quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

talvez milésimo texto sobre ele

Tô com saudade dele.
São 03:29 da manhã e ele está na casa dele, provavelmente deitado daquele jeito de barriga pra baixo e cabelo assanhado. Talvez com a cara um pouco inchada de chorar vendo Pequena Miss Sunshine e dessa gripe que o pegou de jeito. E eu tô aqui, com saudade dele.
Não brigamos e nem nos amamos pessoalmente hoje. Não é uma data especial para nosso namoro, nem ficamos o dia sem nos falar. Mas é o meio da madrugada, e tudo que olho ociosa me lembra dele. Tudo me dá vontade dele.
O bom dessa saudade é que é uma saudade gostosa. É uma saudade com pitada de felicidade porque tem sido tudo tão incrível. Então eu alimento essa ausência temporária com lembranças longínquas, mas principalmente com as mais recentes - cujo gosto ainda tenho na ponta da língua.
Alimento com o sorriso de menino dele que eu vi tantas vezes ontem. Com a gargalhada fácil que eu escuto no telefone. Com o abraço quente enquanto andamos e caminhamos tão juntinhos como se fôssemos um só.
Com esse mesmo abraço enquanto assistimos um filme no cinema, e mesmo super concentrado no filme ele me abraça com os dois braços e encosta a cabeça na minha.
Alimento com como ele me faz sorrir de graça, do vento, do nada. De como nossas piadas se completam em bobice e diversão. Em como ele se empolga (e eu também) discutindo quando discordamos, mas não esquecemos de interromper a discussão de minutos em minutos para rirmos de nós mesmos.
Alimento com o seu olhar de menino vendo brinquedos, que me deixa com um sorriso besta e vontade de ficar só ali, o observando por horas. O achando cada vez mais perfeito. E ao mesmo tempo, alimento com sua mão ousada em um banco traseiro de táxi ou com seu longo beijo delicioso - porque a boca dele tem o gosto mais incrível que já senti.
Alimento com nossos planos - já tão lindos. Seja para nossa primeira viagem, seja sobre como vamos lidar com o fato de Clint Eastwood ter morrido quando nossos filhos nascerem. E como é natural falar disso com ele e sonhar junto, sem deixar nem por um momento de sentir felicidade só em pensar nisso.
Alimento com o jeito como ele indefectivelmente se envergonha com elogios. E como ele diz que "isso é muito difícil" e eu não entendo bem por que, porque é tão fácil ver toda essa beleza nele que eu só queria contar um pouco para ele, assim, baixinho, para que quem sabe ele veja também.
Alimento ainda e talvez principalmente com seu olhar. O seu olhar emocionado quando eu digo para ele o quanto ele me mudou, o que ele fez por mim desde que chegou, como ele me salvou. Esse olhar, fixo nos meus olhos, corajoso como ele, e sensível como seu coração alimenta não só essa saudade, mas todos os minutos do meu dia. Me dá algo pelo que lutar, pelo que viver.
E é por isso que esse já é bem o décimo texto que escrevo sobre os pequenos detalhes dele, é por isso que esse texto flui tão fácil, é por isso que são 03:41 agora e eu não tenho ele comigo, e sim, sinto saudade, mas o sinto dentro de mim.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Detalhes



Enquanto gasto meu tempo, esperando a hora de finalmente vê-lo, passam pela minha mente momentinhos e detalhes, preciosos recantos de felicidade, acumulados nesses quase 5 meses.
São detalhes preciosos, como grãos de ouro em meio ao deserto do mundo. Pois eles iluminam-se em meio ao marasmo. Eles são tesouros que eu quero guardar. E são muito mais que ouro,
São pequenos templos de amor.
Seu sorriso envergonhado, quando olha para baixo ou para o lado. E se sente constrangido em ser elogiado, com seu "Ah meu Deus", que posso ouvir em minha mente agora mesmo. Como pode ele não ver o quão incrível é?
Sua risada ao telefone, que inevitavelmente me faz sorrir também. É o som mais tranquilo do mundo, é o que eu queria ouvir todos os dias.
O jeito como ele me abraça, e esconde meu rosto em seu peito. E podendo aspirar aquele aroma perfeito, eu me sinto segura de qualquer coisa no mundo.
Suas mãos e braços gentis, quando segura minha mão ou me envolve em um abraço ao andar. Sempre me protegendo dos carros ou de qualquer perigo.
A felicidade que sai de seus olhos, quando às vezes nos olhamos em silêncio, fazendo juras silenciosas de amor. E o modo como seus olhos às vezes ficam marejados, é simplesmente a visão mais linda do mundo. E só de lembrar dela, os meus ficam também. Porque aquele olhar é sem dúvida a visão mais bonita que existe.
E quando ele me ergue do chão e me abraça, e eu sinto vindo dele todo o amor do mundo. E como aquele abraço me ergue do chão, minha vida se ergue da normalidade e se torna essa experiência extraordinária, que só estou tendo por causa dele.

E seus trejeitos: seu jeito de arrumar o cabelo em frente ao espelho, o modo como sorri quando está comendo, o modo como abraça minha barriga quando está cochilando, o jeito que me cumprimenta de longe quando nos encontramos, seu olhar atento e sério quando está assistindo um filme, seu tom doce e inocente quando pensa em voz alta sobre assuntos aleatórios, o modo como se empolga falando sobre as coisas que gosta, como se anima planejando memórias futuras comigo, seu "Ah, sai daqui" e como bagunça todo meu cabelo e minha cara e de quebra ainda me faz morrer de rir por isso, seu humor leve e também mordaz que eu adoro, e sua gentileza tão maravilhosa. Como não amar cada pedacinho dele? Como não guardar cada um desses detalhes lindos, com todo o amor do mundo?

domingo, 8 de fevereiro de 2015

So unimpressed but so in awe

Pequenos cantos da decepção familiares,
Meus inferninhos particulares.
Hoje é um daqueles dias de cão,
Em que o céu pesa como algodão molhado sob nossas costas.
Eu escolho meus fantasmas, cuidadosamente.
Com os dedos os aponto, lambuzando suas pontas,
Com o doce de suas derrotas.
Eu degusto desse gosto, lambendo a ponta dos dedos, com delicado desgosto;
Revisitando o amargo por vezes.
Me torturando um pouco mais.
Me faz tão bem fazer tão mal:
"So unimpressed but so in awe",
Eu não mudei nem um pouco afinal.

Tenho meus personagens,
Minhas lágrimas na manga,
Minhas frases manjadas,
Meu refúgio nessa cama.
Me afogo em um travesseiro,
Aspirando profundamente o desespero,
Ou num corpo derradeiro,
Que me traz escape passageiro.

Fazendo rimas ruins,
Sempre as mesmas imagens.
Compondo uma sinfonia desafinada,
Nas retinas de vossas miragens.

(Intimamente,
anseio tudo que não presta.
Me regozijo com as imagens,
De dentes afiados em minhas pernas.
Vejo anjos em seres selvagens,
Pinturas clássicas em velhas telas.
Iludo um pouco a todos,
Iludindo a mim mesma.
Apenas na busca manjada,
Daquela velha certeza...)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ponto de equilíbrio

Ele.
Fecho os olhos.
Deixo espalhar-se por mim como uma dose injetada na veia.
Bombeando-se pela veia cava inferior, ramifica-se e mistura os sangues de todas as cores, preenchendo a aorta dos meus pensamentos.
Chegando a cada extremidade, líquido denso e imobilizante - Ele impermeabiliza minha pele, preenche minhas articulações, me faz indefectível por um momento.
O sinto em todos os poros do meu corpo, como minha própria transpiração - gotículas microscópicas dele exalam de mim apenas para serem absorvidas novamente. Estou numa bolha. A bolha dele.
Aqui é o útero da minha alma, onde me agarro às paredes de suas curvas, de suas vértices - onde agarro suas costas, suas mãos e seus cabelos. O trazendo para junto de mim, entro em casa. Trago junto o pedaço de mim extirpado pelo universo, em outro espaço-tempo, trago junto minha paz. Minha metade.
E quando ele não está presente, está em todos os lugares.
A textura de seu olhar acompanha meus passos como uma corrente amarrada em minha sanidade. Faz barulho enquanto ando, arrastando-se pelo meu caminho. Acompanhando cada um de meus pensamentos, como uma sombra inamovível.
Enlouqueço um pouco, por vezes, e quando o faço sangue transparente brota de minhas retinas.
Porque elas estão cobertas por uma lente que agora só identifica sentido se ele está presente.
E a possibilidade de perdê-lo enfia uma mão de longas unhas negras em meu estômago, emaranhando-se por minhas tripas.
Não retira-me o coração,
desfaz-me da realidade.
Ele é meu ponto de equilíbrio nesse mundo no qual eu não conhecia a paz.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Leve-me à igreja*


A minha vontade...

