segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Estou cansando vocês, bebês?


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Eu vejo falhas nesta superfície tão plana que eu construí. Aqui, neste mar calmo, me fiz senhora de mim. Te fiz passado de nós. Os outros amores hoje são só complementos, a subtração é meramente artística, para fins literários. Está tudo bem, enfim.
(Porém,) eu vejo falhas nesta construção que, tão plana, ergui. Seria mais fácil, talvez, explorar estas rachaduras. Procurar a base das minhas rupturas. Mas são breves e esporádicas. São doces, não mais trágicas.

Sabe, eu andei recebendo críticas por escrever demais sobre amor. Mas o que, possivelmente, se poderia esperar de mim? Eu sou toda amor, é insuportável. Eu sou amor por todas as coisas, inclusive pelas que me machucam. Talvez por isso às vezes eu precise negá-lo com tanta força. Não sei administrar isso: Não cabe em mim, não caibo em mim (...)

Eu tenho plena consciência de quão daninha me tornei. O que aconteceu comigo foi tenebroso e assustador: Pular do ápice para o poço e vice-versa tantas vezes não tinha como passar ileso. A autodestruição... Bom, todo jogo perigoso tem seu preço. E o resultado desta roleta russa é que a arma apontou para uma parte de mim e atirou.
Oh-oh.

As coisas jamais voltarão a ser como antes. Assim como o choro, o grito também é livre e passível de morte natural. Porém eu continuarei amando intensamente. Mas ninguém mais precisa ouvir isso. De fato, parece que às vezes incomoda. Por isso, me deixe desaguar ao menos em textos. E se até isso desagradar... Bom, toda sala tem uma porta.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A quem interessar possa


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Senta aqui, presta atenção e escuta o que eu vou dizer: A gente não deve nunca se desculpar por ser quem somos. Você não deve jamais se sentir mal ou culpado por não ser o que alguém quer, por não preencher uma lista de pré-requisitos. É claro, todo mundo tem uns defeitos horríveis e você também tem, e devia trabalhar nisso. Mas de forma alguma isso quer dizer que você deve se amoldar à vontades alheias, não, não... Você tem que melhorar para fazer o melhor por si mesmo. E se for se preocupar com o que alguém pensa que seja com o que pensam aqueles que te amam. E que você ama também. Porque se tem uma coisa que eu aprendi é que isso é a única coisa que importa. As pessoas que você ama. É por isso que mantenho todas bem juntinho de mim e com as outras tento só ser educada – na medida do possível. Mas fora isso, bom, em nada vai acrescentar o desgaste de tentar mudar pelos outros e no final do dia só vai te fazer se sentir vazio. Até porque infelizmente a maioria das pessoas que você conhece vai se aproximar por motivos superficiais. (E não é que você não valha a pena conhecer ou amar, mas porque tem muita gente cretina nesse mundo mesmo.) Essas são as que eu chamo “pessoas do coração supérfluo”, elas vão ficar perto de você porque você tem uma imagem, aparência, status, bens ou outra coisa boba assim que as atraia. Mas eu aprendi que a gente não deve ter raiva delas, porque elas só pensam assim pois acham que não tem mais nada a oferecer também. Mas elas só acham. Todo mundo tem algo bonito, mesmo que pareça improvável. Então é só isso. Parece difícil de acreditar, mas existe sim gente bonita no mundo. E você as reconhecerá porque elas nunca vão lhe pedir para mudar e serão capazes de te amar exatamento pelo que você é. Por dentro.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Introdução ao problema primo. (Ou: Início tosco para "os Estudos")


