segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A visão do Hotel Panorama é medonha. (Ou "Conto sobre um menino-demônio.)

Os lábios inchados e rachados de mordidas. As mãos finas de veias saltadas. Droga e também substâncias químicas, que mais? Minha camiseta florida porque talvez seja a mais cínica em tuas mãos quentes, extremamente assim. Entra uma luz estranha pela janela, entra uma luz multi colorida entre cortinas anil. E daí mãos e pés e lábios e calores e não há absolutamente nada de erótico nisso, é necessário ressaltar . Teu corpo de menino andrógino, olhos grandes, olhos mortos, olhos de ancião sarcástico. Gosto dos lençóis. Curto teus lençóis alucinógenos como curto você. - E por isso mesmo encurto minha estadia, por um pavio também curto que já já vai apagar, logo após acender. Não importa, nada importa. Te vi 3 mil anos atrás, semana passada, numa noite onde tudo anunciava a tragédia num gramado daquele lugar de gente profana. Fumava e sorria, olhava para baixo, olhava para o nada. - Sabia. Eu, claro. Tu já não sabia de nada e isso te trazia imensa sabedoria. Intensamente sensorial do começo ao trágico e previsível fim. E naquela noite tosca, naquela noite prima olhei o céu e a lua zombou de mim ao me dar o vislumbre inicial do começo, meio e - De certo modo, portanto, ao te ver com teus amigos fumando enquanto eu, espectro no lugar errado, na hora errada, seguindo fielmente o que ditaram as linhas do tal destino, eu, então, de certo modo, naquele simplesmente trágico ou obviamente banal momento, já me vi deitada numa cama que não era minha num quarto que não era meu, cuspindo o horror do meu corpo ao lado do teu. Gosto de tocar a ferida, de tocar em frente a banda do desatino. E foi assim que toquei aquele formigueiro, despertei o que já sabia que era vil, e que vil viria como uma tempestada de peste, como uma maldição enfim. Toquei o prisma proibido ou seja lá como queira chamar. Vi em ti outros mais e em seguida veria em tantos a ti, como é natural. Toquei fantasmas, troquei fantasmas. Suspirei no teu ouvido - Lençóis molhados, alguns mosquitos, as cortinas absolutamente infames cobrindo aquela janela do Hotel acabado - suspirei no teu ouvido, gultural, inconsciente, comovido - Suspirei no teu ouvido:
"-Teus fantasmas te mandam lembranças."
Vi teu olhar de pavor e é importante ressaltar, meu amor, que também eu sou pavorosa. 

sábado, 27 de agosto de 2011

The boy who blocked his own shot - Letra e música.

Silêncio.
Você não diz nada, não me diz nada. Não percebo mais em teus olhos o impulso de tentar me ferir, se proteger ou projetar qualquer sentimento em mim. Estão vazios e opacos e nem cheios das lembranças parecem, embora eu saiba que foram elas que os deixaram assim.
Isso acaba comigo, me desespera. Digo uma, digo outra vez. Exploro feridas antigas, uso das palavras com a destreza cruel com a qual fui ensinado. Nada, nenhum efeito, reação. Só um pouco mais de vazio, depois, enfim.
Desespero.
Pego sua mão, subitamente. Tento o efeito inverso. Meu orgulho começa a se apagar. Mas nem isso, meu Deus. Temo que algo, sua alma, seu espírito, essas coisas das quais você sempre falou e nas quais eu nunca acreditei, tenham morrido. Essas coisas, cujas existências são essenciais para minha sobrevivência - embora só perceba tudo isso agora - e que arduamente tentei destruir.
-O que eu posso fazer, o que eu posso te dar? Quer que eu vá embora, que eu fique?
Você não diz nada, não me diz nada. Dá de ombros, puxa o fôlego. Tenta ser gentil, mesmo na dor. Tenha ter reciprocidade, mesmo no vazio. Retribui os meus carinhos, mas quando encosta seus lábios nos meus uma lágrima escorre de seus olhos mortos, porque se viola ainda mais. Vejo o que sou para você: Vejo que me tornei um poço de tristeza, o grande estopim de todas as tuas dores. Não posso mais te dar nada, percebo. Nada.
Pela primeira vez na vida, talvez, tento pensar no que você precisa em vez de no que eu quero. De repente me pergunto, afoito, como se uma venda tivesse acabado de ser tirada de meus olhos, como/por que não pensei nisso antes. E percebo, em aflição, que foi isso que você fez o tempo todo. E que ainda faz agora.
Frágil e doce, mesmo na amargura. Seus olhos são bondosos e seus finos braços pálidos me abraçam com compaixão. Seu corpo todo tão frágil, sua doce alma tão imensamente forte. Destruída pela única força maldita que poderia tê-lo feito. Te olho, te gravo, te tatuo. Jamais te esqueço. Parto. – Porque é a única coisa a fazer por ti agora.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Crash into me - Dave Matthews Band (Essencial, por favor.)

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Era simples e geralmente chovia bem no meio da tarde, às 16h.
Ela morava num lugar pequeno que tinha uma janela de tela furada para um corredor tosco e o céu branco. Sua cama era o melhor lugar do mundo e ela nem imaginava que tudo que a rodeava tinha o inequívoco aroma de sua frágil existência.
Ela já começava a conhecer as coisas belas e tristes, a doçura, o céu à noite e a importância dos olhares. Havia um ou dois apanhadores de sonho por seu quarto porque à noite, às vezes, fantasmas que nunca tinha conhecido lhe visitavam, mas há também quem diga que vezenquando um ou outro anjo mal beijava seus lábios durante o sono.

Ela gostava de vê-lo entrar sorrindo, com os cabelos molhados de quando a chuva estava no começo.
Te adocicar, te amaciar - era complexamente fácil embalá-lo numa melodia muito natural com gosto de infância e outras iguarias tais.
Às 16h o céu chuvoso é magnífico, repare bem.
Não era muito diferente de passar a tarde em casa, na infância, tomando o picolé do carrinho que apitava todos os dias pela rua e sorrindo por coisas que lhe eram inocentemente e genuinamente engraçadas, na época.
Não era muito diferente do vento frio que entrava de supetão pela janela, anunciando o começo de chuva e embora frio era sutil, e era doce e formava uma atmosfera de sonho no quarto com o lustre antigo às 16h da tarde, de qualquer tarde qualquer.
Não era muito diferente de não precisar forçar sorrisos ou piadas, bagunçar os cabelos castanhos e quase longos dele e fazê-lo sorrir também sem nenhuma intenção disso.
Era simples deitar naquela cama com cheiro de tudo que um dia já foi seguro, com ele, com a música baixinha vindo do rádio e o vento levemente frio os envolvendo e muitas vezes sem toques, muitas vezes sem nudez nem nada do gênero e sorrir e brincar de palavras ou músicas  e olhares e amor ou algo que o valha e dormir e sonhar um com o outro e por causa disso, de tudo isso, acordarem felizes, totalmente felizes, sem sequer terem consciência disso.
Era simples como o rebentar de uma pequena mas refrescante onda na praia durante a chuva do meio da tarde, porque dizem que não existe nada mais doce do que o céu chuvoso às 16h, se você quer saber.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Para não dizer que não falei do feeling.

Então preste atenção: Nunca amor, isso é bobagem. Eu ainda não encontrei um bom motivo para ingressar nisso porque apesar de tudo as porradas que a gente leva não satisfazem e os benefícios que nos acometem anestesiam uma parte muito intensa e viva e importante da gente e veja bem, você nunca pode ter um só foco porque isso te destrói e te limita. É conversa-fiada esse negócio de ter só um foco porque nenhuma ciência é una, todas se complementam, você sabe, e a menos que você esteja desprendido o suficiente de cada coisa para apreciar todas ao menos um pouco, você vai estar tão profundamente dentro que vai perder a sublime capacidade de ver de fora. Por isso que em dias assim em que o céu está magnífico eu imagino que talvez não tenha sido criada para amar, ao menos romanticamente e individualmente, como vocês falam, porque todas as vezes em que me enquadrei neste conceito estranho, morri mais que vivi e tentava fervorosamente me convencer de que estava viva. Uma vez tendo aceitado essa condição meio nômade meio cigana meio raposa eu finalmente me sinto amando de tudo um pouco do fundo do meu coração, esse órgão sangrento que é grande demais para caber em um só par de mãos.

sábado, 6 de agosto de 2011

Fluxograma resenhado de Pensamento (Ou “A preguiça e etc.”)

Esse é um texto longo e maçante. Só comece a ler se estiver com muito saco.


Engraçado. Toda e qualquer linha de raciocínio na qual me atrevo a ingressar com mais profundidade do que o habitual, finda por me levar à consciência de minha total e absoluta ignorância sobre a grande maioria das coisas. É tão desesperador ser cônscia das minhas próprias barreiras limitadoras. Vejo muitas coisas: Vejo ego, vejo medo, vejo covardia, vejo preguiça. Talvez seja a maior de todas as covardias, a própria preguiça. Estar ciente da capacidade de ser capaz e ainda assim ignorá-la. A acomodação parece, de certo modo, ser SIM o caminho natural das coisas. Nós, como fomos criados, parecemos ter sido primariamente colocados numa esteira inútil. Postos num caminho quase autocondutor, sendo guiados pelo amigo tempo de certo modo que só passamos pelas vitrines dos elementos, nunca descendo da esteira para aprofundarmo-nos nas lojas (com o devido perdão pela comparação cretina); Desse modo somos “levados a levar” uma vida medíocre e superficial cujo destino é nada menos que a morte – Uma experiência que com a subjetividade limitada que desenvolvemos, é provável que nem sejamos capazes de apreciar. Mas a culpa, amiguinhos, não é do “sistema” não. Não é da mídia, do governo ou dos cambal de bodes expiatórios que é de praxe usarmos. A culpa é nossa porque a gente é máquina porque a gente gosta de ser máquina. É mais fácil, não traz maiores indagações e ainda por cima, se você manejar direitinho, nos faz sentirmo-nos produtivos. Triple bonus. Acontece que, no final das contas, é tenso pensar. É extremamente angustiante viver confrontando a realidade – Cansa. É como forçar um limite invisível, uma barreira impensável. Principalmente quando, ora, existe uma alternativa tão mais fácil. É como tentar estudar matemática para a prova do dia seguinte enquanto se está com sono. E o sono vai aumentando à medida que você tenta estudar, esse sacana. É de propósito, parece. Aposto que se você não tivesse prova, ia estar ligadão jogando videogame até de madrugada. Agora me pergunto: Por que eles fazem isso? O cérebro, a mente? Por que não querem que a gente estude matemática, por que não querem que a gente pense? Me deixam abismada as armadilhas cretinas nas quais nos metem. Quando você menos percebe, lá está você julgando alguém por causa de uma roupa, fechando um livro de filosofia porque “é complicado”, gastando seus dias/anos/vida(s) em uma série de movimentos físicos e mentais extremamente padronizados. Mas engraçado também é que parece que de alguma forma, em alguma instância, não satisfaz. Parece existir uma criatividade inerente, pulsante, que como a gente não usa, se manifesta de outras formas, força saída (Ao menos a porção dela que não se atrofiou.). Daí nascem as mais variadas idiotices, porque se tem algo babaca é o resultado de uma criatividade mal canalizada. Daí nascem os draminhas, os joguinhos, toda aquela movimentação desnecessária em aspectos (semi) irrelevantes da vida que fazemos para nos sentirmos vivendo-a! Porque aí fica uma equação legal. Fácil, não? Você não tem trabalho pensando nas coisas “grandes” (que na verdade são naturalmente  simples) e exercita o... (Sei lá que palavra recebe isso), bom, exercita alguma coisa aí nessas pequenas atividades tolas. E daí? Daí nada, como sempre. Sempre concluo assim: Daí nada. Porque por mais que eu fale aqui, “tô nessas”, meu amigo. E tenho bastante certeza de como daqui para a meia noite, vou arrumar algo idiota com o que me ocupar também.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"I have never fail to fail."