-À vontade.

Responda para mim.
Não me negue nada.
Não desvie o olhar,
Ou segure minhas mãos.
Não me peça para desacelerar,
Se eu estiver indo muito rápido*
Este é meu país
Esta é minha refeição.

Estes fios de cabelo,
São onde emaranho meus dedos,
Os teus ossos sobressalentes,
Onde apoio minhas pernas,
Suas costas pálidas,
De veias sempre saltadas,
De pintas marrons esparsas
São onde enterro meus dentes.

Não me peça para parar,
Mesmo quando machucar.
Não, não me peça para parar de sugar o seu sangue.
Esta é minha casa,
O único lugar onde durmo,
O único lugar que descanso,
Que aceito como túmulo.

Teu pescoço de sangue latejante,
É onde sugo com todo meu ímpeto,
Tua boca carnuda e doce,
Teu sorriso de menino.
Tuas mãos de dedos longos,
ágeis e habilidosos.
Cada curva do teu corpo,
Cada um dos teus poros.

Aqui é meu templo,
É onde finco minha existência.
É onde derramo minhas mágoas,
Minha fúria e inocência.
É onde deposito meu carinho,
Onde monto o meu ninho,
A cada tarde e noite intensa.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Anotações sobre o rapaz

Ele sorri,
de modo quase paternalista.
Compreende o que eu nem disse com assustadora empatia,
e de repente faz-me sentir apenas uma menina

Ele é gentil com as palavras,
mesmo no momento de mágoa.
A arma mais cruel que ele já usou foi o próprio amor,
e sua sinceridade em dois tempos me desarma.

Ele tem um senso de justiça firme e inabalável,
e por isso sangra tanto quando essa parte dele é ferida.
Ele tem seus pontos soltos, suas pontas machucadas,
Mas nunca os usa como artifícios para vencer uma briga.

Ele torna os conceitos de vitória e derrota desnecessários.
Porque ele abre seu coração como um país,
Expõe todas cartas, os planos e os dados
E me faz sentir abrigada como eu sempre quis.

Ele é uma pessoa extraordinária vivendo como um sujeito comum.
Seu coração é recheado de toda a gentileza do mundo,
Mas sem perder a firmeza jamais: Ele é o tipo de rapaz
Que olha nos olhos, diz o que pensa e não se esconde jamais.

E por isso o ar ao redor dele é leve como uma brisa,
e os sorrisos correm soltos ao vê-lo, como se fosse o movimento natural dos lábios.
Não admira ele esteja sempre rodeado de pessoas.
Não admira seja bela a trilha que vêm deixando os seus passos.

Ele é doce e é calmo,
Mas ao mesmo tempo é forte e intenso.
E por isso passa um vento e tudo que quero é tê-lo inteiro.
Sua alma, sua mente e sua presença física nesse mundo,
fazem uma fórmula irresistível, que tornou-se o meu Tudo.

Ele me faz querer ser melhor, podar minhas ervas daninhas.
Praticar a cada dia a arte de domar minha natureza ferina,
Cuidar não por medo, mas por gratidão à sorte
De fazer esta linha prateada ter cruzado-se com a minha.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

2015

Abriu os olhos.
A claridade incomodava um pouco as pálpebras sonolentas, mas o aroma de sonho a convidava.
Encostada no parapeito de sua janela, a beira da praia vazia de feriado, e a manhã novinha com folhas voando à esmo traziam a perfeita imagem do novo ano.
O mundo a encarava com um sorriso afetuoso e as ondas que banhavam a beira da praia pareciam lhe dizer pequenos cumprimentos.

Era o mesmo lugar, nada mudara.
As paredes e chão, nos quais correra durante a infância.

Era o mesmo sol e ele nunca se atrasava.
Iluminava aquela manhã com os mesmos raios que ela sempre criticara.

Mas ela...

Seria a mesma?

Enquanto inspirava aquele ar nunca antes sentido, pensava que gostaria de escrever um texto. Mas com um pouco de embaraço, pensava também que só tinha um tema.
E embora essa âncora literária lhe mantivesse quase repetitiva,
Nunca tinha sido tão saboroso escrever.
Nunca fora tão realista.

Nesse momento passos se aproximaram da varanda. E ela sentiu dois braços a envolverem por trás.
O rosto com o aroma que ela amava afundou-se na curva de seu pescoço, dando-lhe um bom dia em beijo com gosto de café.

Quando ele a abraçou aconchegante, e passou a encarar aquele horizonte com ela,
ela percebeu que jamais seria a mesma novamente, porque agora não era mais incompleta.
Que com ele, com aquela pessoa extraordinária que por um presente do destino, escolhera ela para abraçar, mil portas se abriram para sabores de felicidade nunca antes imaginados.

Eram uma dupla, um par.

Naquela casa de sua memória, em sua música preferida - Em todos os tesouros nos quais ela deixou ele entrar. Tesouros de infância até então guardados em um baú, com teias de aranha, esquecidos. Ela abrira suas portas, recebera-o em seus braços e agora juntos naquele cenário, encaravam tudo os que os esperava:

O mundo inteiro.

(Mas por enquanto,
O ano novo.)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Indigestive

I am greedy.

Como minha refeição em porções fartas, largas, sem nunca guardar para depois.
Devoro vorazmente pois voraz também é o aperto no meu peito urgindo para ser preenchido. Cicatriz de nascença, marca arranhada no espelho da alma - não sujeita a consertos permanentes.
Como então de maneira voraz, quase inconsequente. Sem me preocupar com o inverno, formiga irresponsável sempre fui. Sem me preocupar com o mal estar que todo esse excesso pode causar depois.

Sou ambiciosa, é verdade, sou gananciosa.
Quero o sumo do sumo da poupa da fruta. A casca não é suficiente. Tampouco a pele ou a carne.
Quero adentrá-la. Rasgá-la delicadamente com os dentes. Com minha língua tocar o gosto de sua alma.
Entender sua essência, sua história e suas vicissitudes. Entender sua dor, seu prazer, seu amor e cada uma de suas necessidades aborrecidas as quais com tamanho prazer satisfaço a todas.

Quero estudá-la e em seguida devorá-la pois é o único jeito completo de compreender esta fruta - E seus decorrentes frutos - reprodutos de sua existência.

E o faço sem temor, o faço sem pudor. O faço verozmente. Gananciosamente.

Só não calculo,
a indigestão que vem depois.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Sobre felinos e lares

- Me promete uma coisa? Não me deixa fugir.

Ela olhou para baixo e em seguida para cima, para ele.
Segurou a ponta da sua camisa sem muita força, mas ele viu que seus dedos tremiam e olhando para ela, encharcada pela chuva e parecendo tão perdida, pensou em um gato selvagem em uma tempestade, procurando desesperadamente abrigo.

Ele a puxou para si e abraçou com força, dizendo promessas em seu ouvido que a fizeram chorar mais e por um momento ele se questionou se era de felicidade ou tristeza.

Mais tarde, enrolados parcialmente em lençóis na madrugada, ela contou com detalhes as histórias que tinham a trazido até ali. As histórias que ele sempre tivera tido medo de ouvir, por medo de conhecer e enciumar-se com seu passado. Mas ao passo que ela falava, ele percebia como tinha sido bobo. Essas histórias faziam parte dela, como tatuagens que embora lhe trouxessem angústia, também fizeram ela ser exatamente quem era hoje - do jeito que ele amava.
Histórias que a moldaram, que a construíram. Que lhe ensinaram muito, mas também machucaram enquanto ensinavam. Que a fizeram ser essa criatura inconstante, incapaz de permanecer no mesmo lar por muito tempo, eternamente presa em sua liberdade.

