Eles eram um casal antigo, vivendo em corpos jovens. Sua
casa era um ninho aconchegante e despretensioso, cujos únicos luxos eram uma
sala super equipada para receber seus amigos e assistir os filmes que ele tanto
amava e um escritório pequeno e vitoriano, no qual passavam algumas tarde em
silêncio confortável, cada uma escrevendo seus sonhos, em suas mesinhas de
mogno.
Com uma enorme janela, para seu jardinzinho gentil,
passavam finais de tarde chuvosos e domingos de manhã, fugindo da loucura da
vida cotidiana, colocando seus personagens no papel, sempre com a trilha sonora
que tanto amavam e eventuais fugas do tema para um carinho gentil aqui e acolá.
Ainda assim, eram um casal velhinho. Ela com suas roupas
retrô folgadas e ele com uns cardigans largos e super confortáveis.
Em seu tempo livre ainda gozavam do prazer lúdico de jogar
seus sentimentos em telas de pintura. Verdade seja dita, ele tinha mais técnica
que ela. Mas na hora de pintar, ela exalava paixão. Essa combinação resultava
em pinturas que mais pareciam uma simbiose de personalidades, fazendo jorrar
cores de formas, e texturas de desenhos. O ateliê dos dois era um pequeno
porão, iluminado por lâmpadas que pendiam em garrafas de cerveja e com o cheiro
que tornou-se tão familiar, de tinta óleo e madeira.
Eles tinham uma vida completa, por assim dizer. Ela, com
sua personalidade um tanto instável, rasgando momentos de fragilidade em raiva
e em alguns desses episódios, rasgando algumas telas, só para depois
abraçá-las, chorando. Ele, mais ou menos como um senhor de idade: Com seu
autoritarismo que ao mesmo tempo não admitia muita flexibilidade, mas
dobrava-se a abraçar todas as angústias dela, que tentavam entender juntos. Se
completavam, de fato.
Ela tinha consciência do quanto precisava dele, declarando
por várias vezes que não podia viver sem o seu amor. Ele, o racional, explicava
para si mesmo e em conversas cabeça com seu grupo de amigos, como era possível
viver sem qualquer coisa, mesmo que doesse. Mas a verdade é que quando a via
cochilar no sofá, tranquila, sabia intimamente que desde algum ponto que não
sabia bem qual, não podia viver mais sem ela.
A vida deles, para quem via de fora e também para quem os
conhecia bem, era um sonho bom. Não um sonho irreal, americano ou de comercial
de margarina. Eles brigavam, choravam, enfrentavam problemas quase impossíveis.
Mas no final dos dias, descansavam o rosto um no outro e dormiam em uma
sensação de que seu encontro por si só, era a grande sorte na vida que
procuravam.
Apenas uma coisa tornavam suas vidas incompletas. Era o
fato de ela não poder ter filhos. Uma frustração, que desde que descoberta a
fazia sentir incompleta não só pela falha de seu organismo, mas também pelo
brilho no olhar que via no olhar dele ao olhar para qualquer criança. Ele era
um pai nato, uma daquelas poucas pessoas raras com a verdadeira vocação para
criar outro ser humano. E ela sentia que jamais conseguiria satisfazer isso. Não
obstante tivessem em seu ninho dois anjinhos peludos - Um labrador calmo e uma
yorkshire elétrica - sabia que essa sempre seria uma lacuna em suas vidas.
Ainda assim, eram felizes. Direcionavam seu amor para seus
peludos, dormindo em posições escabrosas, enterrando suas cabeças em pêlos e
muitas vezes acordando entre alergias e risadas.
Foi por tudo isso, por todo o ar de sonho de sua vida e
pela quantidade de felicidade ser tão imensurável nos dias em que viviam, que o
choque foi tão forte quando receberam o diagnóstico.
Ela mal podia acreditar. As imagens pareciam um pesadelo,
enquanto via a boca do médico se mover, mas não conseguia, a partir de certo
ponto, distinguir as palavras que saiam dela.
Ironicamente, sempre tivera a sensação de que iria morrer
cedo. Sempre brincara com isso, enquanto se enrolava nele, entre cócegas e
ameaças jocosas:
"Cuide bem de mim que eu vou morrer cedo, viu!"
Quem diria que seria ele, seu grande amor, que a deixaria
tão prematuramente?
