quarta-feira, 28 de março de 2012

O amor é liquido e transborda pelas retinas


Antes de mais nada, uma idéia velha e muito certa: “Deus é amor”.  Calma, calma, não é o que vocês estão pensando. Ocorre que como Deus, o amor é um conceito inatingível, irrealizável. Inexistente, para ser franca. Ocorre que entre todos os conceitos abstratos, esses dois ficam no top 2 em “depender da subjetividade do intérprete.” Tal como a ideia de Deus, a de amor não tem uma forma certa; Sua definição depende totalmente do modo como é pensado. Ele não existe, em si.
 
Ele é pensado, imaginado, suposto. Nem substantivo abstrato posso afirmar com certeza que ele é, porque tem quem acredite que ele não precisa de outrem para existir. Digamos que essas duas palavras (como as outras) no fundo são copos vazios que enchemos como uma mistura de sensações/ânsias/esperanças/medos/necessidades, traduzidas numa idéia. A idéia pura, abstrata, é uma coisa curiosa e o melhor dela é que é absolutamente inexistente. 

Dois camaradas podem estar conversando sobre amor, mas na realidade estarem falando sobre coisas totalmente distintas entre si. Idem com Deus. E com todas as outras coisas, na verdade. Eu costumo dizer que o que eu vejo vermelho talvez seja o que você vê azul e nós jamais saberemos. Porque alguém não pode entrar nos olhos de alguém. Mesmo que olhe através dos olhos de alguém, os olhos que olham através continuam sendo os seus. Cada um de nós tem/é um universo. Eu sou o centro do meu universo e você é do seu. Como poderia ser diferente?

 “Egocêntrico” não deveria ser uma ofensa e sim uma afirmação retórica e desnecessária de tão lógica que é. Como não ter seu ego (eu) como centro? É como pedir para o olho de um furacão para localizar-se em suas beiradas! A exceção para isso (e não completa, mas somente pelas brechas e em partes) são as pessoas espiritualmente superdotadas detentoras do dom (ou exercício) da empatia. A maior virtude, em minha opinião (se é que ela vale de alguma coisa). Ver o outro no espelho. Eu não possuo, mas queria tanto, tanto possuir que às vezes quase possuo. Mas não. É que é o tipo de coisa cujo brotamento a gente não pode forçar com a razão pura. 

A maioria das grandes coisas é assim, na verdade. Brota de dentro, sem forçar. Ao contrário, num relaxar de pulmões. Vem da outra razão, a razão sinestésica. O que a gente chama de intuição, mas na verdade é percepção. O que a gente chama de espírito (e que eu teimo em acreditar em espírito). Renego tudo: a alma, o coração, etc, tudo em prol da mente. Mas me deixe com o espírito também (ou ‘sensibilidade’), que ainda não estou pronta para deixá-lo ir. 

Então é só isso por hoje, só essa questãozinha epistemológica e me perdoem se os iludi com o título, foi despropositado. Fico-lhes devendo um texto sobre O amor líquido que transborda pelas retinas, porque por mais que eu negue a existência de sua definição, negue o consenso quanto ao seu significado, e negue até sua aplicabilidade prática eu também tenho meu muito subjetivo conceito de amor. E sim, cética estupidamente romântica como sou, acredito que ele transborda pelas retinas.

Um comentário:

  1. Nossa, eu concordo com tudo que você disse!
    "Eu sou o centro do meu universo e você é do seu. Como poderia ser diferente?

    “Egocêntrico” não deveria ser uma ofensa e sim uma afirmação retórica e desnecessária de tão lógica que é. Como não ter seu ego (eu) como centro?"

    Eu também sempre achei isso!!!

    ResponderExcluir