quinta-feira, 9 de novembro de 2023
"It means i'm bad in parties"
O papel que as outras pessoas exercem na nossa vida é fatalmente instrumental. Não tem como ser diferente, se você é o ser. Se você define suas relações à partir de seu bem estar e desenvolve sensações que nomeia como afeto à partir das ausências que alguém é capaz de suprir; da autoimagem que vê refletida em seu olhar, fica claro que todas as pessoas, todas as outras existências ao seu redor são instrumentos ou, ainda, meios através dos quais você aprimora ou enfraquece a qualidade da sua experiência "vida".
Tudo bem.
Eu não vejo como pode ser diferente, em que tipo de lógica o outro tivesse a centralidade da experiência ou, se sim, o quão deturpado e distorcido isso pudesse ser, a menos, talvez, que a exclusão da sua própria centralidade se desse por considerar-se, de alguma forma, elemento orgânico de uma ideia maior, autônoma, indiferente: o mais perto que concebo de Deus.
Mas ainda que pense assim, não é de acordo com isso que vivo. Caso contrário, que tipo de vida seria? É uma linha tênue, quase um fingimento, essa tal de vida, onde criamos mentiras, ou, para ser mais gentil, narrativas que nos fazem atribuir sentido a: nós mesmos, o outro, o tempo, o emaranhado de coisas que acontece sem nenhum lógica nessa viagem em direção ao fim.
Eu crio a narrativa do amor, do fazer bem: até porque a mágoa do outro é um fato e é capaz de gerar efeito em mim (novamente, sujeito protagonista de tudo). Mas por que doi? Existe algum fundamento menos cético para o afeto?
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Esse é o tipo de pensamento-base que me forma e que me coloca em uma situação peculiar na seguinte circunstância:
* Pessoas que demandam afeto *
Sendo mais prática, eu conheci mais uma vez uma pessoa muito carente e, por isso, muito amorosa e prestativa. Novamente uma pessoa assim entrou no meu radar, invadindo o círculo fechado da minha individualidade, com suas tentativas de ser necessária. É uma forma detestável a que eu descrevo alguém muito prestativo. Mas eu não consigo imaginar que motivo leva alguém, distante, e num momento inicial desconhecido a mim a insinuar-se à minha vida (e eu não tenho nada de especial, esse deve ser um procedimento padrão da pessoa) com a determinação de: servir, ajudar, ser necessário. Uma demanda que eu, absolutamente, não manifestei.
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Na minha experiência com pessoas, esse tipo de personalidade costuma refletir alguém que precisa muito formar laços e os tenta fazer a partir de uma relação de interdependência. Eu identifico, várias vezes, relações com essas características e vejo as pessoas as denominando de *** amizade ***
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Existe um fenômeno que por coincidência eu observei ontem e me veio à mente quando comecei a pensar sobre essa pessoa e todas as pessoas e eu e a nossa matéria frágil: cultos evangélicos.
Na verdade, eu não estava em um culto evangélico ontem e sim em uma sessão de coaching, obviamente por razões fora do meu controle. É difícil para mim descrever a superficialidade do conteúdo, da mensagem, do entusiasmo ensaiado e falso; a caricatural emoção, motivação, sei lá como chamam isso, honestamente me dá preguiça até de escrever sobre. Mas ainda assim, funcionou: uma plateia de centenas de pessoas vibrou, se emocionou e urrou. A diferença do culto foi que não chegamos ao ponto dos desmaios. Talvez por pouco. A razão para isso é muito pouco nova e já se refletiu bastante a respeito: a angústia, vazio, matéria frágil, como quiser chamar, abre portas para esse tipo de vulnerabilidade (dentre outras mais), criando terreno para uma série de fenômenos tentarem apossar-se de sua consciência, fazendo morada naquele espaço vácuo natural que você leva no estômago, que nós levamos, devido ao simples fato de sermos inconscientes seres humanos: nascidos para morrer, sem nenhuma compressão sobre nada.
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Tudo bem também. Deixar essas coisas preencherem e estar a mercê das técnicas de oratória e comoção que tem o mesmo objetivo: mobilizar o que há de mais frágil e preencher de sentido, ainda que o sentido seja apenas uma falsa atenção, um falso afeto, um falso O QUÊ que pode mover as pessoas às maiores loucuras.
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Pode parecer um pulo largo mas isso me lembra, em maior medida, da pessoa carente. Do pequeno príncipe, livro ordinário. De todas as necessidades que fazem o outro quererem nos inserir no seio de sua vida através das amarras de uma relação e com você suprir, te suprir.
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Eu não sei por que isso me afasta tanto. Se é por medo do contato e da perda (eu sinceramente não acho que seja isso) ou porque fundamentalmente eu não acredito em nada. Na minha opinião, talvez, a única forma de relação honesta seja um ceticismo conjunto.
segunda-feira, 30 de outubro de 2023
Retorno ao ponto zero
É que eu não acredito
Nas coisas que eu quero
E arrisco dizer que preciso.
Eu não acredito
No que encheria o vazio
Insondável
Cansado
Entediado
De tanto ser mencionado.
Não posso crer na realidade
Da abstração impossível
De ser para o outro um pouco mais
Além de um espelho imprevisível
Destinado ao fracasso, ao rapto
De toda e qualquer lealdade
Projeto irrealizável
Para uma cética incorrigível.
Eu fui, eu era, eu sou.
Os demais parecem ter alguma imagem
Alguma noção
Usam de palavras com relativa coerência
Mera ficção
Amontoado de paisagens
Calma, intensa ou confiável
Etérea, desperta, inefável
Tudo o que eu ouvi
O que eu transmiti
Esse pobre poder
Rede de miragens.
Eu ando por esse chão
E toco essas paredes
Na estrutura da minha mente
Nada evolui ou cresce
É verdade, até parece
Que aquela menina ingênua
Dos textos passados
Nunca existiu
E por outro lado, é ela
Quem toca neste teclado
Rogando a mesma prece
Dos desesperados
Com as mesmas necessidades
Matéria frágil acumulável
Orando para os santos
Que tanto foram rejeitados
Cantando os mesmos cânticos
Que nunca foram entoados.
São a mesma coisa, é tudo diferente (Hora do almoço)
Ajustar minha perspectiva
Me pede quase implorando
Exasperado pela minha imobilidade
O que você não sabe
(Graças a Deus)
É que no quadro da minha visão
Tudo o que o horizonte alcança
É o medo
É ele que me paralisa
E revira
Minhas entranhas
Sedentas
Pela cura
Da crença de não ser amada.
Você vê perigo em cada esquina
As arestas do seu olho
São vermelhas
De tanto que identificam
Possíveis chances de desastre
Chacina
Em cada rotineira atividade
O risco
Do imprevisto
Te imobiliza
Não fascina
E entra em mim
Ao reverso
Como excesso
Como inércia
Como o avesso
Do meu zelo
Como ódio
E desespero
O que nos une
Tenebroso elo
É o medo.
Eu vejo perigo
Em cada esquina.
Vejo a chance
Oportunidade
De mudança
E brevidade
O descuidado
O desamor
O abandono
Ante a mínima oportunidade
Vejo no gesto
Ou no olhar
Vejo na ausência
Vejo na rotina
Ou no imprevisto
Vejo naquilo e nisto
Na imaginação
Sequer preciso de fundamentação
Ou coisas reais
Minha visão é voraz
Devora toda e qualquer chance
de Paz.
sábado, 21 de outubro de 2023
Talheres perdidos sob o assoalho
São conjuntos novos comprados, depósitos visíveis, armazanemento ao olho nu.
Ainda assim, quando se procura, não se tem nada: onde estão os talheres desaparecidos dessa casa?
Uma sensação de dormência me faz encarar os dedos enquanto escrevo.
Podem ser os remédios, mas ainda, é algo a mais.
Eu me sinto muito mais velha hoje, muito consciente de meus processos internos - calma e perigosamente.
A linguagem, manifesta como resfôlego da supressão, me ajuda:
com ela, analiso, categorizo, guardo em caixas e traço caminhos.
Ela me ajuda, com natural fluidez, cada vez mais natural, a identificar cada fenômeno que me engole e cospe e vomita e extermina.
Mas aonde isso vai me levar?
Reconheço a dor. Reconheço a fome. Reconheço o buraco negro da angústia, que expande-se na velocidade da luz que se apaga de meus olhos, ano a pós ano.
Reconheço, em especial, as contradições de análise, que me lembram da efemeridade de meus reconhecimentos. Da fragilidade e sujeição ao tempo, à experiência, à todas as coisas céticas e reais.
Dessa vez, o reconhecimento foi certeiro e inequívoco: é uma história sobre o amor.
O amor e falsa suposição que há qualquer tipo de paralelismo automático, conexão natural, entre sentimentos e ações. Um não puxa o outro, não, porque entre o sentimento e a ação há o universo caótico e desconexo de necessidades internas, matéria frágil, pessoal e individualizada. Eu posso, sim, amar o outro, e tratá-lo mal. É a coisa mais óbvia. O pensamento infantil de que quem ama cuida e faz dez mil coisas mais, como um ato automático, cravado na genética do conhecimento afetivo: todas essas coisas, todas todas são construídas. Nós, animais históricos, seres de passado, criaturas aprisionadas nas próprias jornadas. Nada é natural, tudo é aprendizado. Tentativa e erro. Esforço. Nada é dado, tudo deve ser construído cuidadosamente e contra nossos piores e mais orgânicos instintos.
Eu posso, sim, amar, mas deixar o obscuro em mim, afastar minhas ações de meus sentimentos. É um instinto quase natural, o da fragilidade. Escape para todas as coisas pequenas e gritantes, que buscam manifestar toda sua baixeza, toda sua necessidade aperreada, seu choro afogado, agora alto, agora em forma de grito.
Graças a Deus existe o outro para me frear.
O amor precisa de freios, os limites do amor do outro. O reconhecimento que cada um faz de seu próprio ciclo de admissibilidades, com base naquela difícil, mas racional operação de respeitar-se. Respeitar a si, para ser respeitado. Coisas óbvias.
Que apesar de óbvias, eu esqueci. Eu sabia na teoria em relação ao outro e minizava sua aplicação a mim, criatura estruturalmente hipócrita. Quão fácil e quão difícil é mudar a perspectiva me colocando no mesmo ponto de análise que o outro. Quão claras são as suas motivações quando o reconheço como outro como eu. Eu não sou especial.
Esse tempo todo
Era embaixo do meu assoalho
Que estavam esquecidas as facas e garfos.
quinta-feira, 12 de outubro de 2023
No children
Sutil transição de cena
Quando capturo a sobreposição de imagens
Transborda a cor original da tela.
Demorei muito para te conhecer
Alvo de energia solar artificial
Anos aprisionado em meu espelho
Muito mais ilusão do que criatura natural.
Me apaixonei pelo que criei
A cantiga menos original do mundo artístico
A cada desencontro entre realidade e mente
Uma nova rachadura em meu retrato idílico
Me sentia traída e confortada
Por permanecer tão pouco vinculada
Àquele ser que nada tinha de místico
Porém
Das rupturas, inesperadamente
Surgiu algo muito mais bonito
No lugar de calma, impaciência
De tranquilidade, furiosa potência
A lealdade revelou ser medo
A resiliência era só carência
Suas qualidades eram apenas defeitos
Mascarados pelos mais bem elaborados conceitos
E no núcleo da sua mente
Encontrei novos e divertidos brinquedos.
