sábado, 22 de junho de 2019

Burocracia

Dor de cabeça, bilhetes usados de viagem, uma polaroid rasgada de anos atrás, uma lembrança indesejada na rede social, um badalar chato daquela música na minha mente - Dor de cabeça.

Reviro caixas, bolsos antigos. Tudo o que eu queria era achar um documento. Não aguento mais a burocracia das coisas, perguntas e respostas em e-mails artificialmente polidos. Perguntas e respostas em mensagens de celular. Uma ou outra lembrança emerge - minha cabeça lateja como se o sino da igreja badalasse nela. Não aguento esse dia.

A realidade é chata, enfadonha. A lembrança se reveste de cores que nem existiam na paleta daquele período. É sempre assim e sempre vai ser. Sua repetição, porém, não me é colorida ou frutífera. Me atormenta e incomoda como a cor que se espalha pela sala de casa às 18h quando bate o sino. Uma corrida pela rua, despreocupada das atenções alheias. Subir em um banco de praça e declamar um poema antigo como quem canta um hino socialista. Rir e cair em mãos ternas, enquanto o efeito do vinho badala na cabeça. Sorrir e cantar e cair e correr. Todas atividades infantis tão valiosas quanto pouco originais na recordação.

Um acumulado de arrependimentos e angústias me sufoca nesse horário do dia, me fazendo afogar em meu próprio pescoço. Me vejo presa em enfadonhas repetições de mim mesma, me expondo à traços que não gosto no espelho do banheiro. Não preciso de álcool para me sentir embriagada, triste e convalescente. Minha cabeça dói e não encontro o documento. A angústia sobe até a garganta e fecho as portas dos armários, fecho os e-mails abertos aguardando resposta, fecho a burocracia que me envolve neste dia e em todos e me afoga em mim e em todas as minhas mil capacidades não desenvolvidas. Fecho a porta do quarto, me deito na cama e me fecho em mim.

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