sexta-feira, 16 de março de 2012

Meet me on the equinox. (O conto.)




“Existem mais coisas entre um mundo e outro que nossa vã...”




Pisou naquela areia como se fosse nada. Chegou naquela praia como se fosse óbvio. Como se não pudesse ser de outra maneira. E lá ela o esperava. Seus pés faziam seus papéis afundando-se na areia clara, que recebia carícias da água negra. Em frente a eles, enfim, o horizonte escuro. As estrelas brancas eram a única iluminação para aqueles dois rostos pálidos que encaravam a escuridão infinita. Elas os observavam, assistiam a ironia dos acontecimentos (sobre-)humanos. São jocosas, as estrelas. Sempre fascinadas por nossa doce miséria. Sempre fascinantes. 

-Então é isso, não é?
 

-É. É isso.
 

Ela olhou para cima:
-Hoje Júpiter faz lua conosco. Conclui seu ciclo. Eu acho que hoje vai ser um dia importante.
 

-Hoje nunca aconteceu, agora que é importante... E você sequer acredita nessas coisas.
 

Ela sorriu:
-Eu acredito em tudo.
 

-E em nada.
 

Eles riram aquele riso de fim. Não de dia, mas de mundo. Amanhã seria outra vida, jamais saberiam. Ninguém podia imaginar que as respostas eram proibidas, que com elas viria o esquecimento. Agora, eles sabiam. Agora tudo parecia claro. Claro e calmo: a conformidade das mortes múltiplas.
 

 -Nada será sempre o mesmo depois de hoje. – Ela disse e o olhou, enquanto uma estrela se fazia cadente acima deles.

Ele tocou sua mão como se ainda fossem humanos, como se ela ainda fosse a menina de saia laranja e óculos redondos. (Parecia ter sido há tanto tempo atrás...)


-Nada nunca foi como antes. Nunca houve um antes.


-Não desde que você entrou no meu apartamento no primeiro dia de nossas verdadeiras vidas.


-E você abriu a porta esbaforida, sem fôlego por correr para atender a campainha. Antes daquele momento ainda era você, a menina de olhos grandes, antes de nossos olhos se baterem pela primeira vez. Antes daquilo ainda era tudo... – Parou de falar e sua mão pressionou a dela com um pouco mais de força.


Ela o olhou clemente, embora compartilhasse do resquício de angústia:
-Aquilo foi outra vida.


-É, foi. – Ele soltou o fôlego e sua mão, no momento em que uma rajada de frio o acalmou, o trazendo de volta para o todo ao qual agora pertenc(er)ia, tão distante do uni que outrora fora. Do corpo que outrora fora.


-Sabe. – Ela dizia com um sorriso no rosto. –Aqui foi assim, mas em outra dimensão nos conhecemos num café. Você passou por mim e foi aí que seus olhos me disseram.


Ele riu também, pois conhecia além dessa outras versões: 

- Sempre é diferente, mas o resultado é sempre igual.  E ao mesmo tempo é só aqui agora.

Ela não podia discordar, mas não fazia sentido concordar. Todas as palavras que proferiam, de fato, eram supérfluas e desnecessárias. Todas as palavras o foram desde o momento em que seus olhos fizeram a ponte. Em que seu corpo foi somente o meio. 
A malícia tornou-se inócua, a nudez natural. Poderiam andar nus se o mundo fosse seu país. E de fato era, de fato foi por um tempo, enquanto descobriam a verdade aos poucos sem terem ainda tornado-se estrelas. Quando ainda humanos, descobriam-se mutuamente, sem entender o reflexo e o espelho que eram. 
Nas tardes de chuva e sol e sorrisos sutis que cada vez os levavam para mais longe de seu contexto. Quando ainda humanos, aos poucos vítimas da mutação que seu encontro proporcionara, redescobriam o que adormecido em seus interiores os definia.
 

Mais uma rajada de vento frio.
 

Nesse momento mais três estrelas caíram e eles perceberam que se aproximava o momento:
 

Ela levou a mão esquerda ao seio, o desnudando. Ele compreendeu e fechou os olhos. Já não eram mais corpos nem homem e mulher. Já não eram as palavras que serviam para comunicarem-se (A conversa deles era mera distração). Não desde que ela abriu a porta esbaforida, a menina de saia laranja. E até antes disso, quando eles se viram pela primeira vez naquele lugar de gente improvável e seus olhos se bateram. Sim, uma colisão e tanto. Bateram-se e disseram verbos sobre a vida. Até então adormecidos. Não desde que os olhos dele atingiram os dela naquele segundo fatal, que os levaria de volta para casa.
 

 A queda de duas estrelas ofuscou o mar opaco.

Tudo era absolutamente tranqüilo e cheio de conformidade no fim.


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