"A mão queimada ensina melhor", ele citou um dos filmes preferidos deles com uma seriedade jocosa que quebrou a tensão e ela caiu no riso, em seguida caindo nas mãos dele que faziam-lhe cócegas e por um momento, toda aquela densidade anuviou-se e ela era só um sorriso coberto de felicidade, do jeito que ele mais gostava de vê-la, e do jeito que ela só se sentia com ele.

Quando o dia amanheceu, ele apalpou a cama ao seu lado e sentiu uma pontada de desespero ao ver que estava vazia.

Tinha ficado com aquela pulga atrás da orelha sobre a frase que ela dissera no dia anterior, quando voltou depois de semanas sem dar notícias. Semanas em que ambos quase morreram de dor no coração.

"Não me deixa fugir."

Ele sentiu um aperto no peito e já colocava uma bermuda para sair na rua, quando ela entrou no quarto com um café da manhã em uma bandeja, a camisa dele da noite passada e um sorriso largo no rosto.

Ele tirou a bandeja das mãos dela, colocando-a na cômoda, e a puxou para si em um abraço apertado de puro alívio. Não a deixaria fugir, nunca mais.

Mal sabia ele que naquele momento o mesmo alívio descansava no coração dela, o abraçando com força. Nunca mais sentiria vontade de fugir, nunca mais.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Ela pediu paz, por favor. - Vulgue tostoi


"Ela pediu paz, por favor. Disse que não tava afim."
A verdade é que escrevia esse texto com alguma dor no coração,
mas que anunciava-se pouca, sabia também.
Sentada naquele campo de algodão antigo, chutava velhas reminescências de lado.
"É a velha onda da vida",
Pensava enquanto olhava aquele céu cansado.
Verdade seja dita, em termos de amor nunca foi uma grande guerreira.
Jamais propôs-se a uma competição, em que sua rival não fosse ela mesma.
Agora então,
Ter que enfrentar um mundo inteiro?
Não, isso não lhe empolgava mesmo.

Olhar de lado e ver tanto passado espalhado.
Tantas memórias "inintencionalmente" guardadas.
Fotos e palavras,
Lembranças e quadros.
Deixadas na gaveta da cômoda,
Esquecidas de serem jogadas fora,
A todo mês batendo em sua porta?
Para lembrar-se do que vivia outrora,
E será que ainda vive agora?

Não, não.

Deu de ombros.
Aspirou aquela tristeza sutil,
Talvez fosse hora de resgatar seu coração frio.
Happiness was a fucking blast,
Uma inesperada surpresa,
Modificando sua natureza,
A envolvendo da realeza
De um suposto verdadeiro amor,
Ou ao menos foi o que acreditou.

Mas ter que combater um fantasma,
Andando sempre com ele de mãos dadas?
Não, talvez ela não fosse mesmo uma guerreira.
"Ela pediu paz, por favor."

sábado, 13 de dezembro de 2014

Dream a little dream of me

Olhando em seus olhos, com meu rosto a poucos centímetros do seu, absorvo do ar ao seu redor todas as coisas da natureza. Saem de suas retinas, espelhos fundos e cafeinados, pequenas partículas de encantamento. Elas dançam ao meu redor, como vaga-lumes cor de chocolate, abrilhantadas por faíscas coloridas, de todos os jeitos que já se viu.
Do seu sorriso largo e juvenil uma música muda emana. Ela é da cor do outono, recoberta por camadas de gentil aconchego em um dia frio. O som de sua risada pega-me gentilmente pelas mãos e me dá voltas no ar, me dando pequenas doses de felicidade gratuita, líquida e translúcida. Ele cai em meus ouvidos como o farfalhar das folhas ao vento, como um abraço inesperado.
Embriagada por sua presença, levo minha mão, com muito receio, à menção de tocar sua alma.
Hesito algumas vezes porque ela ainda é jovem e revestida apenas de verdades. Ela tem a textura inexata das nuvens, diluindo-se em sonho, como espuma em um café quente.
Tenho medo de encostar de mal jeito ou mudá-la de lugar. Por isso apenas levo meus lábios a muito perto e assopro promessas de amor.
Enquanto isso tuas mãos envolvem minhas costas, me levando à única casa que já conheci e eu me deixo enfeitar, junto a ti, por inúmeras luzinhas natalinas de um feriado infinito.

Foxy skin

Um temporário relance de lucidez
Em meio ao atrapalhando furacão de sequência repetitiva.
O coração agora é um órgão sangrento e de gosto doce.
Salpica na língua como borboletas apenas levemente envenenadas
Em um jogo que parece tão real, que se esquece por vezes que é um jogo.
-Mas os bichos nunca mudam.
E isso é a verdade.
Então por baixo da pele macia e gentil,
Uma raposa velha e desdentada sorri macabra, exibindo as gengivas inflamadas.
Sorri sarcástica, observando bastante divertida este filme antigo de tantas vezes que já fora exibido.
Está acorrentada, por enquanto. Até mesmo escondida na penumbra dos panos. Mas calcula as horas em uma ampulheta exausta, para sair lá fora e respirar o ar de lágrima.
Então vai.
Entrega-te.
Entrega o corpo e a alma, com pulsão jamais antes vista.
Com teus lábios beija a humanidade cada vez mais íntima de outrem.
Entrega todos os teus impulsos, desejos, sonhos. Tua carne e terminações nervosas. Entrega tuas palavras - essas canalhas.
Entrega tudo e não se preocupa em tomar de volta, deixa lá até se tornarem carcaças e secarem ante   eclipse dessa luz.
Deixa tudo lá, pois haverão de renascer novamente outras em tu, como novas, puras como as primeiras. Prontas para recomeçar tudo novamente.
Porque essa é a natureza das raposas.

The summer day (or A christimas tale)

"Eu queria um café e uma ideia nova. Logo eu, que nunca mais me empolguei com nada."  - Pensava Clarice encarando o céu azul de nuvens salpicadas. Suas bochechas rosas sobre as quais caiam fios soltos do coque de cabelo claro. Do quarto andar de seu prédio, via um bando de pássaros voando de uma árvore para outra e os prédios descascados pareciam até receptivos naquele sábado com cor de dia de ir à piscina, muito embora estivesse um pouco frio. O céu, pensou  ela, estava sendo muito falso hoje.

Pegou seu casaquinho rosa porque não gostava do vento, mesmo quando acolhedor e a yorkshire pré adolescente de sua colega de quarto, para passeá-la - uma desculpa para passear a si mesma.

Mascando um chiclete que a fazia parecer um tanto mais jovem que seus 23 anos, lembrava de uma frase de um poema, que constantemente ecoava em sua cabeça:
    
"Diga-me. O que você planeja fazer com sua única preciosa e selvagem vida?"

Agachou-se em frente a uma pracinha primaveril para esperar a cachorrinha fazer xixi e apoiou mão no rosto, pensativa.

"O que fazer com minha encantadora vida?" Pensava ela, que sempre se julgara detentora de um presente ou talismã bem sagrado. Sagrado e frágil pois podia quebrar-se a qualquer dia.
E por isso mesmo tinha medo de não dar-lhe a finalidade devida enquanto dava tempo. Como um item de um jogo de tabuleiro que não se usa até que um belo dia o perde numa batalha.

Dorothy acabou seu xixi, levantando o focinho com dignidade e exigiu voltar a ser caminhada.

Clarice a acompanhou, lado a lado de modo que pareciam até parentes de raça distante.

-Não existe hierarquia entre nós. - Disse ela muito séria a Dorothy, que a encarou desafiadora e cética.

"Então porque estou presa em um coleira?" Clarice teve certeza de ver as palavras no olhar dela e suspirou, desistente.

-Desculpe, você tem razão. Eu sou a maior mentirosa, Dorothy."

Dorothy apenas continuou andando, recusando-se a continuar a conversa.

