terça-feira, 21 de outubro de 2014

Ele é o sonho. (Ou, Feixe de um sonho lúcido)

"Apenas mais uma coisa para me fazer lembrar de ti."
Ela olhou para baixo, sorrindo. Sentindo seu rosto ficar mais quente e sabia que estava também ficando mais vermelho.
"Droga."
Isso não era nada comum antes.
Ela olhou para cima de soslaio, aqueles olhos de noite serena sorrindo para ela.
Antigamente sabia exatamente o que fazer.
Ele aproximou-se e ela fechou os olhos, se entregando.
Seus lábios macios combinavam com os dela como nenhum outro jamais antes. Combinavam de tal modo e com tanto carinho, que davam-lhe a cada toque, um verdadeiro primeiro beijo.
Seu cheiro inundava tudo ao redor dela, como uma nuvem macia. Sua pele, o som de sua voz. Esse rapaz era um mundo inteiro, um universo maravilhoso que ela descobriu por acaso.
Ela olhava seu rosto - poderia fazer isso por horas - traçando caminhos em suas bochechas.
"Você está zombando de mim?"
Ela ria do absurdo.
Que ideia.
Ela estava apenas encantada, enfeitiçada, apaixonada... Era assim estar apaixonada então, por alguém que só te fazia bem?
Todos esses pensamentos passavam em uma tempestade de sensações em sua mente, não traduzidos em palavras - palavras ela tentaria encontrar depois para contar-lhe o bem que ele lhe fazia.              
Perto dele ela apenas sentia. Sentia uma sensação tranquila e quente encher seu corpo de paz. Paz. Isso existia mesmo, residia nessa pessoa incrível à sua frente.
Essa pessoa linda em todos os sentidos e que como uma tempestade tinha chegado, fazendo todo o universo se dispersar à sua presença.
Ele trazia consigo todos os lados de um amor. Trazia a calmaria, a doçura de um beijo terno; A loucura dos excessos; E as risadas de um melhor amigo.
Ele a fazia sentir completa.
Olhou de lado, tentando disfarçar como sua boca involuntariamente tremia, sem controle. Sem saber lidar com tudo aquilo de maneira racional. Sem saber distinguir sonho e realidade. Porque é isso que ele era, uma nuvem de sonho.
De sonho e de coisas lindas, com suas cores preferidas e a trilha sonora perfeita. Era o sonho doce que ela desejava às pessoas na hora de dormir. Aquele sonho doce existia e ela o estava vivendo.
Que infinita sorte.

Que coincidência é o amor.


28.09.2014

Carnival

Existem dias que não nascem nunca.
Olho essas vitrines,
Tudo é uma vitrine.
Olho os manequins que se esticam, ansiosos.
Seus sorrisos histéricos que sangram meus ouvidos,
nessa velha e conhecida sensação de torpor.
A pressão tapa minha audição, em um zunido insuportável de ar rarefeito.
Seguro os grãos de terra, que escorrem por meus dedos
Minhas mãos já não são tão macias,
E essas figuras mentais se repetem pelos anos.
Meu olhar baixa ao passo que o mundo gira ao meu redor, mas eu estou parada.
Tudo permanece igual dentro de mim, um mar completamente parado. Escondido na zona abissal de um aquífero desconhecido.
E as imagens, que sangram meus olhos...
São coloridas e berrantes, com o som estridente da necessidade de atenção.
Necessidades diversas, à propósito. Mendigando pedaços de pão.
Tudo que quero, nessas horas,
Tudo que sempre quis,
Foi estar submersa.
Longe dessa corrida insana,
Uma eterna maratona de obstáculos que se reproduzem como por mitose e mais insuportavelmente ainda, com objetivos que se reproduzem de mesmo modo.
Meta 1, meta 2, meta 3...
Não me meta nessas, por favor.
Me dê a liberdade de não galgar um caminho ao estrelato, pois não?
Me dê paz.
Pois essas vitrines são de vidro e navalha e quando as olho elas apontam suas pontas para mim, ameaçadoras.
E o mais aterrorizante é que me vejo dentro delas, atuando em meu papel, vestido minha capa de plástico de manequim. Enlouquecendo.
Ou será esta outra eu,
Esta que observa apática, do lado de fora,
Em um cenário confortavelmente monocromático,
A verdadeira insana?

Oh veja só, cá estou estou...
Fazendo uma série de perguntas cujas respostas já conheço.
Quão vã e desnecessária.

sábado, 18 de outubro de 2014

Crônica de uma açougueira (Snap out of it)

Suas terminações nervosas estão tão vigilantes,
recebendo estímulos a cada instante.
Saia dessa, querido.
Minha pele está à esse mínimo toque te causando arrepios?
Saia dessa, querido.
Minhas mordidas na tua orelha, te sugando.
Minhas mãos em tua cintura, pressionando,
Meus dentes em teu peito, se afundando
Estão te fazendo suspirar?
Saia dessa, querido.

Minhas pernas prensas contra tuas costas
estão te arrancando um fino gemido?
Saia dessa, querido.

Quando eu termino um beijo, e te olho.
Teus olhos baixos e escuros - eu adoro.
Tua boca entreaberta e tremida...
A carne te interessa tanto assim, querido?

A minha, observe, a corto assim. O faço com uma navalha ou afins,
Vejo o sangue escorrer, sem significado. A carne apenas um detalhe, um retalho.
A mutilo e pressiono, apenas por distração.
Ela é a casca da casca, que eu corto do meu pão.

Mas venha cá, não se afaste, querido.
Gosto do cheiro do seu suor
Gosto do gosto das tuas mucosas,
Gosto da cor de meus arranhões nas suas costas,

Então traga o teu corpo esguio para perto,
E venha cá, querido.

Quero te fatiar para o jantar.
Jogar pedacinhos para os cachorros.
Mas com teu coração,
este órgão de juvenil pulsão
fazer um prato fenomenal.
Temperar com este teu alto astral,
Quem sabe até fazer nele um carinho oral.

E então mastigá-lo.
Deliciosas fatias macias...
Quebrando as fibras à garfadas,
me deliciando com as migalhas.

Então venha cá, querido.

domingo, 12 de outubro de 2014

O tempo tem um sabor diferente

Com ele,
o tempo tem um sabor diferente.

"I lay in the floor, pressing my eyes.
Seeing little lights..."

Antigamente as árvores eram só folhas e o vento era só uma corrente de ar.
Hoje em dia quando tudo isso se une, com seu sorriso em primeiro plano, o tempo para por um momento.

À noite, o ambiente ao redor daquele banco conhecido toma um ar de magia e a lua nos conta segredos em silêncio, com um sorriso discreto. Observando dois jovens se enamorando gradativamente, mergulhados em um mundo próprio, afundando-se em um cálice de paixão e paz - e quem diria que era possível conciliar ambos?

As árvores e o vento sorriem ante a rara cena dos amantes, e os presenteiam com uma atmosfera surreal e inacreditável. Uma corrente de ar passa, trazendo consigo mistérios e promessas.
De repente é fácil sentir a natureza em cada poro do corpo.
De repente é fácil compreender que todas as coisas, sem exceção, fazem sentido.

Quando ele está ali.

Pelo dia, quando a lua se deita, o sol que tanto parece com ele - o rapaz do sorriso quente - continua o intento gentil da natureza.

Pedacinhos de luz fazem sombras ante minhas pálpebras fechadas. De olhos cerrados, vejo apenas o avermelhado da luz, modelando-se nos espaços vagos pelas sombras das folhas das árvores. Sentindo o calor do sol e ao mesmo tempo o calor tão mais inacreditavelmente acolhedor, que é o da pele dele.

O cheiro dele é o cheiro das árvores ao sol, é o cheiro de casa, o cheiro da felicidade gentil. Do chão friozinho em uma tarde quente de férias.
O seu sorriso aquece meu peito, como um café em um dia frio. Me embalando em um sono tranquilo, me fazendo flutuar em água morna, observando as nuvens que flutuam e se beijam no céu.

Ele traz com ele isso,
Tudo o de mais mágico que existe nos cenários.

sábado, 4 de outubro de 2014

Paquímetro

Essa viagem foi horrível.
A bagagem eu guardei em meu corpo.
Meu coração está com um gosto de assalto,
Se alguém roubá-lo, irá sentir-se bem metalinguístico.
Uma orquídea de intenções se abre de maneira um pouco imoral, nas minhas mãos.
Eu fecho, a prendo e aprendo um pouco com o exercício.
Sentindo as pulsões pesadas se espalharem como um câncer por minhas veias.
Engulo todo o caos que sai da minha mente.
Autofágico esse meu modus operandi.
Excessivo ao extremo,
Extremista e estúpido.
Não sei fazer nada direito.
Não sei medir.

Duelo com meu próprio coração errante,
Apaixonada por destruição total.
Encantada com o caos.
Descoordenada racionalmente.
Não sou mais que uma barata tonta.
Uma repetição exaustiva,
Uma necessidade aborrecida.
Não sou mais que o que me contém e isso é muito pouco.
Mal me contenho.
Não, eu não tenho palavra.
E desejo tudo excessivamente.

Meu coração é o hipócrita da minha mente.
Porque pássaros devem voar.
Mas me encanta mastigar-lhes as asas.
Me encanta mastigar-lhes os rostos.

Aproximo-me de um belo rapaz.
Seu sorriso lembra-me uma criança fulgás.
Seus olhos transparecem o que pensa.
Sua pele cheira a canela fresca e menta.
Sinto ganas de beijá-lo,
e em seguida esganá-lo.
"Este será meu único ato de amor:
Fuja, por favor."


-Desculpe, moça, seu paquímetro está quebrado.
-Não, meu caro, são minhas porções que são inexatas.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

5 da tarde (Conto)

17h da tarde, soava o sino da torre da igreja.

Estava atrasada, muito atrasada. Pensava enquanto praticamente corria, cruzando a praça dominada por pássaros que migravam de uma árvore à outra.
Correndo contra o tempo, como sempre.

Prendia o cabelo em um rabo de cavalo, enquanto andava apressadamente. Não tinha dado tempo de se arrumar direito, para variar.  Tinha uma reunião seguida de aula e....
Enquanto pensava, de repente se deparou, por um momento, com a estonteante imagem do céu vespertino a encará-la. Um emaranhado de nuvens brancas estava temporariamente tingido por tons de laranja e rosa, enquanto o sol começava a anunciar que esconderia-se em breve.

Ela estancou o passo, encantada com aquela visão, como se fosse a primeira vez. De repente o vento pareceu mais vivo e à frente do céu de Monet, um bando de pássaros voou cantando.
Ela expirou fundo, parecendo que estava finalmente parando de prender a respiração, depois de um longo tempo submersa. E no que o fez, uma imagem alinhou-se ao seu foco de visão, abaixo do céu encantadoramente alaranjado.

Do outro lado da praça, em uma cafeteria de esquina, dentro das paredes de vidro, ela viu um rapaz tomar café. Seus contornos eram imprecisos, devido à distância, mas por um momento ela teve a impressão de que ele a encarava também.
Tão dona da razão, por uma vez, permitiu-se ser irracional, e tomada por aquele clima de fim de tarde, atravessou a praça - na direção oposta de seus compromissos - e adentrou na cafeteria, cuja porta ecoou o som de um sininho, quando ela passou.

Assim que entrou no local, pareceu estar em um outro mundo. A luz era baixa, um blues ecoava em um rádio vintage e a decoração do local a remeteu a uma época em que ela não viveu, mas que sentia ser estranhamente familiar.

Essa cafeteria sempre esteve lá. Por que ela nunca tinha entrado?

Cumprimentou a atendente, uma moça simpática, pediu um café e foi até o segundo ambiente, onde o rapaz estava sentado.

Ele estava na mesinha do canto, muito embora fosse a única pessoa lá. Enquanto bebericava o café, encarava o nada, com uma expressão tranquila e ela pensou que de alguma maneira, ele encaixava-se perfeitamente naquela música.
O mais estranho é que ele não lhe era estranho. Provavelmente já o vira pela cidade - que não era nada grande - talvez até estudassem na mesma faculdade.

Ainda impulsionada por aquela sensação surreal, sem pensar nem um pouco a respeito, foi até a mesa em que ele estava:
-Posso sentar aqui?

Ele levantou a vista para ela, e sorriu um sorriso completamente natural:
-Claro que pode.

Ela sentou-se, o coração acelerado. Tentava reprimir a parte de sua consciência que dizia ser esta uma atitude muito esquisita.
"Sentando-se com um estranho que nem conhece? O que você está fazendo?" Pensava enquanto fingia distrair-se com o cardápio. Mas quando levantou a vista para ele de novo, estes pensamentos sumiram.

Ele tinha olhos castanhos e muito tranquilos. "Your brown eyes are like blue skies", ela pensou durante um momento no trecho de uma música que gostava. E por um momento, pareceu-lhe tudo estranhamente familiar.

-Por que você está aqui? - As palavras saíram da boca dela, antes que pudesse pensar duas vezes.
Ele novamente sorriu aquele riso encantador, como se soubesse tudo o que se passa na mente dela:

-Estou fugindo de algumas coisas. Aqui me parece um ambiente seguro.
Ele disse isso enquanto olhava de lados, e ela perguntou-se se era por isso que estava sentado na mesa do canto.

-Você não parece alguém que tem medo de muitas coisas. - Mais uma vez as palavras fugiram da boca dela. Em algum lugar, perguntava-se porque tinha dito isso. Mas aquele estranho parecia-lhe tão familiar...

Ele olhou para baixo, parecendo ver algo além daquele ambiente:
-Medo não. Mas talvez eu esteja um pouco cansado do mesmo ar.

Ela respirou fundo. De algum modo, entendia completamente o que ele quisera dizer, por mais enigmático que parecesse.
-Fazia tempo que eu não sentia um cheiro tão bom no vento - Ela disse, sorrindo pela primeira vez na conversa, e fazendo com os ombros, menção à praça.

Ele colocou a mão em frente ao rosto e deu mais um sorriso encantador:
-Sei o que você quer dizer.
Será que já não se conheciam? Como podia aquilo parecer tão familiar?

Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu relaxar completamente.
A garçonete chegou com o café - que ela tinha pedido assim que entrou -  e ela levou a xícara a perto dos lábios, aspirando sem pressa o aroma reconfortante do café.

Levantou a vista e viu que ele fazia o mesmo. Beberam o café em silêncio.

Eles terminaram e sem combinar nada previamente, levantaram-se ao mesmo tempo. Pagaram o café e saíram da cafeteria. O ar das, agora, 17:47, atingiu-lhe a cara como uma lufada.

Agora todas as árvores pareciam farfalhar como nunca antes e o laranja do céu estava em seu pico, já começando a anunciar a noite que aproximava-se.

Ela olhou para trás, vendo o rosto branco do alto rapaz.
-Eu já te conheço?
Ela perguntou um pouco alto, para ser ouvida mesmo com a ventania.

Ele não respondeu e ela achou que talvez fosse melhor ir embora. Deu um passo para frente, mas a mão grande e de dedos ossudos segurou a sua.

Ela olhou para ele, que sorria novamente:
-Talvez de outra vida. Ou talvez seja apenas necessário prestar mais atenção nos olhares do dia a dia.

Ela sorriu também e o vento levantou várias folhas perto deles.


Uma gaivota cantou alto no céu.







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N/a: Obrigada a quem me emprestou todos os elementos bonitos desse texto.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

História de uma obsessão (Ou De uma personalidade Obsessiva)

Tanta coisa a aprender. Tanta coisa a entender...
Obsessão.
Minha mente é doente, isto não me é novidade.
Meus dentes mastigam a carne dos sentimentos alheios, alimentando uma fome incontrolável, que nunca cessa.
Eu acordei hoje e o sol me chamou para dançar sob sua luz, em um palco completamente deserto.
Estou em autocombustão...
E não sei que máscara devo usar.

Tenho muitas de mim em meu corpo e elas frequentemente dialogam.
Não pense que eu minto. Não, não, te dou o presente óbvio de nunca fingir-me à ti. Apenas mudo de ideia tão rapidamente...

Nosso sangue... Você não repara nisso? Nosso sangue está correndo a 220km/s o tempo todo, a todos os tempos e em todas as conjugações. Nossa matéria se renova, se reproduz, se purifica. Cada segundo é um novo acordar em nós mesmos, é um bando de água gelada no dia mais frio do mês março.

E aí, no meio dessa furiosa maldade, dessa curiosa natureza,
A obsessão...

Ela consome os pensamentos.
É uma pulsão, segundo a professora de psicologia.
Uma necessidade física, uma fixação psíquica.
Um desejo. Um instinto fabricado por nossa problemática psiquê.
Uma escolha.
(Mas não terei eu misturado todos os conceitos?)

Almejar tuas mãos, dedos longos. Pernas esguias esticando-se sob os jeans, teus braços pálidos de sangue salpicado, com a pele se esticando sob os músculos.
Uma visão tão atrativa, tão degustativa são seus ossos formatando-se sob os cotovelos e clavícula... Teus olhos loucos.
Arrepiar ante o pensamento de tua boca vermelha e tuas costas largas. Tua cintura lânguida e tua pele alva.

Desculpe-me senhor. Não, eu não o conheço.
És apenas um objeto.
Não me leve a mal, leve ao pé da letra.
Minhas intenções construo sozinha. Seria um autoincesto?
Jogo sobre ti minha fixação órfã de causalidade...
Deslocando impulsos sabe-se lá de onde oriundos.
Vendo nos padrões de teus poros uma pintura surreal, atrativa e luminosa.
Isso alimenta meus nervos quando estou longe de ti. - The longing.
Alimenta-me ao tempo em que me deixa refém.
Minha quimera me toma em suas garras, e em um adorável causo de Síndrome de Estocolmo,
Almejo por ti.

Quando me aproximo, porém, quando tu me sorris...
Quando pega em meu braço, derrama palavras, anseia ante meu olhar...
Quando vê-me tão cândida, me admira tão iludido. Tua frieza reformulando-se em admiração...
Minha expressão transfigura-se em tédio.
Meu sorriso polido traz algo de sinistro, isso eu sei - Você não seria o primeiro ou décimo a me dizer.
Meus olhos baixam, com a típica ausência de brilho,
E em nada me comove teu esforço.

Me impaciento em meus sapatos, querendo me distanciar de você, assassino do meu desejo.
Com licença, importa-se em parar de sujar meu objeto, com sua indigestível humanidade?

Ando então para longe, para as ruas de meus demônios, nas avenidas de minhas mal-resolvidas e indigestas fixações...
Lá, sozinha em silêncio, e por alguns momentos sem figuras ilustrativas, ponho as mãos nos bolsos e saboreio o gosto do ar.
O gosto deste ar verossímil e pelo menos por segundos, carregado da tranquilidade real do vazio.
E então a verdade, brutalmente polida com a indiferença do universo sobre nossas sensações: Tudo é transitório.
Eu, você,
Essa vontade louca de pele encostar em pele,
A curiosidade,
E até o esquecimento, arrisco dizer.

Mas então, deixo ir a racionalização,
Esta sempre bem-vinda estraga prazeres.
E me deixo ancorar por uma nova fixação...

Volto a andar, um meio-riso conformado no rosto.
Que caminho amargo este que eu escolhi.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Ossos do precipício

Memórias
Desvanescem.
Escorrendo como areia,
em uma ampulheta cansada.
Exaustas,
Idosas.
Sem muita força para continuar.
Confundem-se prazos, cores, fatores...
E as benditas circunstâncias.
Torna-se tudo...
Irreal.

Vejo um texto antigo,
e é só aí que
Me lembro de ter esquecido,
Que esquisito.
Não é que tenha querido.
Foi só um lapso,
Relapso tempo,
Apto a devorar,
Sem o menor lamento.

Tragando pessoas
Me perdendo em enigmas
E chutando quebra-cabeças montados.
Desde sempre...
Ossos do precipício.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Estes arroubos

Estes arroubos me dominam vez ou outra
Penso em ligar-te, mandar uma mensagem. Algum sinal de que não sou tão indiferente quanto te fiz acreditar.
Manter um contato, te escutar em algo,
por mais repetitivo que seja.
Me pego ouvindo as músicas e desesperadamente pensando em você.
Engraçado.
Por vezes já fui totalmente insensível a qualquer estímulo seu.
Te beijando com volúpia apenas para me divertir às suas custas.
É incrível o que o tédio nos impulsiona a fazer.

Mas os sonhos, vez por outra...
Os sonhos me provocam arroubous.
E me provocam a memória do teu corpo.
Da tua pele pálida esticada sobre seus ossos,
Seus braços finos de mãos fantasmagóricas,
Sua risada alta, jogando a cabeça para trás.

Ah, estes arroubos.

Fazendo-me desejar-te.
Temo ter que te devorar, te matar em mim.
Temo não ser capaz de fugir do fantasma da sua presença atrás de mim.
Da sua sombra,
em uma projeção infinita em prospecção.

Acompanhando-me,
Alternando indiferença e arroubos,
estes arroubos...

Nos levam a querer o que nos faz mal,
nos desafiam a contrariar nossa razão
e as circunstâncias
e a lógica,
e ao mesmo tempo, de algum modo,
fazem sentido.

Porque são as coisas incontroláveis
são as coisas incontroláveis
são as coisas incontroláveis
Que nos dominam.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

"Tell me, what are you going to do with your one and extraordinary life?"

I'll write you only unseen sweet words.
In a foreign language, as foreign as your smiling eyes.
It's raining now.
Delightful.
Almost as delightful as an unexpected, strange and extraordinary love.
It's raining as i go out the house.
Tossing rocks at my way down the street.
Staring the gray walls, reading old prescriptions.
I fall down in old sensations. My body recognize the change.
I remember what that could have been.
"Maybe in another life".
And i long for it.
Letting words slip out of my fingers...
Same fingers i cross, as i long for it.
I wait for it,
And daydream about it.
It's fresh and new, this life, today.
Feelings come suiting me as a brand new clothe, but yet, very familiar.
All the dirt, and regrets, and the pain, and the curse... All fade away, being washed by the unexpected rain.

Somewhere - somehow i know - you'll be watching the rain too.
In a cold distant middle of nowhere.
Enchanting the world around with your amazing, amazing laugh.
Indescribable in words.
A laugh which sound looks like the rain.
Calms you down, makes you smile.
Gives you energy, never take it.
It's like the sun. A rainy sun, a hot cappuccino, a fragile hope, a dream... Like all the subtle rainy things, crossing your way, making you smile, like feathers.

Like surprises,
filling your heart.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

...

I feel empty
For all the things that are here no more
For all the things i wish that were
For all that is,
For all that isn't.
For my unreasonable actions and my even more unreasonable omissions.
For my daily struggles and for the fights i choose not to fight.
For my tired emotions and for my insistent wishes
For everything that seems wrong,
Unfitting.
On reality, on possibility, on happiness.
For all that is,
That isn't what i want.

domingo, 27 de julho de 2014

Yesterday i had a dream

Yesterday i had a dream
He had big bright eyes and angelical laugh
I woke up in the dust, counting grasshoppers, tossing stars.
Everyday is a wrap, continuous joke that never ceases to happen.
I long for this answer, and why not, for its question too.
I long for the end of a poem, for the meaning of snow, for four easy words.
Yesterday i had a dream,
Yes i came back there.
I searched for you in the dark, hoping to see those two blue stars.
Realizing we could have been lovers in another world, an alternative space and time.
And I longed for the nonexisting, i longed for my undreamt dreams.
Yesterday i saw you, with an unbelievably amazing laugh.
You called my name in the dark. I promptly flew to your arms.
My dreams always hug me. They kiss me in the forehead through your sweet lips.
Through these lips i never touched. They smell like rain and grass.
They whisper secrets in my ears. They amuse me.
I grab these ghosts with all my aim.
Semi-precious already wasted and everyday-thinner aim.

Yesterday i saw your eyes, the rain, the snow, the stars, your foosteps.
Everything that isn't next to me now. Everything i miss.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

That appealing self

Levante-se com sangue dentro da boca e sorria aquele riso maníaco,
mostrando os dentes tingidos de vermelho líquido.
Pegue um novo tolo, uma nova aposta.
Acho que você sabe do ódio, acho que você conhece a maldade.
É uma música nos seus ouvidos quando acelera e segura o volante.
Você tem um novo plano? Tem uma nova brincadeira?
Escuta uns insultos e leva socos no estômago.
Em seguida rola no chão, sem controlar as risadas.
O que você pode tirar de quem nada tem?
Com que demônios você aterroriza o próprio demônio?
Mesmo quando ele te olha com doce empatia,
Sorri palavras amigáveis e desperta sua condescendência,
Com um carisma inabalável.
Te comovendo com seu passado tenebroso,
Te encarando com seriedade...
Como você sabe que por dentro ele não está sorrindo,
em uma risada eterna que é a vida.
Se você fechar os olhos agora pode ouvir o som estridente e agudo, sangrando seus ouvidos.
Sangrando seus tímpanos
Sangrando a garganta de quem ri.
E pensar que no primeiro momento pareceu um som angelical...

quarta-feira, 9 de julho de 2014

As coisas

Parece um sonho...
Uma brisa leve,
uma folha seca.
Mas são só marcas antigas, encrustando em sua pele
Infeccionando as feridas.
Parece um gosto amargo na boca,
Uma ressaca de substâncias que não ingeri.

Ando por aí nessas ruas cor de cinza,
Moças se empertigam, vulgares,
Como eu uma revista de mau gosto.
Homens arrotam fragilidade
Em forma de estupidez e violência.
Em tempos assim modernos,
Tudo é banal.
Vejo estranhos trocando insultos disfarçados de sorrisos,
Nominando-se de "amigos".
Vejo uma competição insana e cansativa, buscando-se ostentar títulos diversos.
Vejo maquiagens diversas, de várias espécies.
Mas por trás de tudo isso,
Vejo o medo.
O medo é onipresente.

Ele deriva do ciclo eterno de machucar-se e machucar.
Ele nasceu na infância, desenvolveu-se no mesmo ritmo de seus hospedeiros, e na fase adulta tornou-se crueldade.
A fraqueza é perigosa, ela tende a buscar enfraquecer quem está à sua volta...
Na vã ilusão de fortalecer-se.
Mas isso nunca acaba,
não é?

Existe um gosto um pouco doce na derrota,
na incapacidade.
Uma liberdade tranquila em aceitar a própria imperfeição.
Por que não?

No entanto, no lugar dessa doce tranquilidade,
Temos essa legião de crianças crescidas,
Incapazes de lidar com suas próprias feridas,
Acostumadas a pequenas decepções.
Tornando-se cada vez mais ariscas.

Hoje em dia esse mundo é um pouco sombrio
por causa de todas as solidões.
Então as pessoas, como as plantas, murcham aos poucos,
ao passo que envelhecem.
E vão ficando tão frágeis,
que passam a reagir mal à beleza.
Se desacostumam.

No nosso mundo,
hoje em dia.
As pessoas se emocionam com elogios,
elas ficam sem jeito,
e geralmente elas choram.
Porque já não é muito comum.
Será que um dia já foi?

Elas se transformam em crianças quando alguém as elogia,
Mas já se acostumaram com críticas.

Elas ficam sem jeito com olhares,
mas se acostumam com abraços rápidos.

Quanto mais escuridão a gente recebe,
Mais a gente transmite.
Mais a gente se encolhe.

Ah meu Deus!
Que me coração conhecesse
Essas coisas que minha razão entendeu!

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Tralhas, navalhas e desculpas esfarrapadas.

Você não me conhece.
Conhece pedaço unifacelado de mim.
Ilusão fotográfica, por vezes fotogênica,
Definível apenas por ocasião.
Enxerga o que preferes: O que te traz conforto ou agonia.
E Deus sabe como nos agradam ambos.

Conheces um rosto pálido,
Dois olhos opacos,
Um sorriso fácil
ou um corpo juvenil.
Algumas palavras de praxe,
ou gesticulações.
Um sarcasmo afiado:
uma partitura limitada de reações

Porém, minha face é um prisma.
Minha substância oscila entre fogo e tédio.
Você me encara, interrogativo. Como se isso me impusesse qualquer obrigação.
Me faz perguntas, me cobra prazos. Me julgando escrava de uma religião que não inventei.

Consciente da sua aflição, te encaro inconveniente.
Passam direto por mim tuas necessidades.
São areia ao vento, são bolhas de sabão que nunca nascerão.
Sei da raiz e dos frutos de tuas palavras.
Vaidade aborrecida...
Poderia te dar teu circo ou teu pão,
Ser a mão que te alimenta...
Poderia, então, não fazê-lo apenas para te ter refém.

Mas nenhuma intenção agora me atrai.
Nem meu riso seco se faz presente.
Apenas te olho.
O fantasma da minha meia noite.
Um dia ainda hei de inalar-te.
Devorar o teu corpo magro, com cicatrizes sob as costelas.
Engolir teu rosto fino em mordidas com sabor de madeira.
Ainda vou adormecer-te e então te matar em mim.
Enquanto isso vou te amar, com um sentimento bem mais violento que o amor.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Inexatidão.
Não, nada nunca permanece o mesmo.
Abaixe-se, aperte um pouco os olhos, apure o olhar:
Modificações pequeninas encadeando-se em um encaixe perfeito, contínuo e gradativo, formando círculos úmidos na sua parede, que crescem ao passo que seus pulmões se enchem de ar.
Te encarando, alinhados em frente aos seus olhos de percepção tão volátil...
Quão irresponsáveis são os segundos, quão inconsequentes nossas mãos.
Quão imprudentes os músculos que formam o sorriso.

Minha pele é água, ela não me contém, apenas me contorna.
Tudo o que passa ao seu redor escorre macio e com sofisticada naturalidade.
Suas mãos nada podem segurar. A quem você quer enganar?
Sinta seus pés atravessando um chão no qual não encostam. Forjando memórias e a ilusão absurda de controle.
Se você olhar para trás,
Talvez veja que apenas em sua mente estava deixando pegadas.

Nada se controla, nada se limita.
É de uma liberdade surpreendente sentar-se calmamente em frente ao caos.
As explosões ocorrem como ondas de frequência dançando no infinito.
Jorrando línguas de eletricidade, fogo e elementos indefinidos,
Formando estrelas ao acaso, sem uma religião que as defina.
Se você souber observar, vai maravilhar-se com sua beleza.

Eu acho que a vida acabou de começar
Todo o resto é irrelevante.
Nada pode ser cobrado pois nada pode ser contratado.
Essa é a receita da minha liberdade,
A íntima e personalíssima,
um presente pessoal, a mim que tropeço em tantas amarras...
Permitindo-me, assim, encarar o espelho
Com a mesma tranquilidade que encontro outros olhos
Sem nenhuma necessidade
De qualquer explicação.

Viver nos concede a doce prerrogativa de jamais nos justificarmos.

sábado, 7 de junho de 2014

Aeroportos e cemitérios

Sonhos proféticos, tempestades em pensamento.
A menina se sentia conectada com todas as coisas da natureza.
Ela trazia em si uma tristeza de séculos em paredes silenciosas, segredos e mistérios de cada casa antiga na qual já entrou.
Escrevia portanto com esse misticismo, saboreando as letras que moldavam suas figuras mentais.
Saboreava o ar, o vento, as cicatrizes agridoces que suas experiências prematuras lhe trouxeram.
Adocicava a ponta da língua com as perdas nas quais sua inconsistência resultou.
"Aeroportos e cemitérios da memória", ela dizia.
Não era possível viver constante, com os mesmos personagens. Mas às vezes doía-lhe a ausência das vidas pelas quais já passou.
Já tinha sido tantas ao longo do tempo, e ao mesmo tempo, era só uma, a mesma criança fauna, adoradora da lua, dos bosques, dos mistérios que a noite sussurra na brisa suave.
No farfalhar das árvores,

Desculpas esfarrapadas
Tralhas
Navalhas.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Hazard

Você sabe que tem dias em que se acorda nublado?
Dias em que é muito fácil morrer, voltando ao passado.
Todas as armadilhas nos pegam, eventualmente.

Muito cuidado.

Nostalgia é uma arma fria e muito calma
Armando truques com a mente,
mãos macias de ilusões.
Te embalam num carinho e te fazem
flutuar em água morna.
Soprando segredos antigos,
te dando injeções de emoção...
Nada fora do comum, mas quando se olha para um espelho
passado
O que se vê é perfeito...
Em dias como esse e apenas nesses dias,
É fácil se sentir lá.
Se perder no que não foi dito,
se confortar com o que não foi.

Preste atenção.

Que dúbia é a nossa curta vida.
Cada pequena escolha abre uma bifurcação.
Cada palavra dita
no calor de um relance de ódio,
Cada beijo atirado,
sem muita precaução
Cada ligação não feita
e olhares ignorados
São uma cidade inteira em chamas
De chances jogadas aos dados!

Tudo diluído em sonho
e no seu café quente
Que seus lábios tocam
Com uma morte tranquila...
Nesses olhos negros
sua figura duvidosa.
Onde está,
Aquela força dos dias passados?
Onde está ele,
Fechando em cima
concha de de mentiras
de vazias satisfações
Uma concha antiga e falada
de sonhos de algodão...

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Variações sobre um tema antigo

Ela despiu-se sem nem um pouco de pressa.
Tinha esquecido da furiosa sensação da sensualidade.
Sua pele alva era também muito fina, como se esticasse sob seus osssos.
Seus olhos ficavam escondidos por cortinas de cabelos, enfurecidos como o de uma criatura angelicalmente selvagem.
Caminhou até o lençol, estendido ao chão. Poderia ser terra em que pousava seu corpo, podia ser grama em que arrastava suas coxas, podia até ser água. A verdade é que era sonho.
Não era noite, como você pode ter pensado a priori. Estava claro e a luz solar desenhava os formatos de folhas cadentes. Feixes de luz rosa alaranjado incidiam no chão ao seu redor. Tudo à sua volta era dislexicamente desordenado, incoerente, encantado. Um mundo sem inibições.
A criatura à sua frente, escondida por um véu, era toda e qualquer figura que refletisse em seu espelho oposto.
Era o que o tato de sua mente inspirava, nas projeções coletadas por experiências ou percepções. Tinha muito a ver com os impulsos mais primitivos, no sentido não animal, e sim cândido da palavra.
Instinto é uma palavra mal interpretada, por vezes. Apenas animais tem instintos meramente carnais. Anjos possuem instintos de doçura, por vezes mascarados pelo sombrio à sua volta.
Assim, sob aquela criatura para a qual estendia agora os dedos finos, na intenção de tocar-lhe o rosto, residiam as imagens mais inesperadas.
Uma moça de pele macia, um rapaz de olhos sorridentes, um conhecido de possibilidades reconfortantes, seu próprio reflexo, talvez?
A sensualidade é um estado de espírito, um encontro consigo mesmo.
Afundou as mãos sob aquele véu,
e o que encontrou foi infinito.

terça-feira, 1 de abril de 2014

3/7 vidas


Há uma lua tatuada em minhas costas, derretendo com palavras sóbrias.
Ele me disse que eu era a coisa mais pura que já conheceu. Eu não sei, já me chamaram de tantos nomes. Usaram-me o corpo e as palavras. 
Mas a pureza independe disso?
É engraçado.
Faz 22 anos que estou nesse mundo. Pouco mais de 10 que me sinto hiper consciente. Sinto já ter vivido uma vida inteira até a velhice e a consequente morte. Me sentia tão cansada tempos atrás, como se fosse minha despedida.
Estou agora na minha segunda vida, regredindo cada vez mais a uma fase anterior. Tornei a me lembrar do cheiro da infância, aos poucos. Do mundo fantástico que cabe em uma mente.
Eu nunca fui adulta, não, tendo passado da infância para a velhice, como uma anomalia sentimental.
Minha boa memória que sempre foi minha algoz, passou a ser meu passaporte para a sanidade.
Lembro muitas coisas, se pensar bem. Lembro do rosa-choque, das caixinhas de músicas, da solidão infantil, dos ovos de páscoa, da confusão e medo, das pequenas sensações especiais de quem apenas sente e não racionaliza.
"Você pensa demais", disseram-me praticamente todas as pessoas que já conheci. Falando sempre sensorialmente para tentar compensar minha hiperracionalização.

A infância é uma parte muito importante da vida, talvez a mais, como diriam minha mãe e a maioria dos psicanalistas. Minha primeira morte se deu quando eu desisti da infância, engolindo uma dor que não me pertencia. Deu-se quando eu comecei a entender coisas que me fizeram desacreditar na magia. Deu-se com meus ídolos sendo mortos pela lógica e racionalidade e com a desfiguração de imagens cultuadas, pouco a pouco, diluindo-se em fatos. Deu-se com meu descaso ante meu corpo e mente, pautado em premissas lógicas e negação religiosa.

É possível se perder na razão, é possível enlouquecer sem maiores estímulos.
Deixar de procurar passagens secretas e bosques com fadas. Isso pode parecer uma metáfora, mas pode também parecer muito real. Por que não? Esse é um texto sem um sentido exato, feito apenas porque me propuseram escrever algo novo. Mas sentido por todas as células de uma criança, uma idosa e atualmente uma pessoa sem idade que tenta conservar sua lua.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O equinócio. (Ou, uma diferente versão de O Jardim do Bem e do Mal)

Me retenho nesta concha, ilusória de emoção.
Espero sua sombra, ouvir seus passos pelo chão. Sua sombra, sua crina, seus pêlos, sua sina, sua força, seus recheios, suas falhas, seus meneios.
Se sua mão toca a minha, sinto seu toque antes de encostar. Há quilômetros de distância, não é difícil te farejar.

Te espero sem incômodo, aprendi a esperar. A distância é um estado de espírito, o espaço uma medida do tempo. Nosso tempo é uma medida infinita. Infinito é um estado pleno.

Plenitude seria o que descreve? Deitada ao seu lado, em um abraço de olhares. Uma ânsia de sorrir me surge, e sento a tua frente. Você me encara e passamos minutos conversando assim. Não sei o que estou te dizendo, talvez abrindo as cortinas, te deixando entrar no meu olhar.

Um olhar nunca pode mentir.

Um sorriso sim, por tantas vezes. Palavras, bem... Estas já são mentiras de nascença. Um abraço por vezes é ambíguo e um toque doce pode ser violento. Mas não um olhar.

Te reconheço em uma memória da minha pele. Sento em tua frente e toco seu rosto. Nesse momento tem algo acontecendo, eu sei. Eu não entendo, mas sinto o gosto. Você me olha pacífico, gerando múltiplas interpretações. Não estranha meu silêncio ou questiona o meu riso. Não se assuste com a volatilidade com a qual te dou lágrimas ou sorrisos.

Você conhece meus medos de cor, com os nós dos seus dedos em meu rosto. É um contato superficial porque é desnecessário. Me comovo e você não entende.
-É que nunca pensei que fosse encontrar alguém com quem não precisasse falar.

Às vezes te conto histórias. Você ouve como uma criança atenta. Muitas vezes não diz nada, mas te vejo absorver as minhas células. Estou começando a desaguar em ti? Meus dedos em tua pele se sentem cada vez mais familiares. Que estranho ter uma casa, penso. Mas pensar não vem bem ao caso.

Outras coisas vejo bem, porém. Bem melhor agora.
No final dessas contas, não faço uma corrente, e sim um colar:
Vem cá? - Te chamo.
Está um crepúsculo incrível, este horário do qual sempre tive medo. Você sabe, às cinco e quarenta e sete a natureza joga uma tinta laranja pincelando o céu de tons vespertinos. O dia se despede, algumas chamas se apagam para a noite se acender.
É o fim da vida, você sabe, e o início de outra também.

E é bem aqui, neste horário intermediário, que te chamo peixes em aquário.
Sentada neste campo de centeio, sentindo a melancolia que só nós conhecemos, te peço para sentar meu lado.

Este é nosso equinócio,

meu inominável,

e voce é meu amigo no fim do mundo.

Porque "amor" é insuficiente
para nomear este abismo profundo.


-
Para Jader.

O mito da frieza

- Eu não tomo nenhum interesse por sua fraqueza.
Ela disse, com toda franqueza. Tragou a fumaça do cigarro e deixou a cabeça cair para trás, vendo os azulejos deprimentes daquele cômodo.
As coisas que lhe desinteressavam, escorriam-lhe pela sensibilidade, como areia. Não tocavam mais sua alma os sentimentos daqueles que não amava.
Mas a um único princípio mantinha-se fiel, e este era o respeito. Era porque respeitava mesmo aqueles a quem sentia-se indiferente que recusava-se a sentir pena deles.
Ele olhou-a inconformada. Seus olhos eram confusos e indignados em frente a rejeição. A maioria das pessoas sente-se assim: Inconformada com a ideia de que outrem não precisa de si, e que sequer finge precisar. 
Ela apertou os olhos e viu naquele olhar de inconformidade, mágoa e pequena luta, tantos outros que já estiveram em seu lugar.
Humilhando-se em pedidos vãos, em objeções em face de uma reconsideração. Só não era uma verdadeira humilhação, de fato, porque ela não tomava prazer por este momento e era ainda capaz de compreender a luta vã. 
O que não a sensibilizava, então, era o fato de que as pessoas apenas lutam contra o "não". Elas lutam contra a negação de si.
Aquele homem a sua frente, que por outras vezes foi outro homem ou uma mulher ou qualquer pessoa que ceifara de sua vida, pouco importava-se com a ausência de sua presença. Pouco importava-se com a saudade, embora cresse diferente. O que doía em seu âmago e o fazia refutar a negativa permanente dela era apenas o descarte.
As pessoas que recusam ser deixadas, dificilmente o fazem por amor e sim pela inconformidade com a ideia de não ser necessárias.
Nada mais natural, afinal, somos o centro de nossos mundos - Pensava ela, filosófica e pouco atenta à real cena que passava-se a sua frente - sendo assim, tão prioritários a nós mesmos, é uma verdadeira negação da realidade, um outro alguém - ousado outrem! - nos negar em seu universo. Abdicar da nossa presença.
"Com que direito negou-me, Cathy?" - Perguntava-se Heathcliff. 
Mas não precisava ser um a alma de outro como os históricos anti-heróis, não. Naquela situação mesmo. Mulher de olhos que pareciam ser frios em frente a homem de coração que a um estranho pareceria ser partido, já via-se a inconformidade quanto a rejeição.
E quanto ela detestava aquele sentimento! 
A verdade é que embora por esse tipo de atitude fosse julgada fria, empatizava perfeitamente com a dor à sua frente. Era compreensível e quase palpável, mas não causava aflição causá-la, pois muito maior dissabor seria ter pena da alma miserável que implorava por sua companhia pelos motivos errados.
Pena, em sua concepção, era falta de respeito. Era demagogia.
Repulsa, então, era o que lhe causavam as palavras que imploravam por uma atenção e até piedade. Detestava ver um ser humano colocar-se em uma posição assim.
Por outro lado, a repulsa era gerada pela insinceridade do sentimento.
Do amar-se através de outro: Estes "eu te amo" que significavam "me ame"...
Então, não, não tomava interesse nenhuma por sua fraqueza. Não por esta, disfarçada, insincera.
Ah, como lhe aborrecia tudo que era fraco, sem estar sendo franco.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

This is all a dream into a dream into a dream....

Acordou no ambiente azul.
Tudo cheirava a metal e alguma sinfonia quebrada, antiga e talvez irreal. 
A cama era sua, o tempo era essa onda de frequências destoantes.
Olhou ao seu redor e podia ver claramente os pontos de energia chocando-se, absorvendo-se ou extirpando-se. Arriscou tocar o chão com os pés e quando o fez, o mesmo balançou diante de seu peso de pena de mulher.
Era mulher, mas seu espelho a contrariou um pouco ao negar-lhe uma imagem certa e coesa. De repente sua pele confundia-se com as partículas de poeira, de luz e de som.
Seu corpo antes tão individual encontrava o prazer de flutuar como água em um plano abstrato. Prazer esse que jamais poderia ser nomeado como tal, pois suas sinapses não focavam-se para conceitos e sim para a percepção das forças ainda não contaminadas pela linguagem humana.
A própria classificação humana significava pouco ou quase nada, diante da epifania óbvia e onipresente de que sua matéria assemelhava-se a de todo o resto, sendo contida em si apenas pela conveniente ilusão de individualidade.
Afinal, que ousadia e suicídio seria negar-se como lhe disseram ser, permitindo sua consciência ser distribuída em seu verdadeiro lar, ou no caso, sua verdadeira forma.
Sentia, assim, esta dita consciência diluir-se cada vez mais no mar abstrato do não-pensar. Amoldando-se a diferentes formas, cores, formatos ou o nada em si, a forma mais substancial de existência.
Quando estava prestes a descansar, porém, sua catarse foi brutalmente assassinada por um dito despertar e levantou, em um susto, de sua cama.

Sua testa suava e seu coração palpitava forte.

-Que sonho louco. - Disse para si mesma, já começando a esquecê-lo.

Levantou da cama, com um contato bem mais ordinário entre seus pés e o chão. 
Quando passou pelo espelho, no entanto, este a prendeu frente a imagem de sua própria face, distorcida e transfigurada em um sorriso louco:

-Não se engane. - Disse sibilante. - Isso tudo é um sonho, dentro de um sonho, dentro de um sonho...

Sentiu algo repartido entre pavor e esperança.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Ao final de todas as contas, faz-se com elas um colar?

Hoje é 2013, ainda por alguns dias.
Há tempos eu não sinto mais ânsia de escrever e há anos venho dizendo que estou envelhecendo por dentro. Minha amargura injustificada tem me aborrecido bastante, de modo que é um difícil convívio aqui nesta casa que sou eu, onde tenho que residir comigo mesma. Há anos atrás ser cética era uma intenção, quase que uma proteção. Hoje em dia é uma prisão, meu ceticismo desencanta tudo ao meu redor. Eu estava pensando que preciso passar a ver prazer nas coisas mais simples, de um jeito que não seja forçado. Mas é difícil fazer qualquer coisa quando à minha frente, já tenho dado 10 passos e estou olhando para mim mesma, com desdém. Talvez um psicólogo me ajudasse nisso, mas é muito improvável porque meu ceticismo desconstruiria qualquer abertura para que eu pudesse ser ajudada. O que eu preciso, mesmo, é que me derrubem um pouco. É ser desconstruída, desestabilizada. Daqui de onde me sentei, tudo parece repetitivo e entediante. É exatamente nisso que consiste minha arrogância. "Tudo é só uma versão de outra coisa". Minha auto-crítica me consome diariamente, e torna minha crítica com os demais exacerbada. Eu procuro perfeição em um nível absurdo e extremo e torno assim algoz de mim mesma e daqueles que me amam.
Eu sempre tive a teoria tão bem posta, não acham?
Eu sempre falei coisas bonitas sobre amor, convívio, aceitação e relacionamentos. Na minha cabeça, tudo faz muito sentido. Na minha pele, no entanto, essas coisas queimam. Dizem que aqueles com os discursos mais incisivos são os mais ferrados, não é? Desculpe, tenho que concordar.
Eu tendo a fazer um balanço negativo do que já aconteceu até aqui, como se 21 anos fossem 81. Mas eu sei que estou só entrando no mesmo ciclo de autocrítica. Dizem que o primeiro passo para superar um problema é reconhecê-lo, mas não se escuta muito sobre qual é o segundo passo.
Eu gostaria de dizer que não sei mais escrever, que perdi minha intensidade. Mas isso é uma desculpa muito confortável para me jogar no marasmo autodestrutivo da autocrítica e omissão. Ou no caso, de continuar nele. Vejam os textos desse blog. Há quanto tempo repito isso?
Talvez por hoje eu me force a me esforçar um pouco. Talvez eu não aceite o fato de ser uma velha cansada de 21 anos. Talvez eu reconheça que isso é preguiça de viver, é acomodação. Uma versão mais light e covarde de uma depressão. Talvez eu me liberte um pouco dessa persona que eu criei para justificar minha falta de ação em procurar mudanças em mim mesma. Talvez eu me esforce para criticar menos, julgar menos, me julgar menos.
Talvez, talvez, eu comece a tentar.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Origami II

Ela dançava descoordenada, em cima de uma navalha. Era difícil orientar-se na paixão.
Agachou-se em sua frente, tirou seus óculos, mordeu seu lábio. Ele a deixava livre, louca, com esse sorriso de quem sente prazer no vento.
"Tudo pode ser, nada vai te acontecer."
Queria bebê-lo como quem bebe um vinho bom, não, queria bebê-lo como quem bebe cachaça.
Queria-lhe descendo pela garganta, arranhando e dando tontura. Queria-lhe ao mesmo tempo como uma água doce em um dia quente. Queria-lhe em maneiras controversas, em todas as que existiam. Queria seu olhar mais tranquilo e também o mais sombrio. Como um pânico, um delírio, uma música amada; Um homem, um menino.
Amara-lhe com as entranhas. Com forças estranhas, que ele lhe inspirava - Amava, e sem saber direito o significado dessa palavra, com suas ações, a explicava.
Desdobrava-lhe as camadas, dobrava-lhe os lados, três-quartos, por cima, por baixo, até formar-lhe o origami.
"Me ame"
Era o resultado da obra. A figura de um lobo, de um coringa, de um rapaz bom ou de um traquina? Cada lado do papel, ao dobrar-se, derrubava um véu. Ele era muitos, cada um num dia, com uma energia, dependendo da sintonia...
Ao mesmo tempo, era o mesmo.
E era a ele que ela amava.

"The darkness. It has me."

A escuridão em mim, me é.
Eu sinto muito, mas não sinto nada.
Vejo uma estranha no espelho,
uma inimiga.
Meu rosto não acompanha os anos,
como uma criança demoníaca.
Aqui dentro tudo apodrece.
Como podes amar algo sem alma?
Só não cometo atrocidades por causa de minha educação.
Mas viveria em crime, numa terra de liberdade.

Olhe nos fundos dos meus olhos
O que você vê?
A escuridão tem olhos puxados,
implacáveis e cansados.

Seria eu uma psicopata?
Sendo a dor um caminho tão prazeroso...
Ser feliz me parece uma enganação passageira,
O amor doce me ameaça lentamente.
Estou tendo problemas de identificação.
Seria minha mente em outra enganação?
Realmente parece estar tudo bem?

Veja bem,
eu nunca serei capaz de dizer "amém".

domingo, 3 de novembro de 2013

Pensamentos.
Nada me deixa em paz essa noite.
Tanto que eu poderia estar fazendo, mas estou aqui, te desejando.
Um pouco longe, você dorme. Inconsciente do que acontece aqui. Ou talvez ciente, mas indiferente. Quem sabe?
Incógnita,
é o que és pra mim.
Incógnita de pescoço pálido e sinais marrons, com seus braços pálidos e musculosos, o sangue aparecendo salpicado pela sua pele, a boca tão vermelha rodeada pelos pêlos de tua barba... Tuas pernas longas e esguias em teu jeans, tão convidativo.
Os teus ossos, se sobressaindo e teu tórax branco, residindo na minha imaginativa mente, que tenta atravessar tua blusa.
Teus dedos tão longos de mãos tão pálidas.
Você é como um chamariz para mim.
Todos os meus poros se dilatam e se atraem quando te vejo. Desvio o olhar, evitando trechos seus. Evitando reforçar essa fixação que não pretendo perseguir.
Que devo fazer? Segurar sua blusa, ou sua mão, quando caminhamos? Como uma criança pequena, pedindo para você me esperar?
Porque você sempre anda na frente. Anda na frente esperando que eu te alcance, olhando para trás.
Com seu olhar preocupado.
Então me olha sério, nos olhos e diz essas coisas maduras.
Apenas para rir na minha cara em seguida, me pasmificando com os absurdos que saem de sua boca.
Em resumo, me deixa louca.
Ao final do dia, deito exausta, cansada de tentar montar o quebra cabeça sem ordem das contraditórias facetas de você.
Imagino que você nem pensa nisso ou talvez se divirta. É difícil que não perceba minha angústia e como sorri com tanta tranquilidade, é difícil que ela não te divirta.
Mas então dá de ombros e diz que tem mais o que fazer. Conversa com estranhos, me tratando como uma e por segundos tenho a claríssima certeza de que nada te importa.
Quem é você?
Quero te questionar, te fazer entender. Quero segurar sua cabeça com as duas mãos, e enfrentando seus olhos, te interrogar. Interrogar seu coração. O que se passa nesse músculo fibroso. O que se passa nessa mente inquieta. Invadir sua armadura de indifença afiada e cinismo triste. Te obrigar a me dar todas as respostas, e caso você não me dê ou ainda caso você as dê, seja lá quais forem...
Te beijar. Te beijar até o mundo acabar.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Mordidas amargas

Eu vi, eu me lembro bem
Quando a água tocava meus seios, crescentes
E eu sentia vergonha em o tempo estar passando.
Era em tardes deitada num sofá, que a sensação me envolvia
Me deixava com medo de estar perdendo minha inocência.
E tudo que eu queria era me enrolar, pequena, no colo da minha mãe
Sem qualquer coisa que me dissesse mulher.
No fundo, eu já sentia o gosto do tempo.
O temoroso, sempre passante, tragando tudo a seu redor.
"Tempo, mano velho", inesquecedor* acertador de contas.
E me perdoe os neologismos, mas são avisos
De tudo que ainda não existe, se aproxima de ser criado.
Hoje tuas mordidas amargas
Marcam meu pescoço como navalhas antigas.
Uma mão de rapaz, na minha pele de criança
Certas horas tudo isso está errado,
Ainda não tenho nem 10 anos.
Quero ir para o colo da minha mãe numa tarde de domingo
Tocando Belchior na felicidade fabricada
da varanda da minha casa.
Ah, meus olhos estão apagando.
O tempo traga toda a doçura dos nossos anos.
Nada é permanente, triste obviedade.
Nem a tranquilidade da infância.
Hoje tudo está um caos.
As paredes estão ruindo.
Minha casa não está sorrindo.
E você, meu velho amigo,
meu eterno adversário,
Tempo, mano enjaulado.
está agora bem acordado.



Ojeriza às declarações exageradas no facebook



Para quem você escreve,
ou derrama declarações?
Quem é o alvo de seus beijos
e de suas encenações?
A quem o show se apresenta,
esse repente histérico...
Repetindo ininterruptamente
O romance em adultério.
Quando espera que os outros vejam
como é forte sua paixão
Sem perceber, usa seu bem
Como a roupa da estação.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O ser humano não é muito diferente de uma muriçoca. (Ou We are suckers for a happy ending.)


Uma das coisas que mais me impressiona em algumas espécies do reino animal, é a incapacidade de aprendizado com a experiência. Um exemplo próximo que sempre me angustia são as muriçocas da minha casa. Mesmo sendo enxotadas, encurraladas no espaço entre as duas mãos e quase mortas repetidas vezes, elas voltam exatamente ao mesmo lugar que tentaram morder (perna, braço ou o que seja) demonstrando pouca ou nenhuma capacidade de aprender com a experiência e não repetir o erro.
O que eu tenho percebido, no entanto, é que minha espécie não é muito diferente dessa muriçoca. Vamos a outro caso prático:
Ontem eu assisti um filme muito bom e triste chamado "Like crazy" que cometeu a rara proeza de corresponder à realidade. É a história de um jovem casal que se ama profundamente, mas passa por inúmeros obstáculos e mágoas a ponto de estarem ao final tão cansados que quando finalmente superam as dificuldades e conseguem ficar juntos, sentem o vácuo tomar conta do que outrora era encantamento. Esse finalzinho não é dito, mas não precisa, porque é representado com perfeição e genialidade pelas expressões dos atores em uma dramática e sutil cena muda no chuveiro.
O final é óbvio, apesar de não ser falado. É um final triste, um final real. 
Quando acabou o filme, eu encantada e desconsolada fui, como sempre faço, procurar resenhas e comentários na internet e ver se minha opinião batia com a dos outros telespectadores.
Para minha surpresa, no entanto, comecei a ver dezenas de comentários, tanto em vernáculo como em inglês, falando sobre "que lindo final feliz, eles finalmente ficaram juntos e perceberam que tudo valeu a pena e iriam se reconstruir".
Espera aí, pensei. Não foi nada disso não! O que houve foi uma cena triste, com uma música de fossa, com expressões de mágoa e um olhar desesperador. De onde vocês tiraram o final feliz?
Mas aí entendi. As pessoas muriçocalizaram o final. Mesmo vivendo aqui, no real world e conhecendo e passando por relacionamentos de todos os tipos, sentindo o desgaste que as mágoas trazem, vivendo na pele como o ser humano é imperfeito, como as coisas tem início, meio e fim, como a gente muda o tempo todo e os sentimentos mudam e as coisas acabam terminam, nada mais natural, os telespectadores (em maioria) desse magnífico filme, insistiram em acreditar que aquele era um final feliz.
O que é isso se não a incapacidade de aprendizado com a experiência?
Aqui acolá eu via um comentário sobre a beleza desse fim triste, mas essa era a exceção. O que ficou claro foi nossa tendencia a insistir em erros, no caso, ilusões sobre a realidade, com uma tentativa frágil de fazer as coisas parecerem mais belas.
Mas o que é ser belo? Finais água com açúcar nada reais? Ou desacreditar na existência de "finais"? Por que é tão difícil aceitar a realidade dura e fria? E por que achamos a realidade dura e fria, se é nada além do curso natural das coisas?
Levando isso um pouco adiante, percebi que talvez só achamos a realidade dura e fria justamente por causa das ilusões que nos são apresentadas como possibilidades, como se reais fossem. Acreditamos que isso pode acontecer (isso = relacionamentos com "fins" felizes e sem problemas, uma vida profissional de sucesso sem muito esforço, uma vida familiar e social pacífica e sem diferenças.. e a lista continua) e diante dessa possibilidade, todo o resto parece frio e cruel. Mas não é, é só a vida.
E isso se aplica a tudo. Alimentamos ilusões em todos os campos e quando uma desilusão acontece, ficamos tão tontos e confusos quanto a muriçoca depois de escapar de raspão. Mas não temos o preparo suficiente para nos adaptar à realidade de cara, a lidar com a naturalidade dos acontecimentos, por isso ignoramos todos esses sinais de como as coisas são e mesmo depois de ter isso esfregado em nossa cara, nos apegamos de volta à velha crença ilusória, ignorando a realidade dançando na nossa cara, e voltamos a morder o mesmo pedaço de pele no exato lugar que acabamos de tentar.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Qualquer realidade é mais fascinante que qualquer ficção.



"Sabe no livro Eragon, que eu te falei o final? Um dos pontos chaves do livro, é que cada pessoa tem um nome numa língua antiga, que só diz a verdade. Esse nome define sua essência. Pode ser uma só palavra, uma frase ou até um texto, dependendo da complexidade da pessoa. A pessoa não sabe seu próprio nome, ela não consegue ver porque ela está dentro. Só outra pessoa é que pode descobrir esse nome, embora seja muito difícil, através do que conhece dela, dos fatos que definiram sua vida, etc. Esse nome representa sua essência. Quando você descobre esse nome, você ganha um certo poder sobre a pessoa, porque você descobre sua essência, e assim, seus pontos fracos e etc. Você toma conhecimento sobre quem exatamente aquela pessoa é, o que faz dela ela. Tudo isso é traduzido naquele nome. Então, o que eu queria dizer, é que se alguém for capaz de descobrir esse meu nome, esse alguém é você."


Mas é lógico que essas palavras incríveis não são minhas.

Pensamentos vãos sobre o mito da religião...

Minha religião
são os passos que colhi no caminho
é um dossiê que se constrói sozinho
nada do que tentam me fazer engolir.

Minha crença
É apenas minha, desde nascença
é personalíssima entre mim e a essência
Disso que não sei bem o que é, mas não preciso descobrir.

Minha oração
É particular e não padronizada.
Não precisa estar em um templo para ser autorizada
Não foi-me repassada, pois é um conceito meu.

Desde pequenininha aprendi que em baixo de qualquer árvore
é possível falar com Deus.

domingo, 6 de outubro de 2013

Tripla negativa

Não existe verso, não existe termo
Que traceje a sensação, que denote o desespero
ultrapassou a poesia, as descrições precisas,
não existe mais molde para tanta agonia.
Não existe explicação em um mundo cristão
não existe motivo, justificativa ou perdão
Só existe a agonia, só existe o desespero,
os pensamentos terroristas, a maldade, o apego.
Só existe a fixação, a obsessão e os vômitos.
Só existem as lágrimas cada vez mais vãs, a tristeza que não dá pena.
Não existe poesia, não, nenhuma palavra bonita.
Nada rima com esse inferno.
Só existe minha mente, eivada de insanidade doente.
Só existem as navalhas, as mágoas, as metralhas,
só existe o egoísmo, o infinito abismo
Não existe nada, nem a morte, que cure.
Nada
nada
nada.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

tudounada

Todo nada
era um monte de tudo
que encontrou um escudo
que não encontrou espelho.

Esse nada,
há pouquíssimos minutos
era um monte de tudo
era um monte de beijo.

Era um apelo
escondido no escuro
pedindo um pedaço de pão
um pedaço de zelo.

Procurando
nuns olhos nus, uma crueza
uma certa beleza
de quem dá amor mesmo.

Esse nada
é um monte de mágoa
é lágrima de fada
perante a violência de quem cala.

Eu podia falar muito sobre o pouco
sobre o claro do luto
mas me ausento agora
de nadar sobre o tudo.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Coisas estranhas que eu encontrei no meu caderno do 4º semestre pt.I


Muitas vezes um ato de coragem é só um ato de burrice.

-
Estive procurando desde muito  cedo uma exceção bonita à regra absurda.
(Anjo, o que aconteceu com suas asas?)
Mas não existe, culpo a utopia. Mesmo falando tudo isso... uma sociopata erudita.
Jogando palavras com vidas.
Dê-me um crédito, dê-me um desconto.
Minha loucura é contida em conto.
O que procura é o consenso de um acordo. A insanidade consentida.
O cerne da resposta é que me faltam alguns elementos essenciais à validade: Os escrúpulos, a sutil consciência de realidade. A Delicadeza de não se machucar.
Mas não sana. É insana esta lepra emocional. Jogando-se contra arames, coisa e tal.
No mais primitivo clichê de busca de sensibilidade.
É inverso, porém. (É verdade, é mentira) É a sensibilidade em demasia que te torna catatônica e  fria. O ceticismo absurdo que denota poesia. Andar no fim da linha e se sentir bem no começo. Juro por Deus, não estou protelando: Uma mente perturbada nunca sabe por onde seguir. Uma tempestade constante sente constância em cair. E um coração selvagem sequer sabe o que sentir.
"Está quente ou frio aqui, amigo?"
É a total incoerência das percepções múltiplas.
Seu coração está batendo forte?
Muitas vezes um ato de coragem é só um ato de burrice.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

"Tem alguém aí me ouvindo" - perguntei para dentro de mim.

Não, eu não quero escrever. Estou com medo, sabe? Tem coisas estranhas vivendo dentro de mim, numa casinha. Não deu tempo dizer as palavras, elas pularam fora, se vomitaram. Eu queria pureza, pureza numa mente perturbada, numa realidade doente. Todo passarinho que me mostra beleza, me mostra na sua beleza a feiura do mundo. Toda criança inocente que vejo na rua a brincar com seu irmãozinho me mostra em sua pureza o contraste com a realidade. Coisas felizes não me deixam mais feliz. Coisas bonitas me fazem ficar triste e me comovem, porque é trágico ver pontinhos de beleza dentro de um mundo feio, de maldade, de gente cruel, de ausência de generosidade.
Generosidade é sabedoria. Não tem doutrina, eu soube, não tem inteligência, livro, filosofia que traduza o modo certo. (Certo?) de ser viver, estar. Generosidade é aquele pontinho pequeno, branco ou preto qualquer cor, um pontinho tímido, quase inexistente, esquecido com certeza, precisando de alimentação para crescer, dentro da gente. A generosidade tudo entende, tudo aceita. Seria o amor, em um conceito real de amor, onde amor é um sentimento universal (eu sempre disse isso) e não direcionado. É tão raro amor. Amor não é bem isso que a gente sente pelos nossos pais ou que eu sinto pelo meu menino, não, acho que é diferente. Acho que amor, se alguém é (e algumas pessoas devem ser) capaz de sentir, quando se tem, é por tudo, por todos. "Amor de Deus". Que ele tem, segundo dizem as pessoas. Um amor sem restrições, um estado de espírito, alma, eu não sei bem que nome se dá. Mas algo assim, capaz de salvar o mundo. Eu não acredito em nada, mas nisso eu acredito. Nesse sentimento. É minha corda de salvação essa crença, mesmo que eu não consiga sentir isso delineado em mim. Mas é minha corda de salvação contra o meu próprio mundo em mim, que não consegue ver beleza, que ficou sombrio, que perdeu a infância e a juventude. Não sou ingênua como as crianças, não sou leve como os jovens e não sou sábia como os idosos. Sou uma adulta? Não, não é bem isso. Só estou um pouco triste.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

"Um trago para a rainha"

Tolo é quem não teme a noite, este demônio maravilhoso.
Ela suspira vento ameno pelas ruas de esgotos e lojas velhas no centro dessa cidade caótica.
Ela sussurra no seu ouvido uma e mais outra história, exibe seus dentes finos, contando baixo cada hora.
Só não teme a noite quem não a conhece, vadia e sem receios. Ela te beija, te enaltece. Te tira a roupa, te suga os seios.
Tolice não amar a noite, e não amar as coisas mortíferas.
Afinal, aquilo que te apaixona
Geralmente te tira a vida.

the horror

Vomitei e não saiu nada.
Vomitei meu nada, teu nada.
A ausência de algo que não existe.
As palavras entrecortadas, em silêncios que são navalhas tristes.
Os pensamentos que não tem hora, crucificando o sono tranquilo.
As cruzes e seus asilos, seus diários sacrifícios...
Eu gritei e não saiu som,
Não terei eu gritado em bom tom?
Algo profano sai de mim, de meu olhar. Posso ver você, ou a moça
que cruza a calçada, a ver, e se assustar.
Eu cuspi essas noites loucas e esses dias escuros, esse céu nublado ou este sol escaldante. Eu cuspi teus dias vazios, os abraços cada vez mais frios, eu cuspi a morte diária de acordar em meio ao nada.
Não se pode jogar o nada fora,
pois quando se tem ele,
todo o resto já foi embora.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Te.