Eu tentei ser doce
Eu tentei ser viva
Eu tentei ser luz
e apaguei em seguida.

Não me dê nada,
não quero nada nada.
Teu amor que seduz
me adoece a ferida
minha ferida é tão doce
chocolate, a querida.


De nada serei refém.
De ninguém serei a vaidade;
A nada direi amém,
A ninguém cantarei saudade.

A nada entregarei meu bem
Minha amada tranquilidade
Veja bem,
depois de tanta insanidade -
Já cansei.
Sem rimas, liberdade.





(Tô cansando desse blog, meus bens. Sinto que ele chega a seus momentos finais...)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O meu refrigerador voltou a funcionar

Outra variação de derrota,
Te conduzo pelo zíper dos meus lábios
Tente acompanhar essa linha de pensamentos doentia
E pelas rotas do riso cínico me fazer companhia
Ou vá lá, mas vamos cá
Só, por favor, não me venha chorar.

Pega um punhado de preces e outro de promessas
Meio fio, por um fino, tô nessas.
E te deixar de olhos rotos em poesia
Eu vou te dar o nascer do sol ao meio dia

Tua energia trágica nas tuas costas embriaga
E traço nelas com meus dedos essa linha curvilínea
Abre esses lábios, bafora em mim tua fumaça e traga.
Traz o corpo, traz a alma, quero ao menos ser faminta
Mas nada, beijo ou tato, descongela essa menina.

Acode aqui alguém, por favor.
Aquece, esquenta. Sei lá, ao menos tenta.
Alguém precisa fazer alguma coisa, porque desculpa, Mutantes, por desparafrasear*,
Mas é que meu refrigerador voltou a funcionar.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Te encontro na Madre Vilac

Acende o esqueiro. Apaga o esqueiro. Acende, apaga.
Para com esse barulho, cara.
Era noite, claro. Naquele cruzamento enfim. A avenida era estranha para quem passava, que não se passasse por aí a essa hora, garoto, mas era familiar a ele. Aquela era sua vida. Ele olhava entediado enquanto os outros fumavam, brincavam. Um dia foi interessante, era ele ali, mas agora carregava uma certa tranquilidade, mesmo depois de tão pouco tempo. O novo era interessante, o costume desgasta. Daí, assim. Não era ruim não, só de praxe. E aquele dia estava um pouco apreenssivo. Será que não devia algo acontecer, devia?
O que você tá fazendo aí cara, vamo puxar uma. Olhou de lado. Ia chegar em casa muito, muito tarde de novo. Quer dizer, cedo. Da manhã. Lembrou quando a velha dizia alguma coisa ainda, agora nem um pouco. Sentia até falta às vezes. Era tão fácil já.
-Você tá bem, Thales?
Perguntou a menina.
Ele olhou de lado. Uhum, assim com a cabeça. Tinha alguma coisa o puxando para trás. Estavam no meio fio, bem no meio da Avenida e ele a viu: Aquela rua era estranha para o diabo, uma ruazinha assim, o chamando. Dava para ver dali aquela rua estranha, mais estranha que essa Avenida ainda, entrando pelo um  bequinho, umas casas em que talvez nem houvesse ninguém e que pareciam ter um quê de antigas. Rua Madre Vilac.
Pulou dos entulhos sobre onde estava sentado.
-Vai pra onde, Thales?
Perguntou o primo.
Ele não respondeu, nem precisava. O outro estava chapado mesmo e ele só...Parou no caminho, tenho nada a fazer nessa rua não.
Vou pra casa. Mas por quê, são nem 5, tem nem sol ainda. Eu vou porque, sei lá. Saiu. Odiava se explicar.
Chegou em casa e dormiu com a mesma roupa, o sino da igreja tocando 5 horas, que estranho ele achava que só tocava às 6. Pegou no sono, sonhando com a Madre Vilac.

Pela manhã, a escola. Tedioso, automático. Não acabava nunca essa escola, se bem que sabia que quando acabasse talvez fosse pior, ou não. "Tanto faz". Tinha sonhado e era importante, mas o que era?
O que era, o que era? Se perguntava enquanto seguia para casa, seguido pela menina. O cabelo desarrumado, a mochila jogada sobre os ombros, ah Thales costumava ser um menino tão bom... Daí passou pela Avenida. Tchau, você dobra aqui, né? É, vem hoje à noite? Claro, provavelmente, todo dia, não?
Daí olhou de lado, cadê a ruazinha? A Madre Vilac? Diabos, não identificava. Olhou pelo quarteirão, uma entrada, outra. Nada do bequinho. Devia ser muito diferente à luz do dia. Continuou seguindo pelo meio fio, sempre o meio fio, afinal, né.

Os grilos começavam a cantar quando o celular vibrou
"Vem não?"
Bem na hora que a mãe passou pelo quarto com a porta aberta e até olhou com um espanto:
-Não vai sair hoje, Thales?
Olhou de lado, aborrecido. Era tão incomum assim?
Mas não queria ir para a Avenida não, quer dizer, queria, intensamente. Praticamente sentia-se puxado até lá hoje, especificamente. Mas aquela apreenssão...Não queria, então.
-Vou sim.
Claro que para ele sempre funcionava a lei dos contrários.
Mas quando chegou na Avenida, não tinha ninguém. Checou o celular. Uma festinha, em algum lugar. Imaginou o cenário, álcool, drogas, sexo... Uma típica comemoração grega...Em nada o atraiu. O que estava havendo? Virou de lado. Lá estava ela.
Eu lembrei o que sonhei, lembrei que sonhei com uma cartomante.
Ela tirava-lhe as cartas e sorria um riso de gato sinistro. Seu nome era Madre Vilac. Ou o nome da carta era Madre Vilac. Um arrepio atravessou seu corpo moço. Riu. Que besteira. Não era supertiscioso, nem um pouco. Era tudo besteira, coisa que sua irmã mais nova ficava vendo em revista. E ria cada vez mais forçado, enquanto atravessava a avenida.
Pisou na calçada com seu tênis gasto. A entrada da rua à sua frente o encarava. A plaquinha já velha com
o "Madre" quase apagado. Parecia mais escura ainda, mas sozinha ainda, mais encantada ainda. Olhou de lado, para o caminho que levava à sua casa. Olhou para frente.
Agora ouça bem que essa é uma lição para a vida: Sempre há uma bifurcação, sempre.
Thales sorriu, olhou para baixo, acendeu um cigarro. Teve a impressão de ver uma moça nas profundezas daquela rua e sacodiu a cabeça. Voltou-se para o lado e deu um passo em direção à sua casa.
Mas para Thales, como eu disse, sempre funcionava a lei dos contrários.
Ele girou nos calcanhares e entrou na Rua Madre Vilac.
Mas é claro que ele nunca voltou.

sábado, 9 de julho de 2011

No jardim do bem e do mal.

-Desculpe, minha amiga, mas assim não dá.
-Mas. Portanto. Porém?
Ela sempre pediu mais, jamais menos; Ela sempre foi mais que menos e no entanto quem disse que basta, porque não sei se você sabe, mas de presença também se faz ausência. E ela queria tanto, portanto, queria todo e de tantos, de todos queria tudo.
-Não faça assim. Te olhando, me vejo tão ancião! Do alto de meus vinte e poucos anos, te vejo repetindo meus erros e plantando o motivo de suas preces futuras, que já não tardam tanto.
-Eu esnobei esse crucifixo. Esnobei ter um endereço fixo e suas raízes joguei no lixo.
Mas, portanto, porém...
-Você dizia que não amava apesar de, e sim por causa de, mas você dizia isso para todos que você amava e você amava tantos e o problema, minha cara Madalena, é que todos, todos, todos eram amáveis. Não era o que você dizia? "Sempre vale a pena"?
Mas veja só o quão penosa foi a tal pena.
Agora não adianta, não adianta vir aqui nesse pôr de sol, porque todos com quem você conversar serão fantasmas. Serão lembranças.
Marcadas em brasa na sua carne de criança.
-E você sempre, sempre, sempre foi uma criança.
O problema é que você nunca entendeu
Que um adulto é só uma criança que já cresceu.
E daí que você ficou aí. Esperando, esperando. E enquanto você esperava, a gente foi andando.
-E agora, a gente faz o quê?
A gente não faz nada, a gente senta e lamenta. Quer dizer, eu lamento, você eu não sei. Quem sabe você não tenta?
-Eu lamento porque o sol está se pondo e não tem nada, nada, nada que a gente possa fazer. São quase dezoito horas e esse tom assim meio laranja com azul e às vezes rosa coral só faz a gente lamentar, minha amiga e adversária.
E independentemente de tudo, apesar de tudo e porquantos todos, você é infinitamente amável e eu gosto muito, muito, muito de você.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Menininho - A improvável (e breve) continuação

(Este pequeno texto já tem um par de meses, mas eu estive protelando publicá-lo por aqueles receios bestas dos quais vocês já sabem. No entanto, estou sem coisas novas, então aqui vai)


Ah, meu menininho.
Cá estamos nós novamente.
E o tempo, este coringa vadio.
Olha só o que ele fez com a gente!

Seus lábios estão mais doces;
Sua fúria agora jaz ausente.
Mas meus olhos já não vêem cores;
Neste torpe carinho que sentes.

Seus olhos são petróleo vazio;
E sua cabeleira ainda assanhada.
Escolho "Adeus", meu anjo sombrio.
Nos revemos na madrugada.

domingo, 19 de junho de 2011

Poderia sair melhor, mas sairá assim mesmo.

