quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Limões Verdes Frios

O encontrou no lugar de sempre, mas que parecia mais uma lembrança do "nunca mais". 
Estava mais belo, alto e esguio. Seu estranho. 
Fazia anos, parece, que não o via assim, de perto. E chocou-se ao não chocar-se com a falta de reação dele ao vê-la. Apenas acenou um sorriso educado que a rasgou. 
Sabor frio, como seus lábios macios. 

Agora ele era propriedade de outra. Aquela dos cabelos longos, que o amarrara com as pernas e as unhas. Ele fazia-lhe as vontades e por isso mesmo, não a via há tanto tempo.
Era uma parte de seu passado, passada para debaixo dos panos. - Doía a ela pensar. Mas já não tanto, pensava com pesar.
Trocaram amenidades e falaram sobre as casualidades. 
Onde ele estava agora, dizia, e sinalizava com as mãos longas. Seu dedo, antes vestido pela aliança de prata de ambos, agora trazia um anel de formatura e uma fina aliança dourada na mão direita, indicando que aproximava-se dele aquele futuro que ambos não teriam juntos.
Ela apertou as mãos brancas contra seus seios pequenos, em ato de involuntária angústia. Seus cabelos loiros caiam sobre seus ombros, ela viu, e estavam agora ressecados. A tristeza encrustara-se, permeou seu couro cabeludo e estendeu-se pelos fios. Ramos de tristeza pareciam proliferar-se de dentro para fora dela, saindo de seu peito e prolongando-se pelos braços, dedos, pés e cabelos. Como a árvore mais triste que já existiu.

Olhou para frente novamente. No olhar daquele, que amar(v)a, o castanho era frio. Ele a encarava, perguntando com polidez sobre o amor dela. Sobre o que ela tentava acreditar que o era.
Suas perguntas eram de praxe, como um velho conhecido. E ela desesperou-se por um momento procurando algum ímpeto por trás das perguntas casuais dele. Desesperou-se procurando um lugar comum. Encarou aqueles olhos procurando enfim alguma familiaridade naquelas faíscas castanho-claro que desbotavam as pupilas cor de café. 
Encarando-os, viu mais. Viu anos atrás, os olhos que entraram nos seus, enquanto ele entrara em si, na primeira noite de amor de ambos. Viu o olhar em chamas enquanto ele falava sobre amor pela primeira vez. Viu as lágrimas desbotando daquele castanho embargado quando ela magoava-lhe com as palavras mais cruéis escolhidas a dedo. Viu o ódio e a fúria daquele que se sente traído não por sua amada possuir um terceiro, mas por possuir algo ainda mais doloroso: O descaso.

Viu tudo isso em um flash de memórias ensurdecedor, contidas naqueles dois orbes castanhos, e quando voltou a si, um segundo depois, percebeu que a respiração estava presa e ela sem fôlego. E gelou, por um momento. Seus verdes olhos gelaram frios quando viu o gelo nos olhos dele. A ausência de tudo o que foi. É assim que se mata um amor, pensou ela. Com leves fatias gradativas e cítricas.

Passado mais um momento, aproximou-se Aquela. E ela A observou chegar, envolvida em seus próprios cabelos negros e ondulados, caindo-lhe pelas costas e seios. Com seu sorriso largo e sua vida, toda a sua vida. Com seu olhar perspicaz e seus olhos sorridentes.

Aquela a cumprimentou com a simpatia cruel de quem não te considera sequer uma rival, e colocou uma mão ao redor da cintura dele com uma intimidade que doeu ao ser assistida. A pele de ambos imediatamente se combinou como um astro e um planeta que giram nas órbitas um de outro.

Ela controlou um franzir de lábios de pura dor, e sorriu um sorriso seco como o vazio em seu peito.

Separaram-se com cumprimentos e ela viu o casal se distanciar.
O casal que ela podia ainda ser, mas não o era.

Porque não soube cuidar. Porque não soube amar.

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