- Eu não tomo nenhum interesse por sua fraqueza.
Ela disse, com toda franqueza. Tragou a fumaça do cigarro e deixou a cabeça cair para trás, vendo os azulejos deprimentes daquele cômodo.
As coisas que lhe desinteressavam, escorriam-lhe pela sensibilidade, como areia. Não tocavam mais sua alma os sentimentos daqueles que não amava.
Mas a um único princípio mantinha-se fiel, e este era o respeito. Era porque respeitava mesmo aqueles a quem sentia-se indiferente que recusava-se a sentir pena deles.
Ele olhou-a inconformada. Seus olhos eram confusos e indignados em frente a rejeição. A maioria das pessoas sente-se assim: Inconformada com a ideia de que outrem não precisa de si, e que sequer finge precisar.
Ela apertou os olhos e viu naquele olhar de inconformidade, mágoa e pequena luta, tantos outros que já estiveram em seu lugar.
Humilhando-se em pedidos vãos, em objeções em face de uma reconsideração. Só não era uma verdadeira humilhação, de fato, porque ela não tomava prazer por este momento e era ainda capaz de compreender a luta vã.
O que não a sensibilizava, então, era o fato de que as pessoas apenas lutam contra o "não". Elas lutam contra a negação de si.
Aquele homem a sua frente, que por outras vezes foi outro homem ou uma mulher ou qualquer pessoa que ceifara de sua vida, pouco importava-se com a ausência de sua presença. Pouco importava-se com a saudade, embora cresse diferente. O que doía em seu âmago e o fazia refutar a negativa permanente dela era apenas o descarte.
As pessoas que recusam ser deixadas, dificilmente o fazem por amor e sim pela inconformidade com a ideia de não ser necessárias.
Nada mais natural, afinal, somos o centro de nossos mundos - Pensava ela, filosófica e pouco atenta à real cena que passava-se a sua frente - sendo assim, tão prioritários a nós mesmos, é uma verdadeira negação da realidade, um outro alguém - ousado outrem! - nos negar em seu universo. Abdicar da nossa presença.
"Com que direito negou-me, Cathy?" - Perguntava-se Heathcliff.
Mas não precisava ser um a alma de outro como os históricos anti-heróis, não. Naquela situação mesmo. Mulher de olhos que pareciam ser frios em frente a homem de coração que a um estranho pareceria ser partido, já via-se a inconformidade quanto a rejeição.
E quanto ela detestava aquele sentimento!
A verdade é que embora por esse tipo de atitude fosse julgada fria, empatizava perfeitamente com a dor à sua frente. Era compreensível e quase palpável, mas não causava aflição causá-la, pois muito maior dissabor seria ter pena da alma miserável que implorava por sua companhia pelos motivos errados.
Pena, em sua concepção, era falta de respeito. Era demagogia.
Repulsa, então, era o que lhe causavam as palavras que imploravam por uma atenção e até piedade. Detestava ver um ser humano colocar-se em uma posição assim.
Por outro lado, a repulsa era gerada pela insinceridade do sentimento.
Do amar-se através de outro: Estes "eu te amo" que significavam "me ame"...
Então, não, não tomava interesse nenhuma por sua fraqueza. Não por esta, disfarçada, insincera.
Ah, como lhe aborrecia tudo que era fraco, sem estar sendo franco.
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