Acende o esqueiro. Apaga o esqueiro. Acende, apaga.
Para com esse barulho, cara.
Era noite, claro. Naquele cruzamento enfim. A avenida era estranha para quem passava, que não se passasse por aí a essa hora, garoto, mas era familiar a ele. Aquela era sua vida. Ele olhava entediado enquanto os outros fumavam, brincavam. Um dia foi interessante, era ele ali, mas agora carregava uma certa tranquilidade, mesmo depois de tão pouco tempo. O novo era interessante, o costume desgasta. Daí, assim. Não era ruim não, só de praxe. E aquele dia estava um pouco apreenssivo. Será que não devia algo acontecer, devia?
O que você tá fazendo aí cara, vamo puxar uma. Olhou de lado. Ia chegar em casa muito, muito tarde de novo. Quer dizer, cedo. Da manhã. Lembrou quando a velha dizia alguma coisa ainda, agora nem um pouco. Sentia até falta às vezes. Era tão fácil já.
-Você tá bem, Thales?
Perguntou a menina.
Ele olhou de lado. Uhum, assim com a cabeça. Tinha alguma coisa o puxando para trás. Estavam no meio fio, bem no meio da Avenida e ele a viu: Aquela rua era estranha para o diabo, uma ruazinha assim, o chamando. Dava para ver dali aquela rua estranha, mais estranha que essa Avenida ainda, entrando pelo um bequinho, umas casas em que talvez nem houvesse ninguém e que pareciam ter um quê de antigas. Rua Madre Vilac.
Pulou dos entulhos sobre onde estava sentado.
-Vai pra onde, Thales?
Perguntou o primo.
Ele não respondeu, nem precisava. O outro estava chapado mesmo e ele só...Parou no caminho, tenho nada a fazer nessa rua não.
Vou pra casa. Mas por quê, são nem 5, tem nem sol ainda. Eu vou porque, sei lá. Saiu. Odiava se explicar.
Chegou em casa e dormiu com a mesma roupa, o sino da igreja tocando 5 horas, que estranho ele achava que só tocava às 6. Pegou no sono, sonhando com a Madre Vilac.
Pela manhã, a escola. Tedioso, automático. Não acabava nunca essa escola, se bem que sabia que quando acabasse talvez fosse pior, ou não. "Tanto faz". Tinha sonhado e era importante, mas o que era?
O que era, o que era? Se perguntava enquanto seguia para casa, seguido pela menina. O cabelo desarrumado, a mochila jogada sobre os ombros, ah Thales costumava ser um menino tão bom... Daí passou pela Avenida. Tchau, você dobra aqui, né? É, vem hoje à noite? Claro, provavelmente, todo dia, não?
Daí olhou de lado, cadê a ruazinha? A Madre Vilac? Diabos, não identificava. Olhou pelo quarteirão, uma entrada, outra. Nada do bequinho. Devia ser muito diferente à luz do dia. Continuou seguindo pelo meio fio, sempre o meio fio, afinal, né.
Os grilos começavam a cantar quando o celular vibrou
"Vem não?"
Bem na hora que a mãe passou pelo quarto com a porta aberta e até olhou com um espanto:
-Não vai sair hoje, Thales?
Olhou de lado, aborrecido. Era tão incomum assim?
Mas não queria ir para a Avenida não, quer dizer, queria, intensamente. Praticamente sentia-se puxado até lá hoje, especificamente. Mas aquela apreenssão...Não queria, então.
-Vou sim.
Claro que para ele sempre funcionava a lei dos contrários.
Mas quando chegou na Avenida, não tinha ninguém. Checou o celular. Uma festinha, em algum lugar. Imaginou o cenário, álcool, drogas, sexo... Uma típica comemoração grega...Em nada o atraiu. O que estava havendo? Virou de lado. Lá estava ela.
Eu lembrei o que sonhei, lembrei que sonhei com uma cartomante.
Ela tirava-lhe as cartas e sorria um riso de gato sinistro. Seu nome era Madre Vilac. Ou o nome da carta era Madre Vilac. Um arrepio atravessou seu corpo moço. Riu. Que besteira. Não era supertiscioso, nem um pouco. Era tudo besteira, coisa que sua irmã mais nova ficava vendo em revista. E ria cada vez mais forçado, enquanto atravessava a avenida.
Pisou na calçada com seu tênis gasto. A entrada da rua à sua frente o encarava. A plaquinha já velha com
o "Madre" quase apagado. Parecia mais escura ainda, mas sozinha ainda, mais encantada ainda. Olhou de lado, para o caminho que levava à sua casa. Olhou para frente.
Agora ouça bem que essa é uma lição para a vida: Sempre há uma bifurcação, sempre.
Thales sorriu, olhou para baixo, acendeu um cigarro. Teve a impressão de ver uma moça nas profundezas daquela rua e sacodiu a cabeça. Voltou-se para o lado e deu um passo em direção à sua casa.
Mas para Thales, como eu disse, sempre funcionava a lei dos contrários.
Ele girou nos calcanhares e entrou na Rua Madre Vilac.
Mas é claro que ele nunca voltou.