhado a mais de sensações que me traz,
Quentes demais
Coisas irreais
Tudo o que tanto fez como tanto faz.
Nada convidativo o suficiente para que eu aliene minha mente.
Agradeço sua oferta,
Com um beijo gentil em seus olhos.
Pode ficar com seus óculos.
A mim esse método já não satisfaz.
Não, obrigada.
Eu quero mais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário