domingo, 20 de dezembro de 2015

Um curioso causo

De caminhos se fez ninhos, de ninhos se fez corrente.
E serpentes - não são as mais escorregadias, nem sempre.
Os moços de olhos claros, de sorrisos raros e mãos quentes.
São os mais perigosos - bicho domesticado - são cabulosas as coisas que sentem.

Dissera Seu João que tomasse cuidado com os sorrisos largos.
Porque as pessoas de bom coração tendem a tornar-se metódicos carrascos.
Meu coração é quente e minhas mãos inquietas. Minhas asas são instáveis - Por vezes não param quietas.
Mas nada mais perigoso que um rapaz gentil.

Ele te entrega a mão e o coração, te surpreende com inocência.
Te dá a chave, a senha e combinação - Te assusta tamanha sua alta frequência.
Inicialmente, claro. Ele te entrega um mundo. Te faz sentir até desconfortável com tanta entrega.
Te dá a ilusão de controle e com ela o direito
De perder-se, às vezes, nesta floresta.

Para mim, bicho do mato, no entanto já vacinado, bicho prejudicado
O ceticismo me dói como um colírio necessário
Mas como resistir a encantador relicário?
Bochechas rubras, sorriso esticado. Honestidade até no gaguejar eventual e desajeitado. Uma delícia de presa.
E como nele não se perdê-la?

De insistência vence o gajo,
E com tanto afeto demonstrado, abate o gado.
Induz a uma morte precoce da dúvida soturna,
E te leva de pedra a água na velocidade da lua
Um causo curiosíssimo para os conhecedores de causa

Valha.

Da selvageria se fez calma
E da fuga, apego louco.
Manha, agarrado, choro. Coisa de doido.
Transformado o predador na presa
Velha nova fábula antiga da quimera
Que de quimera nunca teve nada.

Delicioso rapaz do sorriso bobo,
Agora faz o que quer com o que corre em tuas mãos.
Pratica as jogadas se assim te apraz
Ou apenas deixa levar pelo não arrependimento eficaz
Mas trata de deixar a dúvida na opção
E o que vai fazer com o que tem em teu poder
Cabe exclusivamente a tua razão.


Por que diabos não ouvi o Seu João?

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