sábado, 18 de junho de 2011

"Vamos fingir que nunca partimos."

Inspirado por 'Breve' de 'Pouca Vogal'  [Escutem, se puderem.])

O despertador toca. Ela tira as mãos de baixo das cobertas com esforço e o abate. Adia o momento de abrir os olhos o máximo possível enquanto procura em algum lugar ao seu lado o corpo familiar.
Permite-se um rápido vislumbre da nuca pálida e os cabelos bagunçados pelo sono e levanta, reconhecendo pelo tique taque agoniante do relógio que já está mais que na hora de acordar.

Toma um banho rápido e quente, porque o clima que entra pelas janelas está congelante. Quando sai do boxe de toalha, sorri ao ver um recado feito no vapor do espelho do banheiro.

Na cozinha, ela coloca a chaleira para trabalhar. É claro que o café da manhã está em pacotinhos no armário. Ela nunca soube cozinhar e embora sempre achasse que por volta de seus vinte e tantos anos já teria aprendido, nunca  isso aconteceu e já começava a se conformar que jamais iria.

A grande janela da cozinha lhe permite uma visão panorâmica da segunda feira nublada. Escuta o som do quarto ligar seguido do barulho de água caindo do chuveiro e um arrepio estranho passa por seu corpo quando tira as chinelas e seus pés tocam o chão gelado. Por um momento tudo parece estranhamente surreal, mas ela sacode a cabeça e serve as xícaras de café.

Está perto de ficar atrasada e enquanto coloca o blazer, sente os dois braços ainda molhados a envolvendo por trás. Ela sorri e reclama que ele a está molhando. Ele não liga e a arrasta novamente para a cama.

Às 18h, o alarme da usina toca indicando que é hora de fim de turno. Do lado oposto da cidade, ela desce as escadas do escritório falando com a mãe pelo celular, e pega  o carro para encontrar duas amigas do tempo de faculdade num cineminha que inaugurou no subúrbio.
Elas riem de besteiras e histórias antigas e quando o filme começa ela percebe que nem reparou no título.

Os minutos passam e quando ela resolve prestar atenção, repara no que parece ser o clímax dramático. Nessa cena um garoto e uma garota jovens se encaram com tristeza e raiva, e por não saberem direito o que dizer, dizem "Adeus". Uma sensação muito estranha se acomoda na boca de seu estômago e ela diz que vai sair para tomar um ar porque na verdade ela começa a sentir vontade de vomitar.

Ela espera que a visão de começo de noite lhe acalme, mas de repente a rua do cinema lhe parece igualmente ameaçadora e uma estranha nostalgia parece querer forçar-se em sua mente. Tem a impressão de que tem algo a se lembrar daquela rua, e o impulso que todas essas sensações de estranheza  lhe dão é o de ligar para ele, pois ela sente que tem que confirmar alguma coisa, conferir algo essencial.
Mas quando ela liga, ele não atende.
Manda um torpedo se desculpando para as amigas e pega o carro para casa, reconhecendo que tem algo muito errado acontecendo.

Embora o normal fosse que àquele horário ele ainda estivesse no trabalho ou em sua própria casa, é ele que quem abre a porta quando ela começava a girar a chave e a olha confuso quando percebe seu olhar de nervosismo.

Ela solta um grande suspiro de alívio o abraçando, e todas as sensações estranhas se dissipam. Quando ele a pergunta o que houve, nem ela mesma sabe responder e começa a se perguntar o que diabos tinha acontecido consigo para ter se comportado daquele jeito. Ele a leva para o sofá e começa a  falar sobre o seu dia. Abrem uma garrafa de vinho cuja familiaridade que o rótulo lhe provoca ela também resolve ignorar, e no decorrer da noite ela adormece ainda com a roupa do trabalho em seu ombro.


O despertador toca. Ela abre os olhos num susto, o coração à mil.
Olha de lado e os fecha novamente, num suspiro.
É claro que nada disso nunca aconteceu.

3 comentários:

  1. Era um sonho? XD

    hahahhahhhahaha sério? Mas se for um sonho, ela ta com o cara mesmo ou é solteira?

    Eu gosteiiii *_______* tão curtinho mas muito legal, gostei deles bebendo vinho e ela dormindo com a roupa do trabalho e tudo, da parte do banho, ficou muito legal >.<

    *______________________________________________*

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  2. eu só reparei no titulo agora XD

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  3. Haha, é, era um sonho. Sei não, não defini bem isso, ela pode ser solteira ou estar com alguém, mas não o cara do sonho. Acho que o que aconteceu foi a cena do filme que ela vê, não sei, cabe a quem ler decidir, ou concluir, eu acho. xD

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