sábado, 13 de dezembro de 2014

The summer day (or A christimas tale)

"Eu queria um café e uma ideia nova. Logo eu, que nunca mais me empolguei com nada."  - Pensava Clarice encarando o céu azul de nuvens salpicadas. Suas bochechas rosas sobre as quais caiam fios soltos do coque de cabelo claro. Do quarto andar de seu prédio, via um bando de pássaros voando de uma árvore para outra e os prédios descascados pareciam até receptivos naquele sábado com cor de dia de ir à piscina, muito embora estivesse um pouco frio. O céu, pensou  ela, estava sendo muito falso hoje.

Pegou seu casaquinho rosa porque não gostava do vento, mesmo quando acolhedor e a yorkshire pré adolescente de sua colega de quarto, para passeá-la - uma desculpa para passear a si mesma.

Mascando um chiclete que a fazia parecer um tanto mais jovem que seus 23 anos, lembrava de uma frase de um poema, que constantemente ecoava em sua cabeça:
    
"Diga-me. O que você planeja fazer com sua única preciosa e selvagem vida?"

Agachou-se em frente a uma pracinha primaveril para esperar a cachorrinha fazer xixi e apoiou mão no rosto, pensativa.

"O que fazer com minha encantadora vida?" Pensava ela, que sempre se julgara detentora de um presente ou talismã bem sagrado. Sagrado e frágil pois podia quebrar-se a qualquer dia.
E por isso mesmo tinha medo de não dar-lhe a finalidade devida enquanto dava tempo. Como um item de um jogo de tabuleiro que não se usa até que um belo dia o perde numa batalha.

Dorothy acabou seu xixi, levantando o focinho com dignidade e exigiu voltar a ser caminhada.

Clarice a acompanhou, lado a lado de modo que pareciam até parentes de raça distante.

-Não existe hierarquia entre nós. - Disse ela muito séria a Dorothy, que a encarou desafiadora e cética.

"Então porque estou presa em um coleira?" Clarice teve certeza de ver as palavras no olhar dela e suspirou, desistente.

-Desculpe, você tem razão. Eu sou a maior mentirosa, Dorothy."

Dorothy apenas continuou andando, recusando-se a continuar a conversa.

Foi nessa hora que Clarice reparou em alguém que parecia estar em um dia pior do que ela e sua companheira de passeios. Tinham acabado de chegar a um calçadão revestido de pedras brancas e pretas, por onde não passavam carros, mas no qual dias como aquele sábado preguiçoso acumulavam transeuntes desocupados, a fim de tomar uma cerveja em um dos simpáticos bares-que-não-pareciam-bares ou um café nas bonitas cafeterias a esta época enfeitadas de costumes natalinos.

Mas era sábado véspera de Natal e estavam todos viajando com suas famílias ou em lugares mais interessantes do que nessa cidadezinha de duas estrelas. Então fora um jovem casal tomando cerveja no bar da esquina e duas senhoras velhinhas tricotando no Le Cafè, foi em um jovem rapaz que Clarice reparou, com curiosidade.

No meio do calçadão havia uma fonte semi abandonada e um pouco suja cujo pedramento de suas baixas paredes era de algo parecido com mármore.

Clarice particularmente adorava aquele spot, porque parecia o tipo de lugar onde se jogava moedas para pedir desejos e ela insistia em sempre fazer isso - mesmo que nunca tivesse água jorrando, o que tirava um pouco o sentido da coisa.

Mas era um lugar legal de se sentar e observar, principalmente porque nunca tinha ninguém. Ficava semi- recoberto por algumas árvores, no calçadão e um pouco fora do ângulo de visão das lanchonetes, então não era um lugar popular. Não, definitivamente não era o tipo de lugar onde as pessoas sentavam-se para papear ou que a prefeitura se preocupasse de enfeitar no natal.

Mas naquele dia, Clarice viu através das árvores, a água estava milagrosamente jorrando da fonte ("É um milagre de natal!" - Ela disse a Dorothy, que a ignorou) e havia um rapaz sentado lá. E ele não parecia estar tendo um bom dia. Ele era alto e claro e usava uma camisa longa que Clarice percebeu imediatamente ser totalmente ineficiente, pois o tecido era visivelmente muito fino, uma malha que parecia bem macia, mas ineficaz de proteger contra o vento frio. - Ela observava, julgando-se bastante escondida, através da árvores que a separavam da fonte. - O que atestava seu mau humor era uma cara emburrada, e uma moeda em que ele mexia desesperançoso pelos dedos, até jogá-la na fonte, o que fez Clarice sentir-se muito sábia por não ser a única que via que aquele lugar era claramente uma fonte dos desejos - Quando falava isso desse lugar, seus amigos sempre tiravam sarro dela.

Mas quando ele abaixou-se para procurar a moeda de volta, Clarice percebeu que talvez ela só tivesse caído.

