quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Lençóis brancos sujos

"Distrações"
Me desculpe.
Preciso delas para não enlouquecer.
Acenderia um cigarro, mas nem isso. Tenho nojo do tabaco. Mas um vício agora cairia bem.
Quer dizer, mais um?
Preciso mexer com algo, então acendo a luz do abajur.
Me liberto dos lençóis brancos, com sua sensação irritante de maciez, e te olho.
Ao meu lado, um Adônis adormecido.
Encontro um prazer quase degustativo em vislumbrar teu corpo adormecido. Teu tórax magro e longo, iluminado pela luz fraca e amarelada do abajur. Estica-se sob o lençol amarrotado.
Tua boca vermelha e infantil entreaberta e o braço cobrindo parcialmente os olhos fechados.
Tenho um misto de fome e repulsa e fecho meus próprios olhos, buscando algum controle interior.
Ao abri-los, me deparo com teu quarto desorganizado de adolescente.
Vejo também meus braços estendidos sobre mim. São finos e pálidos, e algumas veias aparecem em sua porção interna.
Dentro desta carne, está contido tanto caos.
Sinto essa energia dilacerante e é difícil me conter.
Tenho ganas de gritar algo que não existe, porque a voz me parece muito repetitiva e superficial.
Tenho ganas de cuspir fogo.
Tenho tantas ganas, mas sem um destinatário são inócuas.
O inferno são os outros,
O inferno somos nós.
Tudo é o inferno.
Te olho novamente.
Tuas veias saltadas dos braços, tão pálidos que são quase transparentes.
Tu me passas a exata sensação da inocência, enquanto dorme e mais ainda enquanto está acordado.
Eu lamento e ao mesmo tempo sinto alívio.
O que seria de mim sem a tua inocência?
Sem a expectativa de sujá-la?
Vejo em ti uma tela em branco, tão branca quanto teus lençóis limpos.
E o que me deixa com as terminações nervosas acesas é a possibilidade de sujá-la de vermelho.
Ou será que não?
Faço um carinho com minhas mãos longas, em teu rosto adormecido.
Tu entreabre os olhos por um instante, e sorri um sorriso longo e revigorante. Um sorriso que apenas uma alma impecável poderia transmitir.
Aprecia meus carinhos fora de hora, alienado dos pensamentos que trazem em anexo.
Me presenteia com este doce sorriso e então volta a dormir.
Sorrio também, um tanto apologética.
Me desculpe, garoto.
Sei muito bem que isso não vai acabar bem.

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