-Eu não amo ninguém. Eu não acredito em nada. Eu não sinto saudades de lugar nenhum.
Minto, em parte. Digo coisas para chocar. Eu acredito, sim, que as pessoas são capazes de amor. Vi vezes demais diante dos meus olhos para duvidar. Mas ainda assim minto, o afasto, por precaução.
-É um favor que te faço - penso. Uma versão de você estaria a me agradecer em outra dimensão.
Solto em conversas casuais informações que detalham o quão indisponível estou ao seu amor.
Críticas à religião, casamento. Minha exposição de que nada importa. Aleatórias odes ao individualismo: meus pequenos castelos de distância.
Meu aviso é silencioso, mas preciso: não se aproxime. Não há nada para você aqui.
Eu dei esse aviso a todos os homens que me amaram e, lamentavelmente, a todos pareceu apaixonar.
Mas essa é a primeira vez que falo em sério: não há nada para você aqui.
A ingenuidade que faria minha resistência arrefecer, tornar-se compreensão, redenção e devoção, se foi. Estou obcecada com a realidade agora. E na realidade não cabe o ato de se apaixonar.
Sinto o prazer, o carinho e até a intimidade. Sinto todas as boas sensações do ato ilusório de cuidar. É pouco sincero, porém. Uma fantasia.
Nos bastidores, assisto as belas cenas como quem vê uma série de televisão antiga e anacrônica. Nada disso funciona para mim.
Vejo e sorrio e lamento, em especial quando ele me olha com aqueles olhos.
Olhos cheios de água, de mágoas passadas, de esperança para o futuro. Quando ele me olha com aqueles olhos que projetam todas as suas dores e todos os seus projetos. Olhos de amor.
Então nem na fantasia tolero, desvio o olhar. Não aguento esse sentimento sobre mim.
Não me olhe assim.
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