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I

Não tá fácil, nunca esteve. Mas esses dias frios me deixam muito bem na esquina da mente. Eu me sinto bem aqui, no meu cantinho. Eu sempre me senti bem no meu cantinho. As palavras são metralhas doces que me ajudam a expulsar um pouco dessa impossibilidade do ser. É necessário para mim – ou seria, caso eu me desse ao trabalho – explicar a impossibilidade do ser. Um dia desses eu quebrei minhas regras e expliquei para outra pessoa porque eu não podia viver bem nesse mundo. Nenhum de nós pode, a maioria só não sabe. Eu gostaria de viver de modo displicente em relação ao absurdo da nossa realidade. Eu gostaria de ignorar a tortura que é a mente e a ironia que é a sanidade. Mentira, eu não gostaria. Me chame de melancólica ou o que for, mas eu me sinto real nesse meu canto semi-escuro. Porque apesar de escuro, as brechas de claridade que me são fornecidas não são de uma luz plástica e artificial e sim descobertas sutis e ainda imaturas de alguma coisa a mais que a nós todos sustenta sem a ninguém explicar-se. Ou talvez não. Ou talvez eu seja a maior de todas as alienadas, pensando, vã, estar chegando a alguma razão.
(Qualquer dia eu falo mais sobre isso.)

II

Pensando bem, creio que o que dói nessa “luz” é que nem sempre ela existiu. Você pode me achar pesada, densa e definitivamente inconvivível (não os culpo por isso), mas acredite, um dia foi diferente. Afinal, todos já fomos crianças. O que ocorre é que em algum momento o presente tornou-se lembrança. Ele sempre torna-se, não se iluda; - É só por isso que ele parece tão doce. É só por isso que ele parece tão puro.
Talvez eu deva já ter nascido com defeito, talvez tenha sido para ser assim desde o começo. Acredito, em momentos assim, em que me sinto um pouco mais conectada com o todo, que tudo de algum modo, faz sentido. Não falo de destino, mas de uma interligação inerente à gente. À tudo: Um dia desses disse para um rapaz que imagino que no final tudo vai fazer sentido. E imagino mesmo. O filme em nossas mentes seria só a demonstração de cada motivo de qual advém cada ação. Seria a prova.
Temo mesmo é que o fato de eu ter visto isso em vida
signifique que embora viva, já esteja
um pouquinho morta.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Breves visualizações da pseudo-matrix

Entenda -
há na felicidade insatisfação plena.
As nuvens estão caindo nesse céu
anil
como bolotas de algodão. Estão quase engraçadas.
Graças a Deus* por este fevereiro frio
de mãos pálidas deliciosamente congeladas.
Espero (ainda) por pura displicência com a razão,
mas o que eu espero arqueia as sobrancelhas,
conta piadas bestas,
foge na contramão.
Espero, ainda, algum sopro de verdade.
Meu vampiro imaginário nunca mais veio.
Minha loucura existencial consumiu meu anseios
me tornando vítima da utopia da liberdade.
Sentada nessa cadeira de balanço velha, vejo tudo interligado
é bastante fascinante, é pouquíssimo surpreendente
é assustadoramente pulsante, é ligeiramente comovente.
Honestamante? É uma piada e tanto, meu caro.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

I see what you did here...

Eu vejo o que você fez aqui...
Não poderia ser diferente. Tomei doses largas, em goles cheios. -
Te sequei.
o mesmo hábito ruim que tenho com garrafas de vinho, fiz disso droga.
Droga não era. Porque depois de um tempo
eu não podia mais te comprar num beco escuro da Madre Vilac.
Não poderia ser diferente. Eu vejo o que você fez aqui.
Passou por mim, passou depressa. Acenou e sorriu como quem se interessa.
Mas
que conversa,
não?
Te dei pão, pediu circo. Pediu asas, te dei ninho.
Suguei o que pude, criatura insalubre... Como pude confundir tua natureza?
Mas veja só o que eu fiz aqui (Que destreza!);
Hoje o vento está tufão. Tenho uma flor roxa sem nome entre os dedos,
teu cheiro controverso em meus cabelos, tua tatuagem em meu peito.
(E tudo dói.)
Tentei te amoldar a mim, onda furiosa!
Te engolir, tornando-me dona deste furacão
Tentei desvendar tua natureza curiosa.
Em vez disso sendo eu mudada e contornada por tua indefectível mão.
Que bobinha eu,
que bobinha.

