quinta-feira, 3 de março de 2011

Vai saber.

-É passageiro, não é?
-Ah, é sim. Vem, instala-se e adoece. Daí passa, vai embora. Como uma gripe.
-Uma gripe? E será que é algo assim ruim?
-Quem disse que gripe é de todo ruim? Fortalece o organismo, te deixa num estado meio catatônico mas diferente.
-"Catatônico mas diferente", isso poderia ser qualquer coisa. Até um trauma.
-Pode ser também. Mas só seria trauma se fosse dos fortes. Daí poderia ser mesmo. Daqueles cujos rastros a gente vê na esquina. Sabe aqueles cujos rastros a gente vê na esquina?
-Não, não sei.
-Bom, eles, esses rastros, parecem acompanhados de uma nota falha de violino por trás. Por baixo, no fundo. De toda a banalidade que é. Como uma lente sobreposta que amplia o tamanho da coisa em si. Só para os olhos de quem vê.
-Quantas metáforas, ein. São muitas metáforas para algo tão passageiro, como você diz.
-Mas a coisa, em si mesma, já é uma metáfora, não acha? De algo maior. Isso já quer dizer outra coisa. Que vem de outro tempo. Talvez da infância. À la Freud.
-Toda coisa quer dizer outra coisa e no fundo das linhas eternamente cruzadas o cerne vai ser o mesmo e eu desconfio que seja nada.
-Pode ser que seja mesmo. Daí ele, esta coisa, esta entidade ou seja lá o que for, seria uma linhazinha assim, curta, passageira, apressada e até meio desatenta...
-Mas forte.
-É. Mas forte.

2 comentários:

  1. Se eu não fosse agnóstico, provavelmente interpretaria o seu texto como a melhor definição de Deus que ja vi. Como vc escreve bem olho de gato.
    parabens, nunca páre.

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  2. Não fosse a apalavra passageira, eu até concordaria com o carinha de cima, mas acho que não é sobre isso que vc esta falando,ou é?

    De qualquer forma, entendo errado ou não, gostei do texto em si.

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