Eu vi, eu me lembro bem
Quando a água tocava meus seios, crescentes
E eu sentia vergonha em o tempo estar passando.
Era em tardes deitada num sofá, que a sensação me envolvia
Me deixava com medo de estar perdendo minha inocência.
E tudo que eu queria era me enrolar, pequena, no colo da minha mãe
Sem qualquer coisa que me dissesse mulher.
No fundo, eu já sentia o gosto do tempo.
O temoroso, sempre passante, tragando tudo a seu redor.
"Tempo, mano velho", inesquecedor* acertador de contas.
E me perdoe os neologismos, mas são avisos
De tudo que ainda não existe, se aproxima de ser criado.
Hoje tuas mordidas amargas
Marcam meu pescoço como navalhas antigas.
Uma mão de rapaz, na minha pele de criança
Certas horas tudo isso está errado,
Ainda não tenho nem 10 anos.
Quero ir para o colo da minha mãe numa tarde de domingo
Tocando Belchior na felicidade fabricada
da varanda da minha casa.
Ah, meus olhos estão apagando.
O tempo traga toda a doçura dos nossos anos.
Nada é permanente, triste obviedade.
Nem a tranquilidade da infância.
Hoje tudo está um caos.
As paredes estão ruindo.
Minha casa não está sorrindo.
E você, meu velho amigo,
meu eterno adversário,
Tempo, mano enjaulado.
está agora bem acordado.
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