Ora, ora...

Caro Tempo,

eu vejo o que você fez aqui.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Cappucino

(Breve conto sobre um Cappucino)


(O)

Faz calor, intenso. Faz calor, inspirador. Ela me inspira, por favor. Com suas palavras, armas tácitas, com a maciez de sua apaticidade. Ela inspira ao fundir-se ao tudo justamente por não ser nada. E é amável. É amável o modo como significa tudo o que vê, como molda e transforma até, por si, tornar-se também uma mera significação. É encorajador e forte e portanto transborda. Seu nada transborda em mim, e ao nadar assim me transporta: adorável a tinta que sua folha branca me fornece. E entre seus cabelos, seus quadris, suas pressões, me guarnece. Possesso me vejo vítima do nunca mais; Aliás,


(A)

de tintas brancas o construí. Logo vi. Era do tipo que procura as estrelas, que vira o chinelo. Que fica por perto; Não quis. Virei de lado e virei a página, prendi  minhas pernas contra suas costas pálidas: "É ela". Não me convenceu pois eu vi em seu olhar o místico passageiro dos que hão de se superar. Convencida, então, quis ser capítulo. Entediado, portanto, ele quis ser escrito. Um acordo.
Que saudade,
que saudade do místico impossível. Do impreciso sabor das limpas bolhas de sabão. Do domingo à tarde, de brincar lá fora, de desenhar o vento, porque tudo é possível.

Impossível.
Improvável que sua visão seja tão alterada assim:
Olho, não me conformo. Te odiando, peço teu colo.
E penso,
Sim,
Querubim,
Vai ter fim.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

sutil


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Deixa eu deitar no teu colo, deixa eu provar os teus óculos. Deixa eu dizer que sou má só para enganar e por dentro morrer de medo de você acreditar. Deixa eu me fazer de forte, deixa eu testar minha sorte, deixar eu brincar de ser. Mas me deixa tentar fazer certo, e enquanto deixa, vê se fica por perto. Mas, pelo amor de deus, me deixa parar de tentar ser de ferro.

segunda-feira


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Perdi o dom, perdi o tom, perdi a hora. Saí atrasada, não arrumei a sala, esqueci o trabalho. Me vi desarmada, joguei a toalha, esqueci teu retrato. Fechei as janelas, mas esqueci as frestas. O tempo frio não me viu, o tempo frio não dá trela. Esqueci o forno, queimei o bolo, esses dias tão osso. Pedi arrego, pedi com jeito, pedi um beijo. Perdi o dom, perdi o tom, perdi a hora. Perdi o passo, perdi as chaves e perdi você.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A vilã

Fruto de uma combinação de circunstâncias, timing e nuances particularmente
periculosos, tornava-se um problema, é verdade. O belo conceito que o definia em nada consonava com o desgastante "ser" de sua existência.
As consequências daquele elemento vilaniamente adocicado extendiam-se pela longitude de seu receptáculo, a vítima. Embaralhando dinamismos simples, óbvios, necessários e racionais com as famosas e tão características a essa situação "dúvidas". Embriagando tantas fontes mais - vai saber quais são, oras; Descobrir as fontes seria descobrir a essência. E essa não podemos, ao menos, cabe-nos somente admitir que vil deve ser, dadas suas consequências.
À distância parece belo, é compreensível. Afinal, quão atraente é o vermelho que expande-se pelos lábios chorosos? Quão saudáveis parecem as bochechas rosadas de quem está em prantos? Quão adorável é o pássaro ferido prostado ao chão vulneravelmente?
Mas não.
Porque o pranto é a consequência fática para o embaralhamento total de ideias provocado por este vilão. Não sozinho, claro. Os grandes gênios sempre agem com aliados. Este encontrou alguns, tais quais, enraizados nos mais fracos receios de suas vítimas, usou de seus calcanhares defeituosos e fez com essas malditas doenças d'alma a cama para deitar sua deusa do mal. Deusa cruel. Que através de incogniscível
procedimento arranca tripas sem o toque, inflama a alma sem o fogo, destrói a mente sem violência.
Mascarada, ironicamente, por um "sentimento" que para o consenso geral é belo, doce e equivocadamente almejado.

