Pessoas não são sentimentos, coisas ou drogas.
São amontoados de medos, cadeia turva de histórias, imaginação.
Não se pode amar alguém. Não se pode nomear alguém. Delimitar. Encostar na sua essência, imprecisa e inefável.
Só se pode depositar: esperança, desejo, vingança. Se pode distorcer, modelar, fazer caber na sua própria necessidade.
Essa é a natureza das relações.
Alguma sinceridade é possível dentro de si mesmo.
Quando calam-se as vozes e se escutam os desejos. No vácuo do silêncio do outro, a procura por si pode atingir algum resultado: ainda que mutável, confuso, instável. Alguma verdade.
Dentro de mim o faço: fecho os olhos, tampo os ouvidos. Cruzo as pernas sentada, submersa em água.
Aqui, no meu mundo, reconheço minhas cores, que aos poucos se destacam, na tranquilidade da escuridão.
Vejo minhas cores ácidas, obscuras e silenciosas. Vejo seus tons de calma, estranheza e solidão. Eles se assentam, fazem sentido. Caem bem nos meus olhos afiados e sorriso tranquilo. Na caótica queimação da minha mente e do meu coração.
Deixo minhas cores me cobrirem como um manto de verdade e sinto a melancólica satisfação de me sentir eu.
E procuro, então, minhas companheiras. Minhas únicas ferramentas. A única coisa sob meu controle: Palavras.
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