Descobri seu humor sarcástico
E sua claustrofobia social
Impulsos animais e erráticos
E uma insensibilidade tão racional
Aproximando-te muito mais de mim
Que também por todos aqueles anos
Dissimulei meu estado original.
quarta-feira, 11 de outubro de 2023
No jardim do bem e do mal - Um reencontro
- Estou tendo pensamentos suicidas de novo. Eles me pegam de improviso, em momentos casuais. Quando caminho em silêncio, quando sorrio em uma conversa. Estão sentados em meus ombros, como companhias silenciosas. Convidativas ideias.
-Talvez você devesse voltar a escrever. Quando você escrevia, um impulso de vida te acompanhava.
-É verdade. Mas me sinto paralisada demais para isso. Quis só vir aqui para ver você mesmo. Ver se ainda existia.
-Tudo bem.
-...
-...
-Lembra daquela sensação antiga, de que algo estava me procurando? Que eu corria, corria, com medo de sua chegada?
-Sim.
-Eu sinto que me alcançou. Estou capturada em uma armadilha. Faz todo o meu corpo doer. Sinto a tristeza escorrer de dentro para fora. Ela transborda em sorrisos. Nos meus sonhos realizados. No afeto que me direcionam. Não consigo sequer chorar ou gritar. Minha chama se apagou.
-Talvez você só esteja cansada.
-Mas eu não quero estar! Não quero repousar. Não quero me sentir tranquila, tampouco ser calma e boa. Eu era a tempestade! Eu era magma invertido, riso alto e sarcástico. Eu... eu...
-Você também não era feliz ali. Você era a tempestade. Era magma invertido. Era riso alto e sarcástico. Era dor e desespero. Confusão e despreparo. Ingenuidade, sempre pronta a ser quebrada em mil pedaços. Até que não doeu tanto assim, não é?
-Não, não doeu. E isso é o que me dói mais. Foi suave e gradual. Natural e artificial. Aconteceu lentamente, um dia após o outro, e então de repente. A perda da inocência.
-Você sente falta, não é?
-Não tanto do tempo em si. Mas da expectativa e potencialidade. Quando tudo era projeção e ficção. Tudo estava por vir. Eu sinto falta de você. Da imagem romântica de um fantasma. De ver cores no preto e branco, de ver sangue em mero plasma. A inocência e a esperança...
-São só grandezas esperando para serem quebradas.
segunda-feira, 18 de setembro de 2023
Negativo de filme
Gradativamente
Sobreposição entre passado e presente
Agora parece tão nítido
Lembrança clara e quente
Surrupiada por uma palavra atual
Ledo engano da imaginação
Frase ferina em uma conversa natural
Desatenção rotineira
Indiscrição passageira
Corta para uma noite sem nuvens
Conversa entrecortada de silêncio
Observando os passageiros do mundo, lá embaixo
Nós duas, como um pedaço estático do tempo
Gravadas na memória, antigas
Dissipadas
Nada menos que uma memória
Nada
Quando você aparece na minha porta
Assombração
Visita tímida de outro tempo
Vinda de outra dimensão
Com uma gargalhada alta
Minha vida amarrada em sua saia
Andar descalço de fada
Tantas coisas
Fruto da imaginação
Última gota de amor
Impostores do presente
Rodopiando inutilmente
Em arquivos desatualizados
Carinho e nostalgia
É quase um delírio febril
Pura fantasia
Direcionada a lugar nenhum
Que ninguém mais vê ou viu
Ainda assim, me vejo
Relembrando uma risada
Uma palavra entrecortada
Sua cantoria desafinada
Café da manhã na sala
Tardes deitadas no jardim
Cada vez menos precisas
Imagens enevoadas
Uma frase engraçada
Memória arranhada
Não sei se veio de você ou de mim
Só que a sensação desvanece
Um tom de sonho que escurece
Enquanto a realidade se irradia
Pelas frestas da janelas
Uma lágrima sutil escapa, uma sequela
Dessa vez é assim
A lembrança chega ao fim.
Hermenêutica
Quando o inferno ferve nas linhas desconexas do pensamento
Quando sinto arder, anunciar ruptura
E a face parece um receptáculo desconectado e insuficiente
Não tenho o poder, não tenho o manejo
Do tempo, do outro, do ambiente
Da memória, da sensação, da minha mente
Tenho apenas, fracamente,
Minha ferramenta preferida
Elástica, modelável, dobrável e movediça
Minha impostora de feridas
Singela e insuficiente, mas que abre as frestas para a corrente de ar
E me dá
O pouco que preciso para respirar
Desafogar o sufoco
Desenhar em formatos precisos o grito rouco
Gultural e desconexo
Necessitando de tradução
Delineado em movimentos repetitivos das minhas mãos
Até chegar a cada enxerto
De conclusão rasa
Rima reutilizada
Uso vulgar de palavras.
quinta-feira, 24 de agosto de 2023
Aquele segundo
É verdade. Eu posso me perder às vezes.
Eu posso me perder de mim um pouco
Aos poucos.
Eu posso diluir quando meu olhar toca, enevoado
A linha em que se cruzam o céu e o mar
Aquele horizonte.
Eu posso me atrair por ele
Por seu inevitável fim.
Uma criança que nunca cresceu,
Uma criança que nunca cresceu.
Eu entendo agora
O apelo irresistível.
Entendo como as pessoas podem enlouquecer.
Entendo o que pensam
Um instante antes
Apenas um instante
"Então é assim que as pessoas enlouquecem."
"Então é assim que as pessoas enlouquecem."
E então é tarde demais.
quinta-feira, 18 de maio de 2023
A vida está aqui
É o que quero lembrar da vida
É o que acho que vou lembrar
Ao final
Uma madrugada inteira rindo fazendo competição de quem viu mais filmes
As risadas da família na cozinha
Silêncio confortável contemplando o mar noturno
O sol através das nuvens em uma caminhada matinal
Um toque de mãos no mais espontâneo dos carinhos
Fazer planos
A voz da minha mãe cantando
A satisfação de quem recebe um presente
O abraço da minha irmã quando eu choro
A gargalhada de uma amiga cortando a noite silenciosa.
O pulso acelerado na reviravolta de um livro
Isso que é a vida, nada mais
Nada menor do que isso pode definir a minha
Nem as preocupações
As culpas
O arrependimento
Ou a vergonha
Coisas que parecem grandes mas não são
Porque nem mesmo as grandes coisas
Nem mesmo as grandes coisas boas
São tão grandes quanto as pequenas.
Conclusão de uma aula boa
"O conhecimento liberta"
Nem que seja só a nós mesmos.
domingo, 30 de abril de 2023
Seu retrato alienado
Com uma facilidade imerecida
Confundem educação com gentileza
Generosidade com simpatia
Supõem bondade no que julgam belo
Idealizam valores no meu silêncio
E tentativas vãs de sobrevivência
Se tornam ilusórios alentos
Encaram meu rosto e um sorriso
Que por vezes traz um monstro aprisionado
O pesado vazio, tão pesado
Que é quase insustentável
E tira-me as forças deixando apenas
Curvas gentis nos lábios cansados
Um vaso de cristal gélido
Vazio, datado e trincado
Sem substância ou mistério
É assim que eu mesma enquadro
O reflexo no espelho
A moldura 3 por 4
Seu retrato idealizado
Eu tenho, é verdade, um mundo interior
Cheio de cenários que se repetem
Como quadros que não suportam mais estar
Pendurados nas paredes da minha mente
Mas não é nada de magnífico, não, você não entendeu, não é nada disso
Não é místico nem triste
Se olhar no fundo dos meus olhos
Vai apenas enlouquecer tentando
Decifrar o que não existe.
sexta-feira, 14 de abril de 2023
A matéria do céu de algodão
Da natureza das coisas frágeis
Onde o tempo é denso e o céu de algodão nos comprime
Extraindo a mais pura das matérias
A Verdade
Circunstancial como seja
Mutável e ferina
Volátil interpretação minha
Me encontre no extremo oposto
Do gosto amargo do teu rosto
Das marcas, navalhas, cicatrizes
Das decisões e seus deslizes
E tudo o que disseram em silêncio.
Me encontre onde reside o vazio,
a explosão, o tédio, a inocência,
a paixão, o vício e a insensibilidade,
o caos, a pressão e a vaidade
As tentativas infantis de maldade
E tudo o mais que já passou
Mas que registro
Tentando uma luta vã contra ele:
Tempo
Meu amigo e adversário.
Olho pela fresta da tua janela
Respira fundo e enjaulado.
Está agora bem acordado.
quinta-feira, 30 de março de 2023
Memento
E eu não aguento mais falar sobre o tempo.
Sobre o esmagador peso das coisas frágeis
Sobre a sutileza com que quebra a onda do momento
Intenso
É o sentimento e sua derrocada
E por consequência seu vazio
É verdade
A única coisa que existe
É escrever
É a única coisa que eu sempre soube fazer
Todas as outras fui fingindo ao excesso
Até aprender sem querer
Liberdade não existe
Autoconhecimento pior ainda
Narrativas, sim, são possíveis
Melhor se forem coloridas
Loucas
Transtornadas
Doloridas
Mentirosas e safadas
Navalhas na carne
Alívio no sono
Só isso me resta
E é tão mais que tudo.
Frágil
Que pudesse pegar todas as coisas em mim
Reuni-las em minha mão em concha
Das mais marcantes às mais banais
E entregar com um sorriso
De esperança
Que alguém fosse se interessar
O que eu não vi
É que a palma da mão é um espelho
Que eu mostro nas minhas linhas
Suas rugas de expressão
Que na contramão
Está tudo que perdi por sentir paixão
Ódio
E desespero.
Que meu apelo
É o mais frágil dos elos
Dos receios
É medo
Eu não vi que tudo o que existe é o medo.
quinta-feira, 23 de março de 2023
Um dia
Até mesmo simplória
Não tem muito a descobrir além de sobrevivência e paranóia
O valor e o encanto está nas imagens que consegue refletir
Através do olhar do outro
Quanto mais metamorfa mais interessante
Quanto mais sujeita a idealização.
Suzana acordou naquela quinta-feira, com o céu abafado tocando seus pés em sua cama que cheirava a lençóis frescos e amaciante.
Abriu os olhos lenta e comumente, e aos poucos pôde sentir as paredes de seu quarto e de toda a responsabilidade de sua existência a comprimirem.
As crianças da casa vizinha choravam, o barulho de panelas na cozinha. A vida estava acontecendo, era aterrorizante.
O som de tudo e o som mudo dentro de si a lembravam do terror do agir, da urgência de viver.
Sua vontade era fechar os olhos novamente e afundar-se no tecido abaixo de si, como quem fica submersa em uma piscina, em um estado de latência em relação ao ambiente.
Mas um cachorro na rua latia, o carro do ovo anunciava sua passagem, seu celular recebia notificações. A inércia não era uma opção.
Geralmente, esse estado de supervigilância convalescia ainda nos primeiros minutos da consciência diária, no instante em que as atividade rotineiras apoderavam-se de sua percepção, enxotando para os cantos de sua mente sua insatisfação com noções básicas de sobrevivência.
Mas não nesse dia.
