terça-feira, 13 de março de 2012

Nós-fantoches: A facilidade de ignorar fontes. (Ou sobre KONY 2012 e afins)


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Por volta de uma semana atrás chegou até mim o vídeo da campanha KONY 2012, que têm repentinamente ganhado muita visibilidade aqui no Brasil, e me propus a ajudar na divulgação imediatamente. Alguns amigos que também partilham de uma certa preocupação teórica em relação a causas sociais também estavam se mobilizando e diante do apelo do vídeo realmente tivemos a incrível sensação de finalmente estarmos aptos a interferir de modo positivo no quadro geral (de dentro do conforto de nossas casas...)

Mas não era bem assim (geralmente não é) e há poucos dias tenho visto no meio online (o mesmo pelo qual tomei conhecimento do vídeo) argumentos e fatos que se contrapõem sobre a veracidade do mesmo, apontando os crentes na premissa do vídeo como ignorantes e manipuláveis por crerem em qualquer coisa com um mínimo de apelo social que é exibida na internet.

No entanto, ao terminar de ler as muitas críticas, percebi que a veracidade dos fatos alegados nelas era tão duvidosa quanto a dos fatos jogados no vídeo. São todos fatos que indicam fontes, mas quando fui em busca das fontes (de ambos), elas jorram de mais textos de meios onlines com discursos enfáticos (seja para um lado e para outro), mais textos que buscam convencer o leitor e cujas motivações verdadeiras talvez jamais saibamos. No entanto, eu não estou aqui para falar sobre os dados apresentados nas críticas, as informações novas ou os depoimentos de ugandenses.

O fato é, meus caros, que se eu acreditasse piamente nas críticas ao vídeo eu estaria sendo tão ignorante quanto talvez tenha sido ao me impulsionar tão fortemente por conta do mesmo, sem ter o conhecimento necessário a respeito. Eu estaria sendo tão manipulável quanto, deixando convencer-me por argumentos bem elaborados e afiados que, de fato, não me mostram nenhuma fonte convincente. Portanto não, eu que tão impetuosamente os tentei mobilizar para participar dessa campanha, não irei agora chegar aqui e apontar o dedo para os que o fizeram, desconstruir o que até há pouco acreditava. O que eu quero dizer é o seguinte:

A conclusão, para mim, sobre a veracidade história de KONY é, portanto, é nula. A conclusão sobre nosso comportamento, no entanto, é bem consistente: No meio em que estamos vivendo é praticamente impossível saber a “verdade”. E não estou falando de termos filosóficos agora e sim da verdade dos fatos, pura e simplesmente: O que aconteceu, como aconteceu, quem fez e por quê. Nós, que vivemos no meio civil e habitual, longe do olho furacão, recebemos mensagens centenas de vezes filtradas antes de chegarem a nossas mãos. Recebemos o que querem que recebamos, do modo como querem. Informações que se contrapõem totalmente, apresentando “fatos” que se contrapõem totalmente se impõem sobre nós diariamente e qual (e se) alguma delas é certa, é real... Talvez nunca saibamos. Porque como se não bastasse a facilidade com a qual chegam a nós, me parece também que somos acometidos por uma preguiça crônica de buscar fontes. Ou simplesmente de nos conformar com o que é secamente nos apresentado.

O que eu concluo com toda essa palhaçada, que sinceramente, se você for parar para pesquisar bem, dá é nojo (Não do mérito, mas sim de como é possível pender como um bonequinho para lá e para cá diante de combos duvidosos de informações) é que apesar da suposta inveracidade do vídeo em si, seria bom que o público que tanto se mobilizou com o apelo cinematográfico do vídeo conseguisse conservar um pouco desse espírito. Mesmo que KONY 2012 seja uma farsa, existe algo de aproveitável na reação do público (muito embora meu desencanto e desapontamento com toda essa história no momento não me permita explorar esse elemento).

Percebo, porém, depois de ter me sentido tola, manipulada e até ignorante, que talvez seja mais plausível para quem busca fazer alguma "diferença" começar pelo nosso quintal, pela nossa rua e pelo nosso bairro – o que está ao nosso alcance e cuja realidade podemos ver com nossos próprios olhos.  Talvez seja mais sensato buscarmos primeiro consertar o que está errado aqui e depois aumentar o alcance do raio de nossa inter(circun)ferência. Em vez de tentar, através de meios muito menos eficazes e bem mais duvidosos, interferir em problemas (a nós, incognoscíveis) que estão em um lugar bem mais longe do mundo.

4 comentários:

  1. Geralmente acho tudo isso uma grande demagogia. Não só o Kony2012, mas boa parte de tudo que apela para uma reação emocional e sem uma construção de idéias, não confundir com ideologias.
    Mas o que dizer sobre essas crianças? O mesmo que temos a dizer sobre a miríade de jovens que entram para a violência e se envolvem no trafico no Brasil, que não é por coincidência obteve um numero de homicídios maior que os registrados na guerra do Afeganistão.
    Concordo com termos que tentar melhorar primeiro o que esta ao alcance. Mas a atitude do nosso povo é problemática, furamos fila de ônibus, linhas de trânsito, filas ao cinema (sempre tem aquele nosso conhecido que ocasionalmente pedimos para passar a frente)e todos aqueles problemas que infestam nossos órgãos públicos.
    De qualquer forma a moral é que a "bondade" ultimamente vem sendo um ato de impulso, emocional, não que haja algo de errado com isso, mas que dificilmente é um ato com base na racionalidade, na aplicação de idéias e mudanças.
    De qualquer forma a cerca de "Mudar o mundo" acho que poderia chamar este de um bom exemplo http://en.wikipedia.org/wiki/Norman_Borlaug

    Por a necessidade de um racionalismo e não só do imediatismo emocional. Mas voltando ao tema não é só na Uganda que forças armadas infantis são formados mas em todos os países que sofrem com depredações econômicas e sociais. O LRA recruta crianças assim como a própria força de defesa de Uganda.

    Enfim. http://en.wikipedia.org/wiki/Military_use_of_children

    http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/4266789.stm

    e por ultimo. http://www.youtube.com/watch?v=tIvNopv9Pa8

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  2. http://www.youtube.com/watch?v=mniAS78vjM8 Ah esqueci. Se quer algo mais próximo do que tem a ser dito. Recomendo esse documentário ao invés daquela propaganda tosca.
    Children of War. Se você se interessar depois passo um link de onde baixar.

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  3. Uhum, eu já tinha visto alguns desses links que você me passou, mas como disse no texto minha intenção não é analisar o mérito da questão na Uganda, até porque não importa o que leiamos a visão sempre será parcial e restrita.
    O que discuto mesmo é em relação à manipulação de ideias feitas por veículos da mídia com propósitos próprios e como está difícil fugir disso. Quanto à essas atitudes como não furar fila etc etc, é precisamente a isso que me refiro quando falo de "cuidar primeiro de nosso quintal".

    Verei o vídeo.

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  4. Eu também acho que as pessoas deviam começar a cuidar das coisas próximas. Até por que, dessa forma elas veriam o resultado das suas doações e cuidados.

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