Foi nessa hora que Clarice reparou em alguém que parecia estar em um dia pior do que ela e sua companheira de passeios. Tinham acabado de chegar a um calçadão revestido de pedras brancas e pretas, por onde não passavam carros, mas no qual dias como aquele sábado preguiçoso acumulavam transeuntes desocupados, a fim de tomar uma cerveja em um dos simpáticos bares-que-não-pareciam-bares ou um café nas bonitas cafeterias a esta época enfeitadas de costumes natalinos.

Mas era sábado véspera de Natal e estavam todos viajando com suas famílias ou em lugares mais interessantes do que nessa cidadezinha de duas estrelas. Então fora um jovem casal tomando cerveja no bar da esquina e duas senhoras velhinhas tricotando no Le Cafè, foi em um jovem rapaz que Clarice reparou, com curiosidade.

No meio do calçadão havia uma fonte semi abandonada e um pouco suja cujo pedramento de suas baixas paredes era de algo parecido com mármore.

Clarice particularmente adorava aquele spot, porque parecia o tipo de lugar onde se jogava moedas para pedir desejos e ela insistia em sempre fazer isso - mesmo que nunca tivesse água jorrando, o que tirava um pouco o sentido da coisa.

Mas era um lugar legal de se sentar e observar, principalmente porque nunca tinha ninguém. Ficava semi- recoberto por algumas árvores, no calçadão e um pouco fora do ângulo de visão das lanchonetes, então não era um lugar popular. Não, definitivamente não era o tipo de lugar onde as pessoas sentavam-se para papear ou que a prefeitura se preocupasse de enfeitar no natal.

Mas naquele dia, Clarice viu através das árvores, a água estava milagrosamente jorrando da fonte ("É um milagre de natal!" - Ela disse a Dorothy, que a ignorou) e havia um rapaz sentado lá. E ele não parecia estar tendo um bom dia. Ele era alto e claro e usava uma camisa longa que Clarice percebeu imediatamente ser totalmente ineficiente, pois o tecido era visivelmente muito fino, uma malha que parecia bem macia, mas ineficaz de proteger contra o vento frio. - Ela observava, julgando-se bastante escondida, através da árvores que a separavam da fonte. - O que atestava seu mau humor era uma cara emburrada, e uma moeda em que ele mexia desesperançoso pelos dedos, até jogá-la na fonte, o que fez Clarice sentir-se muito sábia por não ser a única que via que aquele lugar era claramente uma fonte dos desejos - Quando falava isso desse lugar, seus amigos sempre tiravam sarro dela.

Mas quando ele abaixou-se para procurar a moeda de volta, Clarice percebeu que talvez ela só tivesse caído.

Ele pegou o celular e começou a discar, em seguida o levando à orelha. E Clarice estava prestes a desistir de sua observação, quando um poodle branco e especialmente feliz apareceu correndo do outro lado da fonte e foi até o rapaz, pulando alegremente em seu colo.

"Veja, Dorothy! Um amiguinho!" Clarice cutucou Dorothy, que não respondeu.

O poodle tinha o colar de uma coleira ao redor do pescoço, mas não a corrente que a ligasse às mãos do aparente dono e Dorothy pareceu perceber isso - pensou Clarice, com bastante certeza e uma pitada de vergonha.

"Mas se eu te soltasse você fugiria de mim" - Explicou baixinho para Dorothy, cujo olhar absolutamente não negou a afirmação.

“Vamos, fofinha. Você tem um amiguinho para conversar ali.”
Sorriu ela para a cachorrinha, puxando de leve a coleira, agora que tinha um pretexto pet para puxar conversa com o estranho mal humorado. Mas Dorothy simplesmente estancou no lugar, recusando-se a andar.

"Mas que momento horrível para vinganças, Dorothy." Disse ela entredentes, tendo que apelar para recursos extremos e colocando nos braços a yorkshire, que debateu-se levemente, em desespero.

Clarice finalmente passou pelas árvores, andando em direção ao lado oposto da fonte, como se não visse o rapaz e seu poodle.

-Oh, vamos querida, você pediu tanto para passear, aqui estamos. - Dizia em voz alta e casual para sua refém, que a olhava de modo assassino.

O rapaz as viu passar de relance, mas com a expressão tensa parecia tão aborrecido em sua ligação que não chegou a olhar demoradamente.

Quando sentaram do outro lado da fonte, o clima melhorou entre elas, porque Dorothy mostrou-se genuinamente interessada em uns soldadinhos que voavam na grama próxima e Clarice resolveu soltá-la, observando de perto a aventura da mesma.

Mas logo sua atenção foi voltada para a voz do outro lado da fonte, que taciturnamente falava ao telefone:

"Ah não sei cara... Acho que é melhor não, não quero estragar a felicidade de vocês aí (...) Haha muito engraçado. (...) Não, tá tudo tranquilo, sabe. Nada novo. É só que não curto muito essa época... É, tem isso também (...) Todo mundo viajou e sei lá, não é legal dizer isso, mas não curto muito ficar só. (...) Não, cara, já disse que não precisa. Não é isso, é diferente. É que... Eu sinto que devia estar fazendo algo mais extraordinário da minha vida, tá ligado? (...) haha Eu sei, papo profundo demais pra telefonema de natal, haha..."

Nessa hora Clarice já não podia estar mais envergonhada de ter se metido naquele lugar e de estar ouvindo aquela conversa tão pessoal. Sentia-se invadindo profundamente a intimidade do rapaz da voz grave e bonita, apesar de taciturna.

Levantou-se então e decidida a ir embora, pegou Dorothy de sua perseguição de soldadinhos, que somente a olhou rancorosa:
"Agora que eu quero ficar, você muda de ideia."

"Sinto muito" Clarice sibilou para ela, andando em passos leves na intenção de ser tão pouco percebida quanto fora enquanto chegava.

Estava prestes a passar pela entrada de árvores quando a voz, que silenciara há pouco, soou um pouco mais alta:

-Desculpa te fazer ouvir isso.

Ela parou estática por 5 segundos, torcendo para não ser com ela, que já se arrependera da ideia toda.

-Não é o tipo de coisa que se espera ouvir no natal, quando se vem a uma fonte dos desejos, não é?

Tendo certeza que era com ela, Clarice voltou-se para o rapaz, que a olhava apologeticamente. Ela estava com um sorriso que só não era mais envergonhado do que seu rosto, agora com fortes tons de rosa.

-Não, que isso. A culpa foi minha, que entrei aqui mesmo você estando no telefone. - Ela disse, olhando para os lados, com vergonha de encará-lo.

-Que nada. - Ele deu de ombros, com um sorriso cansado. - É um lugar público, não é? - Disse, jogando outra moeda na fonte, mas dessa vez mais longe.

-É... - Ela concordou com um sorriso tímido e já ia saindo, quando voltou-se novamente para ele, subitamente: - Espera, você falou que esse lugar era uma "fonte dos desejos"? 
Perguntou como quem faz uma pergunta seríssima, estreitando os olhos, muito atenta.

-Er... sim... - Ele pareceu desconcertado com a brusca mudança no semblante dela e começou a parecer envergonhado com o que dissera - Quer dizer.... Bom, eu sempre jogo moedas, er... Você nunca viu naqueles filmes que o pessoal, er...joga moedas em fontes assim e..er...

Ela soltou uma risada alta e alegre ao ver a reação dele, o que mais uma vez o surpreendeu um pouco:

-O que foi? Eu disse algo estranho?

-Não, não. É que foi muito legal você assim constrangido. - Ela disse muito naturalmente para em seguida ficar em choque "MEU DEUS. O QUE EU DISSE?"
Perguntou-se, catatônica. Olhou para o lado e Dorothy parecia finalmente se divertir um pouco, balançando o rabinho peludo.
"Está rindo de mim, maldita. Tenho certeza." Pensou, ameaçadoramente e quando teve coragem de olhar de volta para o rapaz viu que sua expressão era tranquila, embora estivesse com o rosto um pouco corado.

"Que ótimo, o constrangi..."

-À propósito - Ele levantou-se e aproximou-se dois passos, estendendo a mão. - Meu nome é Diego. - Ele deu um largo sorriso - o primeiro que parecia natural, e Clarice não pôde evitar pensar que era o sorriso mais incrível que já tinha visto.