Tomou um banho gelado, evitando seu reflexo no pequeno espelho de parede e penteou os cabelos, levemente atordoada com o fato de continuar perplexa por ser uma pessoa. Seu corpo não tinha acostumado-se ainda, não hoje.
Indo ao trabalho, a imprevisibilidade do contexto urbano a assustou mais do que de costume. Uma bicicleta mal guiada, as buzinas no trânsito. Uma risada alta de alguém que falava ao telefone, uma criança correndo para enfurecimento de sua mãe. Os pequenos pedaços de existência, portais ambulantes para outros mundos a perpassaram de uma forma diversa de qualquer outro dia. A cada vida que lhe atravessava o caminho, lhe afogava a sensação de desconhecimento e inevitavabilidade. Uma tristeza imensa lhe dominou, por tudo o que nunca conheceria, veria, conversaria, compreenderia ou viveria.
Uma enorme e aterradora tristeza que pareceu paralisar-lhe no meio da avenida central em pleno horário de 8:30h da manhã, hora de pico no comércio urbano.
Esperou que o ar voltasse aos seus pulmões e muito fracamente continuou.
Chegando no trabalho, rostos conhecidos lhe diziam palavras esperadas. O inesperado ficou para trás, mas que surpresa perceber que o previsível lhe machucava da mesma forma.
A repetição dos dias, das atividades, a corrida em busca de nada. Uma tarefa realizada com resultado positivo causando uma mínima, passageira e incompreensível sensação de satisfação.
Sua percepção naquele momento foi a de que tudo o que estavam fazendo eram coisas inventadas. Se todos parassem imediatamente de trabalhar, de se mover, de respirar, alguma alteração seria produzida no mundo? Parecia um fingimento conjunto o de que aquilo era de alguma forma uma espécie de normalidade.
Na hora do almoço, foi possível sair dessa fase de estranhamento diante do convite de uma colega para conversar.
Suzana era uma boa ouvinte, ao menos a de todos os dias, não aquela de hoje, estrangeira, parasita de um corpo estranho.
Sua colega lhe contou seus problemas. Questões familiares, pessoais. Desabafos unilaterais que não pedem realmente mais do que um receptáculo para o próprio orador.
Sentiu, assim, a verdade descoberta por trás das relações - não só aquela, mas todas as que já tinha mantido, vivido ou observado ao longo de sua vida: Todas eram unilaterais. Perguntou-se o quanto tinha sido apenas um receptáculo para palavras, pensamentos ou projeções. Ou o quanto tinha feito dos outros apenas isso. Tocou o rosto de sua colega, a primeira vez que a olhava nos olhos e perguntou-se quem era ela.
Um som alto na cafeteria a despertou, olhou de lado. Na verdade, não tinha movido as mãos do colo nem uma única vez na última meia hora.
Após uma tarde de inércia, Suzana voltou para casa, caminho geralmente feito ao ouvir música ou algum podcast sobre jardinagem ou viagens. Ouvia sobre experiências que nunca teve, mas escutá-las ou assisti-las as tornava reais, o conhecimento lhe dava a sensação de pertencimento. De compreensão de algo distante.
Mas não nesse dia.
No lugar disso, parou em um bar antigo, caindo aos pedaços, frequentado apenas por idosos saudosistas sobre o que aquele lugar fora um dia, antes da decadência, do abandono e da morte. Era o lar do passado.
Observou os que jogavam sinuca, os que conversavam, os que encaravam hipnotizados o horizonte.
Esse lugar era o atestado de tudo: da passagem inevitável, do único assunto que vale a pena ser pensado, sobre o único tema que verdadeiramente existe: o tempo.
O tempo e sua devoradora e inevitável passagem.
Tudo o que lhe circunda, o que existe ao seu redor é preenchimento. Tentativas vãs de atribuir-lhe sentido, de vencer-lhe.
A produção de atividades, de arte, de relações humanas. A tentativa constante e cansada e completamente ineficaz de ultrapassar sua passagem, com a convicção de ter-lhe usado bem, de ter deixado raizes.
Mas como, por Deus, é possível ultrapassar o tempo?
Ele acaba no momento em que acabamos, ele deixa de existir no momento em que o pedacinho dele do qual usufruímos termina.
E então não importa o que fizemos ou não fizemos, o que vivemos ou não.
Tudo importa ou nada importa, é a única decisão que cabe tomar.
Suzanna olhou bem para o copo de água à sua frente e tomou a sua.
terça-feira, 10 de janeiro de 2023
Gentil
Isso me pegou de tal forma que já faz alguns dias que tento escrever sobre a minha referência para escrever sobre uma relação gentil.
Mas seria um texto de amor e eu já não escrevo mais textos de amor.
Ainda escrevo sobre todas as outras coisas que me inflamam o peito: a ansiedade das decisões, o medo do tempo, a natureza das coisas frágeis.
Mas escrever sobre o amor foi ficando cada vez menos natural à medida que eu fui envelhecendo e meu amor foi amadurecendo.
Olhando para meus textos antigos, percebo que eram também textos ansiosos. Meu amor era inseguro, com uma frágil consciência sobre o que o definia. Essa lacuna exorbitava em palavras. Eu precisava defini-lo: Esse é o amor! Ainda quando não sabia direito nem o que era amar.
Agora é tão claro.
O amor é tranquilo e gentil e me deixa completamente à vontade para não escrever sobre ele. Ainda quando eu quero compartilhar como é feliz me sentir coberta por seu manto de carinho, a timidez cresce sobre temas que antes não atingia. Hoje eu sou tímida para falar de amor. Eu, a pessoa que escreveu, recortou e enrolou 365 motivos para amar.
Mas apesar disso, hoje eu preciso dizer que não são necessários 365 motivos para identificar. O que me traz de forma mais clara a face do amor é que ele é gentil.
Um dia, vidas atrás, eu descobri que não amava um homem no momento exato em que, olhando em seus olhos, anunciei, quase como uma descoberta: você não é um homem gentil. Nesse mesmo instante, me surpreendendo, veio à minha mente a imagem do homem mais gentil que já conheci, que já não estava ao meu lado, mas que hoje é o motivo pelo qual eu escrevo esse texto, assim como o foi também para 365 motivos muitos anos atrás.
Mas como eu disse, 365 motivos não são mais necessários.
É com muita paz e clareza que me vem à mente, com toda a simplicidade da descoberta de algo que já estava lá: Eu amo um homem gentil.
domingo, 20 de novembro de 2022
Autopiedade
Não seria bem sentimento o nome, talvez uma sensação, um mero descontrole.
Uma raiva ou impaciência, não importa o nome escolhido.
Ele é o estouro de tudo que estou reprimindo. É a explosão da matéria sufocada.
Frustração.
Situações práticas, reais, não imaginárias me perturbam essa noite.
Situações que exigem de mim uma resposta, uma resolução, calma.
Mas eu me sinto cansada e inconstante, me sinto sufocada e exasperada. Crítica e ácida, até mesmo malvada.
Culpo todos ao meu redor pelos infortúnios que me têm acometido. Culpo a mim por culpá-los, pelo meu descontrole sobre as situações. E me ressinto da minha falta de habilidade em olhar sob a perspectiva adequada a situação.
Me sinto usando um óculos manchado, sei que há uma imagem clara adiante, mas não consigo ver. Me sinto amarrada, presa. Por um sentimento que me esgota e tira o ar.
Estou cansada, doente, triste e arrependida. E tudo isso me torna incapaz de agir da forma como desejarei que tivesse agido daqui a um tempo.
Como se não bastasse culpar meu eu do presente e me ressentir do meu eu do passado, ora essa, ainda preciso temer o julgamento do meu eu do futuro.
Estou precisando de umas férias de mim. Essa é a única conclusão lógica dessa noite.
No afã de resolver tudo, concluo meus pensamentos desejando ser uma pedra.
Ou sumir.
É um pensamento perigoso então o afasto.
Gostaria de me divertir sem correntes apenas por uma tarde.
Mas a diversão vem seguida de culpa pela diversão que eu não pude proporcionar aos outros.
E no final, julgamento e escárnio porque eu devo me achar muito boa por ter todos esses pensamentos, não é?
Minha mera sequência de auto julgamentos me exaspera a um ponto que eu me pergunto como, por céus, as pessoas andam ao meu lado ainda.
Mas talvez eu seja boa em dissimular ou quem sabe incite pena.
Minha nossa.
Hoje não é uma noite boa.
terça-feira, 8 de novembro de 2022
"O meu de ontem, o meu de hoje, o meu de amanhã" - V.2.
sexta-feira, 9 de setembro de 2022
À moda da casa
Qual é o dilema
Fácil
Para meu eu do futuro
Que hoje me aprisiona?
Em que ciclo me meti?
Em algum fácil de sair
Isso com certeza.
Fácil para os que não são sádicos
Ou masoquistas
Para os que não rodeiam e batem sempre na mesma trave
Como mosquitos perdidos.
Qual é a mentira repetitiva
Que estou construindo em minha imagem agora?
Dizendo reiteradamente à mim mesma
Até que se crave em minha pele
E penetre em meus ossos
Que me componha e mude
Como o mais infantil dos procedimentos.
Eu estou tentando ser mais sincera comigo.
Ao menos comigo.
Ser mais clara sobre o que penso
Distinguir o que eu sou
Em meio ao que queria ser
E ao que achei que era
Estou tentando conservar esse mínimo de honestidade
Ou quem sabe
Essa seja a mentira em que escolhi acreditar agora.
Dias assim
Todas as partes de mim que eu não gosto
É fácil esquecê-las na correria do dia a dia
Embora de vez em quando eu lembre de algo vergonhoso do passado
E feche os olhos com o constrangimento.
Mas quando eu não sei como agir ou ajo sem direção
Como um carro desgovernado, uma bússula quebrada
Ou todas as outras metáforas de desorientação
Então é fácil lembrar.
Quando eu magoo ao pessoas por não saber me expressar com clareza
Ou expressar com clareza sentimentos que não sei se sinto
Essa dissociação que me ocorre, que me faz sair de mim e preciso
lembrar, racionalizar, dar um passo e me puxar pela mão antes que eu me perca.
Todos esses sentimentos são tão cansativos
E repetitivos
E saem em forma de palavras que ferem os ouvidos alheios.
São dias em que é fácil não gostar de mim.
sexta-feira, 15 de julho de 2022
Um nó
A distância entre as ações que devo tomar para satisfazer as expectativas das pessoas que amo e aquelas que satisfazem o meu ser alarga a rigidez de sua indissolibilidade.
Eu paro e penso. Olho esse horizonte de montanhas, nuvens e pássaros. Tento encontrar linhas, caminhos, lógica racional - tento compreender o quanto do meu sentimento é justo o quanto do dessas pessoas que é. Tento encontrar os caminhos certos e tocar as respostas adequadas à pergunta do "como agir".
Mas é tudo muito mutável, fluido e corrente. De acordo com a circunstância que destaco em minha mente, a resposta muda.
Do ponto de vista dela...
Do ponto de vista dele...
De acordo com os processos naturais...
De acordo com o que é mais importante...
De acordo com o que quero viver em minha vida...
De acordo com o que os magoa...
De acordo com o que me magoa...
A resposta muda, não há resposta.
Isso me frustra e enfurece.
Porque eu sei que eu saberei, depois, ela ficará clara. O tempo e a experiência iluminam com uma luz de simplicidade os dilemas do passado.
Mas ela ainda não chegou.
Então eu me contorço e estrangulo nesse nó.
Quanta besteira dizia o pequeno príncipe
Uma situação que desperta um alvoroço de sentimentos incômodos, agonizantes, intransponíveis.
Intuição ou paranoia - eu não sei o fundamento das minhas percepções, mas elas estão aqui.
Sedimentam seus resultados e se colocam sobre mim como um manto.
A retirada não é uma opção.
Eu me percebo contorcer diante da exposição dos elementos que eu não gosto, que me incomodam: o carinho excesssivo, a necessidade de reafirmação, a invasividade dos cuidados.
Eles me fazem retrair e estreitar meus olhos e coração. Eu estou viciada em buscar o fundamento das coisas.
Por isso não é pouco natural que ao ver o seu largo sorriso e o afeto intenso, as suas mãos que tentam me alcançar tão desesperadamente embora saibam tão pouco sobre mim... É natural que eu pergunte:
Por que?
Qual é o objetivo do seu coração?
Não a sua mente, geralmente inconsciente a esses processos. Mas eles existem e motivam estas ações radicais e intensas.
Por que se insinuar assim na vida de outra pessoa?
Será natural?
Algo é natural?
Eu não sou adivinha, mas meu corpo sabe a resposta.
Todas as coisas entregues podem ser cobradas, aquilo que lhe é empurrado à força justificará uma retirada violenta de outra coisa. Por isso eu não quero.
Eu me pergunto se me tornei tão estruturalmente cética, a ponto de crer com tanto afinco na matéria das coisas frágeis.
Desconfiar do afeto exagerado, da posse, da necessidade travestida de carinho. Da codependência que se insinua, sorrateiramente, nos olhos, sorrisos e mãos daqueles que precisam dominar as pessoas.
Eu não sou avessa a conhecer gente nova, não é essa a questão. Mas me sinto calejada, gata escaldada, de gente carente demais, sinuosa demais. Que por trás de fragilidade, lágrimas e uma enlouquecedora dinâmica de culpas e responsabilidades trocadas busca suprir suas ausências com os demais.
É a matéria das coisas fragéis.
Irrefutável mas passível de dominar. Ou apenas tentar. A responsabilidade de tomar o controle do próprio destino.
"O propósito da vida adulta é mirar na autonomia". Uma frase que me faz rir por sua simplicidade e verdade, dita por uma forma de vida nada simples.
Eu não sei se eu tenho razão. Se meu juízo agudo é cético, se ele deixa perder a facilidade da ingenuidade, do carinho desmedido. Mas eu preciso confiar nas percepções do meu corpo, na razão das minhas sensações, única companheira da minha responsabilidade.
Enquanto ela for essa e eu for essa, enquanto eu pensar assim....Eu não posso evitar estar atenta e viva. Duvidar de tudo, de todo mundo.
Até de mim mesma.
terça-feira, 28 de junho de 2022
i'm not your fucking superego
Para te fazer rir
Um espelho
Para ressaltar suas melhores qualidades
Uma dose de álcool
Para te deixar alegre e embriagado
Ou uma sessão de terapia
Para te fazer se entender
Eu não sou um antidepressivo
Para amorteceder seu vazio
Ou um diário
Para você explanar os seus dias
Eu não sou um instrumento
Para consertar suas falhas
Sua solidão, sua dor, seu abandono.
Eu não sou um meio para os seus fins.
Eu sou os meus próprios meios e meus próprios fins.
Seja você seus próprios meios e seus próprios fins.
Eu não te peço nada, além de companhia.
Não me encha o saco buscando que além disso eu te preencha.
Codependência não é amizade.
Companheirismo não é simbiose.
Resolva suas coisas,
Eu sempre resolvi as minhas sozinha.
terça-feira, 31 de maio de 2022
Olhos de peixe morto
Constatei recentemente enquanto escovava os dentes em frente ao espelho.
As partes laterais das pontas estão um pouco abaixadas, como se suportassem um pequeno peso. Isso juntado ao fato de que são afiados como duas lanças nas partes internas e que eu não tenho pálpebras como é comum nos olhos orientais me faz ficar com um aspecto de olhos baixos, de peixe morto.
Essa é apenas uma das coisas que constatei ter mudado em mim nos últimos tempos.
Tenho menos ânimo para provar que estou certa, discussões me dão uma ligeira vertigem. Momentos de alegria me trazem menos euforia e excessos me provocam menos excitação. Penso algumas vezes antes de reagir e analiso outras antes de sentir. A ordem das coisas se organiza automaticamente quando meu cérebro recebe informações do ambiente. É isso que é envelhecer?
Essa coisa dos olhos me deixou um pouco impressionada. Outras mudanças em meu rosto também foram verificadas. Está um pouco mais magro, mais fino. Um rosto um pouco mais austero do que algum tempo atrás.
Desde que li Dorian Gray há vários anos me pergunto se nossas almas são realmente refletidas em nosso rosto. Se as pequenas modificações - curvas irônicas eternizadas ao lado dos lábios, rugas de tensão fincadas no meio de nossa testa - se esses indícios de emoção alteram a nossa fisionomia - estampam nossa personalidade. Ou alma, como a chamei há pouco. No final é a mesma coisa.
Outro dia minha mãe me falou que um cirurgião plástico aconselha mulheres a usarem constantemente roupas estilo espartilho. A pressão contínua sobre o corpo modula sua estrutura. Isso é algo que eu não sabia, me deixou ligeiramente assombrada.
A pressão contínua sobre meu rosto também está alterando minha fisionomia, baixando meus olhos? Me pergunto. A pressão do que essas iris veem, ignoram ou absorvem. Refletem ou esvaziam. Isso também está me dando olhos de peixe morto?
Antes de sentar para escrever, eu pensei que seria mais divertido estudar. Isso também é uma mudança.
L comentou comigo uma vez que achava bonito quando mulheres tem olhos baixos, olheiras fundas. Olhos de peixe morto.
Foi apenas recentemente que eu percebi como os filósofos estão sempre falando sobre coisas simples. Vontade, segundo X.
Liberdade, segundo Y.
Estão todos tentando conceituar coisas diferentes sob o mesmo nome.
A linguagem está sempre tentando reduzir à logica o caos absoluto.
Eu estou tentando reduzir a palavras meus sentimentos.
Sentimentos são minhas percepções simplificadas sobre estímulos cuja natureza que desconheço.
Meus olhos de peixe morto? Só significam que eu preciso dormir mais mesmo.
terça-feira, 15 de março de 2022
O meu eu de ontem, o meu eu de hoje, o meu eu de amanhã
Costumava afirmar, com um misto de orgulho e nostalgia:
"Eu sinto falta de tudo
Sinto saudade de tudo e todos
De todos os momentos de todas as pessoas".
Hoje isso me espanta.
Eu não sinto falta de nada
Eu quero eliminar todas as lembranças
Eu não quero mais nada no caminho, mais nada
Que segure meus pés à noite.
Que mantenha meus olhos abertos
No escuro do meu quarto.
Eu quero a liberdade do presente e do futuro
Eu quero um destacamento que é impossível
Para nós
Criaturas humanas
Seres históricos feitos de passado.
-
Há coisas que eu devo fazer.
Há coisas que eu não preciso fazer.
É um pouco mais difícil do que imaginava distinguir entre os dois grupos.
Eu tenho uma breve noção agora da importância da gestão do
Tempo.
Do peso de suas escolhas.
Eu preciso de calma que não tenho, de experiência que não tenho ainda para ver agora
O que vou saber depois
Tarde demais.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022
Reflexões familiares
Mas outro motivo que me faz encerrar cada sessão de leitura com a garganta fechada e o rosto molhado são as menções ao meu avô. A forma como minha mãe descreve sua casa na infância, um porto seguro de proteção, brincadeiras e cumplicidade. Eu não sei até que ponto retrata o que viveu ou o que sua memória infantil lhe forneceu de informação. Mas seja qual for o caso, é uma lembrança que abre a ferida da ausência dessa noção na minha vida. A noção de um lar com um pai, ao menos quando eu era criança.
Meu pai. Figura da qual eu não falo, um meio enigma para a maior parte das pessoas que me conhece. Se nunca tive ou deixei de ter fica sempre um pouco ambíguo, já que não faz parte das minhas referências em conversas casuais, seja de forma positiva ou negativa. Não é proposital, eu simplesmente não lembro que tive pai no dia a dia. Mas o fato é que eu tive. Por 15 anos tive um pai em casa. Um pai que cozinhava às vezes, de vez em quando nos trazia presentes e ouvia boa música.
Todas essas lembranças incapazes de trazer a menor centelha de emoção e nostalgia pois são estruturalmente consumidas pela farsa que foi meu pai. Talvez por todo seu relacionamento conosco ter sido baseado em mentiras relacionadas aos postulados da nossa própria convivência: o horário de encerramento do trabalho às 22h, as viagens todo final de semana que faziam parte do trabalho, a eterna insuficiência financeira. Questões que eram tão características de quem era o meu pai de fato e como era o nosso convívio com ele: eram mentiras. Mentiras que até hoje me surpreendendo percebendo nas raras vezes que me lembro que tenho um pai. "Como por exemplo, ele tinha que ir todo final de semana viajar" comentei numa excepcional conversa sobre ele, ao que me responderam com ceticismo: "Só que claro que ele não viajava, não é". Eu ri. Claro que não. Um traço de convivência que eu me lembro desde criança. Foi apenas adolescente que entendi que o horário de trabalho não terminava às 22h.
Talvez por toda essa base estruturada em dubiedade, falsidade e realidade travestida, eu não sinta nenhuma emoção em relação aos momentos "bons". Como sentir saudade das chegadas dele de viagem, em que eu corria e pulava em seus braços após o final de semana de ansiedade, se nunca existiu viagem?
O mais interessante, porém, é perceber que nem quando eu estava sob o véu da mentira, naqueles anos, foram produzidas lembranças que suscitassem meu apego. Talvez por meu pai ser tão sinuoso, tão ardil, por entrar no meu quarto e perguntar entusiasmado sobre as histórias que eu escrevia - que eu descobriria depois que era só para irritar minha mãe. Talvez por tudo isso, pela falta inerente de sinceridade do seu carinho, eu nunca tenha me sentido apegada. Eu não choro pensando nele quando penso na ausência de uma figura paterna. Eu vivi com meu pai por 15 anos e ainda assim eu nunca tive a proteção e o cuidado de uma figura paterna. Sua proteção era ciúmes e seu cuidado era paranóia. O medo de que outros homens se aproximassem de suas filhas vinha unicamente do reconhecimento em todos os outros homens do tipo de homem que ele, por sua vez, era. A verdadeira proteção paterna, a que eu nunca tive em casa, essa sim me emociona, dessa sim eu sinto a ausência. Sinto especialmente quando eu leio o livro da minha mãe e a descrição desse lar protegido por um pai, o meu avô.
A emoção que eu nunca senti nem com a partida brusca do meu pai, eu sinto ao ler poucas páginas sobre a presença paternal do meu avô. Dele veio o mais próximo de referência paterna que eu pude sentir nessa vida. Quando minha mãe descreve sua expressão preocupada, suas brincadeiras pela casa, seu hábito de cochilar no chão, todas lembranças que fazem também parte de mim. Que eu gostaria de ter apreciado mais. É engraçado que eu só percebi após sua morte como eu amava meu avô. Os sonhos repetidos com ele, mesmo depois de tantos anos, o reconhecimento retroativo à sensação de proteção e tranquilidade que eu sentia em sua casa. Um lugar para ir.
Eu gostaria de tê-lo dito mais ou ao menos de naquele tempo, entender mais sobre o amor, pensar mais sobre o amor, entender como se manifesta, como se deve, obrigatoriamente, muni-lo de atenção e constância. Coisas que eu pareço ter aprendido muito recentemente e que diariamente me esforço para colocar em prática com as pessoas que eu amo. Essas coisas eu não fiz com meu avô, não o bastante. Não era madura o suficiente, não era atenta. Ele foi minha primeira e única grande perda até então nessa vida, uma perda com a qual eu aprendi que quando se ama alguém o amor nunca esmorece. O amor não acaba com a distância, ele continua perenemente molhando nossos olhos, de tempos em tempos, visitando nossos sonhos e nos fazendo sorrir. Eu agradeço ao meu avô por ter me dado a noção do sentimento de paternidade, de proteção. Eu invejo a experiência doméstica da infância da minha mãe. Mas essa é só uma experiência infantil. O verdadeiro significado de lar, construído de tal forma completamente a me fazer na maior parte do tempo esquecer que eu possuo essa lacuna, essa ausência paterna, se deu à partir da minha mãe. Minha mãe, a quem eu já fui começar a conhecer à partir da partida do meu pai. Que até adolescência eu achava que era chata, taciturna, impliquenta. Eu descobri ser engraçada, sincera, amorosa, alegre. À partir do momento em que pude finalmente conhecer minha mãe, nossa casa começou realmente a ser um lar, composto por mim, por ela e minha irmã. Essa lar eu consigo identificar com as descrições de seu livro, nesse lar reconheço um antro de proteção. Um lar fundado em confiança, verdade, amor e cuidado.
Foi tardiamente, porém, que isso veio e que pude conhecer, de fato, minha mãe. O peso que esse conhecimento tardio teve nela, o período sendo alguém que não ela mesma, todas essas são experiências terríveis que precisou passar, vivências que eu constantemente tento entender e ponderar como forma de compreendê-la, amá-la como ela precisa ser amada e não repetir comportamentos que emulem esse passado. Constantemente eu falho nessa empreitada e em outras vezes me vejo remoendo essas falhas. É um ciclo de pensamentos muito longo e atormentado, no qual coexistem tentativa de compreender, obter respostas, e entender o que fazer com elas: Qual é a melhor forma de agir, de amar? Qual é a melhor forma de contribuir para a felicidade das pessoas amadas?
Todos esses pensamentos fazem com que eu acabe me tornando uma pessoa muitas vezes pesada, tensa, austera. Muito atenta, atenta demais. Tensa demais, com muito medo de errar e muita dor em frente à rejeição de minhas tentativas. O contrário do que uma convivência leve precisa. Encontrar esse equilíbrio também é um desafio. Só tem desafios, ao que parece, quando nos importamos com as pessoas.
domingo, 2 de janeiro de 2022
Ansiedade
Impulsos infantis, fúrias infundadas, medo.
Com o passar o tempo, fiquei cada vez mais medrosa. Me procuro dentro do meu breviário de fins, de términos iminentes: desta luz do sol, deste dia. Do mais próximo momento de alegria, da vida minha e de todos que me cercam.
Medo do tempo, da passagem dele.
Eu me pergunto se envelhecer é sentir medo do tempo, se essa sensação de perda constante é o pagamento que faço pela capacidade de apreciar o seu valor.
Apreciar e temer perder: a inaptidão em lidar com a finitude, com a morte natural minha e de todas as coisas.
Eu vejo em mim, eu vejo: todas as coisas que temo, que julgo ou que repudio.
Vejo em mim os medos da minha mãe: vejo os defeitos e percebo que não são defeitos. Vejo seus traços de personalidade, posso tatear e acompanhar de que substância são feitas suas ações. Vejo pois reconheço em mim mas se a mim julgo, como posso perdoá-la?
Tenho plena consciência de que tudo isso, sob uma perspectiva mais ampla e distante, seria de simples resolução.
Tento me afastar de mim, me olhar do outro canto da sala: Qual é o problema? Por que você está complicando tudo?
Sinto que a capacidade de compreensão está no âmbito da consciência, está a meu alcance: obstaculizada só por um ou dois véus de confusão.
Sinto minha vista desvanecer e a névoa obstruir a clareza da minha percepção: tão afiada e metódica em relação ao mundo exterior. Tão emotiva e juvenil com meus próprios sentimentos destrambelhados.
Todo dia é essa pequena luta:
Lutar com a pequena e conturbada parte de mim.
Não busco por grandes coisas, por nenhuma compreensão maior. Qualquer teorema geral é pura bobagem, pintar fatos e pessoas de poesia é escape da realidade, tudo bem.
Mas eu só busco por paz.
Quero encontrar o equilíbrio entre observar e viver, sem precisar temer no caminho.
Quero relaxar meus ombros e respirar fundo sem me esforçar para isso, quero a ausência de esforço, a naturalidade.
Quero ver de forma clara e não obscurecida pelos meus próprios fantasmas e temores repetitivos.
Sei bem que é tudo uma questão de perspectiva.
Sei que uma leve alteração de cenários me faria reconhecer a simplicidade dos meus problemas abstratos.
Mas esse conhecimento não toca ainda meu coração - incluo o "ainda" como um ato de generosidade e esperança em mim mesma.
Minha mente - rápida, racional e potente - não consegue informar ao tremor das minhas mãos, à náusea em meu estômago e aos olhos vidrados antes de dormir.
Eu odeio dar nome às coisas, mas talvez possa chamar isso de ansiedade.
quinta-feira, 11 de novembro de 2021
Ponto de distância (Eu não consigo parar)
domingo, 7 de novembro de 2021
Universo (constatação)
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
Os humanos são criaturas gulosas
Uma memória de uma outra vida minha:
Prazer.
Senti o chamado puro para libertar minha mente em meus dedos, para derramar meu coração. Senti meu coração. Esses dias isso já é grande coisa.
Senti sem pressão ou coerção. Sem a afiada lança da autocrítica.
Senti como sentia quando era menina: Liberdade. Em se travestir de quem quero ser, à vontade. Senti vontade.
A liberdade da atuação, da falta de talento. Dos textos desconexos, sem ritmo, sem propósito, sem riqueza de linguagem, sem objetivo, meta ou qualquer projetada miragem.
Eu senti e vim. Não é todo dia que se sente isso, não mais.
Também não posso mais dizer que estou morta. Percebi isso recentemente, qualquer dia vos relato o causo.
Talvez apenas escondida, embaixo da minha repetitiva e eterna busca sobre O que é.
O que deve ser?
O passado é, de fato, ridículo?
Ser racional em um nível tão doentio é, sob qualquer ótica, um sinal de maturidade?
Que bobagem.
A única certeza que eu tenho, com o passar dos anos, é que eu sempre estou errada.
"A experiência se encarrega de demonstrar que tudo é uma ilusão."
Eu estou tentando entender, como viver. Eu sinto que acabei de nascer, porque sei tão pouco. Eu sinto que estou quase no final, pois o tempo escorre pelos dedos e agora eu consigo, sim, eu o sinto claramente se esvair. Eu durmo e acordo assustada, mais um dia se passou. Ainda não entendi nada. Eu deveria saber como viver? Eu deveria saber que, para viver, devo parar de me perguntar como. Eu devo parar de perguntar-me, eu devo, meu deus, eu devo parar de sentir que devo, parar de tentar, eu preciso, meu deus, eu não aguento.
Eu quero sentir tudo. Eu quero registrar em imagens. Eu quero sentir sempre, eu não quero que acabe.
quarta-feira, 8 de setembro de 2021
A matéria das coisas frágeis pt.2
O único medo
É o da solidão
O único objetivo
É ser amado
Ser querido
Para não estar só
Para isso, buscamos ser
Desejáveis
Desenvolver as qualidades
Que nos tornam
Admiráveis
Atraentes
À companhia e amor.
Para não estar sós,
Buscamos ser belos
Inteligentes
Espirituosos
Possuir algo que nos dê
Valor
A ironia é que
Ao amar verdadeiramente
Ao querer por perto
Nossos olhos ignoram
Todos os atributos
Defeitos
As mil capacidades
Desenvolvidas ou não
"Eu amo porque amo."
Todo o resto é consequência.
sábado, 4 de setembro de 2021
A matéria das coisas frágeis
Baseadas na mesma estrutura:
Na matéria das coisas frágeis.
Tateando, isoladas, um fuga da solidão
Que acreditam repousar na mediocridade.
Um ponto distintivo:
Sinal de fogo na multidão.
Uma conto exótico em sua roda de amigos.
Uma viagem ou um causo amoroso,
Beleza, inteligência ou quem sabe humor.
Caso não consiga, também funciona portar um pouco de dor.
Aquela silenciosa e elegante,
Mistério vazio e flutuante
Das pessoas mais prosaicas.
Arcaicas
São nossas tentativas de esconderijo e fuga:
Desesperados gritos por afeto e compensação
Baseados nas referências mais inalcançáveis.
Processos de comparação e destaque:
Uma metodologia exaustiva que confirma apenas o desgaste
De buscar estruturas em bolhas de sabão.
Ser mundana, um prazer delicado:
Sorver o gosto da insuficiência e do fracasso;
Saborear a mais tranquila banalidade;
Bem mais aleatoridade do que potência.
Encontrar na ausência de tentativa e erro
A mais íntima e absoluta liberdade.
domingo, 9 de maio de 2021
Cemitério espacial
E muito pequeno
Quando meus dedos põem para fora
Coisas que meu cérebro impede de sairem.
Eu era uma criança feita de luz e mar
Mas o passar dos anos deixou minha mente quente
Forte e potente
Roubando cada pedaço de espontaneidade, de liberdade
Transformando-as em cálculos detestáveis
Resultado da lógica inquebrável
De uma existência doente.
Mas por mais que eu tente
Existe algo precioso a ser preservado.
Todo dia que eu me esqueço disso
Ainda assim transborda em qualquer coisa que eu faço
Como a cor que escapa pela borda do quadro
E domina a tela, a parede, a sala
Inunda a minha casa de tinta, transborda pela rua
Me deixa nua
Como fui criada.
E meus olhos se enchem de lágrimas
Tão cansadas, tão sozinhas
Como posso ter deixado tão rápido de ser minha?
Me abraço em mim, estranha e pequenina
Sorrindo por sentir dor, por cada ardência dessa ferida minha.
domingo, 14 de fevereiro de 2021
Enfim chegamos a um resultado preciso
Claramente
Aquilo que era dormente nos meus dedos
Queimando e devorando minha mente
Materializando-se em um ou dois pensamentos a mais
Nunca mais
Eu poderei ignorar todo o mal que minha mente me faz.
Se você já me leu
Já me viu
Tocou minha pele fria
Se você já sorriu comigo com meu riso vazio desacompanhado dos meus olhos
Ou me viu em um momento de relaxamento
No qual meu rosto se vê duro como mármore
E eu tenho que me lembrar de sorrir
Se já me viu fazer uma piada casual
Sempre um pouco estranha e gultural
Se já me viu no meu ambiente natural
Muito menos humana que animal
Talvez já saiba
Talvez já tenha pressentido no acaso
Comentado com um colega
Visto o resquício, a sequela
Pensado
É ela
Uma hora ela vai ter um colapso.
Avisos estranhos no espelho do banheiro (Ou: Tentativa de fuga)
Tenho percebido um certo ímpeto de sobreviver
Daquilo que eu achei que tinha esmagado com minha carcaça urgente e profissional
Academicamente soterrada em ceticismo e ignorância
Mas demora a morrer a alma
E essa semana ela voltou, de improviso
Veio visitar minha vida real, desorganizada e sem aviso
Até tentou conversar com pessoas, a sacana
Que pilantra
Confudir os outros com palavras incoerentes
Ousar revelar o adoecimento de minha mente
Quase pedir ajuda, chorar
Encarar meus olhos no espelho
Com a velha cobrança inútil que se faz aos criminosos
Horrorosos
O que fizeram conosco?
Eu sorrio
Sentindo a tensão do fio da sanidade
Que vibra e ameaça romper mediante um empurrão sem cuidado
Cuidado
Digo e sorrio
Dentro do espelho ela se esconde no vazio
Se encolhe ao perceber o risco, ao perceber o frio
Sorrio:
Cuidado.
The waking hour
Carne, água e necessidade
Eu tentei pela milésima vez
Esforço desgastado de quem não sabe se render
Tentei arrancar um pedaço dos meus órgãos e entregar
A quem? A quem quisesse pegar
Tentei uma conexão, uma súplica, uma confissão
Tentei em vão
Recolher os pedaços quebrados do chão
Refazer alguma coisa que se destruiu, que não resistiu, que nunca existiu.
Mas as pessoas são pedaços de química de classificação individual.
Coisa e tal
Cada um o pequeno centro de seu universo
E não poderia ser diferente
É claro para mim, mas não para minha mente
Que sente o rompante de loucura se anunciar
Elegante, esperada e crua
Sem desesperar
Sempre à espreita, sempre a esperar
Aquela hora da madrugada:
A hora do despertar.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2020
I'm not your superego
Palavra navalha
Saudade de coisas reais
Gato escaldado
Bicho do mato
Eu gosto da sua risada
Quando você cozinha na sala
Canta de calcinha, descalça
Me dá duas sensações a mais
Quando você me dá a vida
Em repetidas doses líquidas de alegria
A confiança que me dá
Gato escaldado que não aguenta mais
Navalha seca e ácida
Na minha carne fraca
Sangra mais, que eu rio suor e lágrima
Rio teu curtir solto de fada
Curto duas ou três fileiras de paz
Me dá as coisas reais
Embrulhadas em lembranças demais
Doídas de mais
Sozinhas demais.
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
Método científico
Hoje fez um clima de chuva que não fazia desde 2012
Eu acumulei um monte de coisas de lá para cá em minha bolsa:
Acumulei tudo o que roubei de mim mesma,
enquanto forçava cada vez mais a resistência da minha pureza.
Acumulei o resultado de todas minhas hipóteses negadas, minhas facas desafiadas, minhas armas enferrujadas.
Acumulei o que de algumas pessoas peguei - Que foi pouco mais que nada, porque bem menos trouxe do que deixei, por isso talvez hoje me sinta pouco lírica, pouco vazia, pouco.
Eu tomei um vinho amargo, que agora eu tomo em uma taça de vidro e não na imaginação.
Seu gosto me remete à noites frias e solitárias, música ambiente, praças joviais - bem longe aqui do sertão.
Me remete à coisas que vivi, que sorvi o gosto e comi. Até não significarem nada.
Papel fosco, risada seca engasgada.
Desde cedo eu soube,
Eu hipotetizei
Que nada teria sentido
Que ninguém seria meu rei
Mas agora sem nenhuma vitória
Posso dizer que provei
Nada importa nenhum pouco
Nada do que fiz, do que quis, do que sei.
Talvez fosse o caso de você procurar ajuda profissional
sexta-feira, 14 de agosto de 2020
Velha cadência repetida
Me dê elementos literários, usados e esmagados em repetições enfadonhas.
E daí quem sabe eu possa esconder minhas perversidades - Em arte - instrumentalizar o que me convém;
Reinventar à vontade.
Tatuar
Nas marcas gentis e meninas feitas à ferro e fogo pelas minhas unhas felinas -
Os últimos resquícios de sinceridade.
Meu multiverso de esquizofrênicas realidades.
Eu hesito, não nego.
Não possuo mais a impulsividade de outros tempos.
Eu sorrio, lamento.
Meu ritmo se quebra em duas cadências de versos lentos.
No final da noite, reúno nada mais do que poucos elementos na minha memória seletiva:
Uma noite quente, a rua central iluminada, um sorriso quebrado, o espelho sujo, um velho quadro.
A mediocridade pincelada com minha própria interpretação pessoal de uma memória - Uma gargalhada ou um abuso.
Isso me basta, por agora.
Verdade seja dita, minha veia perversa se contenta com suas lágrimas no assoalho.
Ver aquela lembrança insistente, ser um pesadelo suado. A ideia de mim circulando pacientemente na sua mente me agrada muito mais do que o seu corpo no meu quarto.
Talvez tenha sido sempre assim ou eu tenha visto filmes demais. A verdade é que desde os dezesseis é mais ou menos a mesma coisa que ma apraz.
A paz? É legal, tanto faz. Mas para uma boa história - ou sequer um texto enganchado depois de tanta hesitação - é necessário um gole de memórias, a velha centelha de caos e o destemor da destruição.
domingo, 24 de novembro de 2019
Tela sobreposta (Pequenos estados das coisas)
O que eu poderia em outro momento ver como libertação - de toda e qualquer condição, de qualquer destino ou fatalidade, eu olho nesse segundo com medo. Tenho medo de perder os fragmentos que compõem a minha verdade de agora. Esse modo de ser, esse estado das coisas - é flutuante, e essa sobreposição me lembra disso com tediosa tranquilidade.
Leio uma carta antiga, me transporto.
É perturbadora a sinceridade das minhas palavras. Fiéis em traduzir o tremor que minhas mãos experimentavam enquanto eu as escrevia, as vejo agora novamente - sinto o seu gosto. Naquele momento eu tinha certeza de muitas coisas, eu sentia fisicamente o peso da dor, da paixão, do desespero que minha mente produzia. Eu tinha um sentimento absoluto em minhas mãos.
Corte para o vácuo, silêncio absoluto. Todas as sensações encontram sua antítese diante do acúmulo de experiências. A soma de novos fatos vai deturpando a imagem dos fatos passados, em uma diluição contínua, eterna, da qual tudo que posso gravar são pequenos estados das coisas. Em uma carta, em uma lembrança. Em uma foto, dificilmente - a mais vazia das expressões. Em um texto bem construído, talvez. Porque assim consigo falar a mim mesma na linguagem que entendo, da qual eu mesma absorvo que sentimentos me motivaram.
Tudo isso me faz sentir triste. E livre. Como sempre tem sido. Me faz olhar com ingenuidade meu eu passado e com apreensão ao futuro, para o qual sou um pedaço ingênuo registrado no tecido do ontem, das lembranças, de sentimentos que estou tentando cravar em palavras nesse momento, para revisitar depois.
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
2019
A regra que eu queria era: Não transformar coisas grotescas em poesia para me satisfazer com elas. Parece um grande óbvio mas essa por si só já satisfaria minha singela grande meta. Lendo um texto nada antigo, embasbacada com minha capacidade de reverter o absurdo em bonito, romantizando - e nunca na história uma palavra foi mais cabível.
O que você acha de levar um grito na cara e transformar em belo rompante de fúria?
Ou de ser por vezes subjugada, humilhada e minimizada e interpretar aquele humor maroto, ah que coração pueril!
Nossa, que ânsia. Assim eu nunca mais vou escrever na história do Brasil.
Talvez seja possível, porém, retirar disso tudo algumas lições que eu tenho repetido para mim mesma sem saber o significado desde jovem intinerante pulando de fantasia a fantasia: A poesia, carina, é uma bela companhia. Mas ao encarar sua vida, olhe-a bem nos olhos e veja o que faz com você. A verdade - esse acaso programado - pode não ser explicável, mas é analisável, é tátil, concreto e visceral. Você pode aceitar seu caos total, você pode aceitar seu caos total.
sábado, 22 de junho de 2019
Burocracia
Reviro caixas, bolsos antigos. Tudo o que eu queria era achar um documento. Não aguento mais a burocracia das coisas, perguntas e respostas em e-mails artificialmente polidos. Perguntas e respostas em mensagens de celular. Uma ou outra lembrança emerge - minha cabeça lateja como se o sino da igreja badalasse nela. Não aguento esse dia.
A realidade é chata, enfadonha. A lembrança se reveste de cores que nem existiam na paleta daquele período. É sempre assim e sempre vai ser. Sua repetição, porém, não me é colorida ou frutífera. Me atormenta e incomoda como a cor que se espalha pela sala de casa às 18h quando bate o sino. Uma corrida pela rua, despreocupada das atenções alheias. Subir em um banco de praça e declamar um poema antigo como quem canta um hino socialista. Rir e cair em mãos ternas, enquanto o efeito do vinho badala na cabeça. Sorrir e cantar e cair e correr. Todas atividades infantis tão valiosas quanto pouco originais na recordação.
Um acumulado de arrependimentos e angústias me sufoca nesse horário do dia, me fazendo afogar em meu próprio pescoço. Me vejo presa em enfadonhas repetições de mim mesma, me expondo à traços que não gosto no espelho do banheiro. Não preciso de álcool para me sentir embriagada, triste e convalescente. Minha cabeça dói e não encontro o documento. A angústia sobe até a garganta e fecho as portas dos armários, fecho os e-mails abertos aguardando resposta, fecho a burocracia que me envolve neste dia e em todos e me afoga em mim e em todas as minhas mil capacidades não desenvolvidas. Fecho a porta do quarto, me deito na cama e me fecho em mim.
quinta-feira, 20 de junho de 2019
Arte contemporânea
Eu não sei que dia é hoje mas sei que te vomito todo até o final desse agosto.
Teu gosto amargo sangrando nos meus lábios, palavras tenras e violência, a magia da inconsequência.
Qual é o preço de algumas gotas de felicidade?
Que depois de bebida, é sugada de volta com violência, succionada do nosso corpo por qualquer coisa antìtese àquela que a proporcionou, nos fazendo somente gritar o vácuo de sua ausência.
Por que você tinha que roer os meus ossos até enfraquecer todas as estruturas da minha paz? A carne e o músculo você penetrou bem antes. Já me habitava o corpo, parasita ambulante. Mas não satisfeito tinha que encontrar a substância, a infância, a confiança e assalta-la em um relance.
Eu me acostumei a ser devorada aos pouquinhos.
A cada palavra ferina, mais um pedacinho.
A cada ato de loucura, de vontade ou de luxúria eu entregava temperada pela novidade a inocência do meu carinho.
E me regojizava ante o meu predador, me sentindo uma grande obra de arte, clássica musa do meu pintor.