Te beijo e choro.
Te tenho medo.
Laçou-me a vida,
sugou-me o peito.
Se te magoo,
É só pavor
Palavras feias
cheias de amor.
Te quero perto,
não sai jamais.
Me beija a boca
um pouco mais.
Quanto tu partes,
me parto em quadros
de tuas imagens
comigo ao lado.
Quando tu sais,
me leva a doçura
me leva a paz
sem tu, sou tua.
Quando tu estás
Felicidade.
Eu não sabia
que isso existia.
Todas as noites
te quero perto,
te tenho medo
te tenho afeto.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

You know you got it.

Me inquieto nos teus braços
E me encaixo em teus sapatos.
Forçando-te guela abaixo.
Te sufoco e te amarro?
Doce crime do padre amado,
Me condenes se tu fores a cela.

Ofereço a ti em um velho prato
Tão burlesco e descartável
Este órgão pulsante assado
Sangrento e regurgitável.
Toma, lambe, mastiga e cospe.
Que meu sangue seja tua tosse
E te acompanhe todos os dias
Doença da afeição minha.

Quero entrar em tua alma
Invadir-lhe as retinas
Roubar os pensamentos,
Desatinos, entrelinhas.
Coser uma teia doce
Das tuas mãos às minhas.

Não consigo ser tranquila
Não, não sei o que é tranquilidade
Tudo aqui explode e agita
E até meu amor é uma ferida que arde.

domingo, 4 de agosto de 2013

Cabidela

As estações nasceram e morreram no berço do calendário.
Os cabelos e sorrisos foram cortados e remodelados ao aço, ferro e pó das pegadas de quem esteve por aqui.
O chão é o mesmo, eu não sou a mesma. Já conheço essa casa, essas arestas das tuas falas, tuas curvas e verticalidades.
Já andei por aqui. Cheiro o ar, e ouço as vozes impregnadas nas paredes desses cômodos.
Engraçado como os caminhos se entrelaçam. As linhas prateadas - sempre avermelhadas - fazem nós e pergaminhos, traçam tranças nos cabelos das crianças. Nos caminhos, nas andanças. Em nossos passos, canções e danças.
O tempo passa, resumindo. Sorrateiro e surdino, na sua roupa de menino. Corroendo e diluindo, entre os dedos, em cada ninho.
Eu já nem sei quem sou: se no espelho me reconheço ou reinvento. Se nos lábios que beijo, desejo ou lamento. Se pelas páginas passadas me ergo ou destruo.
Não reconheço o sol de hoje. Ele nasce ardente e delinquente. Desesperado por gente quente. Afugentando os doentes, adoecendo nossas mentes. Morrendo às cinco e quarenta e sete, pontualmente.
E enquanto morre, me parto num quarto. Tatuando em tuas costas
Uns três poemas apavorantes. Adocicando com soda cáustica
esse caminho agonizante.
Absorvendo mais outro ser.

Vermelho é a cor do berço.
É a cor do desepero.
De meus lábios a teus pêlos
Vermelho escorre sombrio
Não há paz nessa cidade
Por aqui nunca se viu.

sábado, 27 de julho de 2013

Balada feroz

Tiro o gosto do teu rosto
Minha aposta, meu oposto.
Está frio aqui, minha criatura da noite.
Não tenho aroma de rosas, de baunilha ou morango.
Não sou uma das boas meninas. Te convido pro meu tango.
Sinto a distância na língua, te percorro em pensamento.
Toco o ar à minha frente, tua pele no meu vento.
Quero me enrolar em ti. Garoto-fauno, meu tesouro.
Eu vou te roubar pra mim. De amanhã ao tempo todo.
Não é saudável, eu sei. Quero te aplicar o meu veneno.
Fazer de ti meu amante, meu terreno e hospedeiro.
Quero te beijar na madrugada. Eu e você somos noturnos.
E me perder com você, no mais sinistro dos escuros.
Não existe amor infinito pouco,
Por isso te quero com todas minhas células.
Não quero só o límpido. Quero o confuso e as sequelas.
Minha paixão por você; é um espiral multidimensional
Você me ama também?
Desse jeito assim,
meio animal?

terça-feira, 14 de maio de 2013

In: Passe


A cigana e o coringa
Acertaram uma jogatina
O coringa embaralhou
Ágil como criança malina
O baralho de tarô
Da cigana misturou
Com os risos do traquina
"Não gostei das minhas cartas.
Não, para mim não tem graça.
Desse jeito, vou ter que virar o jogo.
Fazer das cartas, navalhas:
Especialidade da casa."

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Breve


As nuvens estavam baixas, o céu branco. Algum pingo de água ainda tocava o asfalto e por um momento foi possível sentir-se em casa.
Olhava para aquelas ruas familiares com uma expressão séria há muito tatuada no seu rosto.
Um ritmo antigo dançava em seus ouvidos.
Uma lembrança infantil correu-lhe entre os dedos, onde dançava uma moeda velha como distração.
Ouviu o silêncio, a medida do vento, o cheiro do chão. Parecia simples. Os estranhos ao seu redor, um canal desconhecido. Sua vida escondida de si, em uma garrafa jogada no mar. Onde estava?
Um livro, uma dança, uma piada sem graça. Fragmentos se espalhavam por aquele vento fora de época, como pétalas murchas estraçalhadas. Tinha um caminho a fazer, alguns prazos a cumprir, uns objetivos a realizar. Isso lhe tomava a mente, por enquanto. Mas vezenquando...

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Eu nunca vou mudar


Eu não quero dormir. É bom segurar firme que agora as coisas vão ficar selvagens na esquina da minha mente. Eu quero ligar o motor, e causar um apagão na cidade. Não existe meio-termo, nunca existiu. Eu vesti uma bela máscara, larguei meus modos antigos, pintei o rosto. Mas por dentro eu quero me rebelar, fugir. Largar essa cidade e esse país. Me perder sem intenção de me encontrar. Eu quero a água mais gelada em um dia de inverno. O pulo mais alto, o gosto mais ácido. Nunca nada vai ser entediante porque se você ouvir bem até o céu diz poemas de sangue, magia e amor durante a noite calada ou o sol excruciante. Se eu não puder ter o que eu quero, a meu bel prazer, bom, algum desastre vai acabar acontecendo.

Eu sonhei uma nação com minhas coisas preferidas na ordem que eu mais gosto. Eu sou egoísta, sim, sou o capricho do meu desejo, mas é seu o meu sentimento mais puro. Destilo a beleza de um amor correspondido para teu bem, meu bem querer... Destilo todo o melhor para ti, dessa minha essência de raposa inquieta, mas eu nunca vou mudar, não, eu nunca vou mudar...

domingo, 21 de abril de 2013

Doce barganha



Amanhece aqui novamente e como sempre eu não durmo.
Deitada nesse feixe de luz, meu olhar se desfaz em procura.
Em busca de ti, há tão pouco tempo nessa cama.
Em busca de sonhos, para te trazer para mais perto.
Em busca de palavras, para te mostrar com clareza.
Mas não tem jeito, não mais
Vendi meu talento pelo teu amor. A barganha mais linda que já me aconteceu.
Me tornei tosca, débil, repetitiva. Foi o que a cigana disse: Te tiro o gingado, te dou a vida.
Sou parte do todo agora, roubaram-me a tristeza. Em troca, me jogaram num mar dos furacões mais lindos da America Latina.
Todo dia é sufoco, todo dia é poesia. Não sei mais traduzir, meu vocabulário se esvai. E eu queria tanto registrar aquele sorriso extraordinário que só você faz.
Tento te escrever, criar danças de palavras. Uma hai kai, um poema. Uma frase ou o que o valha.
Mas o que apita no meu peito, é Eu te amo, eu te amo, eu te amo. As velhas palavrinhas que são o que se aproxima mais de dizer que te quero todos os dias do ano.
Que só você me dá a paz, que eu jamais achei que existia.
Que teu abraço me leva de carona para o País das Maravilhas.
A verdade é que eu não preciso mais escrever para procurar meu lugar no mundo.
Eu o achei bem aí, no meio desse abraço quente.
O encontrei no teu olhar, na tua barba, na tua mente.
No teu amor maravilhoso, que corresponde o meu ao todo.
Minha confusão diminuiu  Minha tristeza se dissipou. Meu ceticismo, alguém aí viu? Acredito para sempre nesse amor.
Você, meu espírito de fogo, é a minha poesia viva.
Se não se importar, gostaria de te escrever
Milhões de beijos todos os dias.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Abstenção

Ela se absteve de escrever um texto.
Ela tinha tudo em mãos: A caneta, o pretexto.
Mas foi dormir com o oposto do beijo.
Não houve urro; impulso ou desejo.
Estranhou o vazio que a abraçou na cama.
Logo ela, a menina que tanto ama...
Ia escrever sobre o olhar vazio
De um rapaz outrora tão belo, agora retrato frio:
Sobre o esfriar do elo.
Mas pareceu-lhe um tema tão superficial
escrever sobre coisas já enterradas...
Que pela primeira vez sua mão falhou no ato;
e para acompanhar-lhe não restaram nem lágrimas.

É claro ver quando um assunto esgotou.

sábado, 6 de abril de 2013

Descrição imprecisa


Vai saber.
Entrou sem pedir licença,
Me encheu de reticências,
Enquadrou-me no clichê.

Agora tudo faz sentido
Essas músicas e livros
E até os quadros mais bonitos
Comecei a entender.

Explicar?
É contraditório descrever
Algo que te alegra e fortifica
Te transforma numa ilha
Com somente um habitante.

Mesmo assim,
Te enche de medos estranhos
E sensações inexplicáveis
Pega o controle da tua mente
E muda os canais à vontade!

Te faz crente e medrosa
Corajosa e inescrupulosa
E é tudo ao mesmo tempo
Com tempero e fermento
Batido no liquidificador.