Ele pegou o celular e começou a discar, em seguida o levando à orelha. E Clarice estava prestes a desistir de sua observação, quando um poodle branco e especialmente feliz apareceu correndo do outro lado da fonte e foi até o rapaz, pulando alegremente em seu colo.

"Veja, Dorothy! Um amiguinho!" Clarice cutucou Dorothy, que não respondeu.

O poodle tinha o colar de uma coleira ao redor do pescoço, mas não a corrente que a ligasse às mãos do aparente dono e Dorothy pareceu perceber isso - pensou Clarice, com bastante certeza e uma pitada de vergonha.

"Mas se eu te soltasse você fugiria de mim" - Explicou baixinho para Dorothy, cujo olhar absolutamente não negou a afirmação.

“Vamos, fofinha. Você tem um amiguinho para conversar ali.”
Sorriu ela para a cachorrinha, puxando de leve a coleira, agora que tinha um pretexto pet para puxar conversa com o estranho mal humorado. Mas Dorothy simplesmente estancou no lugar, recusando-se a andar.

"Mas que momento horrível para vinganças, Dorothy." Disse ela entredentes, tendo que apelar para recursos extremos e colocando nos braços a yorkshire, que debateu-se levemente, em desespero.

Clarice finalmente passou pelas árvores, andando em direção ao lado oposto da fonte, como se não visse o rapaz e seu poodle.

-Oh, vamos querida, você pediu tanto para passear, aqui estamos. - Dizia em voz alta e casual para sua refém, que a olhava de modo assassino.

O rapaz as viu passar de relance, mas com a expressão tensa parecia tão aborrecido em sua ligação que não chegou a olhar demoradamente.

Quando sentaram do outro lado da fonte, o clima melhorou entre elas, porque Dorothy mostrou-se genuinamente interessada em uns soldadinhos que voavam na grama próxima e Clarice resolveu soltá-la, observando de perto a aventura da mesma.

Mas logo sua atenção foi voltada para a voz do outro lado da fonte, que taciturnamente falava ao telefone:

"Ah não sei cara... Acho que é melhor não, não quero estragar a felicidade de vocês aí (...) Haha muito engraçado. (...) Não, tá tudo tranquilo, sabe. Nada novo. É só que não curto muito essa época... É, tem isso também (...) Todo mundo viajou e sei lá, não é legal dizer isso, mas não curto muito ficar só. (...) Não, cara, já disse que não precisa. Não é isso, é diferente. É que... Eu sinto que devia estar fazendo algo mais extraordinário da minha vida, tá ligado? (...) haha Eu sei, papo profundo demais pra telefonema de natal, haha..."

Nessa hora Clarice já não podia estar mais envergonhada de ter se metido naquele lugar e de estar ouvindo aquela conversa tão pessoal. Sentia-se invadindo profundamente a intimidade do rapaz da voz grave e bonita, apesar de taciturna.

Levantou-se então e decidida a ir embora, pegou Dorothy de sua perseguição de soldadinhos, que somente a olhou rancorosa:
"Agora que eu quero ficar, você muda de ideia."

"Sinto muito" Clarice sibilou para ela, andando em passos leves na intenção de ser tão pouco percebida quanto fora enquanto chegava.

Estava prestes a passar pela entrada de árvores quando a voz, que silenciara há pouco, soou um pouco mais alta:

-Desculpa te fazer ouvir isso.

Ela parou estática por 5 segundos, torcendo para não ser com ela, que já se arrependera da ideia toda.

-Não é o tipo de coisa que se espera ouvir no natal, quando se vem a uma fonte dos desejos, não é?

Tendo certeza que era com ela, Clarice voltou-se para o rapaz, que a olhava apologeticamente. Ela estava com um sorriso que só não era mais envergonhado do que seu rosto, agora com fortes tons de rosa.

-Não, que isso. A culpa foi minha, que entrei aqui mesmo você estando no telefone. - Ela disse, olhando para os lados, com vergonha de encará-lo.

-Que nada. - Ele deu de ombros, com um sorriso cansado. - É um lugar público, não é? - Disse, jogando outra moeda na fonte, mas dessa vez mais longe.

-É... - Ela concordou com um sorriso tímido e já ia saindo, quando voltou-se novamente para ele, subitamente: - Espera, você falou que esse lugar era uma "fonte dos desejos"? 
Perguntou como quem faz uma pergunta seríssima, estreitando os olhos, muito atenta.

-Er... sim... - Ele pareceu desconcertado com a brusca mudança no semblante dela e começou a parecer envergonhado com o que dissera - Quer dizer.... Bom, eu sempre jogo moedas, er... Você nunca viu naqueles filmes que o pessoal, er...joga moedas em fontes assim e..er...

