segunda-feira, 22 de julho de 2024

Mais um sobre o vazio

Carinho.
Penso.
Sim, eu ainda sou capaz de carinho.
É o que penso enquanto toco o rosto desse homem, assistindo intrigada a seus desabafos, histórias de infância, gostos e fantasias.
Sou capaz de carinho, penso enquanto beijo sua face e me surpreendo com sua expressão genuína de afeto.
Surpreendentemente, ele é gentil e parece sincero.
Parece muito velho para sentir essa paixão tão ingênua por mim. Ou talvez eu que seja muito jovem para já ter me tornado tão fria assim.
Nas condições ambientes tenho tudo o que sempre precisei na minha mente para criar um cenário perfeito de romance desenfreado e poético.
Então por que não consigo?
Digo palavras belas. Tomo as ações corretas. Mas a realidade, a dura necessidade, as intenções cruas e passageiras aguardam com curiosidade essa fase ter fim.
Vejo por trás de sua adoração a carência, o auto engano e a solidão.
"Não, não é uma idealização" - ele me diz.
Com uma ingenuidade que quase me encantaria, já que eu sempre gostei da inocência e fantasia.
Mas apenas me entristece. Nem meu ego se envaidece com a construção de um cenário tão previsível assim.
"Espere só um pouco", tenho vontade de lhe advertir. "Espere para ver o que aconteceria caso eu realmente me apaixonasse".
O tempo necessário para minha atenção não mais lhe encantar e sim aborrecer.
Para o contraste entre nós começar a aparecer,
E minha reatividade te causar perplexidade, vendo dia a dia essa bela imagem desconstruir-se para você.
Não é uma idealização?
Como não?
Se não vê
A mulher estranha, vazia, perplexamente entediada, muito embora eu vocalize que não acredito em nada.
Mas ainda assim, ele me olha e diz:
"Que olhar romântico você tem".
Eu quase rio
Abismada
Não tenho nada a oferecer.
Toda promessa é uma mentira previsível
Decepcionar suas expectativas inevitável
Não há nenhum cenário em que essa ilusão se torne algo palpável.
Suspiro, sentindo o peso vazio do verdadeiro ceticismo que instalou-se em mim.
É a primeira vez que me sinto assim.

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