Uma brisa leve,
uma folha seca.
Mas são só marcas antigas, encrustando em sua pele
Infeccionando as feridas.
Parece um gosto amargo na boca,
Uma ressaca de substâncias que não ingeri.
Ando por aí nessas ruas cor de cinza,
Moças se empertigam, vulgares,
Como eu uma revista de mau gosto.
Homens arrotam fragilidade
Em forma de estupidez e violência.
Em tempos assim modernos,
Tudo é banal.
Vejo estranhos trocando insultos disfarçados de sorrisos,
Nominando-se de "amigos".
Vejo uma competição insana e cansativa, buscando-se ostentar títulos diversos.
Vejo maquiagens diversas, de várias espécies.
Mas por trás de tudo isso,
Vejo o medo.
O medo é onipresente.
Ele deriva do ciclo eterno de machucar-se e machucar.
Ele nasceu na infância, desenvolveu-se no mesmo ritmo de seus hospedeiros, e na fase adulta tornou-se crueldade.
A fraqueza é perigosa, ela tende a buscar enfraquecer quem está à sua volta...
Na vã ilusão de fortalecer-se.
Mas isso nunca acaba,
não é?
Existe um gosto um pouco doce na derrota,
na incapacidade.
Uma liberdade tranquila em aceitar a própria imperfeição.
Por que não?
No entanto, no lugar dessa doce tranquilidade,
Temos essa legião de crianças crescidas,
Incapazes de lidar com suas próprias feridas,
Acostumadas a pequenas decepções.
Tornando-se cada vez mais ariscas.
Hoje em dia esse mundo é um pouco sombrio
por causa de todas as solidões.
Então as pessoas, como as plantas, murcham aos poucos,
ao passo que envelhecem.
E vão ficando tão frágeis,
que passam a reagir mal à beleza.
Se desacostumam.
No nosso mundo,
hoje em dia.
As pessoas se emocionam com elogios,
elas ficam sem jeito,
e geralmente elas choram.
Porque já não é muito comum.
Será que um dia já foi?
Elas se transformam em crianças quando alguém as elogia,
Mas já se acostumaram com críticas.
Elas ficam sem jeito com olhares,
mas se acostumam com abraços rápidos.
Quanto mais escuridão a gente recebe,
Mais a gente transmite.
Mais a gente se encolhe.
Ah meu Deus!
Que me coração conhecesse
Essas coisas que minha razão entendeu!
Kristal...
ResponderExcluirHá uns dias me formigou uma sensação de irrealidade dentro da realidade (ou de realidade dentro do irreal) e eu quis muito escrever sobre o teatro da humanidade, sobre o que parece ser a eterna iminência de algo que as pessoas esperam vir a ser, enquanto negam para si mesmos que são homens e mulheres.
Não consegui escrever (não completamente), porque era daquelas sensações furtivas, que ficam no canto periférico da nossa visão, mas que nos escapam caso as olhemos diretamente.
Talvez a poesia seja justamente isso: A forma inexata do que a nossa compreensão não dá conta de descrever (mas,claro, essa também pode ser uma compreensão errônea de minha parte do que é poesia).
O que fico ainda na dúvida, é se nos esquecemos de como sermos humanos ou se isso é algo que nunca nos foi ensinado. Por que, concordo com a genial Simone de Beauvoir, que o que nós somos não nos é dado pela natureza, mas pelo contexto social, cultural e histórico em que vivemos.
E nós estamos sendo estimulados a vivermos segundo padrões inalcançáveis de beleza e perfeição, a sermos deuses, sem que nos sejam dados os mecanismos necessários para viver a altura dessa divindade.
Ensinam-nos a sermos vitoriosos, mas quem é que nos ensina a admitir uma derrota ou a errar e aprender com os erros?
Eu vou me arriscar a fazer um elogio deste seu texto (e digo "arriscar" justamente porque a arte do elogio é sim permeada de medos, pois temos tanto medo de receber elogios quanto de dá-los), não pela sintaxe ou pela maneira lírica com que seu raciocínio foi se delineando em versos, mas porque, receios à parte, enquanto este mundo não se torna mais escuro, devemos deixar as pessoas saber o quanto a inquietação delas fala a nossa inquietação e a que nível de reflexão elas nos levam.
O que, porém, ainda vai me valer algumas noites insones e dias de sonambulismo, é que comigo se dá o oposto e minha razão não consegue apreender o que tão pesadamente me vai ao coração.
Parabéns pelo excelente texto, Kristal!
É sempre intelectualmente estimulante visitar este seu espaço.
Ah, e, por favor, perdoe a enormidade do meu comentário...
Luiz,
ExcluirQuando você fala de uma sensação de irrealidade dentro da realidade, me dá vontade de entrar na sua mente para entender esta sensação e se ela tem semelhança com as que sinto.
Achei incrivelmente assertiva sua descrição das sensações que ficam no canto periférico da visão e que fogem quando tentamos descrevê-las, porque isso é algo que sinto - e lamento, quase sempre, inclusive neste texto, que sinto que resultou-se um feto mal formado de uma sensação que em absoluto não consegui traduzir - ou ao menos é o que eu achava, até ver seu comentário.
Para mim, particularmente, escrever é sempre tentar traduzir sensações, para quem sabe conservá-las em um retrato escrito e poder sentí-las novamente, toda vez que o ler - mesmo quando negativas.
Agradeço pelo elogio e pelo pensamento que ele trouxe, sobre a íntima exposição que é escrever sobre sentimentos e sensações no que, na verdade, creio ser uma busca por identificação. Assim como o próprio ato de ler textos.
Agradeço pelas suas palavras, que me deixaram reflexiva e pela delicadeza de expressá-las.
Um grande abraço.
Kristal...
ResponderExcluirEscrever é realmente traduzir sensações e, quase sempre, uma tarefa na qual sentimos de um modo bastante agudo a nossa imperfeição, porque sentimos sempre que aquilo ficou incompleto. Traduzimos, mas como toda boa obra, fica sempre um quê de falta, de incompletitude. É como sinto...
Penso que toda inquietação é meio gêmea de outra, mas estes hiatos que surgem (quando tentamos descrever isso que se esgueira a margem de nosso pensamento), nós tentamos preenche-los quando lemos os outros. Então, de minha parte, ler textos, especialmente textos como os seus, é uma tentativa de conseguir ver em 360 graus aquilo que no todo me escapa.
A dialética entre o que escreve e aquele que lê é, talvez, uma modo de preencher mutuamente esses vazios necessários á nossa inquietação.
É o aço afiando o aço.
Quando leio e vejo que pessoas diferentes de mim (e entre si), mas iguais de um modo subjetivo, pessoas separadas por tempo, espaço, circunstancias e história pessoal tão à parte do que me constituiu e que chegaram às mesmas percepções que eu (ou a muitas que ainda não alcancei) fico abismado pela multiplicidade de caminhos que se pode seguir para chegar a um mesmo lugar de saber (ou consciência de não-saber) e curioso sobre como e o que são estes caminhos.
E então quando leio certos textos sou tomado por uma sensação que só posso descrever como a mais profunda reverencia.
Deixo o meu sincero muito obrigado por você dividir a sua inquietação com o mundo, porque mais gente do que pensamos se beneficia disso.