segunda-feira, 30 de junho de 2014

Tralhas, navalhas e desculpas esfarrapadas.

Você não me conhece.
Conhece pedaço unifacelado de mim.
Ilusão fotográfica, por vezes fotogênica,
Definível apenas por ocasião.
Enxerga o que preferes: O que te traz conforto ou agonia.
E Deus sabe como nos agradam ambos.

Conheces um rosto pálido,
Dois olhos opacos,
Um sorriso fácil
ou um corpo juvenil.
Algumas palavras de praxe,
ou gesticulações.
Um sarcasmo afiado:
uma partitura limitada de reações

Porém, minha face é um prisma.
Minha substância oscila entre fogo e tédio.
Você me encara, interrogativo. Como se isso me impusesse qualquer obrigação.
Me faz perguntas, me cobra prazos. Me julgando escrava de uma religião que não inventei.

Consciente da sua aflição, te encaro inconveniente.
Passam direto por mim tuas necessidades.
São areia ao vento, são bolhas de sabão que nunca nascerão.
Sei da raiz e dos frutos de tuas palavras.
Vaidade aborrecida...
Poderia te dar teu circo ou teu pão,
Ser a mão que te alimenta...
Poderia, então, não fazê-lo apenas para te ter refém.

Mas nenhuma intenção agora me atrai.
Nem meu riso seco se faz presente.
Apenas te olho.
O fantasma da minha meia noite.
Um dia ainda hei de inalar-te.
Devorar o teu corpo magro, com cicatrizes sob as costelas.
Engolir teu rosto fino em mordidas com sabor de madeira.
Ainda vou adormecer-te e então te matar em mim.
Enquanto isso vou te amar, com um sentimento bem mais violento que o amor.

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