segunda-feira, 16 de setembro de 2019

2019

Estava com receio de pegar nas teclas e começar a escrever porque inevitavelmente o que viria seria muito vazio, deprimente ou desesperançado. Talvez morresse no cemitério de blocos de nota, juntamente com outros quatro mil sentimento mal conjurados, defeito de fabricação da minha percepção torta; ou só me achasse muito boba e prosaica, usando palavras em rimas falhas, fracas e que me recuso a combinar novamente com "navalhas". Mas o coração é um músculo elástico - como li em qualquer lugar dez anos atrás e achei o máximo - e cá ci sono io, alguns quilos mais gorda e em seguida mais magra, marcada de estrias de emoção - ora te dou tudo, ora te dou NÃO. Para a minha surpresa, continuando a fazer algumas figuras de linguagem para explicar eventos completamente regulares.
A regra que eu queria era: Não transformar coisas grotescas em poesia para me satisfazer com elas. Parece um grande óbvio mas essa por si só já satisfaria minha singela grande meta. Lendo um texto nada antigo, embasbacada com minha capacidade de reverter o absurdo em bonito, romantizando - e nunca na história uma palavra foi mais cabível.
O que você acha de levar um grito na cara e transformar em belo rompante de fúria?
Ou de ser por vezes subjugada, humilhada e minimizada e interpretar aquele humor maroto, ah que coração pueril!
Nossa, que ânsia. Assim eu nunca mais vou escrever na história do Brasil.
Talvez seja possível, porém, retirar disso tudo algumas lições que eu tenho repetido para mim mesma sem saber o significado desde jovem intinerante pulando de fantasia a fantasia: A poesia, carina, é uma bela companhia. Mas ao encarar sua vida, olhe-a bem nos olhos e veja o que faz com você. A verdade - esse acaso programado - pode não ser explicável, mas é analisável, é tátil, concreto e visceral. Você pode aceitar seu caos total, você pode aceitar seu caos total.

2 comentários:

  1. "Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir".

    É realmente bom ler suas linhas Kristal.
    Empresto da sua inquietação o antitérmico moral que necessito para não ter que volar a escrever. Não que eu não queira, mas porque o quero muito e consigo me comprazer em permitir que em silêncio me aqueça e me devore aos poucos o fogo com que eu queria incendiar o mundo.

    E tambem fico satisfeito de ver que escrevem outros o mesmo que eu gostaria de escrever, mas com mais lirismo e com maior habilidade.

    Me sinto nutrido ao te reler e espero reler sempre.

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