terça-feira, 8 de novembro de 2022
"O meu de ontem, o meu de hoje, o meu de amanhã" - V.2.
"Todas as coisas encontram seu antídoto no acúmulo de experiências e tempo"
Abri os olhos lentamente. Inesperadamente.
Eu não morri, constato.
Observando silenciosamente de dentro do corpo em que habito.
Ela estava fazendo algo casual, procurando documentos, se estressando. O de sempre.
Está sempre procurando documentos quando algo estranho acontece.
Abri os olhos, dessa vez minha sonolência foi longa.
Observo aquela lembrança, aquele gatilho, diriam hoje em dia, que me acorda.
Foi uma folha de agenda de uma amiga do passado. Algo que veio a mim, eu não procurei.
Vi uma assinatura antiga, algo tão familiar quanto alienígena. O suficiente para me despertar. A familiar alienígena que habita nela. Eu.
Não saberia dizer qual de nós é a real, principalmente em momentos de ruptura assim, em que ambas parecemos deslocar-se uma da outra, como um espectro de um corpo. Uma verdadeira dissociação.
Mas eu, percebo, mais que tudo talvez seja só um sentimento.
Um sentimento seu, um pedaço. Um pedaço do passado que não morreu e não morrerá.
"Tem um milhão de eus dentro de mim", uma música tão recente, tão dela, mas que na verdade fala sobre mim porque é verdade, eu ainda estou aqui, eu ainda estou dentro dela.
Eu ainda sou seu olhar afiado e mordaz na escuridão, inconstante e cética. Escorradia e sarcástica. Eu ainda sou sua juventude amordaçada. Acalmada, tranquilizada, como é que dizem? Maturidade. Sim, é o nome que dão.
Depois de acostumar-se com a calmaria, com a paz. De cansar-se. De acostumar-se com o carinho e a constância, a estabilidade e o costume. Ainda assim, surpreendentemente, hoje eu acordei. Devo dormir de novo, em breve. Cada vez eu durmo mais. Me pergunto se um dia eu não vou acordar. A parte dela inquieta, que lhe causava temor, que escreveu a maior parte de seus textos. A parte raposa.
Eu me pergunto se todas aquelas almas angustiadas do passado ainda se sentem assim de vez em quando.
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