sexta-feira, 20 de abril de 2018
"Não convém".
É engraçado. Quando lembro que achava que todo mundo de onde você vem era como você, mas nem é. Essa fala esquisita, formal, cantada, debochada: Só você.
Tão polido em me afastar, não uma nem apenas duas vezes. Se apenas teus olhares, sorrisos e beijos acompanhassem tuas palavras. Mas não foi assim nos nossos pequeninos momentos, ao menos não para mim. Mas falemos da frase, enfim.
A primeira foi numa dança, após todo o furacão de tu me dizer "não". Tocava Fagner e depois Caetano. Tu olhou para mim e riu com a ironia daquilo tudo.
Sentimento ilhado
Morto, amordaçado
Eu olhei e ri, enquanto escorria uma lágrima. Três dias e eu estaria à milhares de quilômetros daquela tua expressão sem salvação.
"Não queria que tu fosses agora" - Teu sorriso triste olhando o mundo ao nosso redor.
Naquele momento pareceu claro, como eu não percebi antes. Com tua indiferença, negação, silêncio e distância... O tempo todo estávamos no mesmo lugar:
"Eu me importo". Tu disse com uma urgência, uma força e aquele olhar engolindo o meu.
Ora, que inferno. Que não se importasse, quão mais fácil seria.
Eu olhei para nosso ambiente. Nossos amigos nos chamavam, teu abraço me constrangendo porque aí sim, depois das brigas, choro, raiva e acusações eu olhava pra ti como eu era e te dizia Não não te acho nenhum cretino. Gosto de tu assim, não precisava mudar nada.
Meu sorriso era tão desconsolado. Tu não sabias esse tempo todo. E então voltamos, sem salvação: Caetano.
A tua coisa
É toda tão certa
Beleza esperta.
"É tua música", tu me sorria e se aproximava. Estava perdendo o foco de quão sem saída era nossa rua. Eu, três vezes mais inconsequente em qualquer situação, tomei outra dose, puxei o teu braço e vamos dançar.
E daí, começou a tocar aquela bossa nova, a trilha sonora de curtir o fato de tudo parecer absurdamente mais real ao teu redor. A música mais gostosa, a noite mais memorável, eu, mais eu mesma. Na companhia do teu silêncio.
"Dançar bossa nova... bom, não convém". Foi aí o primeiro. Eu sorri e fingi que não te entendia, num teatro em que ninguém mais sequer sabia o que interpretava.
Vamos sentar, tu me cortou, como sempre cortou meus impulsos de ajeitar tua gola ou teu crachá. Mas na hora de levantar, tu segurou minha mão enquanto andávamos, porque é isso que tu sempre fez: O que tu bem quis.
Eu apenas te olhava, com teu olhar reto em frente, determinado em fazer qualquer coisa que te desse na telha sem nenhuma precaução. Eu te olhava, desesperançada, como quem sabia que sequer adiantava lutar por meu próprio coração. Que se desmanchava quando tu me abraçava tão forte naquela despedida, ou que ao menos parecia.
E teu abraço era tão forte, abraço sem nenhum beijo, tu me puxava e passeava as mãos por meus cabelos, costas, braços, e tudo que me fazia aproximar o beijo do teu, que quando lá chegava te ouvia: Não convém...
Me afastei um segundo antes da tua boca tomar a minha por assalto, porque é assim que tu sempre fez tudo: Com a incoerência total e completa que bem te convém.
Memória, memória, borrão e corte.
Dois dias depois e uma eternidade. Tu à minha frente em mais um almoço feito de silêncios completamente desproporcionais. Olhávamos para a janela à fora: Filosofia, Vida, Futuro. Tudo menos a gente, apenas a despedida. Amanhã eu estaria longe e tu, bom, tu comia tua alface com tranquilidade.
"Lembro a primeira vez em que almoçamos aqui", eu e o sorriso direto dos céticos. Aquela primeira vez que na verdade, haha, veja só, fazia um mês. "Nossa, como eu estava mal naquele dia". Eu disse e sorri, como que encantando-me com a reminiscência de uma versão tão juvenil e pura de mim mesma.
Foi assim que amenizei o que se sucedeu ante teu primeiro impacto: Insônia, falta de apetite, enjoos e calafrios. 25 anos nas costas. É. Era para rir mesmo.
"Sim, lembro que você mal comeu". Me disse, distraído. Alienado de tudo, mas ainda assim atento aos detalhes. Eu sorri: Bom, não era à essa altura que eu ia te entender.
"É. Reações químicas. Foi horrível". Tu me olhou, Como assim? perguntou o que já sabia. Claro que já sabia:
Outro corte. Quantos dias atrás? Seria o mesmo? É difícil pra caramba saber contigo.
Final da manhã, não sei bem como fomos parar naquela varanda do teu décimo quarto andar. Olhando o mundo lá embaixo, as pessoas pequenininhas, dentro das casas, em seus carros, em suas vidas. Quantos minutos ficamos olhando em silêncio eu não sei bem.
"Nada disso importa em nada. Nenhum de nós. Não é?" Não precisava ter te perguntado, eu senti no teu silêncio antes de falarmos: "É."
Por que tu, que eu conhecia apenas há um mês, eu já conhecia há tanto tempo?
Ficaria ali, naquela bancada de mármore, o mundo lá embaixo, minha mente esvaziando, todo o dia. No tipo mais eficaz de meditação que já conheci. O maldito, o infeliz silêncio confortável.
"Tudo são reações químicas. A paixão, o amor - tudo temporário. Sabe, eu li um estudo sobre isso uma vez. São nossos hormônios que simulam cada sensação de ansiedade e prazer."
"Bom", tu mentiu e eu não vi na hora, "devem faltar esses hormônios em mim então.".
Corta de volta para a pior mesa de almoço imaginável.
Eu te olhei diante da tua pergunta. "Não precisa dizer se não quiser", tu respondeu antes de mim, por já saber a resposta e hoje eu me pergunto - tão infrutiferamente quanto escrevo esse texto: para quê?
"Não convém", te respondi. Devolvendo para ti. Nossa inabilidade de sair do chão. Nossa escolha fraca e imprestável pelo Não.
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