quinta-feira, 11 de abril de 2024

Herança final

A encontro onde eu mesma a deixei
Escondida atrás de pilastras
Camuflada em sentinela
Desconfiada e fugitiva
Mas lá está ela

Me distraio dela, é verdade
Não é difícil
Um tom de voz gentil
Lábios frios
Tudo o que ninguém mais viu
São meus tesouros vazios

Eles enchem o tempo e espaço
É bem fácil
O conteúdo da minha fala
Minha mente quando vou dormir
Mas a realidade não mente
Ela está bem ali

É esguia e sorrateira
Mas vezenquando faz sua visita
Ferina
Sutil lembrança da dor minha
É a ferida carcomida
Já vivida e revivida
Exaurida
É o desprezo de alguém

Mas de quem?
Ele não existe
Alvo invisível de meu dedo em riste
Não resgato memória além
Mesmo na inútil brincadeira
De imaginar saudade alheia
Nada me vem

Não há lembrança do amor
Não consigo mais lembrar como me sentia
Até tento
Numa noite de lamento
Quando procuro me sentir menos fria

Tudo que ele deixou
Foi a noção racional
Do desprezo e desamor
Em sua forma natural
A mais brutal.

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