quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Semáforo


Paramos no sinal vermelho.
Se fosse uma metáfora, não seria tão certeiro. Paramos no sinal vermelho.

O vento da avenida pelas janelas, o cheiro da noite da sua cidade, o silêncio resultante da nossa impossibilidade de ir adiante. O círculo vermelho nos encarava, como um retrato perfeito da nossa situação. Estáticos e calados,  encarando o semáforo que não nos mostrava nenhuma saída possível. Era o fim da picada, da linha, do filme, do livro, de todas as possibilidades de avançar. Sua mão no volante, meu rosto imóvel em frente: Dois cúmplices do mesmo crime, vítimas do mesmo destino, tão perdidos no mesmo redemoinho, que doía. Saber que em frente não havia saída tornava tudo um sono doloroso, cansado, conformado. 
Olhei de lado e vi sua mão. Mão de dedos tortos e unhas de criança que em outra época eu observava enquanto escrevia, de modo engraçado, como letras redondas demais, tão assimétricas e confusas quanto sua linha de raciocínio única, que me fascinava em todos aspectos: Fruto de um ser humano filho da natureza. E escrevia enquanto eu olhava de lado numa aula entediante na sexta de manhã, esperando que acabasse para poder segurá-la ao redor da minha, como se minha fosse; Tão banal movimento, mas que me mantinha segura no chão. Sim: Sua mão era minha âncora e nela eu me segurava contra toda a tragédia que pudesse abater o mundo. Assim como me puxava numa travessia insegura à rua de trânsito selvagem, onde eu não me importava em ser displicente e leite moça porque você café me fazia sentir-me eu e me sorria com os olhos, grandes, cheios de cílios como se me dissesse que estava em casa, e que só eu ganhava aquele olhar.


Um olhar que se transfigurava em mais claro ou escuro, em momentos de intensidade, onde eu via em seus olhos um dos muitos você: O que com suas mãos macias e seguras segurava minhas costas sem piedade e me beijava de modo incandescente só ao me olhar com aqueles olhos escuros: Me beijava com palavras e com sua compreensão. Sua alma beijava a minha, pelo simples encontro de nós dois, seres humanos. 
Te via agora, a mão no volante o olhar em frente. Um olhar vazio e triste, repleto da melancolia de nosso sinal vermelho. Um sinal vermelho que parecia durar para sempre enquanto na minha mente confundiam-se você agora e você que eu amava e eu percebia que eram exatamente a mesma pessoa, fosse com a voz irritada de quando perdia a paciência, com o cabelo molhado depois do banho, com o sorriso bestão de surpresa e carinho ou o riso sarcástico: raro e valioso. 

Era você, com sua vivência, sua dor, sua confusão, seu abraço quente, sua mente linda, sua mente sombria, 
sua vida: Uma borboleta pulsante que me sorria porque dizia que nunca deixaria a minha. Que a linha vermelha ou prateada era mais forte que isso. Que o beijo não vem da boca. Que o amor tem mil formas. Que pedras preciosas nunca morrem, mas somente se transformam em algo igualmente valioso, mas diferentemente lapidado. E que, principalmente, nosso encontro aconteceu antes que pudéssemos prever e nunca iria acabar. 
Seu rosto olhando em frente. É verdade, pensei. E via o brilho, mesmo agora, pulsar em seu olhar. Como um dia pulsou em brilho e sorriso o olhar de um menino cujo nome eu ainda nem conhecia, com o maior
sorriso do mundo: Caderno não mão, em frente a um campus de faculdade... Sorrindo sem nem saber se eu sorriria de volta, se eu sabia quem ele era; Com paz e tranquilidade. 
"Deve ser um anjo", disse minha irmã, ao lado.
Olhei para frente, com um leve sorriso.
O sinal ficou verde.

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