-Ah, prazer, Diego. Eu sou a Clarice - Ela falou sorridente, apertando a mão dele e fez menção para seu lado - E essa é a Dorothy, a temperamental york da minha colega de quarto. Mas ela gosta mesmo é de passear comigo, não é Dorothy?

Dorothy grunhiu baixinho.

-Ah esse é o Darth. Ele gosta de passear com todo mundo- Ele disse chamando o poodle branco, que prontamente veio correndo e começou a cheirar o perímetro ao redor de Dorothy, que o encarava desconfiada.

Os dois riram e Clarice sentiu liberdade de sentar-se ao seu lado.

-Desculpa ter ouvido sua conversa, de todo jeito. - Ela disse e o semblante dele que já tinha ficado consideravelmente mais leve de repente franziu-se um pouco novamente - E desculpa lembrar o assunto de novo. - Finalizou ela num fio de voz.

Ele sorriu, voltando a parecer bem:

-Não, que isso. Não tem o que se preocupar. Só acho o natal uma época um pouco... Ah, você não quer ouvir isso.

-Ah eu quero, lógico que quero - Ela disse, talvez animadamente demais, e ficou aliviada de ter parado antes de verbalizar o pensamento de que provavelmente acharia qualquer coisa que ele dissesse interessante.

E ele riu da animação dela, dando um suspiro pensativo e olhando para o céu azul claro:

-É como eu disse pro meu brother, sabe? Natal é essa tal época de final e recomeço e eu meio que não sinto que estou aproveitando minha vida como devia. Sinto falta de alguma coisa, algo extraordinário, que vai fazer a vida “começar”, mas algo que não sei o que é ainda. E pra completar todo mundo viaja e... Bom o resto você ouviu. - Ele disse, olhando constrangido de lado. Ainda sem acreditar que estava falando coisas tão pessoais para alguém que acabara de conhecer.

Clarice não respondeu, ligeiramente encantada, então ele complementou, num fio de voz:

-Você entende?

Ela, que um pouco consternada encarava a fonte, vendo poucas moedas que - percebia agora - deviam provavelmente pertencer apenas a eles dois, respondeu:

-Você nem imagina o quanto. - Disse seriamente e a frase de mais cedo veio à sua cabeça.

Nesse momento um vento ligeiramente mais frio passou como uma rajada e bastaram poucos minutos para que pequenos pingos começassem a cair até repentinamente transformarem-se em uma torrencial queda d'água.

-Ah, como pode? - Perguntou ela a ele, com quem já se sentia completamente à vontade a esse ponto - Vi na previsão que hoje o dia ia ser totalmente ensolarado. - Disse um pouco decepcionada.

Ele, que especialmente estava gostando de chuva naquele dia, deu de novo o sorriso incrível e colocou Darth - que agora tremia de frio ao seu pé, por dentro de sua blusa, o protegendo.

Seu semblante estava bem melhor e parecia claro que sua vontade era de ficar, mas não sabendo bem que padrão seguir naquela situação tão inusitada, apenas sorriu:

-Prazer te conhecer, Clarice. - Disse ele, começando a andar com o protegido Darth para fora da área da fonte, quando Clarice, que começava também a proteger Dorothy em seu casaquinho, o olhou sem ação por 2seg até vê-lo começar a andar, quando deu uma corridinha e segurou sua blusa:

-Ei, você quer fazer alguma coisa?

Os dois olharam para cima, para o céu completamente devastado pela água, sob o qual seria impossível qualquer atividade normal, tornando o convite visivelmente absurdo.

-Claro que sim. - Ele respondeu com um largo sorriso e os dois saíram juntos da Fonte, correndo com seus filhotinhos sendo protegidos.

Correram tão depressa que não perceberam as inscrições ao pé da fonte:

"Tell me, what is it your plan to do with your one wild and precious life?"

É, talvez não tivesse sido só o clima que fugiu da previsão nesse Natal.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

She's the giggle at the funeral. (Take me to the church)

Minha amante tem humor. Ela é a risada em um funeral.
Ela traga cigarro como quem masca chiclete, de um jeito meio bizarro, mastigando a ponta.
Ela solta baforadas sem nenhuma precisão, mas é impossível reparar porque enquanto faz isso, ela fricciona as pernas.
Ela anda pelas ruas, parecendo um erro no cenário. Uma falha na matrix.
Parece um ponto cinza no colorido, ou seria o contrário? Não, acho que não.
Minha amante gosta da desaprovação e fricciona também os lábios quando a sente.
Ela gosta da fricção, como friccionava as pedras no jardim quando criança, mas ela nunca foi criança.
Ela sorri bastante e seu sorriso nunca é saudável.
Minha amante tem uma curva sinistra do lado esquerdo do lábio.
Ela costuma falar mais com a pele do que com as palavras. Mas está sempre observando. Minha amante é uma canalha.
Ela fala coisas que só fazem sentido na cabeça dela, como um quebra cabeça quebrado.
E quando ela quebra a cabeça dos outros, tentando entendê-la, ela se quebra de gargalhadas.
Em geral, ela gosta muito de quebrar as coisas, como retratos e corações.
Minha amante gosta de ter amores apenas para reverter suas declarações.
Minha amante tem humor, ela é a risada no funeral.
Ela traz consigo o horror e confusão, mas ignorá-la seria fatal.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Cálice



A noite estava pincelada por uma camada azul escura. Parcialmente iluminada apenas pelos focos pouco eficientes de luz amarelo queimado dos postes.
Ela prendeu os cabelos enquanto andava com pressa, equilibrando com algum esforço os livros na outra mão.
As ruas andavam desertas e caladas naquela cidade, mesmo no centro. Sonorizadas apenas pelos grilos e pelos sussurros próprios da noite e olha que nem era tarde, mas esses dias era tarde o suficiente para fazer uma moça jovem ir em passos largos para a faculdade.
O badalar do sino ecoava sete horas e ela atravessava os percalços de uma calçada pluriforme, ao lado do muro grande e descascado da escola municipal.
Apesar do cheiro fétido que a rua tinha esses dias, enquanto ela passava era o aroma de folhagem das muitas árvores enfileiradas naquela calçada o que sentia. As árvores - esses focos raros de esperança e natureza, trazendo um espelho pretérito do que a terra da luz costumava ser.
Foi enquanto refletia com certa taciturnidade sobre essas coisas, que como que se a ouvissem, as folhagens balançaram intensamente ante um vento forte e pouco condizente com a noite de clima estático.
O vento adentrou seus cabelos como dedos, quase desmanchando seu penteado, lhe trazendo uma sensação estranha, aperto no peito, que ela - já não tão afeita às supertições - não processou bem, quando deu o próximo apressado, e uma imagem no chão captou sua atenção, bem no lugar por onde tinha passado.
Dado aquele segundo inevitável, em que se decide coisas sem o uso específico da mente - o instante da bifurcação - algo nela a puxou, a estancou no lugar, a impedindo de dar o próximo passo.
Voltou-se para trás e agachou-se no chão, ignorando a lama da chuva do dia anterior ou a poeira levantada pelo vento.
Apurando o olhar, viu. Era uma carta.
Levou os dedos de unhas longas a ela, pouco consciente do que fazia, e a tomou em mãos.
Uma carta... de baralho? Não. De tarot, seria, quem sabe?
Estava suja e não tinha nada escrito, apenas os contornou cinza e ao centro a figura também acinzentada de um cálice de um material que parecia antigo e metálico.
Olhou o outro lado e apenas uma estampa quadriculada cinza, nenhuma palavra.
Não era de um jogo regular de baralho, pensou.
Conhecia bem, pois jogara a infância inteira em tardes preguiçosas com seu avô.
Continuava encarando a carta, agachada no chão, quando voltou a si, olhando o relógio e levantou-se.
Após mais um daqueles momentos indecisos, fitando a carta que segurava, simplesmente a colocou no bolso do jeans e voltou a caminhar em passos rápidos, com a leve impressão de quem leva um segredo consigo.