É triste ver como vocês me deixaram com medo.
De ser quem eu era, de ser quem eu sou.
Vocês me meteram medo sem eu nem perceber.
Com aquele olhar atravessado, com o riso e o comentário;
Com a possibilidade do pensamento, com as hipóteses e as teorias.
Vocês me deixaram com medo quando me chamaram de quente e me deixaram com medo quando me chamaram de fria.
Me fizeram temer entre ambos os extremos da temperatura, que
foi onde e somente onde eu sempre consegui estar; E o fizeram tão
intensamente que eu acabei me colocando no morno,
me equilibrando no neutro; No "nada a declarar".
Unica e somente por medo do que vocês poderiam pensar
Mas a culpa, no fundo, não é de vocês. É minha que deixei sangrar mais do que devia; As cicatrizes que antes eu tão bem costurava.
E o sangue afrouxou os laços de proteção que me seguravam;
Que me mantinham ilesa em mim mesma na tempestade;
Que não se preocupavam com quem ou quantos questionavam minha sanidade.
Eu não quero mais ser morna e não quero mais ser medrosa.
E definitivamente não quero mais ser um produto do que vocês podem pensar.
Tomem suas pranchetas; À postos com suas canetas!
Porque a partir de agora, o de antes está de volta
e não importa o que irão anotar.




(À propósito, eu retirei a moderação de comentários.
Comentem o que quiserem, benzinhos.
)

sábado, 18 de junho de 2011

"Vamos fingir que nunca partimos."

Inspirado por 'Breve' de 'Pouca Vogal'  [Escutem, se puderem.])

O despertador toca. Ela tira as mãos de baixo das cobertas com esforço e o abate. Adia o momento de abrir os olhos o máximo possível enquanto procura em algum lugar ao seu lado o corpo familiar.
Permite-se um rápido vislumbre da nuca pálida e os cabelos bagunçados pelo sono e levanta, reconhecendo pelo tique taque agoniante do relógio que já está mais que na hora de acordar.

Toma um banho rápido e quente, porque o clima que entra pelas janelas está congelante. Quando sai do boxe de toalha, sorri ao ver um recado feito no vapor do espelho do banheiro.

Na cozinha, ela coloca a chaleira para trabalhar. É claro que o café da manhã está em pacotinhos no armário. Ela nunca soube cozinhar e embora sempre achasse que por volta de seus vinte e tantos anos já teria aprendido, nunca  isso aconteceu e já começava a se conformar que jamais iria.

A grande janela da cozinha lhe permite uma visão panorâmica da segunda feira nublada. Escuta o som do quarto ligar seguido do barulho de água caindo do chuveiro e um arrepio estranho passa por seu corpo quando tira as chinelas e seus pés tocam o chão gelado. Por um momento tudo parece estranhamente surreal, mas ela sacode a cabeça e serve as xícaras de café.

Está perto de ficar atrasada e enquanto coloca o blazer, sente os dois braços ainda molhados a envolvendo por trás. Ela sorri e reclama que ele a está molhando. Ele não liga e a arrasta novamente para a cama.

Às 18h, o alarme da usina toca indicando que é hora de fim de turno. Do lado oposto da cidade, ela desce as escadas do escritório falando com a mãe pelo celular, e pega  o carro para encontrar duas amigas do tempo de faculdade num cineminha que inaugurou no subúrbio.
Elas riem de besteiras e histórias antigas e quando o filme começa ela percebe que nem reparou no título.

Os minutos passam e quando ela resolve prestar atenção, repara no que parece ser o clímax dramático. Nessa cena um garoto e uma garota jovens se encaram com tristeza e raiva, e por não saberem direito o que dizer, dizem "Adeus". Uma sensação muito estranha se acomoda na boca de seu estômago e ela diz que vai sair para tomar um ar porque na verdade ela começa a sentir vontade de vomitar.

Ela espera que a visão de começo de noite lhe acalme, mas de repente a rua do cinema lhe parece igualmente ameaçadora e uma estranha nostalgia parece querer forçar-se em sua mente. Tem a impressão de que tem algo a se lembrar daquela rua, e o impulso que todas essas sensações de estranheza  lhe dão é o de ligar para ele, pois ela sente que tem que confirmar alguma coisa, conferir algo essencial.
Mas quando ela liga, ele não atende.
Manda um torpedo se desculpando para as amigas e pega o carro para casa, reconhecendo que tem algo muito errado acontecendo.

Embora o normal fosse que àquele horário ele ainda estivesse no trabalho ou em sua própria casa, é ele que quem abre a porta quando ela começava a girar a chave e a olha confuso quando percebe seu olhar de nervosismo.

Ela solta um grande suspiro de alívio o abraçando, e todas as sensações estranhas se dissipam. Quando ele a pergunta o que houve, nem ela mesma sabe responder e começa a se perguntar o que diabos tinha acontecido consigo para ter se comportado daquele jeito. Ele a leva para o sofá e começa a  falar sobre o seu dia. Abrem uma garrafa de vinho cuja familiaridade que o rótulo lhe provoca ela também resolve ignorar, e no decorrer da noite ela adormece ainda com a roupa do trabalho em seu ombro.


O despertador toca. Ela abre os olhos num susto, o coração à mil.
Olha de lado e os fecha novamente, num suspiro.
É claro que nada disso nunca aconteceu.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Modus operandi

Eu escrevo mentiras para mim mesma. Eu escrevo mentiras tão bonitas.
Eu escrevo mentiras de amor. Eu escrevo mentiras de vida.
Eu enfeito o que é tosco, e acentuo o que é bonito.
Eu poetizo o que é roto, e eufemismo teu egoísmo.
De uma estrutura côncova, faço um arco; Do inevitável faço trágico.
Bebo na fonte da minha própria visão, e tomo por reais tuas flores de plástico.
Nada disso é pessoal. É pura literatura, baby.
Qualquer palavra é sempre banal, não resiste às mudanças de quem a escreve.
Eu escrevo mentiras para mim mesma. Eu sou minha maior traiçoeira.
Mas para vocês, só escrevo verdades; Não julgue o arco pelo destino da flecha.
Literariamente falando, até amo. Mas sou infidelíssima, pode crer.
Se for esteticamente coerente, no segundo seguinte posso não mais te querer.

(Guardo meus eufemismos e exclamações na manga
como temperos para nossa exaustiva dança.)

O texto que não deveria ser escrito.

Você olha para baixo, para o relógio e eu sei: Estou te irritando. Toco sua nuca, dou aquele sorriso sem jeito de quando admito meu próprio erro; E te vejo ceder novamente, mas já não tão flexível. Mais tarde, longe de tudo, longe do seu aroma amadeirado, eu finalmente sei que sei o que estou fazendo. E daí, de repente, vem aquele desespero estranho, aquele desespero mudo. Porque eu percebo, assim, simples como quem percebe a luz ambiente, que não posso te perder. Estive te afastando com todas as células do meu corpo desde que tudo isso (re)começou, e faço isso sem perceber e sem saber o por quê, sem conscientemente estar ciente
do medo causador de todos esses males. Mas daí, agora, nessa hora, onde só a escuridão ilumina meus pensamentos, percebo assustada, petrificada, que eu realmente não quero perder isso. Isso... Suas piadas ruins e sua boca zombeteira. Suas mãos congelantes e suadas de carinhos sutis e discretos. Seu senso de humor distorcido e a extravagante megalomania de seus pensamentos. Seus olhos escuros, olhos fundos, duas poças de petróleo que eu não consigo encarar por muito tempo porque elas me empurram. E todos os pensamentos que essa combinação estranha e perigosa traz me irritam. Me irritam porque eu percebo que já caí nessa armadilha não foi hoje nem há alguns meses e sim desde o primeiro momento do primeiro dia em que nos descobrimos. E me irritam ainda mais porque me dou conta, novamente, do simples e absoluto fato de que com você eu jamais consigo vencer. Seja nas notas, no xadrez ou no amor, você está sempre me derrotando. Me derrotou anos atrás e me derrotou agora, onde me rendo escrevendo um texto que me jurei jamais escrever quando jurei jamais escrever novamente sobre você (e que, pelos céus, espero que você nunca leia). Mas principalmente, me derrotou naquele momento, onde com a mão sob o coração acelerado
e uma bandeira branca hasteada nele, fechei os olhos, e constatei o inegável e aterrorizante:
"-Ah, de novo não..."

terça-feira, 24 de maio de 2011

Para uma amiga querida, com o maior carinho possível.

Abriu os olhos. A cor do céu através de sua janela era de laranja fogo flamejante.
Tudo ao seu redor irradiava calor. A música que tocava em seus tímpanos era um rock 'n roll doce, melódico e aterrorizante. Seu coração pulsava forte, forte e quase sentia o sangue banhando todos os tecidos de seu
corpo várias vezes por minuto. Ele, seu coração, ela viu no espelho, estava intacto. As fibras se abraçavam, mais fortes que nunca, mais fortes que tudo. Seu escarlate intenso e altamente vivo impedia que se imaginasse que já houveram lá grandes buracos, um dia.

Lá fora, o mundo era a catástrofe. E esse catastrófico caos a alimentava. Elevava sua energia, aumentava sua força. Aguçava seu olhar, sensibilizava seu odor, impulsionava sua mente. Sua mente, esse eterno animal selvagem e faminto. Queria mais o tempo todo, mesmo quando muito recebia: Mais informação, mais conhecimento, mais poder, mais do doce gosto da vitória que atrai novos desafios.

O crucifixo em seu pescoço era uma promessa e uma piada. O tocou com seus dedos finos, finos demais e sorriu sutilmente para seu amigo há tanto tempo visitado. Haveria um acerto de contas, estava certa, e aquela Cruz como uma vigia em seu colo recolhia todos seus pecados de amor para o dia do balanço final. Mas, por enquanto, ele que esperasse. Estava vivendo.

