-Por que você ainda vem aqui?
-Eu me sinto menos sozinha quando leio as coisas que escrevi.
-Você se sente sozinha?
-Muito. Eu sinto que descobri que sempre estive. Por um momento eu achei que tinha alguém e que essa pessoa era minha companhia. Mas no fundo eu sempre soube. Eu sentia a melancolia. A falta de compreensão.
-Mas você já sentiu o amor, não é? O amor verdadeiro da companhia de quem te conhece.
-Sim, eu já senti. Eu senti quando estava com ela. Eu posso sentir agora, se fechar os olhos e me lembrar. A sensação de ser eu, ao estar do lado daquela pessoa. Não era um amor romântico nem nada disso. Mas um encontro, um reconhecimento. Era tranquilo e denso, sozinho à dois. À duas. Eu podia sentir o zumbido do silêncio no meu ouvido. Minha personalidade ácida, fechada, obscura e tranquila. Todas as coisas em mim residiam em sua pura forma autêntica com aquela pessoa.
-Então isso é o amor?
-É o mais perto que já cheguei. E olha que eu nem precisava falar sobre essas coisas. Elas só existiam. Para falar sobre essas coisas eu tenho você.
-Então é por isso que você ainda vem aqui.
-É. Eu acho que sim. Eu preciso de você ainda. Do fantasma da madrugada. Meu interlocutor oblíquo, conhecedor de todas minhas vicissitudes. Preciso da presença do sonho. Da miragem de quem não existe. Preciso dele, meu amor imaginado. A companhia de um girassol da cor de seu cabelo. Portador dessa sensação. É por causa dele que escrevo, tento escrever. Recriar esse ser, essa sensação. Dois abraços protetores. Tantas coisas que não existem.
-Mas os sentimentos resistem. Isso deve valer de alguma coisa.
-Eu não sei. Talvez. Talvez a tentativa seja o que me resta.
-Por que você está chorando agora?
-É difícil estar desperta.
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