Uma das coisas que mais me impressiona em algumas espécies do reino animal, é a incapacidade de aprendizado com a experiência. Um exemplo próximo que sempre me angustia são as muriçocas da minha casa. Mesmo sendo enxotadas, encurraladas no espaço entre as duas mãos e quase mortas repetidas vezes, elas voltam exatamente ao mesmo lugar que tentaram morder (perna, braço ou o que seja) demonstrando pouca ou nenhuma capacidade de aprender com a experiência e não repetir o erro.
O que eu tenho percebido, no entanto, é que minha espécie não é muito diferente dessa muriçoca. Vamos a outro caso prático:
Ontem eu assisti um filme muito bom e triste chamado "Like crazy" que cometeu a rara proeza de corresponder à realidade. É a história de um jovem casal que se ama profundamente, mas passa por inúmeros obstáculos e mágoas a ponto de estarem ao final tão cansados que quando finalmente superam as dificuldades e conseguem ficar juntos, sentem o vácuo tomar conta do que outrora era encantamento. Esse finalzinho não é dito, mas não precisa, porque é representado com perfeição e genialidade pelas expressões dos atores em uma dramática e sutil cena muda no chuveiro.
O final é óbvio, apesar de não ser falado. É um final triste, um final real.
Quando acabou o filme, eu encantada e desconsolada fui, como sempre faço, procurar resenhas e comentários na internet e ver se minha opinião batia com a dos outros telespectadores.
Para minha surpresa, no entanto, comecei a ver dezenas de comentários, tanto em vernáculo como em inglês, falando sobre "que lindo final feliz, eles finalmente ficaram juntos e perceberam que tudo valeu a pena e iriam se reconstruir".
Espera aí, pensei. Não foi nada disso não! O que houve foi uma cena triste, com uma música de fossa, com expressões de mágoa e um olhar desesperador. De onde vocês tiraram o final feliz?
Mas aí entendi. As pessoas muriçocalizaram o final. Mesmo vivendo aqui, no real world e conhecendo e passando por relacionamentos de todos os tipos, sentindo o desgaste que as mágoas trazem, vivendo na pele como o ser humano é imperfeito, como as coisas tem início, meio e fim, como a gente muda o tempo todo e os sentimentos mudam e as coisas acabam terminam, nada mais natural, os telespectadores (em maioria) desse magnífico filme, insistiram em acreditar que aquele era um final feliz.
O que é isso se não a incapacidade de aprendizado com a experiência?
Aqui acolá eu via um comentário sobre a beleza desse fim triste, mas essa era a exceção. O que ficou claro foi nossa tendencia a insistir em erros, no caso, ilusões sobre a realidade, com uma tentativa frágil de fazer as coisas parecerem mais belas.
Mas o que é ser belo? Finais água com açúcar nada reais? Ou desacreditar na existência de "finais"? Por que é tão difícil aceitar a realidade dura e fria? E por que achamos a realidade dura e fria, se é nada além do curso natural das coisas?
Levando isso um pouco adiante, percebi que talvez só achamos a realidade dura e fria justamente por causa das ilusões que nos são apresentadas como possibilidades, como se reais fossem. Acreditamos que isso pode acontecer (isso = relacionamentos com "fins" felizes e sem problemas, uma vida profissional de sucesso sem muito esforço, uma vida familiar e social pacífica e sem diferenças.. e a lista continua) e diante dessa possibilidade, todo o resto parece frio e cruel. Mas não é, é só a vida.
E isso se aplica a tudo. Alimentamos ilusões em todos os campos e quando uma desilusão acontece, ficamos tão tontos e confusos quanto a muriçoca depois de escapar de raspão. Mas não temos o preparo suficiente para nos adaptar à realidade de cara, a lidar com a naturalidade dos acontecimentos, por isso ignoramos todos esses sinais de como as coisas são e mesmo depois de ter isso esfregado em nossa cara, nos apegamos de volta à velha crença ilusória, ignorando a realidade dançando na nossa cara, e voltamos a morder o mesmo pedaço de pele no exato lugar que acabamos de tentar.

Mais cedo ou mais tarde ela bate na porta, a realidade. Para uns é uma verdadeira quebra de pernas. Alguns não aguentam. Outros, suportam, as duras penas. Me pergunto qual é saida... desistir e se entregar ao curso das coisas ou fugir tentando fazer algum significativo, mesmo pagando todos os preços por essa escolha? Ou algum bendito equilibrio entre esses dois extremos, se é que esse danado desse equilibrio, tão adorado, tão pregago, tão venerado, realmente existe?
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