O quarto ao seu redor parecia estranho porque o dia de ontem tinha sido há 10.000 anos atrás e o hoje era completamente fascinante e isento de suas feridas, não obstante, equipado de seus ensinamentos. Sua mente trabalhava rápido enquanto o mundo ao redor a esperava entrar, mas sem nunca parar. Porque não pára e não pára nunca, estando ela quebrada ou inteira. Então por que, pelos Céus, ela teria motivo para se abster da extrema satisfação de ser forte nesse mundo?

domingo, 15 de maio de 2011

She delays

Ela atrasa. Ela atrasa no gesto e atrasa na ação. Ela adia a palavra na esperança vã de que tenha efeito. Ela adia a desistência, resistindo na resistência. Ela atrasa o ponto final, se enchendo de reticências. Ela continua tomando doses, esperando sentir a diferença. Ela atrasa o próximo gole, minando as próprias defesas. Ela atrasa o momento, a atencipação antes do beijo. Ela o atrasa tanto, que quando vem, vem sem efeito. Ela não se importa de chegar por último, por isso atrasa na corrida. Ela adia o ponto de chegada só para continuar a ouvir a torcida.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Munique

Munique acordou com o badalar dos sinos da 6 horas. A grande janela trincada do quarto velho trazia a visão daquele céu cinza. Cinza e pesado. Era cinza, mas não era um céu de algodão. Algum dia, talvez,
tivesse sido. Mas hoje não. Hoje era só uma ameaça de chuva.
Ela olhou para o corpo ao seu lado e imaginou que não significava nada, nada, nada. Ela fitou o rosto de homem. O sorriso zombateiro mesmo enquanto dormia. Pegou o travesseiro com as duas mãos e o aproximou do rosto daquele corpo. Poderia sufocá-lo. Por um momento, até imaginou os braços dele a se debaterem quando atingisse a consciência da morte iminente. Mas nem isso.
Nem essa ideia a empolgou, a excitou. Munique soltou o travesseiro. Aquele corpo não valia nem a morte.
Munique não tinha mãe e não tinha pai. Filha da noite e filha do dia, ela colecionava defuntos que ainda não tinham morrido. Munique partiu. Deixou aquele corpo, aquele lugar que nunca seria lar e subiu num ônibus para voltar nunca mais. É que Munique também colecionava despedidas.
Despedidas mudas, amantes e promessas.
Antes de tudo e de todos que tinham dado aquela curvatura insana a seu lábio de ainda vinte e poucos anos, havia coisas que Munique queria. Munique queria ser cantora. Munique queria ir para Munique. Queria encontrar qualquer movito ou semente para si, para ser quem era, para seu nome; Qualquer motivo que não o nazismo de seus pais.
Enquanto partia, ao encarar a brancura funerária daquele céu defunto, regurgitou essa ideia de uma outra Munique que já não lhe pertencia. Isso era de praxe. Munique sempre regurgitava. O café da manhã, o gozo, as palavras e até a vida que uma vez cometeu o ingênuo equívoco de instalar-se em si.
A única coisa que Munique engolia eram as lágrimas. Na verdade, não lembrava da última vez que estas fizeram menção de sair.
Munique lembrava nitidamente do dia em que percebeu que estava mudando. Era um verão escandalte e com os pés descalços naquela areia branca e o pôr de sol laranja ofuscando sua vista, Munique percebeu que estava se tornando má. Teve também, naquele segundo eterno, aquele segundo em que as linhas invisíveis do futuro são fiadas, a consciência de que ainda havia volta. Aquele caminho que no segundo seguinte estaria lacrado ainda estava aberto; A primeira Munique ainda estava viva, ainda podia voltar. Se ela deixasse.
Mas não o fez.
Porque junto da consciência do demônio que instalava-se em si, Munique sentiu poder. Sentiu a excitação corrente da energia nova que de tantas dores boas a pouparia.
Acontece que, apesar ou por causa de tudo, Munique era má. Munique, com seus olhos azuis grandes e seu frágil corpo alvo de moça, não possuia arrependimentos. Não, isso não a incomodava.
E isso, meus caros, por mais assustador que pareça, é possível.

domingo, 3 de abril de 2011

Capítulo Final

Hoje eu tive um sonho.
Nele, a gente se abraçava com tanta força, com tanta força, que eu sentia meu corpo imerso em alguma substância mágica, simples e surreal. Isso mesmo.
Era um abraço mais pleno e com um amor mais forte do os que nossos
abraços reais jamais contiveram. Era um abraço de reencontro de uma saudade extrema que nunca existiu.
Era um abraço de felicidade.
E esse, meu bem, foi um sonho impossível.

O tempo passou, e com ele você mudou.
No entanto, eu tenho a impressão de que você seguiu um caminho inverso ao que deveria ser. Um caminho antinatural. Quando eu te conheci, você era uma folha em branco. Limpa, uma folha limpa. E extremamente pura.
Em meio às possibilidades a serem desenhadas nessa folha, havia uma bifurcação. Uma das ruas era clara, era leve, era viva em relação a tudo e todos. Nela, você via tudo como uma possibilidade. E por isso mesmo, era tão encantadora. Você parecia já ter um pé nessa rua. Com seus sorrisos mágicos e seu
olhar de dia tranquilo. No entanto, algo aconteceu. Alguma coisa aconteceu. Algum joguete
do tempo, destino ou das meras coincidências:
Você enveredou pela outra rua. E isso, eu demorei muito para perceber. Nesse outro caminho, que era mais pesado, inflexível e aparentemente seguro... Você era rei. Suas palavras eram as certas; Suas ideias, imutáveis. E você era o jovem mestre de um microuniverso que não aceitava interrupções. Interferências.
E nesse mundo eu te perdi.
Perdi, porque as substâncias em mim que eram estranhas a ti não entravam nesse mundo. Eram consideradas corpos estranhos e você mandou os seus anticorpos da frieza e da indiferência para combatê-las. E as atacou numa batalha tão árdua onde o golpe final foi a desistência.
Touché.
Talvez, na outra rua, meus antígenos não fossem um problema. Talvez, como antes, tudo se  misturasse - o meu e o seu mundo - formando uma coisa muito mais diferente, bizarra e principalmente, muito mais bonita.
No entanto, como no começo foi dito, o tempo passou.

Eu acho que, no final das contas, é como Oscar Wilde disse mesmo, e todos possuímos dentro de nós o céu e o inferno. Mas, por incrível que possa parecer, há quem prefira viver em um e também há quem prefira viver no outro.
Quanto a mim,
Boa sorte, adeus e amém.
Lidar com o amor morto é fácil.
Mas o que fazer com o amor que ainda não morreu?
O que fazer quando uma das pontas daquele laço ainda se debate,
reluta e resiste, sem nenhuma conformidade?
E quanto mais a gente pisa nela e pede que silencie de vez,
mais ela força seus pulmões já fracos, porém ainda cheios
de indignação, e agoniza lentamente?
O que fazer com essa ponta solta, essa ponta só, se a outra
extremidade desse laço já, há tanto tempo, descansa em paz?

quinta-feira, 31 de março de 2011

O vôo da quimera

Parecia simples, sem riscos e descomplicado.
Aberta foi uma porta da emoção por nada menos que a racionalidade.
E de dentro dela veio a disponibilidade, a intenção - De criar
tal formosa construção, que traria para esse furacão, quem sabe,
alguma tranquilidade.
Levou tempo, é verdade. Levou espaço e muitas dimensões a mais.
O cientista, assim, pegou aquilo que via como pedra bruta,
e adicionando tolerância e bravura,
criou e transmutou até formar-se uma figura
que poderia, então, ser amada.
A quimera estava, então, pronta. Uma criação cujos ingredientes
estavam somente na imaginação - daquele que tencionava amá-la.
Experiência esta, que resultou positiva.
O cientista apaixonou-se por sua quimera querida.
E tanto amor doou a ela, quanto esta precisava.
No entanto, um dia, a entrega foi demais.
A quimera passou a perceber ter poderes tais;
E o amor de seu cientista, antes fonte de água e vida;
Tornou-se uma substância rude. A quimera queria mais.
Desprendeu-se então de seus zelos, e com a força adquirida por estes,
farfalhou asas de substância nova,
e partiu para longe de seu criador;
Levando junto seu amor,
que agora, enojada, rejeitou
talvez por ter sido demais.

terça-feira, 22 de março de 2011

Anabella e o botão

Um "obrigada" à Débora, porque tenho quase certeza de que foi por causa de algum texto de seu blog que pensei no nome da personagem.



Anabella tinha uma blusa preferida que usava quase todos os dias. Era clara, cor de pôr do sol e ao mesmo tempo um pouco rosa. Eram cores que Anabella nunca pensou que gostaria, ou que quereria em si, mas mesmo assim, quando as vestiu, serviram perfeitamente.
Haviam cinco botões e um deles ficava à altura do coração. Era  de uma cor destoante, diferente. Mas pareceu encaixar-se perfeitamente à blusa de Anabella e deixar todo o conjunto mais harmônico.
Este botão puxava a costura da blusa de Anabella para o centro, deixava cada fio em seu lugar. Anabella temia que se aquele botão se soltasse, a blusa inteira seria prejudicada. Todos os dias, quando a vestia, Anabella olhava-se no espelho e pensava "Minha nossa. Ainda bem que tenho esse botão."
Um dia, Anabella tropeçou e feriu-se, e seu botão preferido descosturou-se da blusa. No começo, Anabella não percebeu. Estava tão acostumada com sua presença, que sentiu como se ele ainda estivesse consigo. Até porque a blusa continuava intacta.
Acontece que o botão não era tão vital assim. E os outros botões, de algum modo, amoldaram-se para não deixar a costura ruir, a blusa abrir, e sequer Anabella perceber.
Um dia, no entanto, Anabella percebeu que seu botão à altura do peito tinha descosturado. Por um momento extremo sentiu dor e medo intensos. Sua blusa preferida iria descosturar, e agora?
No entanto, quando analisou melhor, Anabella percebeu que há tempos seu botão tinha se soltado e ela não percebera. Então, percebeu também, que tinha mais medo da ideia de perdê-lo do que a perda em si. E uma vez que percebeu isso, Anabella sentiu-se bem. Ela agradeceu a seus outros botões por serem tão fortes, e terem fortificado-se com a ausência do botão do meio.
Anabella sorriu, então, e tão sincera foi a fonte daquele sorriso, que começou a nascer outro botão em seu peito.

Drogas alternativas.

O único contato ao qual eu me disponho com você é o abusivo.
Se você quiser me tragar, tudo bem.
Mas depois tem que me soltar em baforadas. Entende?
Aos poucos, vezenquando. Sem itinerários ou limitações.
Ao passo disso, estarei vez ou outra tomando overdoses de você;
Somente para enjoar - eventualmente vomitar -
e depois  de alguns tempos de desintoxicação, voltar a te chamar.
Você, digo agora e prometeria se eu fosse das que cumprisse -
poderá sempre vir aqui e derramar sobre mim uma ou dez palavras.
Poderá vir até com ódios, assim como irei a ti;
Poderá exigir mais de afeição do que eu posso dar - por vezes, somente -
e eu corresponderei, encontrando-a sei lá onde.
E as palavras poderão ser sem sentido, poderão ser nervosas
e até mordazes.
E os olhares poderão ser ressentidos, poderão ser demorados,
ou quem sabe fulgazes.
Agora, por favor,
só não venha me falar de amor.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Pequeno trechinho antigo para evitar que isto aqui crie mofo.

