Você olha para baixo, para o relógio e eu sei: Estou te irritando. Toco sua nuca, dou aquele sorriso sem jeito de quando admito meu próprio erro; E te vejo ceder novamente, mas já não tão flexível. Mais tarde, longe de tudo, longe do seu aroma amadeirado, eu finalmente sei que sei o que estou fazendo. E daí, de repente, vem aquele desespero estranho, aquele desespero mudo. Porque eu percebo, assim, simples como quem percebe a luz ambiente, que não posso te perder. Estive te afastando com todas as células do meu corpo desde que tudo isso (re)começou, e faço isso sem perceber e sem saber o por quê, sem conscientemente estar ciente
do medo causador de todos esses males. Mas daí, agora, nessa hora, onde só a escuridão ilumina meus pensamentos, percebo assustada, petrificada, que eu realmente não quero perder isso. Isso... Suas piadas ruins e sua boca zombeteira. Suas mãos congelantes e suadas de carinhos sutis e discretos. Seu senso de humor distorcido e a extravagante megalomania de seus pensamentos. Seus olhos escuros, olhos fundos, duas poças de petróleo que eu não consigo encarar por muito tempo porque elas me empurram. E todos os pensamentos que essa combinação estranha e perigosa traz me irritam. Me irritam porque eu percebo que já caí nessa armadilha não foi hoje nem há alguns meses e sim desde o primeiro momento do primeiro dia em que nos descobrimos. E me irritam ainda mais porque me dou conta, novamente, do simples e absoluto fato de que com você eu jamais consigo vencer. Seja nas notas, no xadrez ou no amor, você está sempre me derrotando. Me derrotou anos atrás e me derrotou agora, onde me rendo escrevendo um texto que me jurei jamais escrever quando jurei jamais escrever novamente sobre você (e que, pelos céus, espero que você nunca leia). Mas principalmente, me derrotou naquele momento, onde com a mão sob o coração acelerado
e uma bandeira branca hasteada nele, fechei os olhos, e constatei o inegável e aterrorizante:
"-Ah, de novo não..."
meu primeiro comentário [2]
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