Estive a vida inteira escrevendo sobre apego, necessidade e possessão. Sem muito sentido de lógica. Escrevi sobre ideologia cada vez que vi coisas que não existiam em pessoas, apenas para satisfazer minhas fantasias literárias, para me estimular à paixão. Mas escrever sobre o amor?
Eu não sei se já o fiz. Escrevi sobre momentos de amor. Sobre a sensação tátil daquele segundo. Não escrevi sobre como é complicado e por vezes contraditório. Não escrevi sobre o ódio que reside no amor. Não falei sobre um dia difícil, em que a pessoa amada te desencanta. Em que ela age ao reverso do que tu esperas, e como por um momento pode sentir vontade de correr para longe dela e detestá-la. Como às vezes características que tu não admiras se manifestam no teu objeto do afeto. E se o que tu sentir for efêmero, elas vão sim sobrepujar todo o resto com o tempo. Vão acumular-se e criar o sentimento de repúdio que torna tão fácil deixar alguém.
Mas e quando após um dia difícil, um dia daqueles. Em que tal como o gatinho que te arranhas quando tu tenta um carinho, a pessoa que tu amas te decepciona quando tu precisa dela. O que falar sobre como, mesmo após um dia cansativo (a pior das sensações em relacionamentos, talvez), você vê o sorriso daquela pessoa. Você a vê se emocionar com algo que não é nem teu, apenas vê seus olhos brilharem e seu sorriso crescer no rosto e a alegria tomar suas feições e tudo some. Qualquer desapontamento parece banal e distante e as lágrimas vem ao rosto, meio que sem avisar, porque é emocionante vê-lo feliz e emocionado, mesmo que não contigo. E naquele momento, quando tudo borbulha dentro de ti e não é porque está sendo amada ou afeiçoada, não naquele momento específico. Não é sobre tu a felicidade com ele. Não é sobre vocês. É porque ele está feliz, apenas, e por isso apenas tudo borbulha dentro de si e vira mágica, vira montanha russa, vira felicidade. Porque ele está feliz.
Um dia um amigo nosso, nos vendo, disse: "Olha que o mais interessante é que mais feliz que ele, que ganhou o presente, está ela, o olhando enquanto ele o recebe."
E ele estava certo.
A esse passo, acho que estou pronta para falar de amor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário