domingo, 4 de outubro de 2026

Desamada pátria

 

04 de outubro de 2026

Eu sei que não fui a primeira e certamente não serei a última a enfrentar o sentimento de luto pelo divórcio com o próprio país. Não imaginei, porém, que pudesse ser algo doído desvincular-se de uma ideia, de uma noção de comunidade formada pela história e tradição. Mas de novo, sei que nenhum dos outros deve ter imaginado também.

Confesso fui pega de surpresa por tudo, mas em especial, pelo reconhecimento da minha tolice. De uma ingenuidade que beira a burrice. Uma teimosia em acreditar em coisas transparentes, idealizadas. Em justificar o injustificável, ver ignorância em ódio; falta de oportunidade em mau caratismo. Eu meu próprio povo, cegar de ver tudo isso que hoje se torna aparente.

Eu me divorcio hoje não só de um plano de futuro mas de um orgulho nacional. Hoje vejo claramente o quão sua premissa era artificial. Uma história heróica e ao mesmo tempo vitimista. Uma defesa história que sustentei por toda a minha vida. Agora me resta, dela desprender. Entender que desse vínculo não posso depender. Que dentre os âmbitos que moldam minha personalidade, que me informam minha identidade, ser brasileira já não pode perserverar.

Eu nunca achei que fosse escrever uma carta de desamor a meu país, ou talvez seja melhor dizer, uma carta de despedida. A verdade é que ao fazê-lo, me despeço de um pedaço da minha vida. Um ideal de educadora, professora, formadora. Alguém com uma teimosa crença no poder transformador da educação, da gentileza e da empatia. Que tentou levar os maiores confrontos com generosidade e até mesmo alegria. Até mesmo nos meus piores dias.

Claro, narrando assim, pareço uma heroína trágica. Talvez a parte verdadeira dessas é a de que estou vivendo uma tragédia. Em que o vilão não é uma pessoa ou instituição; não é um golpe ou uma complexa articulação – embora fosse acalentador pensar neles como únicos culpados. O inimigo são os outros, meus compadres, meus colegas e companheiros; aqueles que deixaram seu coração imersos em um bueiro e por sua negligência, tornaram-se ação – e não podem mais ser ignorados.

Não podem ser justificados, não merecem ser perdoados. Não podem ser tratados com carinho e compreensão. Não merecem que se estenda a mão. É, é assim que se encontra meu coração. E não ouse querer me convencer do contrário. Eu fui você a vida toda e estou farta, estou absorta, mortificada. Estou cansada. Me despeço. Não sentirei saudade. Desamada pátria.

 

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