Há uma lua tatuada em minhas costas, derretendo com palavras sóbrias.
Ele me disse que eu era a coisa mais pura que já conheceu. Eu não sei, já me chamaram de tantos nomes. Usaram-me o corpo e as palavras.
Mas a pureza independe disso?
É engraçado.
Faz 22 anos que estou nesse mundo. Pouco mais de 10 que me sinto hiper consciente. Sinto já ter vivido uma vida inteira até a velhice e a consequente morte. Me sentia tão cansada tempos atrás, como se fosse minha despedida.
Estou agora na minha segunda vida, regredindo cada vez mais a uma fase anterior. Tornei a me lembrar do cheiro da infância, aos poucos. Do mundo fantástico que cabe em uma mente.
Eu nunca fui adulta, não, tendo passado da infância para a velhice, como uma anomalia sentimental.
Minha boa memória que sempre foi minha algoz, passou a ser meu passaporte para a sanidade.
Lembro muitas coisas, se pensar bem. Lembro do rosa-choque, das caixinhas de músicas, da solidão infantil, dos ovos de páscoa, da confusão e medo, das pequenas sensações especiais de quem apenas sente e não racionaliza.
"Você pensa demais", disseram-me praticamente todas as pessoas que já conheci. Falando sempre sensorialmente para tentar compensar minha hiperracionalização.
A infância é uma parte muito importante da vida, talvez a mais, como diriam minha mãe e a maioria dos psicanalistas. Minha primeira morte se deu quando eu desisti da infância, engolindo uma dor que não me pertencia. Deu-se quando eu comecei a entender coisas que me fizeram desacreditar na magia. Deu-se com meus ídolos sendo mortos pela lógica e racionalidade e com a desfiguração de imagens cultuadas, pouco a pouco, diluindo-se em fatos. Deu-se com meu descaso ante meu corpo e mente, pautado em premissas lógicas e negação religiosa.
É possível se perder na razão, é possível enlouquecer sem maiores estímulos.
Deixar de procurar passagens secretas e bosques com fadas. Isso pode parecer uma metáfora, mas pode também parecer muito real. Por que não? Esse é um texto sem um sentido exato, feito apenas porque me propuseram escrever algo novo. Mas sentido por todas as células de uma criança, uma idosa e atualmente uma pessoa sem idade que tenta conservar sua lua.
Sem consciência de um possível apego, deixamo-nos guiar...
ResponderExcluirFui os extremos por vezes, infância e velhice, por motivos outros e múltiplos; Um deles foi medo da racionalização exagerada - o irreal é minha válvula de escape. E as duas fases me trazem algo libertador, uma espécie de descompromisso com o cotidiano mecanizado. Porém, quase sempre ia guiada por alguma angústia, não era um processo natural.
Não ter idade é a melhor das sensações. É o criar...
Você escreve algumas coisas que parecem estar dentro de mim, só que de forma diferente. Por isso gosto de ler esse blog e acabo criando apego por alguns escritos ou expressões soltas.
Já respondi teu comentário por facebook, mas para não deixá-lo sozinho aqui, apenas reiterando que fico muito feliz com as identificações. Fazem com que o mundo pareça um pouco menos solitário. Grande abraço :)
ExcluirCara Kristal
ResponderExcluirDeslizando pelas suas linhas me lembrei de uns momentos de sonho...
De vez em quando encontro (num corredor mental ou num excesso de busca por quem eu sou) com um certo garoto que fui, ha mais anos do que posso contar em idade biológica.
Foi ha tempos e eu, das poucas certezas que tenho, tenho esta que me vem de uma sensação; a de que não tenha nada, além de idade.
Idade demais.
Mas eu me lembro da infância como quem se esforça para se lembrar dos detalhes de um sonho bom, sem o conseguir.
Me lembro de passagem do cheiro de córregos limpos, de joelhos esfolados e dias infinitos.
Mas o infinito durou pouco.
O que eu realmente gostaria, é de que quando eu encontrasse por acaso esse garoto que fui, fôssemos amáveis um com o outro e ele não me olhasse com rancor pelo que me tornei e eu igualmente não o olhasse com olhos invejosos pelo que não sou mais...
Perdoe a enormidade do comentário.
Luiz, que tristeza singela eu senti quando li seu comentário.
ExcluirTantas vezes já me senti envergonhada pelo que minha criança antiga pensaria de mim e com certeza absoluta com inveja de sua doçura.
Mas creio que sempre há tempo de voltar para um estado de espírito anterior, como que visitando uma casa antiga. Pelo menos é o que sinto acontecendo comigo ao sair da eterna sensação de cansaço na qual me encontrei por tanto tempo.
Desejo sorte nesse seu encontro. Um abraço.