No refeitório da faculdade, naquela mesma noite, ela olhava para seu lanche com a íntima esperança de que ninguém viesse puxar conversa. Esquecida do evento de mais cedo, era só mais uma segunda feira sem esperanças e ultimamente elas estavam sempre assim.
Levantou os olhos para o refeitório lotado. Muita gente rindo, falando alto, alguns tirando fotos. Era sempre assim. Perguntava-se de onde vinha toda aquela euforia e ao mesmo tempo, tinha preguiça de descobrir. Gostava de observar, no entanto. Contanto que fosse de longe, podia passar o dia fazendo isso. Se fosse em outros tempos ou se ela fosse outra, uma versão menos tímida, talvez tentasse conversar com alguém. Enquanto pensava isso seus olhos passaram por um rapaz alto, que sorria um largo sorriso ouvindo uma conversa de seus dois colegas - um cara e uma moça, ambos meio dark . Já ele tinha um aspecto leve, até um pouco destoante com a maioria das pessoas por lá - sempre muito esteriotipadas, fosse para uma aparência formal ou com um traje de festas.
Ele cruzou o olhar com o dela, no momento em que ela o observou, e em seguida desviaram - não se saberia dizer quem primeiro.
São só aqueles olhares que dão encontrões nos cruzamentos da noite, pensou ela com um leve sorriso, porque se parasse para pensar o via sempre por lá e ele lhe parecia uma pessoa interessante. Mas a verdade é que não sabia nada sobre ele, apenas que tinha um sorriso incrível e que provavelmente jamais o conheceria.

Depois disso a noite passou como um raio e com um misto de alívio e frustração ela foi caminhando para casa. De algum modo, o vento, algo na noite tinha dito-lhe que hoje seria um dia diferente. Tinha deixado faíscas de seu antigo eu lhe assoprarem doses de supertição, e agora ia para casa com a velha frustração de dormir mais uma noite e recomeçar tudo de novo, nessa rotina monocromática.

Estava dobrando a esquina de casa, no entanto, quando uma senhora de voz quebradiça chamou-lhe:
"Mocinha, mocinha".
Ela olhou ao redor, só tinha ela de mocinha naquela rua deserta. Olhou para trás e viu a senhora à alguns passos atrás. Era idosa e tinha os olhos castanhos antigos, um deles com uma incompreensível mancha azul. Seus trajes indicaram que era uma mendiga e seu pouco fôlego que tinha corrido para alcançá-la.

Ela andou até à senhora, já mexendo nos bolsos em busca de uns trocados quando a idosa mulher lhe estendeu algo e ela surpreendeu-se ao ver a carta de mais cedo:
-Você deixou cair do seu bolso, mocinha.

Ela estendeu a mão e segurou a carta:
-Obrigada.
Mas quando tentou puxá-la, a velha senhora não a soltou. A olhou nos olhos com um olhar sinistro que parecia sorrir-lhe e lhe disse com um tom jocoso:

-Você é uma garota sortuda. O cálice. Aproxima-se amor intenso e inesperado... - De repente sua expressão ficou séria - Mas cuidado! O cálice, como o coração, é melhor cheio. Mas se transborda o resultado da enchente pode ser incontrolável e destrutivo.

A moça arregalou um pouco os olhos, quando a velhinha entregou-lhe definitivamente e carta e sorriu com sua boca desdentada. Seu tom sombrio anuviou-se e deu uma risadinha quase simpática:
-Mas uma garota como você vai aguentar.

Ela olhou para a carta que tinha em mãos, totalmente atordoada, e quando olhou novamente para a senhora, ela tinha desaparecido no horizonte, provavelmente virado à rua.

Foi o resto do caminho para casa em passos lentos, segurando a carta nas mãos como quem tem um tesouro. Mas não acreditava nessas coisas... não é?

Chegando em casa, pegou no sono logo, tendo uma noite turbulenta com imagens de cartas de tarot, dos olhos da velhinha e de um sorriso de rapaz, que não conseguia lembrar quem era.

O dia seguinte passou inesperadamente rápido.
A manhã de estágio foi suportável, a tarde estudando tranquila, mas durante todo o dia cultivou uma inexplicável ansiedade para o turno noturno.

A carta estava bem no fundo de sua gaveta, escondida assim como a surpreendente ansiedade que provocava. Não estava em busca de um inesperado amor, ao contrário, andava fugindo do amor. Mas de algum modo pensar naquilo a fazia pensar que havia algo que sabia, apenas não lembrava. Mas ao mesmo tempo algo lhe dizia que descobriria em breve o que era.

No entanto, à noite mostrou-se indiferente a suas sensações. Aulas, lanche no refeitório. Tédio. Uma olhada rápida para o banco onde o rapaz do sorriso fácil estava, e estava vazio. Suspirou diante da própria incoerência. O que estava esperando?

Na hora de ir embora, despedia-se de colegas na portaria da faculdade, quando olhou de relance e viu a figura alta, de cabelos um pouco bagunçados e olhar tranquilo. Seus olhares cruzaram-se no velho enlinhado que por vezes os fios dos olhares fazem, mas no lugar de desviar, ela ouviu uma voz baixa e surpreendeu-se ao perceber que era a sua própria:
“Oi.”
“Oi.” – Ele respondeu, igualmente com um fio de voz, em uma expressão que passou ela rápido demais para que pudesse tentar analisar, como fazia com tudo. O esperou dar dois passos para longe e enterrou o rosto nas mãos, incrédula, perguntando-se por que fizera isso.

Os dias da semana seguiram-se assim. Dias rápidos e a expectativa para uma noite que nunca trazia-lhe nada novo, além da sensação inequívoca de que alguma mudança aproximava-se.

Mas o tempo leva todas as coisas, inclusive as mais inexplicáveis e sinceras convicções e foi na segunda-feira seguinte, quando ela finalmente tinha acordado e passado um dia completo sem pensar na pequena sequência de eventos que só fazia sentido na sua mente, que já não esperava algo que mudasse sua noite.

Mas como é de praxe e os eventos escolhem momentos inusitados, em especial as segundas-feiras, bastante eficientes na arte de nos dar surpresas, ela estava na rampa da faculdade – já não frequentava o refeitório com frequência – observando e criando conjecturas sobre as pessoas que passavam distraídas. Conversando, falando no telefone, expressando felicidade ou tristeza sem imaginar que estavam sendo observadas. Estava na rampa sozinha, como tinha aprendido por hábito ou necessidade a se sentir bem, quando ouviu alguns passos em sua direção. Antes mesmo de olhar de lado já sabia. E naquele momento, no instante em que virou a cabeça para a esquerda e o viu, entendeu o que estava deixando passar o tempo todo.

“Oi. Posso ficar por aqui com você?”

Era ele o tempo todo.

“Claro que sim.”


Talvez essa coisa de destino exista mesmo.

domingo, 23 de novembro de 2014

Sonho

Ao meu redor, tudo está em seu lugar. Estou sentada em minha cama, em meu quarto de paredes brancas e livros na estante.
A Tv ligada ressoa algumas vozes ou músicas um tanto familiares.
A atmosfera me traz um aroma adocicado e vegetal. Da janela do meu quarto, o corredor me traz feixes de luz que atravessam suas frestas.
São feixes cor de ouro, cor de luz e sol, trazendo aquelas familiares e minúsculas partículas de ar que se enfatizam em frente generoso foco de iluminação.
Estes feixes invadem meu quarto de nublado, fazendo reflexos nas paredes e nos lençóis e no rosto mais precioso desse planeta, do rapaz que descansa as pálpebras, deitado em meu colo.
Faço cachos em seus cabelos ondulados e olho para baixo, deixando escapar um sorriso.
Ele tem os olhos fechados, calmos, meditando um pré-dormir.
A luz que incide sobre seu rosto traz à tona o loiro de suas sobrancelhas, dos primeiros fios de cabelo das costeletas, que nascem claros como cabelos de anjo.
Uma corrente de ar traz uma lufada de cheiro de natureza e quando olhamos para frente, vemos pequenas pétalas vermelhas adentrando pela janela, vindo de uma robusta árvore de flores vermelhas que podemos ver através da janela, no corredor.
Ela estende-se por um perímetro indefinido, com seu grande tronco antigo, criando ramificações e raízes por todo o chão, adentrando no azulejo de maneira inexplicavelmente coerente.
Suas flores vermelhas contrastam com o ambiente parcialmente azulado, com os feixes de luz áureos, ilustrando com cores fortes e cálidas nosso inexplicável sonho.

