sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Reflexões familiares

Eu estive lendo o livro mais recente que minha mãe escreveu essa madrugada. É uma atividade difícil por vários motivos. Primeiro, é um mergulho no coração da minha mãe. Um lugar que sempre me surpreende e atormenta pela similitude absurda das imagens que oferece do meu próprio. Ler sobre suas noções de amor, lar e proteção me faz sentir um passo mais perto de compreendê-la - um empreendimento que cada vez mais parece ter muito a ver com compreender a mim mesma.
Mas outro motivo que me faz encerrar cada sessão de leitura com a garganta fechada e o rosto molhado são as menções ao meu avô. A forma como minha mãe descreve sua casa na infância, um porto seguro de proteção, brincadeiras e cumplicidade. Eu não sei até que ponto retrata o que viveu ou o que sua memória infantil lhe forneceu de informação. Mas seja qual for o caso, é uma lembrança que abre a ferida da ausência dessa noção na minha vida. A noção de um lar com um pai, ao menos quando eu era criança.

Meu pai. Figura da qual eu não falo, um meio enigma para a maior parte das pessoas que me conhece. Se nunca tive ou deixei de ter fica sempre um pouco ambíguo, já que não faz parte das minhas referências em conversas casuais, seja de forma positiva ou negativa. Não é proposital, eu simplesmente não lembro que tive pai no dia a dia. Mas o fato é que eu tive. Por 15 anos tive um pai em casa. Um pai que cozinhava às vezes, de vez em quando nos trazia presentes e ouvia boa música.
Todas essas lembranças incapazes de trazer a menor centelha de emoção e nostalgia pois são estruturalmente consumidas pela farsa que foi meu pai. Talvez por todo seu relacionamento conosco ter sido baseado em mentiras relacionadas aos postulados da nossa própria convivência: o horário de encerramento do trabalho às 22h, as viagens todo final de semana que faziam parte do trabalho, a eterna insuficiência financeira. Questões que eram tão características de quem era o meu pai de fato e como era o nosso convívio com ele: eram mentiras. Mentiras que até hoje me surpreendendo percebendo nas raras vezes que me lembro que tenho um pai. "Como por exemplo, ele tinha que ir todo final de semana viajar" comentei numa excepcional conversa sobre ele, ao que me responderam com ceticismo: "Só que claro que ele não viajava, não é". Eu ri. Claro que não. Um traço de convivência que eu me lembro desde criança. Foi apenas adolescente que entendi que o horário de trabalho não terminava às 22h.
Talvez por toda essa base estruturada em dubiedade, falsidade e realidade travestida, eu não sinta nenhuma emoção em relação aos momentos "bons". Como sentir saudade das chegadas dele de viagem, em que eu corria e pulava em seus braços após o final de semana de ansiedade, se nunca existiu viagem?
O mais interessante, porém, é perceber que nem quando eu estava sob o véu da mentira, naqueles anos, foram produzidas lembranças que suscitassem meu apego. Talvez por meu pai ser tão sinuoso, tão ardil, por entrar no meu quarto e perguntar entusiasmado sobre as histórias que eu escrevia - que eu descobriria depois que era só para irritar minha mãe. Talvez por tudo isso, pela falta inerente de sinceridade do seu carinho, eu nunca tenha me sentido apegada. Eu não choro pensando nele quando penso na ausência de uma figura paterna. Eu vivi com meu pai por 15 anos e ainda assim eu nunca tive a proteção e o cuidado de uma figura paterna. Sua proteção era ciúmes e seu cuidado era paranóia. O medo de que outros homens se aproximassem de suas filhas vinha unicamente do reconhecimento em todos os outros homens do tipo de homem que ele, por sua vez, era. A verdadeira proteção paterna, a que eu nunca tive em casa, essa sim me emociona, dessa sim eu sinto a ausência. Sinto especialmente quando eu leio o livro da minha mãe e a descrição desse lar protegido por um pai, o meu avô.
A emoção que eu nunca senti nem com a partida brusca do meu pai, eu sinto ao ler poucas páginas sobre a presença paternal do meu avô. Dele veio o mais próximo de referência paterna que eu pude sentir nessa vida. Quando minha mãe descreve sua expressão preocupada, suas brincadeiras pela casa, seu hábito de cochilar no chão, todas lembranças que fazem também parte de mim. Que eu gostaria de ter apreciado mais. É engraçado que eu só percebi após sua morte como eu amava meu avô. Os sonhos repetidos com ele, mesmo depois de tantos anos, o reconhecimento retroativo à sensação de proteção e tranquilidade que eu sentia em sua casa. Um lugar para ir.
Eu gostaria de tê-lo dito mais ou ao menos de naquele tempo, entender mais sobre o amor, pensar mais sobre o amor, entender como se manifesta, como se deve, obrigatoriamente, muni-lo de atenção e constância. Coisas que eu pareço ter aprendido muito recentemente e que diariamente me esforço para colocar em prática com as pessoas que eu amo. Essas coisas eu não fiz com meu avô, não o bastante. Não era madura o suficiente, não era atenta. Ele foi minha primeira e única grande perda até então nessa vida, uma perda com a qual eu aprendi que quando se ama alguém o amor nunca esmorece. O amor não acaba com a distância, ele continua perenemente molhando nossos olhos, de tempos em tempos, visitando nossos sonhos e nos fazendo sorrir. Eu agradeço ao meu avô por ter me dado a noção do sentimento de paternidade, de proteção. Eu invejo a experiência doméstica da infância da minha mãe. Mas essa é só uma experiência infantil. O verdadeiro significado de lar, construído de tal forma completamente a me fazer na maior parte do tempo esquecer que eu possuo essa lacuna, essa ausência paterna, se deu à partir da minha mãe. Minha mãe, a quem eu já fui começar a conhecer à partir da partida do meu pai. Que até adolescência eu achava que era chata, taciturna, impliquenta. Eu descobri ser engraçada, sincera, amorosa, alegre. À partir do momento em que pude finalmente conhecer minha mãe, nossa casa começou realmente a ser um lar, composto por mim, por ela e minha irmã. Essa lar eu consigo identificar com as descrições de seu livro, nesse lar reconheço um antro de proteção. Um lar fundado em confiança, verdade, amor e cuidado.
Foi tardiamente, porém, que isso veio e que pude conhecer, de fato, minha mãe. O peso que esse conhecimento tardio teve nela, o período sendo alguém que não ela mesma, todas essas são experiências terríveis que precisou passar, vivências que eu constantemente tento entender e ponderar como forma de compreendê-la, amá-la como ela precisa ser amada e não repetir comportamentos que emulem esse passado. Constantemente eu falho nessa empreitada e em outras vezes me vejo remoendo essas falhas. É um ciclo de pensamentos muito longo e atormentado, no qual coexistem tentativa de compreender, obter respostas, e entender o que fazer com elas: Qual é a melhor forma de agir, de amar? Qual é a melhor forma de contribuir para a felicidade das pessoas amadas?
Todos esses pensamentos fazem com que eu acabe me tornando uma pessoa muitas vezes pesada, tensa, austera. Muito atenta, atenta demais. Tensa demais, com muito medo de errar e muita dor em frente à rejeição de minhas tentativas. O contrário do que uma convivência leve precisa. Encontrar esse equilíbrio também é um desafio. Só tem desafios, ao que parece, quando nos importamos com as pessoas.

Um comentário:

  1. Querida Kristal...
    Estou tendo um conflito interno aqui, dizendo a mim mesmo para não deixar um comentário kilométrico.
    Mas penso que fazer comentários-sínteses em textos tão profundos quanto os teus, é, no meu entendimento, um ato de desrespeito.
    Mas...O que você lê na sua mãe ressoa em você e o que leio em você ressoa em mim.
    Mas entendo que esse ressoar não torna meus sentimentos necessariamente conectados ao teus..Porém.
    Tivemos pais semelhantes. Mas em maior ou menor grau, todos temos pais semelhantes.
    Nem posso dizer que tive pai. O meu deixou a família quando eu tinha uns três anos de idade e nunca mais o vi ou soube dele, até que chegar a noticia de sua morte ha uns cinco anos.

    Então a palavra "pai" sempre foi sinônimo de ausência para mim. Não lhe conheci o rosto, o cheiro, o calor do abraço (supondo-se que ele era abraçável), o som da voz ou a força de sua presença...
    E creio que eu tenha me estruturado como pessoa em cima dessa ausência física e emocional dele e da (talvez consequente)ausência emocional de minha mãe.

    E então, um dia ha vinte e um anos, minha filha nasceu virei Pai, e essa palavra começou a ter outra conotação para mim.
    Nunca pensei que eu amaria um ser com tanta profundidade e dedicação, me esforçando e indo além das minhas forças para estar a altura desse amor, e ainda assim...

    Com os anos, me veio uma compreensão dura e tardia de que para o bem e para o mal, não deixamos de ser homens quando nos tornamos pais. Penso que o mesmo vale para as mães.
    Isso é muito difícil de absorver, porque eu me cobro demais como pai (e em tudo, regra geral) e embora essa mesma compreensão me tenha feito perdoar genuinamente os meus pais(perdão não solicitado e unilateralmente concedido), não consigo estender esse perdão a mim mesmo, quando penso nas vezes em que falhei miseravelmente como pai.

    Ha muitos anos eu li aqui neste seu espaço, que tudo o que amamos trás consigo uma quota de dor, porque estamos sempre na iminência da perda do que amamos. E minha filha é a coisa que mais amo e que mais me dói.
    Fico com receio de perder.
    Fico com receio de voltar a falhar, porque sei que os motivos que me levaram a essas falhas ainda são coisas contra as quais preciso lutar todos os dias.
    E fico com receio maior ainda de que ela descubra, antes de ser mãe (se é que ela terá filhos) que eu não sou o pai maravilhoso que ela tem no coração, embora eu faça sempre questão de mostrar a ela a minha humanidade.
    Que eu não sou o herói que ela vê.
    Que sou só um homem e não dos mais razoáveis...
    Que eu não estou a altura do amor que ela me tem.
    Mas sinceramente, acho que ninguém nunca vai estar.

    Espero que compreenda que não instando a que reveja ou repense nada. Seria uma coisa descabida.
    Estou apenas refletindo e sentindo em cima das reflexões de alguém que tem minha profunda admiração e respeito.
    Sabe, eu leio você sinto o que leio como uma canção que eu tenho certeza de que conheço as notas, mas a letra está diferente. E ainda assim, é A Canção.
    Isso sempre me encanta.
    E você não desafina nunca, Kristal.

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