Olhou para o rosto dele, sereno e impassível. Sabia
intimamente que ele iria conter todo o seu medo e dor, com o único objetivo de
não assustá-la ainda mais.
Sua enfermidade era uma daquelas raridades que acomete o
azarado 0,00001%. E ele era essa maldita porcentagem. Não haveria dor, não
haveria prolongação. Mas em compensação, não haveria tempo.
Quando saíram do consultório médico, ele estava em
silêncio. Ela o olhava aflita, esperando ler sua reação, entender seus
sentimentos. Mas o olhar dele era tranquilo e lúcido. Aquela rara lucidez dos
que não tem tempo a perder e ganham subitamente a consciência disso.
Passaram aquele dia praticamente em silêncio. Fizeram
alguns acordos mútuos. Sonhos que teriam que ser adiantados, encaminhamentos
familiares, e principalmente, a promessa do segredo.
Chegaram em casa ao pôr do sol e descansaram do maior
cansaço de suas vidas, naquela cama macia.
Em algum momento da madrugada ele a acordou, com um carinho
gentil. A beijou na bochecha e sussurrou o seu nome baixinho, a despertando com
gentileza. Ela acordou com uma lágrima no canto dos olho e a voz dele cruzou
sua mente como o som mais belo do mundo: "Vem comigo, meu amor."
Ela o seguiu, sonolenta, esfregando os olhos ainda em seus
pijamas. Eles saíram da casa descalços e ele a levou por um caminho de
pedrinhas que ela não conhecia até então. Passaram por umas árvores que
pareciam - talvez pelo horário, talvez pelo sono - maiores e imensamente mais
imponentes do que em todos os dias - e esse pequeno trajeto os levou a uma
beira mar, extensa e inacabável.
"Isso já existia aqui?", ela perguntou confusa.
Estaria sonhando? Ele a olhou e seus olhos disseram tantas verdades que ela
levaria vidas para entender.
Ele segurou sua mão e encararam a imensidão ao seu redor,
tão maior que eles. Tão inexplicável.
O toque da mão dele na dela, sua pele. A sensação e
textura irradiava a calma e serenidade da certeza: Eram almas gêmeas. Ele a
olhou com muita lucidez:
"Nós sempre nos encontraremos", ele lhe prometeu.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas não eram bem de tristeza, ao
contrário. Uma emoção profunda a dominou por completo e seu peito fervilhava de
amor. Todo o amor do mundo. Ela sorriu e beijou levemente seus lábios. Repetiu
as palavras dele e quando deram por si, olharam para cima e viram dezenas,
centenas e talvez milhares de finos raios de luz rompendo o céu negro em um
instante ínfimo. Um milhão de estrelas cadentes parecia naquele momento
irromper pelo céu acima de suas cabeças, como uma chuva de meteoros, de sonhos
ou promessas. Olharam admirados aquele momento que desafiava toda a realidade,
tendo a certeza de que a mágica existia e estava dentro e fora deles.
Foi pouco tempo depois que o inevitável aconteceu. De
maneira serena, um dia de domingo ela acordou e soube. Foi até a sala e lá o
encontrou, descansando, no sofá, como no sono mais tranquilo no mundo. Um sono
eterno. Uma lágrima escorreu de seu rosto, mas seu coração estava em paz.
Poucas semanas depois ela encontraria o mesmo sono, também em um domingo
chuvoso. Nenhum dos familiares ou amigos encontrou uma explicação científica
para como ela se foi, mas todos intimamente sabiam. Ela morrera de amor.
Depois disso, encontraram-se diversas vezes,
Uma vez foram estrangeiros que se cruzaram em um país
exótico, ambos em busca de aventura e fugindo do amor. Outra, tiveram certa
diferença de idade que os fizeram ser professora e aluno, o que não impediu o seu
amor. Da última, eram colegas de infância que se reencontraram apenas na
terceira idade, descobrindo o amor que ao longo de suas vidas jamais tinha lhes
acontecido.
Atualmente, são dois adolescentes de ensino médio, melhores
amigos que ainda não sabem que estão apaixonados. Ainda irão discutir algumas
vezes enquanto redescobrem tudo mais uma vez. Mas sempre redescobrirão. Porque
são estrelas, são almas gêmeas. E sempre se encontrarão.