(Todos os dias assim. Mais imagem, menos imagem. Todos os dias são um sonho.)

Diário

Procuro falhas de caráter na sua figura,
Encontro várias
Quero mastigar todas.

Penso nisso enquanto te olho,
Deitado sob mim, com tua boca entreaberta.
Teus músculos e ossos formando padrões adoráveis em tua pele pálida e macia.

Quebro tuas palavras em pedacinhos,
Na instabilidade de minhas decisões,
Na sagacidade de minhas análises,
Sempre as mais parciais possíveis.
As desconstruo a meu bel prazer,
enquanto brinco de modos de te dar prazer.
Enquanto tiro o pino da minha granada no teu ser.

Passo as mãos por ti,
Tenho um pouco de medo da intensidade do meu desejo.
Quero devorar-te.
(Não, não sei ser saudável.)
Quero degustar tua pele, sugando cada gota do teu suor.
Saboreando-lhe o gosto,
Este doce insosso
Desde o último mês de agosto.

Aprecio suas imperfeições com adoração cega,
Te envolvo em minha obsessão, sem nenhuma reserva.
Pintando o teu quadro, na sala de minha euforia,
Andando com tintas na manga, sem planos B na poesia

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Video Games

(Ao som de https://www.youtube.com/watch?v=cE6wxDqdOV0 )

Tirava-lhe o vestido cor de rosa em uma tarde azul.
A camada azulada se estendia pela janela entreaberta do quarto, calma como a música.
Serena como o contato entre suas mãos.

Sorria-lhe às vezes, quando se distraia sem perceber, e diziam-se todas as coisas de amor. Dizia-lhe também no ouvido, quando estavam em um local lotado e ninguém os via. E então ela o olhava e segurava sua mão com a firmeza de quem tem certeza.

Quando passaram por "Ela", aquela que o tinha feito sofrer, ela teve vontade de abraçar-lhe pela cintura, dizendo em silêncio que jamais iria fazer-lhe chorar. E ele agradeceria com um de seus beijos tão ternos como uma música doce, dando-lhe doses de conforto e acolhimento com sua paz.

E então a sós e longe do mundo, seguravam um nas costas do outro, olhando-se: encarando um o mundo do outro. E de repente a música encaixava-se: Em suas tardes preguiçosas, de risadas fáceis assistindo televisão ou jogando videogames*. Em suas brincadeiras e danças, ouvindo músicas e fazendo-se rir. Realizando sonhos infantis e quase esquecidos. Sujando-se de tinta, de cócegas, de rimas. Dizendo um ao outro, com a naturalidade do silêncio: "Você pode ser você mesmo comigo.", e compreendendo o verdadeiro sentido da liberdade.
Em suas conversas longas, sobre temas antigos que às vezes a faziam chorar. Em suas tardes eternas, encarando um ao outro, sussurrando juras de amor. Entrelaçando as mãos. Sentindo na pele o gosto concreto do amor. Perdendo-se no que parecia uma montanha russa de sensações incríveis, desabrochando umas após as outras, como flores de um galho até então morto, acendendo ante a mais fantástica primavera já sonhada.

Encaravam um ao outro, as mãos envolvendo-se mutuamente. Os olhos café de ambos, como o café que adocicava com seu amargo suas noites na faculdade.
E eram um, então.
E o mundo agora, definitivamente,
Era um lugar fantástico para se viver.

domingo, 9 de novembro de 2014

Saldo

Ando em passos lentos pelo chão,
Encarando com melancolia os estilhaços do furacão.
Em um canto vejo pedaços de teus sorrisos,
Feridos e repartidos.
Meus ídolos caídos.

Vejo manchas vermelhas na parede,
Que foram jogadas por labaredas de fúria,
Vejo pedaços de promessas e sonhos,
Esquartejados em atos de loucura.

Andando um pouco mais, com essas pernas já fracas,
Vejo um movimento por baixo das cortinas:
Uma silhueta ofega devagar,
Está muito cansada e coberta de cinzas.

Me agacho ao seu lado, limpando a crosta monocromática,
Quase sem forças, piscam para mim duas pálpebras.
E com algum alívio as vejo piscar.

Com minha boca rubra, de sangue escorrendo
Pelos golpes levados e desferidos a contento,
Beijo esses dois receptáculos de meus sonhos.
E ao vê-las abrir, me mostrando teus olhos cansados,
Café do dia passado, insosso e amargo,
Aquela expressão taciturna do amor machucado...
Penso:
Como posso fazer para consertá-los?

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Etílico (Ou "Para onde foram suas asas, anjo?")

Inócuas tentativas de me balear
Mas minha mente é uma guerrilha.
A pólvora sinto na língua,
E a saudade chora à míngua.

Não estou aqui, isto é só uma carcaça
E teu beijo esses dias tem gosto de cachaça.
Passa rasgando com tuas palavras-navalha,
Me arranhando, tuas unhas debaixo de minha saia.

Tu segura meu cabelo e suga meu pescoço,
Derrama em mim todo teu desgosto
e me joga num canto sem carne, só osso.

Preciso dos teus maus tratos
Ofegar no teu assoalho
Enquanto te vejo amar putas na sala,
olhando em meus olhos, enquanto as rasga.
Sorrindo com tua boca de anjo canalha.

Palavras nunca dantes ditas a um antigo espelho quebrado

Olhando em seus olhos pedantes. Tão cheios de certezas precoces, precipitadas, fadadas a precipícios.
Olhos vivos e divertidos, zombando daqueles ao seu redor, como quem carrega em segredo um tesouro do conhecimento...
Mas isso não é verdade, é?
Me pergunto como é o ar aí de cima de toda essa prepotência. Seria rarefeito este raro efeito que dá?
Me pergunto se não sufoca um pouco, muito embora...
Eu já saiba a resposta:
Não agora.

Agora o ar tem gosto de carnaval, de festa todo dia, de maciez, de energia. Tem uma elétrica corrente entorpecente, essa droga que é acreditar que tanto se sabe.
Mas quando olho em seus olhos juvenis, proferindo essas verdades vis, cultuando a si mesmo como o Deus da religião absoluta, lamento.
Vejo em prospecção, olhos de um ancião. Recebendo a visita de três fantasmas...
Mas não serão três, serão mil. Serão todos que já se viu. Te importunando com desconstruções.
Vejo um arrependimento amargo, tristes realizações nos últimos segundos.
"A vida não é curta. Ela é longa",
é verdade.
Dá tempo de acumular muita vaidade.
Dá tempo de destruir muita beleza.
Mas que pena, que desperdício...
Alguém que um dia foi um criança com tanta beleza,
parecendo até um filho da natureza,
e gozando de uma sorte que hoje joga fora...
Nesse túnel da inflexibilidade, da verdade inabalável...
Visando ver uma claridade irremediável!

Mas existe túnel mais escuro?
Ora, o que é isso. Talvez só impressões de uma mente omissa,
Mas parto apenas de uma premissa...
No tocante a você,
Não é a primeira vez que prevejo o futuro.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Limões Verdes Frios

O encontrou no lugar de sempre, mas que parecia mais uma lembrança do "nunca mais". 
Estava mais belo, alto e esguio. Seu estranho. 
Fazia anos, parece, que não o via assim, de perto. E chocou-se ao não chocar-se com a falta de reação dele ao vê-la. Apenas acenou um sorriso educado que a rasgou. 
Sabor frio, como seus lábios macios. 

