quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Contos (II)

Sobre Felinos 
ou qualquer título que convenha mais.


-São três e quarenta, Ana. Venha se deitar. - Ele disse, e virou de lado na cama, voltando ao sonho. Eu sabia que era tarde. Há tempo aquele zunido de madrugada tinha se acomodado no quarto e parece que até os grilos do lado de fora tinham ido dormir. Mas eu não queria deitar. 
Olhei de lado, admirando o homem deitado comigo. Admirando os músculos daquelas costas e a fragilidade daquelas mãos. Eram 03:40, eu sabia, mas eu poderia passar a madrugada inteira observando aquele homem. Lendo nos contornos de cada músculo, de cada articulação, uma memória. Uma mensagem cifrada cujo significado terminava em nós dois.
Eu estava sentada e o lençol cobria meu colo. Eu não queria dormir, pois sabia que era a última noite.
Sim, no dia seguinte eu partiria. 
Eu nunca tinha deixado ninguém, na verdade. Mas é estranho, era o momento e eu simplesmente sabia. 
Não o momento limite onde os olhos já não se cruzam e as mãos já não se tocam. Este talvez ainda estivesse longe. Mas de algum modo, era o momento. Eu pensei em sair de lá imediatamente. Pensei em escrever-lhe um bilhete e partir. Em arrancar isso de mim como quem arranca um band-aid, só que carregando junto carne, alma, tudo o mais.
Mas eu temia estar deixando algo lá, além de minhas roupas, minhas marcas e alguma saudade. Temia estar abandonando algo irrecuperável, e foi por causa do medo atropelador que senti com esse vislumbre, que com o corpo já quente, coloquei-me sobre ele e o acordei aos poucos com minhas mãos e boca.
Senti enquanto ele gradualmente despertava na medida em que seus sentidos ficavam cada vez mais alertas.
Suas mãos seguraram meus pulsos com força, os olhos ainda fechados. O maxilar contraiu-se e por um momento irracional eu temi que ele me atirasse para longe com força.
No segundo seguinte ele colocou-se sobre mim e esse pensamento desanuviou-se, num instante.
Naquilo que embora ele não soubesse, era a despedida, a minha vontade era de gritar num choro, num gozo, numa súplica “eu te amo”.
Mas eu jamais poderia fazer isso e essa frase jamais seria dita entre nós, pois seria antecipar o fim.
Eu tinha que partir ao amanhecer. Não me pergunte por que, meu caro, mas eu tinha que deixá-lo acordar com esse golpe fatal que iria ferir tanto a ele como a mim.

2 comentários:

  1. Adorei, a menina parece muito um gato.
    Ficou muito legal, e eu gostei bastante da imagem que você escolheu.
    Gostei do nome também, nossa agora lembrando do que acabei de ler, a idéia de uma gata e uma mulher Ana, me deixa animada, inspira.
    Não vou falar pra você continuar, mas eu adoraria ler mais sobre a Ana, gata e mulher.

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