O que pensas que sabe,
Criança presunçosa.
Não sou mágica, nem trágica.
Tampouco tenebrosa.
Não te liguei na minha tomada,
Porque se tivesse, a descarga
Já teria feito uma tragédia
Daquelas bem horrorosas.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Não me levem tão à sério

Ah não, minhas crenças são todas deturpadas.
Hora acredito em tudo, hora não me convence nada.
Meus métodos são extremistas e nunca foram saudáveis. Não lembro de ter dito o contrário a ninguém.
Meus sorrisos são escassos porque os resguardo verdadeiros.
Eu sou toda incerta e a segurança que posso lhes dar é a sinceridade das minhas emoções e basta.
Eu nunca me atraí por pontos brilhantes ou por salvações óbvias.
Eu sempre tive esse problema crônico de não ter medo.
Eu não tenho inimigos mas eles acham que me tem. Haja paciência...
Eu me importo demais e de menos numa proporção ilógica e consecutiva.
E às vezes, sabem, aqui parece um lugar estranho;
E vocês todos parecem aliens;
E meu corpo parece um meio diverso de mim;
E eu sinto saudade de algo que nunca existiu.
E esses textos aqui, bom, eles não significam nada.
Decifrar-me por eles é em vão, pois representam um momento ínfimo;
Às vezes composto apenas de meros minutos e mais vezes ainda adocicados por conveniente ficção.
Não faça(m) drama com isso, meus benzinhos.
Se quiserem saber mesmo o que eu sinto,
não percam tempo tentando decifrar as minhas palavras
ou desvendar meus sinais.
Basta chegar bem perto,
E olhar em meus olhos.
O resto, acreditem, é banal.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Expectativas

Estou cansada de suas exigências maçantes.
Estou cansada de suas ideias deturpadas sobre o que é,
o que será e o que deve ser.
Estou exausta e de saco cheio de condições pré estabelecidas
para que possam entregar algo que deveria vir espontaneamente.
Suas correntes estão pressionando minhas ideias, confundindo
minha emoção e aprisionando meu espírito.
Vocês exigem isso e aquilo uma e outra vez e usam seus olhos
de algozes ou juízes para ordenar ou desaprovar.
Desagradam-se, desdenham e insatisfazem-se quando eu, borboleta tola,
ao tentar acalmar seus espíritos, reviro-me e remexo-me tentando
tomar outras formas.
E quanto mais prossigo em meu esforço vão, mais dou espaço para suas
listagens de preferências.
Mas exaustou.
Hoje o céu nasceu ofuscante e todas as vendas foram retiradas.
Vou livrar-me de seus laços dúbios e enviar suas expectativas
para o inferno - que é o que faço de melhor.
Peçam o que for - sempre fui corpo e alma abertos para os que amo -
só não me peçam, meus bens
Só não me peçam para ir contra a minha natureza.

Vai saber.

-É passageiro, não é?
-Ah, é sim. Vem, instala-se e adoece. Daí passa, vai embora. Como uma gripe.
-Uma gripe? E será que é algo assim ruim?
-Quem disse que gripe é de todo ruim? Fortalece o organismo, te deixa num estado meio catatônico mas diferente.
-"Catatônico mas diferente", isso poderia ser qualquer coisa. Até um trauma.
-Pode ser também. Mas só seria trauma se fosse dos fortes. Daí poderia ser mesmo. Daqueles cujos rastros a gente vê na esquina. Sabe aqueles cujos rastros a gente vê na esquina?
-Não, não sei.
-Bom, eles, esses rastros, parecem acompanhados de uma nota falha de violino por trás. Por baixo, no fundo. De toda a banalidade que é. Como uma lente sobreposta que amplia o tamanho da coisa em si. Só para os olhos de quem vê.
-Quantas metáforas, ein. São muitas metáforas para algo tão passageiro, como você diz.
-Mas a coisa, em si mesma, já é uma metáfora, não acha? De algo maior. Isso já quer dizer outra coisa. Que vem de outro tempo. Talvez da infância. À la Freud.
-Toda coisa quer dizer outra coisa e no fundo das linhas eternamente cruzadas o cerne vai ser o mesmo e eu desconfio que seja nada.
-Pode ser que seja mesmo. Daí ele, esta coisa, esta entidade ou seja lá o que for, seria uma linhazinha assim, curta, passageira, apressada e até meio desatenta...
-Mas forte.
-É. Mas forte.

sábado, 29 de janeiro de 2011

A confissão de Meg White

Cá estamos novamente nessa mesa de pôquer. Eu sempre tenho um plano B. Cartas, coringas, sorrisos. Indecifráveis ou dissimulados. Ninguém conseguiu ainda ler a mensagem certa nesses olhos negros.
Eu estou aqui, com esse baralho nas mãos e o jogo nunca está perdido. Há sempre um plano B, eu nunca não tive um plano b. Às vezes há um C e até um D e por aí vai. Isso rendeu famas e das mais variadas. Fria, calculista, n, n, n. Um dia houve isso e daí houve a queda. Um mito em decadência, com pausa para os devidos perdões.
E quando essas cartas mostram-se assim obscuras e desistentes, é que você parece esquecer, mas eu nunca não tive um plano b. Não existe tal coisa como um jogo perdido, não existe tal coisa como a derrota. Existem fins, é verdade. Vários deles. Mas a renovação interna garante uma eternidade íntima específica.
Sou curiosa pelas criaturas que vivem dentro de mim e sei que são muitas. Por isso nunca haverá tédio aqui, não, pois há essa indiscutível sensação de rotação interna e poder fornecida pelo pequeno universo que cultivei em mim.

É engraçado falar sobre minhas fraquezas para os outros e vale lembrar que foi isso que provocou a queda do mito. Eu gosto de ver as pessoas se deliciarem com minhas fraquezas porque é aí que elas se sentem fortes. E quanto a mim, no momento em que lhes digo, de repente aquelas fraquezas tornam-se diversas de mim. Elas somem, se foram. Eu, de repente não as sinto mais.
Há certamente quem ache cruel, mas meu passado é cheio de cremações, nunca enterros. Qualquer dor é suportável porque aprendi a terrível capacidade de deixá-las pertencerem ao tempo e só a ele. Eu nunca abri uma porta do passado e não por força, resistência ou orgulho e sim pela mais pura e absoluta falta de interesse.
Então entendam, por favor, a minha intensidade. Eu sou totalmente a favor do presente e por ele me torno extremista. Uma vez que se for, no entanto, não terei tempo para remoê-lo, pois estarei em extremos com outro presente.
Se depois de tudo isso, não consegui explicar porque acha meus olhos dissimulados, nada explicará mais. Eu adoraria dizer que publico, desse modo, um pedaço de minha alma. Mas agora, no fim, já sinto como se não fizesse mais parte de mim. 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Contos (II)

Sobre Felinos 
ou qualquer título que convenha mais.


-São três e quarenta, Ana. Venha se deitar. - Ele disse, e virou de lado na cama, voltando ao sonho. Eu sabia que era tarde. Há tempo aquele zunido de madrugada tinha se acomodado no quarto e parece que até os grilos do lado de fora tinham ido dormir. Mas eu não queria deitar. 
Olhei de lado, admirando o homem deitado comigo. Admirando os músculos daquelas costas e a fragilidade daquelas mãos. Eram 03:40, eu sabia, mas eu poderia passar a madrugada inteira observando aquele homem. Lendo nos contornos de cada músculo, de cada articulação, uma memória. Uma mensagem cifrada cujo significado terminava em nós dois.
Eu estava sentada e o lençol cobria meu colo. Eu não queria dormir, pois sabia que era a última noite.
Sim, no dia seguinte eu partiria. 
Eu nunca tinha deixado ninguém, na verdade. Mas é estranho, era o momento e eu simplesmente sabia. 
Não o momento limite onde os olhos já não se cruzam e as mãos já não se tocam. Este talvez ainda estivesse longe. Mas de algum modo, era o momento. Eu pensei em sair de lá imediatamente. Pensei em escrever-lhe um bilhete e partir. Em arrancar isso de mim como quem arranca um band-aid, só que carregando junto carne, alma, tudo o mais.
Mas eu temia estar deixando algo lá, além de minhas roupas, minhas marcas e alguma saudade. Temia estar abandonando algo irrecuperável, e foi por causa do medo atropelador que senti com esse vislumbre, que com o corpo já quente, coloquei-me sobre ele e o acordei aos poucos com minhas mãos e boca.
Senti enquanto ele gradualmente despertava na medida em que seus sentidos ficavam cada vez mais alertas.
Suas mãos seguraram meus pulsos com força, os olhos ainda fechados. O maxilar contraiu-se e por um momento irracional eu temi que ele me atirasse para longe com força.
No segundo seguinte ele colocou-se sobre mim e esse pensamento desanuviou-se, num instante.
Naquilo que embora ele não soubesse, era a despedida, a minha vontade era de gritar num choro, num gozo, numa súplica “eu te amo”.
Mas eu jamais poderia fazer isso e essa frase jamais seria dita entre nós, pois seria antecipar o fim.
Eu tinha que partir ao amanhecer. Não me pergunte por que, meu caro, mas eu tinha que deixá-lo acordar com esse golpe fatal que iria ferir tanto a ele como a mim.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sobre essas besteiras e com muitos vocativos.

Eu levantei da cama porque eu precisava escrever. Às vezes é assim, a gente precisa escrever. Às vezes a gente quer passar o resto da noite escrevendo. Mas eu não posso, a gente não pode. A gente não pode passar a noite escrevendo porque ninguém vai passar a noite lendo.

Eu sou uma coisa no singular. Assim, singular. Você também é. Somos bichos singulares que vezenquando se juntam num plural. Porque é bom assim, é melhor que estar separado. Às vezes. Mas isso nao muda nossa condição, não, e é isso que temos que lembrar. É um pacto, estamos cúmplices e entre nós existe uma corrente contrato ou como quiser chamar e ela é a vontade. Somos prisioneiros da nossa vontade e somente dela. Quando ela morrer, tudo mais morre junto. Lembra que você prometeu?
E que seja assim, sem promessas, sem eternidades, sem alianças. Nada de alianças. Meu deus, eu odeio alianças. Você sabe como eu odeio alianças. Isso é o que eu penso. Quer dizer, o que eu quero. Mas às vezes o que eu quero é diferente do que o que eu preciso, e Deus sabe como eu queria que o que eu preciso fosse o que eu quero. Por que o que eu preciso é mais extremo, mais fanático, mais necessário. E eu não quero o necessário. Eu quero o importante, mas não essencial. E que se vier, talvez, a se tornar indispensavel, que seja por somar algo importante, mas não por estar tapando buracos que até outras origens têm. E acima de tudo, eu não quero palavras. Nada de palavras para nós, meu bem. Fiquemos com nossos olhares. Não os mudemos, por favor.

Ultimamente eu estou de saco cheio para pessoas feitas de palavras. Desculpa, mas não dá. Causa aversão, agonia, repulsa, sei lá. Que covardia, eu penso, quando leio. E há quem aplaude; Claro. Sempre há quem aplauda. Para mim, nada de viver através delas. Nada de se extender por elas e dentro fica aquele oco estranho do que já foi tudo dito e o que não foi é porque você não sabe ou porque é terrível. E você ainda encontra um modo engenhoso de dizer. E daí você vira aquele monte gosmento de palavras que justificam tudo tudo e todos caem tanto que você esquece que a beleza está em não se justificar. Mas é isso, as estou detestando. E não, eu prefiro não viver de palavras. Quer dizer, você pode até pensar que é assim. É natural, é normal, mas se quer saber, eu as uso mais como um álbum de fotografias. Foi assim, aquele momento, naqueles termos, o sentimento criptografado. Eu o registro - às vezes - e pode ser que daí ele mude ou não, mas não porque eu me livrei dele e sim porque tudo muda a todo tempo mediante o mais inexplicável estímulo. E daí que basta, eu poderia escrever a noite toda. Eu quereria, na verdade. Mas ninguém pode escrever a noite toda e se não me engano, já disse o porquê.

Boa noite.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Aos meus amigos

Olha, eu sinto tanto, eu sinto nada. Já faz tanto tempo que estamos olhando por essa janela de vidro e nada muda. Eu não posso atender expectativas, eu não posso estar sempre junto. Eu prometo me dedicar ao máximo quando estiver perto de vocês, mas eu simplesmente não posso estar muito perto.
De lá de onde eu vim, o mesmo ar por muito tempo é corrosivo. Eu tenho um jeito distante de gostar, que me garante não tê-los por garantia. Eu não preciso de nenhum de vocês e é por isso que mantemos laços tão bonitos ao longo do tempo.
Prometo não os cobrar nem os sufocar. Mantê-los imunes ao excesso de necessidade. Vocês parecem atraírem-se pela distância, vocês são criaturas curiosas.
Vocês tem que entender que a menos que eu mantenha essa distância: visitas que não acontecem, chamadas não atendidas, nada em mim pode durar. Vocês tem que acreditar que vou tirar o melhor de vocês quando os vir e não deixarei que em parte alguma sujem seus nomes. Vocês tem que perceber que minhas palavras são verdadeiras no momento em que eu as digo, embora mais tarde não possam ser porque eu mudo, como muda a correnteza e faço isso para mantê-los em um lugar saudável de meu coração.
Vocês tem que me soltar, meus benzinhos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

"Antes de atravessar a porta a gente pode
não estar consciente de que tem lá uma porta
A gente pode pensar que tem lá uma porta por atravessar
e procurar a porta durante muito tempo
sem a porta achar
A gente pode achar a porta
e não abrir-se a porta
Se ela se abre a gente pode atravessar
a porta e ao atravessar a porta
a gente vê que a porta atravessada
foi pelo eu que foi atravessada
ninguém atravessou a porta
não havia porta para ser atravessada
ninguém jamais encontrou uma porta
ninguém jamais percebeu que jamais houve porta."


R.D. Laing, 1969.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

"A miniatura" + "Do sétimo andar" (Ou: Sei que vai rir com isso.)

Parabéns, meu benzinho: És de imperiosa frieza.
Atingiste um grau máximo que a meus olhos experientes impressiona!
Faz jus à tua fama - Até pouco injustificada - e à origem de teu nome.
Estou impressionado, minha pequena. Teu olhar gélido de inócua apaticidade... Admirou-me com tão bela indiferença. - Curvo-me à tua capacidade maestra de esquecer.
Ganhaste com esta proeza o aplaudir de minhas mãos e o ranger de meus dentes.
Muito bem, minha graciosa geleira. Agora sei que caminhas pelas mesmas ruas que eu, embora a substância que percorre tuas veias tenha viscosidade e temperatura diversas à das minhas.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

We all want to be wild things

Eu não tenho culpa, nasci assim meio sem lar.
Nunca fui de ser levada, e sim de levar.
Mas como isso não pratico, (Perdeu-se algo, no espírito),
fico nesse impasse. Nem fico, nem vou. E aí, como foi?
Vez por outra alguém vem - Abraços cheios de correntes.
Não dá, não me aquieto. Essa vida de terceiras motivações não dá certo.
Vezenquando paro, espero. - Vai que há um lugar, que só falta o encontrar.
Não há, existo: E com essa existência, me basto e subsisto.
Espero que não se incomodem de eu tomar-lhes pequenas parcelas;
Delas me construo lar, moldo o que falta, ao faltar -
E fujo de suas gentis cancelas.

domingo, 28 de novembro de 2010

Declarações avulsas. (Ou "Amores do passado.")

Você não fala, olha em frente. Está ao meu lado e centímetros ínfimos de nossos braços se encostam. Arrepio, estou super consciente.
Afora, existe um zilhão de universos inexplorados. Muito há para se ver em frente e aos lados. O professor permanece falando, ao redor dezenas de rostos. Mas estou apenas consciente na fração de nossas peles que se tocam.
Um universo inteiro está em você, ao meu lado. É um abismo. Existe um abismo em você e nada poderia ser melhor. Não é assustador, pois são as infinitudes que apresentam-se cada vez a novas luzes a medida que descubro algo a mais. - Uma expressão, um sinal (de dentro ou de fora). Uma nova pressão na pele.
Recentemente, redescobri novamente a mim mesma. O mundo está mudando aqui dentro e tudo que é você se fortifica dentro dele. Permanece. Seu lugar criou raízes que incrustaram-se em minha inconstância.
Você não toma café - não me conformo. Tem algo de café em você. Quando eu tomo café, meio que te beijo. Mas isso não é novidade, quando eu acordo meio que te beijo, quando eu durmo... Nossos braços se tocam - estou te beijando.
A aula continua, movo-me na cadeira. Você não fala, agora me olha. Vejo que na verdade me fala, mas de um modo diferente. Não sabe o que está dizendo. Também não sei o que estou ouvindo.
É assim, está certo. -  Não falamos sobre poesia, a vaidade dos prepotentes. - Falamos sobre não falar. Digo que quero que me "ame" não pelo que seu coração entende de minhas palavras, mas pelo que sua alma sente de meu silêncio. Portanto não falemos em coração, sim em alma. Não em luz e escuridão, mas em como aquela rajada de vento envolve tudo. Em como sinto o chão esfriar meus pés e o calor aconchegar meus braços com a mesma concreticidade que seu olhar me transmite aquela mensagem intraduzível.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

É isso aí, meus caros.

É como a gente escuta nas histórias. Quando crianças, se amavam. Crescem, alguma coisa - ou nada - acontece e de algum modo, tudo muda. Primeiro se odeiam, depois indifere. - Deus, como o nada fere.
-Eu nunca achei que ia incorrer no erro.
É normal. Separa, junta, separa, junta, gasta. Nulo.
-Somos todos humanos, baby. Estatísticas das tais histórias - Lorotas. Se puder, ensine diferente aos seus filhos. Talvez... não sei.
Disse-me que é necessário uma força de espírito imensa para não cair no habitual. - É normal?
Quem dera vivêssemos numa terra de pressão onde a maior aspiração fosse ser forte. - Mas não é. Não almejamos as virtudes certas. Sequer almejamos virtudes.

-Tem gente que tem o olho vazio. Aqui mesmo, nessa terra, no aclamado Brasil!
-Se olha no espelho. Não, não. Me olha no espelho.
-Me olha no espelho.

A formiga.

Como "algo parecido com amor, vindo de nem tantas pessoas que cada vez são mais poucas" poderia ser suficiente para alguém que precisa de todo o amor do mundo?
Não é. Nem de longe. É muito pouco. É quase nada.
Tenho de confessar: Estou desolada, meu bem.
Essa tristeza é  horrível, é a tristeza que não comove ninguém. E uma vez me disseram (eu me disse) que uma lágrima que ninguém mais sente é tão significativa como uma gota que pinga de uma torneira. - Corrija-me, se eu estiver errada.
Estou confusa, também. Não sei até que ponto estou equivocada em todos os pensamentos (percepções) que provocaram o sentimento desse texto. Mas seja qual for o erro, temo estar viciada em persistir nele. E em todos os mais.
Um anjo me disse para abraçar aqueles que me magoam, mas minha  frágil substância possui uma ânsia infantil de ser abraçada, em vez disso. Sempre abraçada. Por todo o amor do mundo. Um amor que nunca vai me pertencer.

(Eu não consigo viver sem amor. Sem reciprocidade. Mundo, você está me faltando muito. Me faltando demais. Eu não consigo viver em você.)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

(?)

Primeiro, a claridade. Ofuscante de início, como se fosse tudo, mas cujo real significado é que de fato nada ainda existia. Estamos falando de um momento numa mente, para esclarecer. Esclarecer. É engraçada é essa palavra porque se quer saber o que eu penso, quanto mais se esclarece algo mais parecido este algo fica com nada. Ao menos, nada preciso.
Deve haver uma ordem - eu penso. - Uma ordem que seja composta por desordem.
- Não se irrite, não são palavras de efeito.
Começou num banho. - É, acho que foi assim. Foi lá que começou a claridade. De repente, a ideia. A ideia sobre não ter ideia. - Óbvio, impreciso - o tempo todo lá. Como penso que deve ser a morte. Mas que sei eu?
-Um dia, me disseram: "Aposto que depois da morte é assim. Aquela coisa que você vai ver/sentir/estar/os cambal* e daí pensar: "Nossa. Como não percebi o tempo todo?"
E daí o sentimento. - Um deja vu intelectual que de intelectual não tem nada mesmo.- A questão é que a compreensão apesar de impossivelmente acima,  parece olhar, zombar. Dizer: "Quase pode alcançar o fio da minha meada, não? Pena que faltou 2 centímetros."
Mas isso - claro - Só depois da claridade.
É reconfortante, meio deliciosa, essa sensação de não saber porcaria nenhuma. Tanto, tanto, tanto. A mais. Bom, estou sendo incompreensível novamente. É que eu já disse que peça de mim qualquer coisa menos um pensamento linear. É aborrecido. Irritante.
E as palavras são uma bela invenção de merda. - com o perdão da palavra. - Então, desde o dia que descobri que as palavras são fáceis ficou muito fácil também manuseá-las. De mim para mim. Mas como tudo que é fácil, também são limitadas - E desculpe se sou surpreendentemente óbvia mas é que vá lá... Diz nada. Para mim, o ideal era que nos comunicássemos com olhares. Com toques. Queria um mundo inteiro de sentidos - Falar não é um sentido, é? Não que eu saiba.
Então de que adianta este texto? Diabo algum. A claridade, bom. Espero que não tenha sido uma impressão. Espero isso de um modo inerte, sabe? Como quem espera que mesmo lendo sem atenção, registre alguma coisa. Registre que... que...
Bom, como quem espera que esse texto termine.

domingo, 24 de outubro de 2010

Daí que continuamos aqui.

Tá tudo bem, tá tudo bem, não chora.
Esse tempo, essa prisão!
Algo quer se soltar, sair, voar - Mas o quê?
Não sei, meu bem. Se ainda existe, ou se é a lembrança do que já foi.
Confunde-se: Tempo, espaço, tempo, tempo.
Não dá tempo não - A cada minuto, um pouco a menos, a cada um que vai...
Olha, meus dedos perderam a sensibilidade. Isso é normal?
-É normal, sim. - Me disse a senhora, sentada em seu digno banco de areia:
-Uma hora ou outra, todos perdemos a matéria.
"Desrealização", disse a psicanálise.
Disse, disseram. Não adianta - Não escuto nada.
Queria uma vida nova, queria uma vida com alguém. De alguém. Minha. Sou alguém?
Queria um sorriso bonito, hoje.
Se você tivesse um olhar sincero, eu poderia passar o dia inteiro vendo isso.
Não precisa fazer sentido. - Não mais. Estou perdendo os objetivos disso.
Você quer fazer sentido? Keep trying. Se chegar a algum lugar... Bom, não vai ter como me avisar.
Enquanto isso, seguimos. Eu beijaria cada um dos olhos que expressa mágoa, se não faltasse algo.
Mas falta.
Clichês. Que tem eles? Ah, se pelo menos eu tivesse a realidade de um desses, quem sabe...
Ah, ninguém sabe.
Não, eu não tenho resposta alguma. Taí uma pessoa que não sabe de NADA.
Bom, eu permaneço com os meus
eu permaneço com os meus

...

Eu permaneço com meus silêncios de antecipação.

Interprete-me mal, se quiser.

Senti falta de mim mesma esses dias.
Tanto medo, tanta ausência, tanta "necessidade aborrecida", já diria o poeta.
E daí, o que fica? Um pássaro frágil, cujas asas não alçam vôo, cuja beleza tornou-se monótona.
Ah, não. Que piada. Isso tudo estava virando uma dramaturgia só!
Interpretando uma personagem diversa - Simples, tola, um bela de uma chacota.
Tantas vezes já me perdi de mim, volto vazia após um turbilhão de desentendidos.
Mas quando a gente se reencontra - Quanta recordação; Parece que foram-se anos perdidos.
Ah, sei lá. Acho que quando o clima está assim, fica mais fácil voltar ao lar.
Quando alguém se esconde de si - É fácil se confundir e aos outros se associar.
O problema de todo esse retorno é o quanto você percebe
Que o que achava que era tanto - não estava mesmo lá.
É tanto que já não atrai tanta atenção - Foi isso mesmo que me causou emoção?
Bom, confia na maré, guarda tudo no coração - e deixa o mar levar.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Qualquer coisa.

Cenário: Urca noturna. Esperando uma reunião eterna terminar. As nuvens? Estavam quase, quase lá.



Anoitece aqui e não lá fora.
Disseram que a natureza não é triste,
mas posso farejar quando ela chora.

Farejando sem instinto. Sem coleira, sem sentido.
Os mistérios me caem como doces adultérios.
Não vê sentido no que ouve? Nem eu no que digo.
-Não vejo sentido no que sinto. Está quente ou frio, amigo?

Está noite e chove. Vem cá, diz inteiro.
Diz a dor tua e do mundo, canta a lágrima num apelo.
Anoitece aqui e não lá fora.
Que há de tão errado que o mundo ignora?
Não ri, Sangra. Eu sei, também vi - Em chamas. Pude quase sentir.

Meu orgulho, teu orgulho, largue todos os escudos.
Vamos partir tendo abstraído algo daqui, baby?
-Olha, está tarde.
-Não, não. Está cedo.
A cada um que vai, meu coração se parte.
De cada um que fica, sinto o cheiro do medo.

Sente o gosto, amor? É grama molhada.
Chove hoje, por favor. Queria tua escultura na sala.
Minha sala, minha casa. Odeio a familiaridade. Não lhe arde como brasa?
Não preciso, não mereço.
Você não entende o sentido, e para explicar não tenho tempo.

Tenha fome, tenha medo.
Tenha ao menos a lembrança - De qualquer um sentimento,
da nossa primeira dança.

Da que não houve, eu sei. Queria voltar a ser criança -
Vamos atravessar no três?

Anoitece aqui e não lá fora.
Não tem mais quase ninguém aqui.
Você também vai embora?

domingo, 17 de outubro de 2010

(Insere aqui qualquer título besta) Parte I


Esse aqui é um conto que há 2 meses estou devendo à Mari e hoje finalmente decidi fazer. Ela me deu a imagem acima como base e daí vai. O tema é algo que sei que a moça em questão gosta muito. Inspirado nessas suas fantasias loucas de mulheres que se tornam o centro da vida dos caras. - O final posto em breve. Quando o fizer, abro para você comentar, Mari.

Parte I

-Você tá com um cheiro. Daqueles coisas...
-Que coisas?
-Aqueles coisas de pôr no lábio. Como é o nome mesmo?
-Tutti-frutti?
-É, isso aí. Cê tá com cheiro de tutti-frutti, cara.


Eu fui pra casa. Eu não sei porque ainda tento beber. Eu odeio beber. Talvez quando eu vá beber, eu tenha a ideia de que vou ser um daqueles caras de filme. Bebendo, angustiado, quase literário. Que merda, ein? Bom, eu fui pra casa.

Eu não precisava dessa de tutti frutti hoje, sabe? Não mesmo. Como se não bastasse esse apartamento pequeno, branco, vazio. Essa cama revirada, esse clima cinza, eternamente deprimente. Essa vida eternamente deprimente.

Esse monte de livros, amontoados. Um monte de conhecimento que não me acrescentou droga alguma. Um monte de música que não me transmite mais nada. A barba por fazer no espelho e meus olhos que me parecem de um estranho.

-Merda, estou acabado.

________________________Tempos antes:____________________________

-Merda, já está acabado!

Tive um susto. Um palavrão assim, numa voz feminina dessas. Olhei para trás e só vi a boca.

Eu estava do lado de dentro do cinema, comprando pipoca e ela estava olhando para o aviso de sessão lotada fixada no vidro que nos separava. Um cartaz escondia justamente a parte de seus olhos. E eu só via a boca. Era uma boca bonita para o diabo.

A garota com quem eu estava saindo me chamou. Ela era legal, bem legal mesmo. Mas o filme inteiro eu só conseguia imaginar a tal boca lá. Eu era um idiota por isso, sabia. Mas não teve jeito.


No final do filme, dei um fora na menina. Nem sei direito porque fiz isso, acho que estava me cansando a ideia de ter que sair de casa novamente em algum tempo próximo. Ela me deu um tapa na cara, em cheio. Diabos, aquilo doeu. Não sei mesmo porque as garotas gostam de mim


Alguns dias depois, fui num clube de blues que abriu perto do apartamento. Era coisa de um amigo meu e tinha tudo para dar errado, até porque o cara tinha jogado todo o maldito dinheiro naquilo. Mas haveria mulheres e bebida - e naquele tempo eu estava empolgado em tentar beber. - E música. Muita músia. - E naquele tempo, isso importava. E como.


-Mas que merda!

Eu ouvi, quando estava na calçada do tal lugar. Olhei para trás, demorando para reconhecer a voz.

-Diabos de menina para falar palavrão... - Eu murmurei para mim mesmo, só. Ai de mim querer que ela viesse com aquela boca suja para meu lado. - Bom, e falando nisso...

Era, de novo, a única parte que estava dando pra ver do rosto. Tinha tropeçado na calçada e parecia que o salto tinha quebrado/ emperrado/ sei lá, essas coisas que salto de mulher faz. Daí ela estava abaixada, o cabelo loiro - Sim, era loiro - caindo sobre a cara enquanto ela olhava para baixo  e só dava para ver aquela boca totalmente apelativa murmurando um monte de merda. Que beleza!

Eu entrei, mesmo que com uma certa curiosidade. Ela era bonita, sim, dava para ver agora. Mas eu não sou idiota. Dá para reconhecer uma mulher problemática de longe.

O clube estava cheio e tal e eu até dei um bom crédito ao meu amigo. Era um ambiente maneiro, luz baixa azulada, um mini palco com banda, onde alguém ia cantar. Enquanto isso uns caras entoavam uns saxofones acompanhando uma música que saía de um gramofone bem legal. Muito mesmo.

Eu pedi duas doses de qualquer coisa para uma mesinha e fui cumprimentar meu amigo. Um sujeito bem legal.
Estava emocionado por eu ter ido. Surpreso até, diria. Meio que ficou com o olho arregalado quando eu bati em seu ombro.

-Cara, eu tinha certeza absoluta que você não vinha! - Ele disse com um jeito totalmente sincero que eu achava bem legal.

"Diabos." - Eu pensei, "Eu devo ser o maior otário mesmo." 

Mas tudo bem, já tava indo sentar, quando escuto  -

Não é que era a tal menina quem tinha começado a cantar?

A voz dela, como eu tinha observado antes, era muito feminina mesmo. Era super afinada, e olha que eu entendo mesmo dessas coisas. Ela tinha um jeito de se mexer discretamente sensual, enquanto cantava. Encolhia os ombros e ficava meio que se inclinando, sabe? Ah, não sei mesmo explicar, mas era bem sexy. Todo mundo começou a dizer uns comentários idiotas, falar que ela era sem graça só porque não estava abrindo as pernas e tirando a roupa enquanto cantava. Esse pessoal tem um conceito de sensualidade bem ferrado.

A questão mesmo é que por algum motivo, a menina teve a maldita ideia de colocar o cabelo na frente da cara. Tinha uns fios escorrendo e eu imagino que até deveria dar para enxergar os olhos dela, mesmo com isso, mas eu sou míope como o diabo e só conseguia ver a boca mesmo.

Aquela maldita boca já estava se tornando um personagem.

Ela acabou de cantar e jogou o cabelo para trás. Eu tinha consciência de que ela estava jogando o cabelo para trás e dava para ver os olhos e tal. Mas e se eu te disser que simplesmente não olhei para os olhos dela?
Naquela hora eu estava meio que hipnotizado, de um jeito idiota. Acompanhei a maldita boca da menina enquanto ela descia do palco, pegava o casaquinho e pedia uma lata de soda para levar.

Continuei olhando enquanto meu amigo agradecia a ela e tal e ela já estava chegando na porta do clube quando eu, num só impulso, levantei e a virei para minha frente assim, segurando pelo ombro e pronto.

A droga do cheiro de tutti frutti me atingiu como um gancho de direita enquanto eu beijei essa garota. Por algum motivo, ela me correspondeu. Ela tinha um beijo assim, não sei como explicar, sabe? Ela não era só beijada, ela me beijava também. Isso era tão incomum, era tão... Isso me deixou em fogo, na hora.

Daí eu a afastei. Assim, ainda com a mão segurando o ombro dela e daí vi:

Ela tinha dois olhos gigantes meio curiosos. Surpresos, infantis, quase ingênuos. Dois olhos que - perdão o clichê, mas eram azuis.

