terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Uma reescritura)

A intimidade. Essa é uma fronteira da qual não se retorna.

Não tanto os beijos apaixonados, declarações, o toque dos corpos - claro, isso também. Mas na intimidade se cruza a fronteira daquilo que não exaure mediante o tempo, na memória, na confusão entre dezenas ou centenas de experiências similares.

A intimidade fala das particularidades, dos detalhes daquela pessoa. Dos pequenos pedaços de tempo congelados em cenas tão específicas que ao fechar os olhos você reencontra, toca e que não podem nunca se repetir. E por isso mesmo às vezes voltam para te visitar.

São aqueles momentos que você pôde perceber que estavam acontecendo no instante em que estavam. Que te descobriram uma nova camada daquela pessoa, uma muito íntima, muito singela, e que te fez sorrir por ganhar um tesouro precioso - a intimidade daquele momento. Só sua, só de vocês, de mais ninguém. Aquele tesouro que no momento em que se toma para si, se sabe, não será nunca mais repetido por ninguém e por isso mesmo te torna eterno na mente do outro - e o torna na sua.

O eterno nada mais é do que o insubstituível, o peculiar. É eterno porque não pode ser esquecido, então vive eternamente na sua mente. Não pode ser esquecido porque não pode ser confundido com um similiar, é único, específico. É o momento íntimo.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças. É a oração de todos que carregam o fardo das intimidades vividas, resquícios de histórias encerradas. Porque a lembrança da intimidade impede a finalização da história da mente, impede seu final e nos lembra que as histórias acabam nas ações mas não nos pensamentos.

Uma boa memória, de fato, como disseram absolutamente todos os poetas, é portanto um fardo. Ela te traz vidas consigo, antes da sua, e se você for coerente, talves sorria com a memória, e se for sensível, talvez sofra com a ausência.

Intimidade é um detalhe tão singelo e único que às vezes só existe na sua mente. Na do outro, que assistia distraído um programa velho demais para sua idade no computador, algum programa bobo de auditório, deitado na cama, morrendo de sono, mas que assistia para não te deixar acordada sozinha; Para o outro, talvez esse momento não tenha sido registrado, talves outros tenham sido, outros do universo do outro, que nunca serão seus.

Mas para você que naquele momento olhou para os pés de vocês dois sob os lençois brancos, o modo como ele se apoiava nos cotovelos, sua calça de moletom e seus olhos quase fechando ao assistir um programa de madrugada ao seu lado, estava capturado o momento de intimidade.
E costumam ser assim, fruto da convivência. É por isso que as relações mais superficiais, aquelas que se encerram na praia do que propositalmente se deixa ver, elas não deixam marcas profundas. Por mais que os encontros que as componham sejam mais belos, musicados, cheirosos e ensaiados, por isso mesmo, pela falta de descuido, pela falta do momento roubado no instante de desatenção - de quase sono - não são registrados.

O encantador do outro é quem ele é quando não se deixa ser observado. É sua natureza íntima em um momento de desatenção. Quando não tenta fazer rir ou encantar, e se deixa dar ao mundo diretamente como é. Observar esse momento é um milagre encantador, é um tesouro. É por isso que a intimidade é também um momento de inocência. A única verdadeira beleza que é a inocência do outro, a inocência do momento não impostado, articulado ou artificial. Quando comprime os olhos para enxergar o programa de televisão, quando se admira que nadar à noite parece um sonho. Às vezes uma observação tão íntima que não faz sentido para seu interlocutor. E assim toma um sentido mais belo ainda, porque ela vem diretamente do pensamento de quem fala, não busca ser compreendida.

São estes trechinhos, pedaços de intimidade, de vida. Pedaços de história. Que se guarda na memória. Se guarda na memória.

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