17h da tarde, soava o sino da
torre da igreja.
Estava atrasada, muito atrasada.
Pensava enquanto praticamente corria, cruzando a praça dominada por pássaros
que migravam de uma árvore à outra.
Correndo contra o tempo, como
sempre.
Prendia o cabelo em um rabo de
cavalo, enquanto andava apressadamente. Não tinha dado tempo de se arrumar
direito, para variar. Tinha uma reunião
seguida de aula e....
Enquanto pensava, de repente se
deparou, por um momento, com a estonteante imagem do céu vespertino a encará-la.
Um emaranhado de nuvens brancas estava temporariamente tingido por tons de
laranja e rosa, enquanto o sol começava a anunciar que esconderia-se em breve.
Ela estancou o passo, encantada
com aquela visão, como se fosse a primeira vez. De repente o vento pareceu mais
vivo e à frente do céu de Monet, um bando de pássaros voou cantando.
Ela expirou fundo, parecendo que
estava finalmente parando de prender a respiração, depois de um longo tempo
submersa. E no que o fez, uma imagem alinhou-se ao seu foco de visão, abaixo do
céu encantadoramente alaranjado.
Do outro lado da praça, em uma
cafeteria de esquina, dentro das paredes de vidro, ela viu um rapaz tomar café.
Seus contornos eram imprecisos, devido à distância, mas por um momento ela teve
a impressão de que ele a encarava também.
Tão dona da razão, por uma vez,
permitiu-se ser irracional, e tomada por aquele clima de fim de tarde,
atravessou a praça - na direção oposta de seus compromissos - e adentrou na
cafeteria, cuja porta ecoou o som de um sininho, quando ela passou.
Assim que entrou no local,
pareceu estar em um outro mundo. A luz era baixa, um blues ecoava em um rádio
vintage e a decoração do local a remeteu a uma época em que ela não viveu, mas
que sentia ser estranhamente familiar.
Essa cafeteria sempre esteve lá.
Por que ela nunca tinha entrado?
Cumprimentou a atendente, uma
moça simpática, pediu um café e foi até o segundo ambiente, onde o rapaz estava
sentado.
Ele estava na mesinha do canto,
muito embora fosse a única pessoa lá. Enquanto bebericava o café, encarava o
nada, com uma expressão tranquila e ela pensou que de alguma maneira, ele
encaixava-se perfeitamente naquela música.
O mais estranho é que ele não lhe
era estranho. Provavelmente já o vira pela cidade - que não era nada grande -
talvez até estudassem na mesma faculdade.
Ainda impulsionada por aquela
sensação surreal, sem pensar nem um pouco a respeito, foi até a mesa em que ele
estava:
-Posso sentar aqui?
Ele levantou a vista para ela, e
sorriu um sorriso completamente natural:
-Claro que pode.
Ela sentou-se, o coração
acelerado. Tentava reprimir a parte de sua consciência que dizia ser esta uma
atitude muito esquisita.
"Sentando-se com um estranho
que nem conhece? O que você está fazendo?" Pensava enquanto fingia
distrair-se com o cardápio. Mas quando levantou a vista para ele de novo, estes
pensamentos sumiram.
Ele tinha olhos castanhos e muito
tranquilos. "Your brown eyes are like blue skies", ela pensou durante
um momento no trecho de uma música que gostava. E por um momento, pareceu-lhe
tudo estranhamente familiar.
-Por que você está aqui? - As
palavras saíram da boca dela, antes que pudesse pensar duas vezes.
Ele novamente sorriu aquele riso
encantador, como se soubesse tudo o que se passa na mente dela:
-Estou fugindo de algumas coisas.
Aqui me parece um ambiente seguro.
Ele disse isso enquanto olhava de
lados, e ela perguntou-se se era por isso que estava sentado na mesa do canto.
-Você não parece alguém que tem
medo de muitas coisas. - Mais uma vez as palavras fugiram da boca dela. Em
algum lugar, perguntava-se porque tinha dito isso. Mas aquele estranho
parecia-lhe tão familiar...
Ele olhou para baixo, parecendo
ver algo além daquele ambiente:
-Medo não. Mas talvez eu esteja
um pouco cansado do mesmo ar.
Ela respirou fundo. De algum
modo, entendia completamente o que ele quisera dizer, por mais enigmático que
parecesse.
-Fazia tempo que eu não sentia um
cheiro tão bom no vento - Ela disse, sorrindo pela primeira vez na conversa, e
fazendo com os ombros, menção à praça.
Ele colocou a mão em frente ao
rosto e deu mais um sorriso encantador:
-Sei o que você quer dizer.
Será que já não se conheciam?
Como podia aquilo parecer tão familiar?
Pela primeira vez em muito tempo,
ela sentiu relaxar completamente.
A garçonete chegou com o café -
que ela tinha pedido assim que entrou -
e ela levou a xícara a perto dos lábios, aspirando sem pressa o aroma
reconfortante do café.
Levantou a vista e viu que ele
fazia o mesmo. Beberam o café em silêncio.
Eles terminaram e sem combinar
nada previamente, levantaram-se ao mesmo tempo. Pagaram o café e saíram da
cafeteria. O ar das, agora, 17:47, atingiu-lhe a cara como uma lufada.
Agora todas as árvores pareciam
farfalhar como nunca antes e o laranja do céu estava em seu pico, já começando
a anunciar a noite que aproximava-se.
Ela olhou para trás, vendo o
rosto branco do alto rapaz.
-Eu já te conheço?
Ela perguntou um pouco alto, para
ser ouvida mesmo com a ventania.
Ele não respondeu e ela achou que
talvez fosse melhor ir embora. Deu um passo para frente, mas a mão grande e de
dedos ossudos segurou a sua.
Ela olhou para ele, que sorria
novamente:
-Talvez de outra vida. Ou talvez
seja apenas necessário prestar mais atenção nos olhares do dia a dia.
Ela sorriu também e o vento
levantou várias folhas perto deles.
Uma gaivota cantou alto no céu.
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N/a: Obrigada a quem me emprestou todos os elementos bonitos desse texto.
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