terça-feira, 4 de junho de 2024

Diálogos

-As pessoas são tão absolutamente... desinteressantes.
-Você voltou. Eu pensei que não viria mais.
-Por que não?
-Porque começou a pensar sobre mim, tentar me personalizar.
-Não faria isso de verdade. Eu continuo a mesma de sempre. Ainda preciso de você. Ainda não posso falar com mais ninguém. Ainda sou meu eu silencioso, atento e flamejante. Ainda tenho muito para transbordar, mas ninguém a quem eu queira entregar. Isso mudou, pelo menos. O não querer.
-Você tem certeza que quer guardar para si tudo isso? Todo esse amor e dor? Você não sente falta do desejo de dividir com alguém?
-Não. Eu agora tenho essa certeza tranquila. Esse sempre foi um projeto irrealizável e eu nunca acreditei verdadeiramente. Ninguém divide fardo algum com ninguém. São trocas, acordos. Cheios de furos e cláusulas quebradas.
-Você parece desiludida.
-Desilusão é a desconstrução de algo que nunca existiu.
-Mas você conversa com alguém que nunca existiu. Isso não é contraditório?
-Eu acho coerente escolher minhas próprias ilusões. Até porque elas só fazem sentido enquanto alimentam algo. Essa conversa, esse por do sol, essa grama conhecida alimenta essas emoções que atravessam minhas pálpebras como jatos de luz. São ilusões que me enchem de inspiração, que me abraçam silenciosamente. As desilusões que eu abandonei me esvaziavam o espírito, me tiravam de mim. Eu me sinto eu, agora. Estável e submersa. Me sinto sóbria, serena e cautelosa. Me sinto sombria, silenciosa, leve e calorosa. Me sinto calma e paixão, escuta e atenção. Me sinto estranha, fechada, sarcástica e sorridente. Assim, da forma como eu sempre fui. Como eu sempre teria sido. Enquanto eu estiver comigo, enquanto eu me sentir assim, guardarei essas doces ilusões.

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