quarta-feira, 2 de abril de 2014

Variações sobre um tema antigo

Ela despiu-se sem nem um pouco de pressa.
Tinha esquecido da furiosa sensação da sensualidade.
Sua pele alva era também muito fina, como se esticasse sob seus osssos.
Seus olhos ficavam escondidos por cortinas de cabelos, enfurecidos como o de uma criatura angelicalmente selvagem.
Caminhou até o lençol, estendido ao chão. Poderia ser terra em que pousava seu corpo, podia ser grama em que arrastava suas coxas, podia até ser água. A verdade é que era sonho.
Não era noite, como você pode ter pensado a priori. Estava claro e a luz solar desenhava os formatos de folhas cadentes. Feixes de luz rosa alaranjado incidiam no chão ao seu redor. Tudo à sua volta era dislexicamente desordenado, incoerente, encantado. Um mundo sem inibições.
A criatura à sua frente, escondida por um véu, era toda e qualquer figura que refletisse em seu espelho oposto.
Era o que o tato de sua mente inspirava, nas projeções coletadas por experiências ou percepções. Tinha muito a ver com os impulsos mais primitivos, no sentido não animal, e sim cândido da palavra.
Instinto é uma palavra mal interpretada, por vezes. Apenas animais tem instintos meramente carnais. Anjos possuem instintos de doçura, por vezes mascarados pelo sombrio à sua volta.
Assim, sob aquela criatura para a qual estendia agora os dedos finos, na intenção de tocar-lhe o rosto, residiam as imagens mais inesperadas.
Uma moça de pele macia, um rapaz de olhos sorridentes, um conhecido de possibilidades reconfortantes, seu próprio reflexo, talvez?
A sensualidade é um estado de espírito, um encontro consigo mesmo.
Afundou as mãos sob aquele véu,
e o que encontrou foi infinito.

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