Fui olhar no dicionário
Consultar os universitários
Fui até aos mestres sábios.
Que ironia, me disseram,
Não é que você está falando de amor?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Tik Tik Boom


Bolas de fogo que se chocam, implodem.
Aperto no peito, vulcões de emoção.
Maldita seja essa intensidade doente,
Mal digam minha atração pela contramão.

Jogo tudo, não meço a queda.
Viro lava ou iceberg.
Se não te ignoro, te dou muita trela.
Se não te escanteio, peço que me leve.

Não sei ir devagar, no limite de velocidade.
Imagine então medir as palavras.
Impossível moldar minha mente selvagem,
Contar até 10, bancar a covarde.

Quero tudo do que eu quero,
Não aceito uma migalha a menos.
O que não gosto, eu renego.
Amor ou ódio aos quatro ventos.

Voltei a escrever, parei de beber.
Os tempos tem sido selvagens.
A mente enlouquece, o pulso estremece.
O coração é um músculo elástico.

Já vi tanta coisa, andei tanto chão
Nesses curtos vinte e um anos.
Metade esqueci, deixei na estação.
O resto me acompanha nas retinas.

Todo mundo tem segredos, e eu não sou exceção
Mas tudo que eu queria era calmaria.
Engraçado que encontrei, num rapaz de olhos pântano
E de repente, tudo agora é euforia.

A lover of the wild and a joker of the heart



Ah, vamos lá, quero devorar seu coração.
Te amar bem devagar e depois com a força de um vulcão.
Chega cá, dorme aqui. Pode ficar bem à vontade.
Sem etiquetas, ou linhas retas. Eu sou uma junkie da liberdade.
Eu te dou o mito e também te dou uma garotinha assustada.
Vou me sujar com você num pântano de sonho e de graxa.
Te levo para o começo de tudo, basta segurar minha mão.
Não vai faltar intensidade e mil cores novas vou te mostrar.
Quero quebrar os seus padrões, te mostrar um novo ponto de vista.
Te levar para o olho do furacão ou para o meio fio da pista.
Então sim, me dê sua mão, você pode vir comigo.
Mas vou avisando de antemão, existem caminhos mais tranquilos.

sábado, 2 de fevereiro de 2013



Ah, mas está tudo escondido. Está tudo muito bem escondido. Entre uma camada, e outra, e outra de intenção.
Eu nunca mais falei nisso, nunca mais contei sobre isso. Gostaria sentar-se e ouvir. Uma história camuflada, pois não? Mas pergunta-se o que está omisso. Pensa a noite inteira nisso. Não parecia compreensível tentar remasterizar a canção?
Faço muito pouco caso. De tudo que se varre para debaixo do casco. Mas na hora de dormir, o pensamento volta em trovão?
Eu não sei o que aconteceu. Fui dar uma volta lá fora. Sentir um sabor diferente. Quem saber até conhecer gente. Feita de pele e de osso, e não de lágrima e criação.
Ninguém sabe o que ocorreu. A escritora, será, morreu? Fica difícil explicar? Te deixo com a dúvida e a intuição.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Reticências


Sejamos realistas, meu bem.
Não dá mais para manter isso dentro de mim.
E eu sei que você se sente confuso também
Mas coube ao destino nos decidir assim;

Você nem imagina como me sinto culpada
E todos que dizem que essas coisas são fáceis...
E como no final eu estava errada
Ao subestimar toda nossa complexidade

Temo, ao me afastar de você, congelar
Voltar a ser o ser inócuo que era antes de você
Temo não conseguir mais respirar
Sem o ar compatível que só tua alma pôde trazer.

Mas é isso, o que é isso, o que faço eu?
Não consigo parar de me perguntar se fui responsável
Por você não mais querer ser complemento meu
Por eu não ser mais o teu abraço mais confortável.

Eu poderia dizer que acabou essa sequência
Cada um para seu lado, daqui a 20 anos nos revemos
Mas prefiro nos permitir as reticências
A esperança é o mais doce dos venenos.

(Estou já me acostumando
A levar nossa história no bolso
E com ela, diariamente,
Salgar um pouco o meu almoço.)


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Semáforo


Paramos no sinal vermelho.
Se fosse uma metáfora, não seria tão certeiro. Paramos no sinal vermelho.

O vento da avenida pelas janelas, o cheiro da noite da sua cidade, o silêncio resultante da nossa impossibilidade de ir adiante. O círculo vermelho nos encarava, como um retrato perfeito da nossa situação. Estáticos e calados,  encarando o semáforo que não nos mostrava nenhuma saída possível. Era o fim da picada, da linha, do filme, do livro, de todas as possibilidades de avançar. Sua mão no volante, meu rosto imóvel em frente: Dois cúmplices do mesmo crime, vítimas do mesmo destino, tão perdidos no mesmo redemoinho, que doía. Saber que em frente não havia saída tornava tudo um sono doloroso, cansado, conformado. 
Olhei de lado e vi sua mão. Mão de dedos tortos e unhas de criança que em outra época eu observava enquanto escrevia, de modo engraçado, como letras redondas demais, tão assimétricas e confusas quanto sua linha de raciocínio única, que me fascinava em todos aspectos: Fruto de um ser humano filho da natureza. E escrevia enquanto eu olhava de lado numa aula entediante na sexta de manhã, esperando que acabasse para poder segurá-la ao redor da minha, como se minha fosse; Tão banal movimento, mas que me mantinha segura no chão. Sim: Sua mão era minha âncora e nela eu me segurava contra toda a tragédia que pudesse abater o mundo. Assim como me puxava numa travessia insegura à rua de trânsito selvagem, onde eu não me importava em ser displicente e leite moça porque você café me fazia sentir-me eu e me sorria com os olhos, grandes, cheios de cílios como se me dissesse que estava em casa, e que só eu ganhava aquele olhar.


Um olhar que se transfigurava em mais claro ou escuro, em momentos de intensidade, onde eu via em seus olhos um dos muitos você: O que com suas mãos macias e seguras segurava minhas costas sem piedade e me beijava de modo incandescente só ao me olhar com aqueles olhos escuros: Me beijava com palavras e com sua compreensão. Sua alma beijava a minha, pelo simples encontro de nós dois, seres humanos. 
Te via agora, a mão no volante o olhar em frente. Um olhar vazio e triste, repleto da melancolia de nosso sinal vermelho. Um sinal vermelho que parecia durar para sempre enquanto na minha mente confundiam-se você agora e você que eu amava e eu percebia que eram exatamente a mesma pessoa, fosse com a voz irritada de quando perdia a paciência, com o cabelo molhado depois do banho, com o sorriso bestão de surpresa e carinho ou o riso sarcástico: raro e valioso. 

Era você, com sua vivência, sua dor, sua confusão, seu abraço quente, sua mente linda, sua mente sombria, 
sua vida: Uma borboleta pulsante que me sorria porque dizia que nunca deixaria a minha. Que a linha vermelha ou prateada era mais forte que isso. Que o beijo não vem da boca. Que o amor tem mil formas. Que pedras preciosas nunca morrem, mas somente se transformam em algo igualmente valioso, mas diferentemente lapidado. E que, principalmente, nosso encontro aconteceu antes que pudéssemos prever e nunca iria acabar. 
Seu rosto olhando em frente. É verdade, pensei. E via o brilho, mesmo agora, pulsar em seu olhar. Como um dia pulsou em brilho e sorriso o olhar de um menino cujo nome eu ainda nem conhecia, com o maior
sorriso do mundo: Caderno não mão, em frente a um campus de faculdade... Sorrindo sem nem saber se eu sorriria de volta, se eu sabia quem ele era; Com paz e tranquilidade. 
"Deve ser um anjo", disse minha irmã, ao lado.
Olhei para frente, com um leve sorriso.
O sinal ficou verde.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Disparate

Abre a janela. Acorda. Levanta pro dia.
Mergulha num mundo. Mergulha com força. Menina-leite-moça.
Lê um poema. Passa o batom. Sem diferença. Ô madalena.
Coleta uns corações. Umas cartas na manga. Me joga na cama. Lambuza de lama. Se joga em euforia. Se enforca de amor. Aprecia detalhadamente as peculiaridades da dor. Se livra da raiva, ao inferno com a vingança. Nunca mais jogou seus joguinhos; Saudosa menina-criança.
Considera tudo. Abre a mente. (Como diria alguém), muda logo tua lente.
Sai sem rumo. Vai pro mundo. Besouro da noite, aprendeu a voar.
Olha um retrato. Pensa no passado. Ternura com a lembrança. O passado passou, de fato.
Abre as cortinas. Sonha com colinas. Um dia essa rua toda será minha.
Olha o futuro. Retrato escuro. Mas acende as velas, tudo posso clarear.
Um devaneio por aí, ônibus para distrair. Olha bem no espelho: Nunca mais vou me trair.
Não conta as horas. Sempre odiou relógios. Você fica muito melhor de óculos.
Sai atrasada, chega mais tarde. Tudo bom, seu josé, como vai dona Marte?
Decisões acolá. Uns pulos a dar. Quem iria imaginar? Menina-criança numa mesa de bar.
Me passa um whisky. Queima a língua. A cortina fechou, bailarina. Agora sem mais conversa de botas batidas*.


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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Weltschmerz


Caindo aos pedaços. Lentamente caindo aos pedaços. Como uma pena ou uma nuvem, se dissolvendo no céu, no reflexo do mar, numa rajada de ar. Uma árvore velha, aos poucos envergando o tronco ou simplesmente o tempo, o temido tempo, diluindo os anos. A morte, ela acontece centenas de vezes todos os dias, durante uma vida. Umas doem mais que as outras, geralmente as que ficam te encarando, morrendo e andando, morrendo e andando. Caindo aos pedaços, já sinto as rugas que ainda não tenho no rosto. O sabor de um beijo cada vez tem mais gosto de desgosto. E os pedaços de tudo que me cerca, como um quebra cabeça cadente, e os passos de todos da minha cela; Cada vez mais fracos e inaudíveis.
Vejo meus heróis caindo, diariamente. Vejo toda a dor do mundo invadindo minha mente. Fazendo de mim emocionalmente inutilizável, espiritualmente demente. Me torno um belo copo de cristal quebrado, preciso de ar urgentemente.
Caindo aos pedaços, eu não sei morrer. Por que é preciso a morte para se poder renascer? Por que lembranças velhas têm que dar espaço a novas andanças? Porque o universo não pode somente sempre se expandir: Passado, presente e futuro numa caótica dança?
Não quero morrer, mas é muito difícil viver. Então vou levando, eu e toda a dor do mundo que em nada me pertence... Mas que sentimento imundo, mas que dor indecente. Que desejo egoísta de tudo, quando já tenho tanto à minha vista. É verdade, Freud, sou uma psicótica idealista. Minha psicose é a ânsia pelo que nunca virá, a incapacidade de encontrar meu lugar, a doença insuportável de pelo doce, completo, pacífico, natural, coletivo, eterno e banal ansiar.