Ela soltou uma risada alta e alegre ao ver a reação dele, o que mais uma vez o surpreendeu um pouco:

-O que foi? Eu disse algo estranho?

-Não, não. É que foi muito legal você assim constrangido. - Ela disse muito naturalmente para em seguida ficar em choque "MEU DEUS. O QUE EU DISSE?"
Perguntou-se, catatônica. Olhou para o lado e Dorothy parecia finalmente se divertir um pouco, balançando o rabinho peludo.
"Está rindo de mim, maldita. Tenho certeza." Pensou, ameaçadoramente e quando teve coragem de olhar de volta para o rapaz viu que sua expressão era tranquila, embora estivesse com o rosto um pouco corado.

"Que ótimo, o constrangi..."

-À propósito - Ele levantou-se e aproximou-se dois passos, estendendo a mão. - Meu nome é Diego. - Ele deu um largo sorriso - o primeiro que parecia natural, e Clarice não pôde evitar pensar que era o sorriso mais incrível que já tinha visto.

-Ah, prazer, Diego. Eu sou a Clarice - Ela falou sorridente, apertando a mão dele e fez menção para seu lado - E essa é a Dorothy, a temperamental york da minha colega de quarto. Mas ela gosta mesmo é de passear comigo, não é Dorothy?

Dorothy grunhiu baixinho.

-Ah esse é o Darth. Ele gosta de passear com todo mundo- Ele disse chamando o poodle branco, que prontamente veio correndo e começou a cheirar o perímetro ao redor de Dorothy, que o encarava desconfiada.

Os dois riram e Clarice sentiu liberdade de sentar-se ao seu lado.

-Desculpa ter ouvido sua conversa, de todo jeito. - Ela disse e o semblante dele que já tinha ficado consideravelmente mais leve de repente franziu-se um pouco novamente - E desculpa lembrar o assunto de novo. - Finalizou ela num fio de voz.

Ele sorriu, voltando a parecer bem:

-Não, que isso. Não tem o que se preocupar. Só acho o natal uma época um pouco... Ah, você não quer ouvir isso.

-Ah eu quero, lógico que quero - Ela disse, talvez animadamente demais, e ficou aliviada de ter parado antes de verbalizar o pensamento de que provavelmente acharia qualquer coisa que ele dissesse interessante.

E ele riu da animação dela, dando um suspiro pensativo e olhando para o céu azul claro:

-É como eu disse pro meu brother, sabe? Natal é essa tal época de final e recomeço e eu meio que não sinto que estou aproveitando minha vida como devia. Sinto falta de alguma coisa, algo extraordinário, que vai fazer a vida “começar”, mas algo que não sei o que é ainda. E pra completar todo mundo viaja e... Bom o resto você ouviu. - Ele disse, olhando constrangido de lado. Ainda sem acreditar que estava falando coisas tão pessoais para alguém que acabara de conhecer.

Clarice não respondeu, ligeiramente encantada, então ele complementou, num fio de voz:

-Você entende?

Ela, que um pouco consternada encarava a fonte, vendo poucas moedas que - percebia agora - deviam provavelmente pertencer apenas a eles dois, respondeu:

-Você nem imagina o quanto. - Disse seriamente e a frase de mais cedo veio à sua cabeça.

Nesse momento um vento ligeiramente mais frio passou como uma rajada e bastaram poucos minutos para que pequenos pingos começassem a cair até repentinamente transformarem-se em uma torrencial queda d'água.

-Ah, como pode? - Perguntou ela a ele, com quem já se sentia completamente à vontade a esse ponto - Vi na previsão que hoje o dia ia ser totalmente ensolarado. - Disse um pouco decepcionada.

Ele, que especialmente estava gostando de chuva naquele dia, deu de novo o sorriso incrível e colocou Darth - que agora tremia de frio ao seu pé, por dentro de sua blusa, o protegendo.

Seu semblante estava bem melhor e parecia claro que sua vontade era de ficar, mas não sabendo bem que padrão seguir naquela situação tão inusitada, apenas sorriu:

-Prazer te conhecer, Clarice. - Disse ele, começando a andar com o protegido Darth para fora da área da fonte, quando Clarice, que começava também a proteger Dorothy em seu casaquinho, o olhou sem ação por 2seg até vê-lo começar a andar, quando deu uma corridinha e segurou sua blusa:

-Ei, você quer fazer alguma coisa?

Os dois olharam para cima, para o céu completamente devastado pela água, sob o qual seria impossível qualquer atividade normal, tornando o convite visivelmente absurdo.

-Claro que sim. - Ele respondeu com um largo sorriso e os dois saíram juntos da Fonte, correndo com seus filhotinhos sendo protegidos.

Correram tão depressa que não perceberam as inscrições ao pé da fonte:

"Tell me, what is it your plan to do with your one wild and precious life?"

É, talvez não tivesse sido só o clima que fugiu da previsão nesse Natal.

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