Barganhando minha liberdade com cada rompante de criatividade que acometia o seu amor.
Mas amor era um conceito costurado.
Estranho, distorcido, violado. Até confuso e atrapalhado ao perceber seu novo uso.
Instrumentalizado à vontade, com uma ausência de sinceridade que o impostou em abuso.
E me vejo então, doentemente, rastejando pelas cobertas de sua mente, te acordando na noite quente, com o inferno em minhas mãos.
Quero recortar, esmagar, destruir.
Quero atormentar sua paz, assombrar seus pensamentos, ouvir meu nome murmurado da sua boca no mais lúgubre dos lamentos, em um pesadelo vigilante.
Quero o agora, depois e antes.
Quero a vingança da minha presença constante te aterrorizando a cada instante.
E te abraçar no seu sono, a carcaça fria do que você deixou, te fazendo chorar cada centelha de luz que cirurgicamente você matou.
Te fazendo lembrar do sutil brilho no olhar que com investidas reiteradas você apagou.
Quero ser um cadáver colado na sua pele, te fazendo gritar de horror, e aonde você vai eu estou lá e docemente te peço "façamos amor?"
Quero criar o fogo na sua subjetividade te fazendo crer que o inferno não é um estado de arte e sim uma sensação interior.
E finalmente te fazer encarando o penhasco, com minhas mãos frias no seu encalço e meu corpo magro em um apaixonante enlaço, te ver concluir que a decisão coerente é partir e se jogar para sempre no acaso.
Ou talvez eu só queira dormir sem pesadelos por uma noite. E acordar sem dúvidas e suor frio.
Talvez eu não queira nada de você e minha grande fantasia seja recuperar aquela magia que você destruiu.
terça-feira, 11 de junho de 2019
Virada de chave
O sol nasce, o céu azul opaco
Teu corpo ao lado e eu rio em paz
Porque não amo mais você.
Desço e pego um café, dois biscoitos grandes, uma volta no parque.
Lá emcima me espera a lembrança, dentro de mim arlequina dança. Como é bom não mais te ver.
Me deleito com os dedos na tua pele nua,
Enquanto dorme e minha risada que chega é crua
Gostoso o retorno da minha faceta pura
Pura diversão, risada seca, doce amargura.
Me recordo com nostalgia, da ingênua folia de te confiar um cadinho de alegria
Me recordo com carinho do meu eu passado sozinho, amando um espelho pensando te ver
Me recordo com cansaço, do procedimento básico, que escolhe pelos meus dedos amargo, de perder um outro trago, um outro rastro
de
humanidade
ah
por um instante
até pensei que era saudade.
terça-feira, 4 de junho de 2019
Lenga lenga
Fumei, bebi, beijei, menti.
Todas as coisas sobre as quais escrevia se tornaram enfadonha realidade, rotina e monotonia.
A bruxa escreveu o futuro em textos no seu computador na madrugada no escuro.
Agora provou de tudo
Que gosto
Inssosso.
Não vale nem a entrada do meu almoço.
É tudo chato, sempre a mesma coisa.
Amar as pessoas é a mentira mais velha e tosca.
Me iludir lentamente: cabeça, tronco, coração e mente.
Mente, mente, mente.
Sou uma sádica, uma mentirosa, uma bruxa, que coisa horrorosa.
Agora são vinte e tantos anos, daqui a pouco a casa dos trinta.
Vou ter que mudar minha personagem.
Ana, Isabela ou quem sabe Miriam?
O pior de ler isso tudo
De mergulhar nesse passado.
É não sentir nem mesmo melancolia
Do gosto amargo do oco do casco.
Hoje eu acordei e não o amava mais.
Um jovem rapaz
De olhos verdes e língua estrangeira me disse:
Por favor, seja gentil quando não me amar mais.
Sei que é cruel com quem para ti já não existe.
Eu não sei se consigo mais amar, meu jovem rapaz
Ou se entendi que é tudo um jogo de trocar dois paus por três chistes.
Eu estou bela, jovem, gélida.
Sou um fantasma para mim mesma
E para as fantasias que construistes.
quinta-feira, 9 de maio de 2019
Mesa posta
Me bate a saudade de ser venerada, idolatrada, obtusa: Como uma garota comum, periférica e suja.
Pisar num chão de folhas vermelhas: Nada ali é meu ou me cabe, tudo se coloca à meu dispôr:
Meu tabuleiro de pratos na mesa,
Realeza:
Me sinto a rainha imunda de seu conto de tolo, ouro ralo, tosco. Dezembro falso no meio de agosto.
Satisfazendo sua atração pelo excêntrico e alternativo: Uma escolha risível, que te destaca no seu grupo de amigos.
Provoca riso, admiração: Sou como uma bota feia e superfaturada feita de couro de leão.
Mesa à posta:
É gostoso rir da falta de desafio.
Agradeço a reciprocidade do contrato: De você sorvi o mais anárquico dos vazios.
Um dia, três meses, dois quartos: Imagens toscas que poderiam ser românticas se eu quisesse fazer um outro tipo de estética - Estética insincera -
Na cozinha, na praça, na mesa, no quadro:
No lugar disso, prefiro o olho no próprio olho
Não no seu, sim no meu desgosto
É claro
Eu te disse, mas você não viu:
Não olhe para mim de frente...
Você sempre ficou melhor de lado.
segunda-feira, 8 de abril de 2019
Serve outra dose para o rapaz mais blasè dessa cidade.
Recobram as vontades que escondo em uma fachada de mármore.
De mármore.
Como a bancada em que me apoio ao teu lado,
Te olho, incólume, tantos segredos vazios.
É em você que penso quando eu liberto meus sentidos.
Aqueles pequenos momentos passageiros,
Adocicados pela perspectiva de morte prematura.
São o que me vem à mente e sorrio
Tudo é borrado, mas a lembrança, reconheço, é a tua.
Meus dedos começam a ficar impacientes,
Quero puxar as cordas, causar desastres.
Uma ligação inocente, até mesmo uma mensagem
Quero ver movimentação porque dentro de mim tudo é estático
Quero acordar à machadadas meu coração apático.
As luzes estão acesas na selva urbana,
Minha criatividade na lama.
Vejo sua imagem na minha mente tão clara
Quero estender a mão e estrangulá-la.
Em meus carinhos indesejáveis, teu carma
Minha cama vazia, tua cara de canalha.
Um substituto passageiro,
Cínico, gentil e estrangeiro.
Mas na memória nenhum daqueles dias passou,
Do endiabrado fevereiro.
Sim, minha expressão continua impassível
Metade das palavras falo pela metade, vou tornar isso impossível.
De noite, tomo mais duas doses de covardia líquida e desapareço
Não quero saber de ti, tão longe agora do meu endereço
Zombo da tua figura, da minha paixão desarrazoada
Mas tua cara continua na memória: Sarcástica e blasè
parece até saber que no plano inicial
Este texto sequer era sobre você.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Uma reescritura)
Não tanto os beijos apaixonados, declarações, o toque dos corpos - claro, isso também. Mas na intimidade se cruza a fronteira daquilo que não exaure mediante o tempo, na memória, na confusão entre dezenas ou centenas de experiências similares.
A intimidade fala das particularidades, dos detalhes daquela pessoa. Dos pequenos pedaços de tempo congelados em cenas tão específicas que ao fechar os olhos você reencontra, toca e que não podem nunca se repetir. E por isso mesmo às vezes voltam para te visitar.
São aqueles momentos que você pôde perceber que estavam acontecendo no instante em que estavam. Que te descobriram uma nova camada daquela pessoa, uma muito íntima, muito singela, e que te fez sorrir por ganhar um tesouro precioso - a intimidade daquele momento. Só sua, só de vocês, de mais ninguém. Aquele tesouro que no momento em que se toma para si, se sabe, não será nunca mais repetido por ninguém e por isso mesmo te torna eterno na mente do outro - e o torna na sua.
O eterno nada mais é do que o insubstituível, o peculiar. É eterno porque não pode ser esquecido, então vive eternamente na sua mente. Não pode ser esquecido porque não pode ser confundido com um similiar, é único, específico. É o momento íntimo.
Brilho eterno de uma mente sem lembranças. É a oração de todos que carregam o fardo das intimidades vividas, resquícios de histórias encerradas. Porque a lembrança da intimidade impede a finalização da história da mente, impede seu final e nos lembra que as histórias acabam nas ações mas não nos pensamentos.
Uma boa memória, de fato, como disseram absolutamente todos os poetas, é portanto um fardo. Ela te traz vidas consigo, antes da sua, e se você for coerente, talves sorria com a memória, e se for sensível, talvez sofra com a ausência.
Intimidade é um detalhe tão singelo e único que às vezes só existe na sua mente. Na do outro, que assistia distraído um programa velho demais para sua idade no computador, algum programa bobo de auditório, deitado na cama, morrendo de sono, mas que assistia para não te deixar acordada sozinha; Para o outro, talvez esse momento não tenha sido registrado, talves outros tenham sido, outros do universo do outro, que nunca serão seus.
Mas para você que naquele momento olhou para os pés de vocês dois sob os lençois brancos, o modo como ele se apoiava nos cotovelos, sua calça de moletom e seus olhos quase fechando ao assistir um programa de madrugada ao seu lado, estava capturado o momento de intimidade.
E costumam ser assim, fruto da convivência. É por isso que as relações mais superficiais, aquelas que se encerram na praia do que propositalmente se deixa ver, elas não deixam marcas profundas. Por mais que os encontros que as componham sejam mais belos, musicados, cheirosos e ensaiados, por isso mesmo, pela falta de descuido, pela falta do momento roubado no instante de desatenção - de quase sono - não são registrados.
O encantador do outro é quem ele é quando não se deixa ser observado. É sua natureza íntima em um momento de desatenção. Quando não tenta fazer rir ou encantar, e se deixa dar ao mundo diretamente como é. Observar esse momento é um milagre encantador, é um tesouro. É por isso que a intimidade é também um momento de inocência. A única verdadeira beleza que é a inocência do outro, a inocência do momento não impostado, articulado ou artificial. Quando comprime os olhos para enxergar o programa de televisão, quando se admira que nadar à noite parece um sonho. Às vezes uma observação tão íntima que não faz sentido para seu interlocutor. E assim toma um sentido mais belo ainda, porque ela vem diretamente do pensamento de quem fala, não busca ser compreendida.
São estes trechinhos, pedaços de intimidade, de vida. Pedaços de história. Que se guarda na memória. Se guarda na memória.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
Uma dose aos futuros incertos.
É que nada é o que se espera
E que sim eu ainda quero você
E não, eu não posso dizer.
Essa dor é muito gentil
É uma visita desconvidada
Uma visita polida e educada,
Que machuca com candura e sinceridade
Como você.
Não, eu ainda não esqueci
Eu também não sei por que seu olhar me disse tanto
E suas palavras ficaram tatuadas
Como navalhas na minha calma.
Minha vontade?
Claro que eu quero te falar
Te explicar entre beijos carinhosos
Carinhosos demais para você.
O que você é?
Você é o frio dessa noite solitária?
Você é o calor das manhãs em que sonho contigo?
Você é só alguém prosaico e hostil
Ou você é um misterio sombrio?
