"Eu queria um café e uma ideia
nova. Logo eu, que nunca mais me empolguei com nada." - Pensava Clarice encarando o céu azul de
nuvens salpicadas. Suas bochechas rosas sobre as quais caiam fios soltos do
coque de cabelo claro. Do quarto andar de seu prédio, via um bando de pássaros
voando de uma árvore para outra e os prédios descascados pareciam até
receptivos naquele sábado com cor de dia de ir à piscina, muito embora
estivesse um pouco frio. O céu, pensou ela,
estava sendo muito falso hoje.
Pegou seu casaquinho rosa porque não
gostava do vento, mesmo quando acolhedor e a yorkshire pré adolescente de sua
colega de quarto, para passeá-la - uma desculpa para passear a si mesma.
Mascando um chiclete que a fazia parecer
um tanto mais jovem que seus 23 anos, lembrava de uma frase de um poema, que
constantemente ecoava em sua cabeça:
"Diga-me. O que você planeja fazer
com sua única preciosa e selvagem vida?"
Agachou-se em frente a uma pracinha
primaveril para esperar a cachorrinha fazer xixi e apoiou mão no rosto,
pensativa.
"O que fazer com minha encantadora
vida?" Pensava ela, que sempre se julgara detentora de um presente ou
talismã bem sagrado. Sagrado e frágil pois podia quebrar-se a qualquer dia.
E por isso mesmo tinha medo de não
dar-lhe a finalidade devida enquanto dava tempo. Como um item de um jogo de
tabuleiro que não se usa até que um belo dia o perde numa batalha.
Dorothy acabou seu xixi, levantando o focinho
com dignidade e exigiu voltar a ser caminhada.
Clarice a acompanhou, lado a lado de
modo que pareciam até parentes de raça distante.
-Não existe hierarquia entre nós. -
Disse ela muito séria a Dorothy, que a encarou desafiadora e cética.
"Então porque estou presa em um
coleira?" Clarice teve certeza de ver as palavras no olhar dela e
suspirou, desistente.
-Desculpe, você tem razão. Eu sou a
maior mentirosa, Dorothy."
Dorothy apenas continuou andando,
recusando-se a continuar a conversa.
Foi nessa hora que Clarice reparou em
alguém que parecia estar em um dia pior do que ela e sua companheira de passeios.
Tinham acabado de chegar a um calçadão revestido de pedras brancas e pretas,
por onde não passavam carros, mas no qual dias como aquele sábado preguiçoso
acumulavam transeuntes desocupados, a fim de tomar uma cerveja em um dos
simpáticos bares-que-não-pareciam-bares ou um café nas bonitas cafeterias a
esta época enfeitadas de costumes natalinos.
Mas era sábado véspera de Natal e
estavam todos viajando com suas famílias ou em lugares mais interessantes do
que nessa cidadezinha de duas estrelas. Então fora um jovem casal tomando
cerveja no bar da esquina e duas senhoras velhinhas tricotando no Le Cafè, foi
em um jovem rapaz que Clarice reparou, com curiosidade.
No meio do calçadão havia uma fonte semi
abandonada e um pouco suja cujo pedramento de suas baixas paredes era de algo
parecido com mármore.
Clarice particularmente adorava aquele spot, porque parecia o tipo de lugar
onde se jogava moedas para pedir desejos e ela insistia em sempre fazer isso -
mesmo que nunca tivesse água jorrando, o que tirava um pouco o sentido da
coisa.
Mas era um lugar legal de se sentar e
observar, principalmente porque nunca tinha ninguém. Ficava semi- recoberto por
algumas árvores, no calçadão e um pouco fora do ângulo de visão das
lanchonetes, então não era um lugar popular. Não, definitivamente não era o
tipo de lugar onde as pessoas sentavam-se para papear ou que a prefeitura se
preocupasse de enfeitar no natal.
Mas naquele dia, Clarice viu através das
árvores, a água estava milagrosamente jorrando da fonte ("É um milagre de
natal!" - Ela disse a Dorothy, que a ignorou) e havia um rapaz sentado lá.
E ele não parecia estar tendo um bom dia. Ele era alto e claro e usava uma
camisa longa que Clarice percebeu imediatamente ser totalmente ineficiente,
pois o tecido era visivelmente muito fino, uma malha que parecia bem macia, mas
ineficaz de proteger contra o vento frio. - Ela observava, julgando-se bastante
escondida, através da árvores que a separavam da fonte. - O que atestava seu
mau humor era uma cara emburrada, e uma moeda em que ele mexia desesperançoso
pelos dedos, até jogá-la na fonte, o que fez Clarice sentir-se muito sábia por
não ser a única que via que aquele lugar era claramente uma fonte dos desejos -
Quando falava isso desse lugar, seus amigos sempre tiravam sarro dela.
Mas quando ele abaixou-se para procurar
a moeda de volta, Clarice percebeu que talvez ela só tivesse caído.
Ele pegou o celular e começou a discar,
em seguida o levando à orelha. E Clarice estava prestes a desistir de sua
observação, quando um poodle branco e especialmente feliz apareceu correndo do
outro lado da fonte e foi até o rapaz, pulando alegremente em seu colo.
"Veja, Dorothy! Um amiguinho!"
Clarice cutucou Dorothy, que não respondeu.
O poodle tinha o colar de uma coleira ao
redor do pescoço, mas não a corrente que a ligasse às mãos do aparente dono e
Dorothy pareceu perceber isso - pensou Clarice, com bastante certeza e uma
pitada de vergonha.
"Mas se eu te soltasse você fugiria
de mim" - Explicou baixinho para Dorothy, cujo olhar absolutamente não
negou a afirmação.
“Vamos, fofinha. Você tem um amiguinho
para conversar ali.”
Sorriu ela para a cachorrinha, puxando
de leve a coleira, agora que tinha um pretexto pet para puxar conversa com o estranho mal humorado. Mas Dorothy
simplesmente estancou no lugar, recusando-se a andar.
"Mas que momento horrível para
vinganças, Dorothy." Disse ela entredentes, tendo que apelar para recursos
extremos e colocando nos braços a yorkshire, que debateu-se levemente, em
desespero.
Clarice finalmente passou pelas árvores,
andando em direção ao lado oposto da fonte, como se não visse o rapaz e seu
poodle.
-Oh, vamos querida, você pediu tanto
para passear, aqui estamos. - Dizia em voz alta e casual para sua refém, que a
olhava de modo assassino.
O rapaz as viu passar de relance, mas
com a expressão tensa parecia tão aborrecido em sua ligação que não chegou a
olhar demoradamente.
Quando sentaram do outro lado da fonte,
o clima melhorou entre elas, porque Dorothy mostrou-se genuinamente interessada
em uns soldadinhos que voavam na grama próxima e Clarice resolveu soltá-la,
observando de perto a aventura da mesma.
Mas logo sua atenção foi voltada para a
voz do outro lado da fonte, que taciturnamente falava ao telefone:
"Ah não sei cara... Acho que é
melhor não, não quero estragar a felicidade de vocês aí (...) Haha muito
engraçado. (...) Não, tá tudo tranquilo, sabe. Nada novo. É só que não curto
muito essa época... É, tem isso também (...) Todo mundo viajou e sei lá, não é
legal dizer isso, mas não curto muito ficar só. (...) Não, cara, já disse que
não precisa. Não é isso, é diferente. É que... Eu sinto que devia estar fazendo
algo mais extraordinário da minha vida, tá ligado? (...) haha Eu sei, papo
profundo demais pra telefonema de natal, haha..."
Nessa hora Clarice já não podia estar
mais envergonhada de ter se metido naquele lugar e de estar ouvindo aquela
conversa tão pessoal. Sentia-se invadindo profundamente a intimidade do rapaz
da voz grave e bonita, apesar de taciturna.
Levantou-se então e decidida a ir
embora, pegou Dorothy de sua perseguição de soldadinhos, que somente a olhou
rancorosa:
"Agora que eu quero ficar, você
muda de ideia."
"Sinto muito" Clarice sibilou
para ela, andando em passos leves na intenção de ser tão pouco percebida quanto
fora enquanto chegava.
Estava prestes a passar pela entrada de
árvores quando a voz, que silenciara há pouco, soou um pouco mais alta:
-Desculpa te fazer ouvir isso.
Ela parou estática por 5 segundos,
torcendo para não ser com ela, que já se arrependera da ideia toda.
-Não é o tipo de coisa que se espera
ouvir no natal, quando se vem a uma fonte dos desejos, não é?
Tendo certeza que era com ela, Clarice
voltou-se para o rapaz, que a olhava apologeticamente. Ela estava com um
sorriso que só não era mais envergonhado do que seu rosto, agora com fortes
tons de rosa.
-Não, que isso. A culpa foi minha, que
entrei aqui mesmo você estando no telefone. - Ela disse, olhando para os lados,
com vergonha de encará-lo.
-Que nada. - Ele deu de ombros, com um
sorriso cansado. - É um lugar público, não é? - Disse, jogando outra moeda na
fonte, mas dessa vez mais longe.
-É... - Ela concordou com um sorriso
tímido e já ia saindo, quando voltou-se novamente para ele, subitamente: -
Espera, você falou que esse lugar era uma "fonte dos desejos"?
Perguntou como quem faz uma pergunta
seríssima, estreitando os olhos, muito atenta.
-Er... sim... - Ele pareceu
desconcertado com a brusca mudança no semblante dela e começou a parecer
envergonhado com o que dissera - Quer dizer.... Bom, eu sempre jogo moedas,
er... Você nunca viu naqueles filmes que o pessoal, er...joga moedas em fontes
assim e..er...
Ela soltou uma risada alta e alegre ao
ver a reação dele, o que mais uma vez o surpreendeu um pouco:
-O que foi? Eu disse algo estranho?
-Não, não. É que foi muito legal você
assim constrangido. - Ela disse muito naturalmente para em seguida ficar em
choque "MEU DEUS. O QUE EU DISSE?"
Perguntou-se, catatônica. Olhou para o
lado e Dorothy parecia finalmente se divertir um pouco, balançando o rabinho
peludo.
"Está rindo de mim, maldita. Tenho
certeza." Pensou, ameaçadoramente e quando teve coragem de olhar de volta
para o rapaz viu que sua expressão era tranquila, embora estivesse com o rosto
um pouco corado.
"Que ótimo, o constrangi..."
-À propósito - Ele levantou-se e
aproximou-se dois passos, estendendo a mão. - Meu nome é Diego. - Ele deu um
largo sorriso - o primeiro que parecia natural, e Clarice não pôde evitar
pensar que era o sorriso mais incrível que já tinha visto.
-Ah, prazer, Diego. Eu sou a Clarice -
Ela falou sorridente, apertando a mão dele e fez menção para seu lado - E essa
é a Dorothy, a temperamental york da minha colega de quarto. Mas ela gosta
mesmo é de passear comigo, não é Dorothy?
Dorothy grunhiu baixinho.
-Ah esse é o Darth. Ele gosta de passear
com todo mundo- Ele disse chamando o poodle branco, que prontamente veio
correndo e começou a cheirar o perímetro ao redor de Dorothy, que o encarava
desconfiada.
Os dois riram e Clarice sentiu liberdade
de sentar-se ao seu lado.
-Desculpa ter ouvido sua conversa, de
todo jeito. - Ela disse e o semblante dele que já tinha ficado
consideravelmente mais leve de repente franziu-se um pouco novamente - E
desculpa lembrar o assunto de novo. - Finalizou ela num fio de voz.
Ele sorriu, voltando a parecer bem:
-Não, que isso. Não tem o que se
preocupar. Só acho o natal uma época um pouco... Ah, você não quer ouvir isso.
-Ah eu quero, lógico que quero - Ela
disse, talvez animadamente demais, e ficou aliviada de ter parado antes de
verbalizar o pensamento de que provavelmente acharia qualquer coisa que ele
dissesse interessante.
E ele riu da animação dela, dando um
suspiro pensativo e olhando para o céu azul claro:
-É como eu disse pro meu brother, sabe?
Natal é essa tal época de final e recomeço e eu meio que não sinto que estou
aproveitando minha vida como devia. Sinto falta de alguma coisa, algo
extraordinário, que vai fazer a vida “começar”, mas algo que não sei o que é
ainda. E pra completar todo mundo viaja e... Bom o resto você ouviu. - Ele
disse, olhando constrangido de lado. Ainda sem acreditar que estava falando
coisas tão pessoais para alguém que acabara de conhecer.
Clarice não respondeu, ligeiramente
encantada, então ele complementou, num fio de voz:
-Você entende?
Ela, que um pouco consternada encarava a
fonte, vendo poucas moedas que - percebia agora - deviam provavelmente
pertencer apenas a eles dois, respondeu:
-Você nem imagina o quanto. - Disse
seriamente e a frase de mais cedo veio à sua cabeça.
Nesse momento um vento ligeiramente mais
frio passou como uma rajada e bastaram poucos minutos para que pequenos pingos
começassem a cair até repentinamente transformarem-se em uma torrencial queda
d'água.
-Ah, como pode? - Perguntou ela a ele,
com quem já se sentia completamente à vontade a esse ponto - Vi na previsão que
hoje o dia ia ser totalmente ensolarado. - Disse um pouco decepcionada.
Ele, que especialmente estava gostando
de chuva naquele dia, deu de novo o sorriso incrível e colocou Darth - que
agora tremia de frio ao seu pé, por dentro de sua blusa, o protegendo.
Seu semblante estava bem melhor e
parecia claro que sua vontade era de ficar, mas não sabendo bem que padrão
seguir naquela situação tão inusitada, apenas sorriu:
-Prazer te conhecer, Clarice. - Disse
ele, começando a andar com o protegido Darth para fora da área da fonte, quando
Clarice, que começava também a proteger Dorothy em seu casaquinho, o olhou sem
ação por 2seg até vê-lo começar a andar, quando deu uma corridinha e segurou
sua blusa:
-Ei, você quer fazer alguma coisa?
Os dois olharam para cima, para o céu
completamente devastado pela água, sob o qual seria impossível qualquer atividade
normal, tornando o convite visivelmente absurdo.
-Claro que sim. - Ele respondeu com um
largo sorriso e os dois saíram juntos da Fonte, correndo com seus filhotinhos
sendo protegidos.
Correram tão depressa que não perceberam
as inscrições ao pé da fonte:
"Tell
me, what is it your plan to do with your one wild and precious life?"
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