Agora ele era propriedade de outra. Aquela dos cabelos longos, que o amarrara com as pernas e as unhas. Ele fazia-lhe as vontades e por isso mesmo, não a via há tanto tempo.
Era uma parte de seu passado, passada para debaixo dos panos. - Doía a ela pensar. Mas já não tanto, pensava com pesar.
Trocaram amenidades e falaram sobre as casualidades. 
Onde ele estava agora, dizia, e sinalizava com as mãos longas. Seu dedo, antes vestido pela aliança de prata de ambos, agora trazia um anel de formatura e uma fina aliança dourada na mão direita, indicando que aproximava-se dele aquele futuro que ambos não teriam juntos.
Ela apertou as mãos brancas contra seus seios pequenos, em ato de involuntária angústia. Seus cabelos loiros caiam sobre seus ombros, ela viu, e estavam agora ressecados. A tristeza encrustara-se, permeou seu couro cabeludo e estendeu-se pelos fios. Ramos de tristeza pareciam proliferar-se de dentro para fora dela, saindo de seu peito e prolongando-se pelos braços, dedos, pés e cabelos. Como a árvore mais triste que já existiu.

Olhou para frente novamente. No olhar daquele, que amar(v)a, o castanho era frio. Ele a encarava, perguntando com polidez sobre o amor dela. Sobre o que ela tentava acreditar que o era.
Suas perguntas eram de praxe, como um velho conhecido. E ela desesperou-se por um momento procurando algum ímpeto por trás das perguntas casuais dele. Desesperou-se procurando um lugar comum. Encarou aqueles olhos procurando enfim alguma familiaridade naquelas faíscas castanho-claro que desbotavam as pupilas cor de café. 
Encarando-os, viu mais. Viu anos atrás, os olhos que entraram nos seus, enquanto ele entrara em si, na primeira noite de amor de ambos. Viu o olhar em chamas enquanto ele falava sobre amor pela primeira vez. Viu as lágrimas desbotando daquele castanho embargado quando ela magoava-lhe com as palavras mais cruéis escolhidas a dedo. Viu o ódio e a fúria daquele que se sente traído não por sua amada possuir um terceiro, mas por possuir algo ainda mais doloroso: O descaso.

Viu tudo isso em um flash de memórias ensurdecedor, contidas naqueles dois orbes castanhos, e quando voltou a si, um segundo depois, percebeu que a respiração estava presa e ela sem fôlego. E gelou, por um momento. Seus verdes olhos gelaram frios quando viu o gelo nos olhos dele. A ausência de tudo o que foi. É assim que se mata um amor, pensou ela. Com leves fatias gradativas e cítricas.

Passado mais um momento, aproximou-se Aquela. E ela A observou chegar, envolvida em seus próprios cabelos negros e ondulados, caindo-lhe pelas costas e seios. Com seu sorriso largo e sua vida, toda a sua vida. Com seu olhar perspicaz e seus olhos sorridentes.

Aquela a cumprimentou com a simpatia cruel de quem não te considera sequer uma rival, e colocou uma mão ao redor da cintura dele com uma intimidade que doeu ao ser assistida. A pele de ambos imediatamente se combinou como um astro e um planeta que giram nas órbitas um de outro.

Ela controlou um franzir de lábios de pura dor, e sorriu um sorriso seco como o vazio em seu peito.

Separaram-se com cumprimentos e ela viu o casal se distanciar.
O casal que ela podia ainda ser, mas não o era.

Porque não soube cuidar. Porque não soube amar.

Lençóis brancos sujos

"Distrações"
Me desculpe.
Preciso delas para não enlouquecer.
Acenderia um cigarro, mas nem isso. Tenho nojo do tabaco. Mas um vício agora cairia bem.
Quer dizer, mais um?
Preciso mexer com algo, então acendo a luz do abajur.
Me liberto dos lençóis brancos, com sua sensação irritante de maciez, e te olho.
Ao meu lado, um Adônis adormecido.
Encontro um prazer quase degustativo em vislumbrar teu corpo adormecido. Teu tórax magro e longo, iluminado pela luz fraca e amarelada do abajur. Estica-se sob o lençol amarrotado.
Tua boca vermelha e infantil entreaberta e o braço cobrindo parcialmente os olhos fechados.
Tenho um misto de fome e repulsa e fecho meus próprios olhos, buscando algum controle interior.
Ao abri-los, me deparo com teu quarto desorganizado de adolescente.
Vejo também meus braços estendidos sobre mim. São finos e pálidos, e algumas veias aparecem em sua porção interna.
Dentro desta carne, está contido tanto caos.
Sinto essa energia dilacerante e é difícil me conter.
Tenho ganas de gritar algo que não existe, porque a voz me parece muito repetitiva e superficial.
Tenho ganas de cuspir fogo.
Tenho tantas ganas, mas sem um destinatário são inócuas.
O inferno são os outros,
O inferno somos nós.
Tudo é o inferno.
Te olho novamente.
Tuas veias saltadas dos braços, tão pálidos que são quase transparentes.
Tu me passas a exata sensação da inocência, enquanto dorme e mais ainda enquanto está acordado.
Eu lamento e ao mesmo tempo sinto alívio.
O que seria de mim sem a tua inocência?
Sem a expectativa de sujá-la?
Vejo em ti uma tela em branco, tão branca quanto teus lençóis limpos.
E o que me deixa com as terminações nervosas acesas é a possibilidade de sujá-la de vermelho.
Ou será que não?
Faço um carinho com minhas mãos longas, em teu rosto adormecido.
Tu entreabre os olhos por um instante, e sorri um sorriso longo e revigorante. Um sorriso que apenas uma alma impecável poderia transmitir.
Aprecia meus carinhos fora de hora, alienado dos pensamentos que trazem em anexo.
Me presenteia com este doce sorriso e então volta a dormir.
Sorrio também, um tanto apologética.
Me desculpe, garoto.
Sei muito bem que isso não vai acabar bem.

Embuste (Ou "O mal dos anéis de saturno")

Um monte de coisas cujo significado você vai negar,
me fazendo escrever textos cujo significado não quero ouvir.
Enlouquecendo, tentando decifrar o que não existe.
Caindo em meus próprios embustes, nessas arapucas inconsequentes.
Tropeçando nas minhas próprias profecias.
Não, não me leve a mal. Apenas não me leve a lugar nenhum.
É só um desespero um tanto familiar fazendo uma breve visita, criando tornados no meu cerebelo.
Não, não escute essas bobagens. Esses anéis de saturno.
Nem curto tanto esta fundição, nem curto derreter o ouro e transformá-lo em outro, apenas...
As imagens são um pouco torturantes, você sabe? Elas são o pior.
São fruto da imaginação - A mais hábil estranguladora que já se viu nestas terras.
Ela coloca os dedos por dentre meus cabelos, começando esse carinho viciante, que está cortando minha nuca aos poucos, serrando a espinha dorsal da minha tranquilidade,
Para enfim adentrar na minha medula,
No método antiterapêutico mais invasivo que já foi visto.
E quebrar-me aos poucos.
Quebrar meus ossinhos,
Fazer com eles uma sopa de letrinhas,
Que escrevem teu nome,
já não tão acalentador como antes.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Por hoje não escreverei palavras sombrias

-Está aqui, tome. Isto é tudo.
Ela entregou-lhe. Entregou-se.
E pensar que dissera uma vez,
"You don't want the truth, the truth is boring."
Mas a verdade era tudo que tinha agora,
e pela primeira vez quis entregar-lhe a alguém.

Desnudou-se de suas máscaras,
De suas palavras.
De seus textos,
De seus medos.

Desnudou-se do cimento e da argila que moldara ao redor de si mesma pelos anos.

"Tome, isto é seu."

E ao fazê-lo - mal sabia que podia, de tanto que isto estava distante, não achava que existia - sentiu-se livre. Suas palavras correspondiam a seus atos, suas expressões a suas sensações. Suas vontades eram praticadas em liberdade. E ela toda era um tornado de emoções.

Ele recebeu isto com um sorriso, e ela viu a alma dele naquela curva labial.

Ele recebeu e abraçou tudo que ela tinha,

Ele entregou-lhe, como era de praxe da sua alma pura, tudo o que possuía.

Eles andaram em uma linha tênue, não sabiam por quanto tempo. Equilibravam-se na corda bamba, de mãos dadas e com sorrisos.

Mas nada disso era um problema, porque em silêncio ambos falaram:

"Com você, eu pulo nesse precipício."