A menina tinha uma boca de mulher, uns olhos de criança e falava palavrão como o diabo. Eu ri.

Ela estreitou os olhos, desconfiada:
-Que foi, quer dizer que eu não beijo bem?

-O quê? - Minha voz falhou, confesso. Mas é que veja bem, por essa eu não esperava. Um total estranho a beija do nada e sorri, e o que ela quer saber é se é porque ela não beija bem? Ela era maluca, para completar a lista.

-O que foi, você quer que eu lhe mostre que... - E já estava se aproximando de novo, com uma expressão, assim, obstinada. Tão absurda. Eu estava tão absorto. Segurei os ombros dela.

-Ei, ei. Calma, espera. - Minha voz estava saindo sorrindo, não conseguia evitar. -Vamos tomar algo, tá certo?

Ela estreitou de novo aqueles olhos grandões, e murmurou alguma coisa em concordância, como um bichinho. Eu sorri e continuei sorrindo enquanto íamos de lá para uma lanchonete próxima. Estava sorrindo como um babaca e parecia que todo o ar ao meu redor cheirava ao tal tutti frutti. Parecia que todo o ar tinha de repente ficado diferente. Tudo.

Sentamos nos banquinhos da lanchonete e ela escolheu alguma coisa doce para comer. Eu sorri, olhando para frente, não para ela:
-Engraçado, eu nunca tinha conhecido uma pessoa maluca de verdade.

Ela me deu um tapa no ombro que quase me fez cair da cadeira.



(...)Continua.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

E eu lá vou saber.

Você quer que eu fale de mim. Você quer? É isso que todo querem: Eu não sei porque, mas todos querem saber do outro ao mesmo tempo que não se importam com o outro.
Mas você quer que eu fale de mim? Pior, quer que eu entre em mim?
Quer entrar em mim?
Vamos lá.
Em mim.
Você quer minhas tripas, meu coração? Que eu as arranque. Está exigindo, certo.
Está exigindo mil coisas. Tudo bem, eu entrego. Você vai fazer melhor uso delas mesmo. "Quem sou eu". Está mesmo me perguntando isso? Como diabos eu vou responder uma pergunta idiota dessas? Eu já mudei tantas vezes que nem sei como ainda tenho o mesmo nome. Ou porque eu tenho nome. Por que temos nomes? Você consegue viver dia após dia sem questionar-se nada disso?
Não devíamos ter nomes. Ou no mínimo, ter vários nomes. Devia ser aprovada uma lei que nos permitisse ter vários nomes. Espera um pouco, uma lei?
Não devíamos ter leis.

E não, eu não sei quem eu sou. Nem se sou só uma. Nem se sou o que vejo. Principalmente, se sou o que sinto. Por isso, digo logo, eu não respondo por mim. Quer uma primeira pessoa singular? Então vá pra lá, aqui você não vai encontrar isso. Eu não sei. Eu nunca soube. Todos os dias não parecem "tododia". O tempo todo é diferente.

Mas mesmo assim, você continua querendo que eu responda por mim. Promessas? De quem? Da "eu" de agora? Da do passado? Da de mais tarde? Fidelidade? A você? A mim? A meus princípios? E existe isto?
Constância? Em relação a quê? Pra quê? Pra se sentir mais seguro? Todos vocês precisam se sentir mais seguros. Todos vocês estão errados. Estamos. Estou.

Você quer entrar nas almas? Quer total acesso, quer que eu abra minha alma? Pra quê, pra tirar satisfação comigo depois? Para exigir? Por amor? O amor não existe. Eu entendi, finalmente. E não, não é amargura. Eu, que tantas vezes senti bastante. E por todas estas, aprendi que é impossível esse conceito. Que somos incompletos demais para isso. E que sequer é uma boa idéia. Existem sentimentos, sim. Intensos. Motivações, também. Sinceras. Mas essa conversa de amor não existe. A gente acha que sente. EU acho que sinto. Mas o que existe são seres humanos e eles são tão tão - É complicado.

Mas e daí, sem tudo isso, você vai ter o quê ein? Fica difícil. Porque afinal, o que você quer? O que quer com minha alma, com o que é dos outros? Quer viver, se sentir vivo? Quer morrer, é isso que você quer? Porque ultimamente anda parecendo que o que todo mundo quer é morrer. Ou então que já estão mortos.

Você mata, você também comete suicídio. Você morre, você também comete homicídio.
Ah, se entendêssemos isso!

O tempo todo, parece que estou falando numa linguagem diferente das pessoas. Por que (quase) ninguém mais está absorto? Por que é tão difícil? Se todos percebêssemos como tudo está absurdo, estaríamos todos chorando. Não, estaríamos todos nos beijando e abraçando. Ou não, sei lá.
Não, eu não quero abrir minha alma para você. Porque você não sabe o que fazer com ela.
Porque você a quer pelos motivos errados.

domingo, 10 de outubro de 2010

Confissão

"E eu nunca vou pertencer a um só desejo humano.
Nem nunca encontrarei a plenitude completa em um abraço.
Veja só, a minha alma não é refém de um só plano
Ela pertence a algo muito além do que o acaso.

Eu me encontro mesmo é no asfalto da madrugada.
No vento, na rua, e no que já não está mais lá.
Eu me encontro é numa prece perdida,
Numa história vendida, e quem sabe, até no mar.

Não tem como te oferecer um coração íntegro,
Se ele já nasceu faltando tantos pedaços.
Meu sentimento é repartido pelo omisso,
Transfigurado pela humanidade e seus rasgos.

Meu sentimento é maior que esse mundo,
É maior que tuas preces.
Milhares de vezes nasce, vive e padece
Entre a boca da noite e o sol raiar.

Minha substância faz parte dos astros,
É companheira da lua.
Ela encanta, em prata nua,
Só para depois para longe bailar.

Eu prefiro viver assim, derramando esta alma,
Esta criança malcriada, que teima em se aquietar.
Portanto se um pedaço tão grande te ofereço,
Sem condição, validade ou preço,
Tente somente aceitar."

O rapaz do sorriso de quem leva um tapa.

Um olhar tão angélico!
Jeito travesso: demônio clérigo.
Vaidade que se estende! - Ele gosta de ser olhado, - e quem não gosta?
E as atenções rapidamente o cobrem; quando engata sua prosa!
Mas no escuro e na angústia, colho todo seu pavor.
Você é o anjo caído, garoto. Você é o antídoto do amor.

A beleza violenta na brutal sensibilidade,
o garoto que se prende no virtual da realidade.
Tenta fazer suas palavras sinceras e suas idéias virtuosas!
Mas a oração não mente; Sua substância é pavorosa.
Não me leve a mal não, não te quero nenhum bem.
Tampouco sou sádica, sou prática; Nunca fui de ficar sem.
Prefiro pensar que o que eles vêem não passa de açúcar amargo.
Então se divirta e então, quando o vazio lhe retomar,
Venha comigo, amigo. E não me dê nenhum sorriso.
Não sei se já percebeu, mas gosto mesmo é dos banidos.

sábado, 9 de outubro de 2010

O famoso "Céu de algodão";

Céu de algodão: O coração lá emcima,
O mundo inteiro no chão.
Dois palmos, mas um bocado. Um sorriso quase
cantado, um prender de respiração.
O tempo parou em um só momento,
Fechei minha mão e fechei nela o vento.
Sua expressão se apressou, seu olhar urgiu lento,
sem motivo e sem contento, pôde quase sorrir
O céu veio mais abaixo, os pássaros congelados
Minha cabeça virou de lado, e pisquei o olho mágico:
-Não se preocupe, eu também vi.

Vômitos III

Eu preciso dormir, esquecer. Que estou anestesiada, que deveria doer não dói agora mas doerá em breve. Que as coisas se perdem acabam terminam e corações quebram e poderíamos ter sido felizes e talvez você me odeie deteste mas muito provavelmente e como pior hipótese você me nada. Nada sente falta nada quer nada espera, está cansado assim como eu pareço e dou a entender que estou muito embora às vezes sinta que há espaço em mim para mais bem umas 3 vidas com você e seríamos seríamos seríamos. Sería. Se. Nada.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

As várias faces de um romance

Falta de sono, falta de vigília. Frio na barriga ou repugnância.
Olha, agora me sinto como uma criança: É impossível não ousar com você.
Beijos no escuro e tiro no escuro. Tiro certeiro e o gosto do beijo.
Numa noite me invades, na outra te expulso. Te bebo e vomito - em doses salgadas.
Discussões, discussões. O que você espera? Ternura e cautela?
Nunca disse que era fácil ou que era maduro.
Nunca pintei meu retrato colorido em sua tela.
Se numa hora foi intenso - Se chamou-se amor; E guiou-se por instintos, desafiou meus limites;
Você soube ceifar-lhe a substância e o calor; Enegreceu-lhe a tez, desfigurou-lhe a cor.
Espera, eu estou com saudades. - Ah, não, foi só o vento da minha cidade.
Foi só nossa cidade que nos deixou com cor de pintura.
Foi a liberdade que nos mostrou sexo como ternura.
Foi só uma dose estúpida de irrealidade que nos transfigurou a dura e dura - realidade.
Esquece, foi só delírio de uma violeta murcha.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Da série 'Receitas supreendentemente simples',

Apresentando hoje: "Como perder uma pessoa que se importa com você"


Tempo de preparo: Semanas, meses ou até anos.


Ingredientes: Descaso, desinteresse, criticidade, impaciência.


Misture tudo e coloque numa tigela. Bem gelada, de preferência:


Passo 1:
Comece, aos poucos, a tentar estabelecer menos contato com a pessoa. Nada de iniciar conversas ou perguntar coisas casuais.
Passo 2: Fale mecanicamente. Aja como se comunicar-se com aquela pessoa fosse uma atitude de praxe e não movida por seu interesse.
Passo 3: Critique ao extremo. Demonstre impaciência e irritação até nas mínimas atitudes daquela pessoa. Aja como se não visse nada de importante em nada que ela faz.
Passo 4: Mostre desinteresse. Não tenha paciência para escutar, ficar perto, passar o tempo.
Passo 5: Tenha outras prioridades. Desmarque planos no último momento. Aja como se qualquer coisa fosse mais importante.
Passo 6: Caso essa pessoa tente conversar a respeito, desconverse. Demonstre mais desinteresse ainda como se aquele assunto fosse chato, irritante ou até absurdo. Deixe-a falando sozinha.



Pronto. Repita os passos continuamente e adicionando mais frequencia com o passar do tempo. No começo, talvez, a pessoa manifeste raiva, irritação. Daí ela pode tentar demonstrar um descaso igual - mas essa etapa é curta. Por conseguinte, poder-se-á perceber uma visível tristeza na pessoa em questão. E daí, enfim, num tempo que talvez demore, mas com certeza chegará...
Puff. Ela não vai mais se importar.