Ah amanhã eu hei de ter esquecido
Mas hoje eu lembro, eu lembro de tudo
Eu lembro do teu sotaque forte, me negando e me beijando
De tua mão recuando e enlouquecendo
De teu olhar me dizendo.
Eu lembro de cada momento que talvez só eu tenha vivido
Se tu viu, eu não sei
Mas o que poderia ser...
por que tu não deixa eu te dizer?
E se alguém te quer,
Se alguém aparecer,
Minha humildade tem vontade de dizer:
Deixa!
porque ninguém vai te querer assim
Não porque não irão
Não porque não és desejável
Mas porque eu te quero com tudo que existe
Te quero com o que em mim subsiste
Depois de tanta pancada
Ta quero com tanto
Que por acidente escrevo que te amo.
Amanhã eu não sei, que está longe
Mas hoje eu te daria todas as flores
E renderia as bandeiras
Ah, minha hostilidade
A mais previsível das fronteiras.
Eu derrubaria dez mil vezes mais
Te entregaria todos os ás.
Mas nada disso eu faço
porque tu não quer meu amor sutil.
Então eu silencio
Silencio para não ouvir teus NÃOS
para me iludir com a possibilidade.
Me apoiar em lembranças
E acompanhar tuas andanças.
E daí quem sabe um dia,
Quem sabe daqui uns meses
A gente perto, tudo dê certo, a gente assim.
Quem sabe tu não me puxa forte
Quem sabe a gente não dá sorte
De te encontrar em mim.
Talvez eu te esqueça
E nada aconteça
Talvez nosso ritmo tenha saído de tempo
Talvez nossas danças não sejam mais
Aquele desafio ao tempo audaz
Talvez você não seja mais pedaço extirpado de mim
Ou talvez sim.
Talvez nosso beijo encaixe
Meu abraço te ache
E eu pense, como pensei antes
"Como amo estar aqui".
Talvez nada disso
E eu lerei esse texto
Que será sorriso ou pretexto
Que será lamento ou contento
Nostalgia ou distração
Um pedaço de meu passado
Ou metade do meu coração.
terça-feira, 11 de dezembro de 2018
Come si impari qualcuno?
sábado, 28 de julho de 2018
Carta para mim.
Eu vim escrever para resgatar a voz que preciso ouvir, me lembrando das coisas que eu já aprendi, mas que eu tenho esquecido.
Eu vim falar comigo mesma, porque precisava ouvir de alguém o que eu tenho a dizer: Que isso tudo que aconteceu e tem acontecido, tudo isso que machucou e tem ferido, tudo isso também vai passar. Nada disso pode ser esquecido.
Eu vim explicar para mim mesma que as alegrias inebriantes que se quebraram como ondas em lágrimas e rompantes - todas elas tiveram sua função. Eu já não sou a mesma, já fui tantas que não sei nem mais, mas nenhuma das antigas foi perdida. Como aquelas bonequinhas estranhas, estão todas dentro de mim, fazendo uma síntese do rebuliço emocional que me acompanha porque eu sou toda rebuliço: Fogo, rompante, intensidade agoniada. Entrega total, cegueira momentânea e risadas gostosas. Noites caminhando pelas ruas dessa cidade bonita, tardes abraçada vendo as cores de um olho familiar, lágrimas enquanto sorrio e tento compreender as pessoas. Muitas perguntas, muita saudade, declarações fora de hora - às vezes para destinatários vazios, cobranças descabidas e permissividades desnecessárias. Sim, eu sou todas essas coisas, tantas que foram erradas, mas em todas dando o meu melhor. Entrega, riso e choro, mas nunca vazio. Então não adianta tentar o vazio. Não adianta me gabar da liberdade da ausência de sentimento que alimenta um buraco que pode sim vir a me devorar durante o meu sono.
Então eu vou pegar essas lembranças, essas minhas lindas lembranças. E essas tristes lembranças também - as despedidas, as palavras ferinas, o abandono e a solidão. E com elas adubar o terreno no qual vou me construindo, me tornando outra coisa, algo mais rico de sentimentos, experiências e aprendizado. Algo pronto para receber ao novo, para me aventurar. E aceitar que eu tenho sim, ainda, um coração de raposa. Que é ferino e esperto e um pouco vadio. Mas que é de uma raposa que não consegue ser indiferente aos sonhos, ao amor e à esperança. E tudo bem, devo quebrar meu focinho mais umas quinhentas vezes e talvez nunca descansar tranquila num abraço permanente, porque tudo é transitório - Mas que os momentos sejam intensos, enquanto existam e que o coração pulse com verdade pelo que deseja e que o amor não seja esquecido em nenhuma esquina do trajeto.
E dias novos surgirão. Com essas lindas lembranças agridoces pavimentando a ternura dessas certezas.
quinta-feira, 28 de junho de 2018
There were two in the tower
There were two in the tower
In the edge of madness and outbreak
They had coffins in their mouths, weak voices in their minds.
They were trying to still aim something, to reach that despicable coverage of hope, remaining in their broken hearts and souls.
They were clinging really hard, really desperate. They were almost falling, but still stretching.
And so we do ask:
Why?
Why is it so vital to fight for dying things?
What is that precious quality contained in arms and eyes and hairs?
What is it that still make you cry even when you discovered how useless tears can be.
And in this empty room we widow
And in this empty room we sorrow
And yet
They cling onto each other,
Because such a sad persisting effort hope is.
sexta-feira, 20 de abril de 2018
"Não convém".
É engraçado. Quando lembro que achava que todo mundo de onde você vem era como você, mas nem é. Essa fala esquisita, formal, cantada, debochada: Só você.
Tão polido em me afastar, não uma nem apenas duas vezes. Se apenas teus olhares, sorrisos e beijos acompanhassem tuas palavras. Mas não foi assim nos nossos pequeninos momentos, ao menos não para mim. Mas falemos da frase, enfim.
A primeira foi numa dança, após todo o furacão de tu me dizer "não". Tocava Fagner e depois Caetano. Tu olhou para mim e riu com a ironia daquilo tudo.
Sentimento ilhado
Morto, amordaçado
Eu olhei e ri, enquanto escorria uma lágrima. Três dias e eu estaria à milhares de quilômetros daquela tua expressão sem salvação.
"Não queria que tu fosses agora" - Teu sorriso triste olhando o mundo ao nosso redor.
Naquele momento pareceu claro, como eu não percebi antes. Com tua indiferença, negação, silêncio e distância... O tempo todo estávamos no mesmo lugar:
"Eu me importo". Tu disse com uma urgência, uma força e aquele olhar engolindo o meu.
Ora, que inferno. Que não se importasse, quão mais fácil seria.
Eu olhei para nosso ambiente. Nossos amigos nos chamavam, teu abraço me constrangendo porque aí sim, depois das brigas, choro, raiva e acusações eu olhava pra ti como eu era e te dizia Não não te acho nenhum cretino. Gosto de tu assim, não precisava mudar nada.
Meu sorriso era tão desconsolado. Tu não sabias esse tempo todo. E então voltamos, sem salvação: Caetano.
A tua coisa
É toda tão certa
Beleza esperta.
"É tua música", tu me sorria e se aproximava. Estava perdendo o foco de quão sem saída era nossa rua. Eu, três vezes mais inconsequente em qualquer situação, tomei outra dose, puxei o teu braço e vamos dançar.
E daí, começou a tocar aquela bossa nova, a trilha sonora de curtir o fato de tudo parecer absurdamente mais real ao teu redor. A música mais gostosa, a noite mais memorável, eu, mais eu mesma. Na companhia do teu silêncio.
"Dançar bossa nova... bom, não convém". Foi aí o primeiro. Eu sorri e fingi que não te entendia, num teatro em que ninguém mais sequer sabia o que interpretava.
Vamos sentar, tu me cortou, como sempre cortou meus impulsos de ajeitar tua gola ou teu crachá. Mas na hora de levantar, tu segurou minha mão enquanto andávamos, porque é isso que tu sempre fez: O que tu bem quis.
Eu apenas te olhava, com teu olhar reto em frente, determinado em fazer qualquer coisa que te desse na telha sem nenhuma precaução. Eu te olhava, desesperançada, como quem sabia que sequer adiantava lutar por meu próprio coração. Que se desmanchava quando tu me abraçava tão forte naquela despedida, ou que ao menos parecia.
E teu abraço era tão forte, abraço sem nenhum beijo, tu me puxava e passeava as mãos por meus cabelos, costas, braços, e tudo que me fazia aproximar o beijo do teu, que quando lá chegava te ouvia: Não convém...
Me afastei um segundo antes da tua boca tomar a minha por assalto, porque é assim que tu sempre fez tudo: Com a incoerência total e completa que bem te convém.
Memória, memória, borrão e corte.
Dois dias depois e uma eternidade. Tu à minha frente em mais um almoço feito de silêncios completamente desproporcionais. Olhávamos para a janela à fora: Filosofia, Vida, Futuro. Tudo menos a gente, apenas a despedida. Amanhã eu estaria longe e tu, bom, tu comia tua alface com tranquilidade.
"Lembro a primeira vez em que almoçamos aqui", eu e o sorriso direto dos céticos. Aquela primeira vez que na verdade, haha, veja só, fazia um mês. "Nossa, como eu estava mal naquele dia". Eu disse e sorri, como que encantando-me com a reminiscência de uma versão tão juvenil e pura de mim mesma.
Foi assim que amenizei o que se sucedeu ante teu primeiro impacto: Insônia, falta de apetite, enjoos e calafrios. 25 anos nas costas. É. Era para rir mesmo.
"Sim, lembro que você mal comeu". Me disse, distraído. Alienado de tudo, mas ainda assim atento aos detalhes. Eu sorri: Bom, não era à essa altura que eu ia te entender.
"É. Reações químicas. Foi horrível". Tu me olhou, Como assim? perguntou o que já sabia. Claro que já sabia:
Outro corte. Quantos dias atrás? Seria o mesmo? É difícil pra caramba saber contigo.
Final da manhã, não sei bem como fomos parar naquela varanda do teu décimo quarto andar. Olhando o mundo lá embaixo, as pessoas pequenininhas, dentro das casas, em seus carros, em suas vidas. Quantos minutos ficamos olhando em silêncio eu não sei bem.
"Nada disso importa em nada. Nenhum de nós. Não é?" Não precisava ter te perguntado, eu senti no teu silêncio antes de falarmos: "É."
Por que tu, que eu conhecia apenas há um mês, eu já conhecia há tanto tempo?
Ficaria ali, naquela bancada de mármore, o mundo lá embaixo, minha mente esvaziando, todo o dia. No tipo mais eficaz de meditação que já conheci. O maldito, o infeliz silêncio confortável.
"Tudo são reações químicas. A paixão, o amor - tudo temporário. Sabe, eu li um estudo sobre isso uma vez. São nossos hormônios que simulam cada sensação de ansiedade e prazer."
"Bom", tu mentiu e eu não vi na hora, "devem faltar esses hormônios em mim então.".
Corta de volta para a pior mesa de almoço imaginável.
Eu te olhei diante da tua pergunta. "Não precisa dizer se não quiser", tu respondeu antes de mim, por já saber a resposta e hoje eu me pergunto - tão infrutiferamente quanto escrevo esse texto: para quê?
"Não convém", te respondi. Devolvendo para ti. Nossa inabilidade de sair do chão. Nossa escolha fraca e imprestável pelo Não.