Afinal, meu Deus,
quem foi o insano sádico que inventou o mito de que é bom se apaixonar?

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Diálogos (V)

-Então qual o seu problema?
-Doçura.
Era a mentira mais obviamente deslavada, como de praxe.
-Doçura? E por que é um problema?
-Porque infelizmente eu vivo entre seres humanos. E seres humanos são idiotas, insensíveis e absurdos. Então eu tenho que me adaptar ao modo de sentir nojento deles.
Ela olhou de lado e ignorou o fato de quão humana soava aquela afirmativa cretina.
-E como você está fora isso?
-Fora isso eu estou. Somente. Me conformo com o fato de um dia para o outro as estrelas terem perdido as cores.
Isso era verdade, sob alguns ângulos.
-E o destino?
-Prossegue. Eu finalmente descobri minha alma gêmea antes de ontem num café na Rua da Liberdade. Nós nos olhamos por alguns momentos e soubemos que nós éramos nós, e eu peguei meu frapê e saí. Foi estupidamente desencantador aquele momento.
-E a saudade, você não sente? Do tempo antes?
-Eu sinto saudade do tempo que nunca existiu, porém que durante algum tempo antes da ruptura eu acreditava que existiria.
-Ruptura?
-É, a ruptura da mente. A que se dá naquele quase imperceptível aterrador momento em que seus olhos são abertos para a real cor das coisas a nova dimensão é adicionada pelos sentidos. A ruptura da alma, quando percebemos o absurdo irônico de seu conceito.
-Ah, entendo. Prossiga...
-Então, você já sentiu isso? Saudade do que nunca existiu?
-Bom, que eu saiba a gente só sente saudade do que nunca existiu. Da forma que nossa cabeça faz das coisas que na verdade não tiveram nada a ver com aquilo...
-É, eu sei, eu sei. A velha história da mente moldadora.
-É, isso mesmo. Até porque se você pensar bem a gente não vive o que ocorre, vive o filme da nossa cabeça que fazemos do que ocorre.
-We fuckin love the drama.
-Yes, we fuckin do.
-E o presente? Você, que gosta tanto de perguntar, por que não me responde essa?
-Que tem ele?
-Você não sente saudade dele? Se bem que...Imagino que você vá dizer que ele também não existe. Ou existe?
(Esperou a resposta e nada.)
-Alô?
Mais alguns minutos, nada. Chegou a bater no vidro de sua superfície, mas pelo resto da noite o espelho decidiu permanecer calado.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Só um momento

As mentiras que a gente conta para si mesmos
as mentiras em que a gente tende a acreditar
as mentiras que só a gente entende
Duas décadas de erros
uma pequena lista de coisas a consertar
Ela queria comprar uma saída daquela cidade
Não estava fácil viver naquele corpo de gente
Ela queria comprar uma entrada para o mar
Não estava fácil viver dentro daquela mente.
A verdade podre
é que todo mundo quer ser cuidado,
todo mundo quer amar
e o que é que tem de errado?
Mas e quem não tem nada
de puro para oferecer?
Quem já viveu seu ápice
e agora vive seu perecer?
Eu não acho justo essa natureza humana
nos engolindo em simbolismos,
Jung e seus arquétipos,
Freud e seus incestos.
E ao findar do dia que somos nós
além da ponta de um iceberg
que embora aterradoramente denso
para a existência
é insustentavelmente leve?

Não-soneto sobre a posse

Você me quer colocar num chaveiro e pendurar no seu bolso. Você quer trançar meus cabelos, quer pintar o meu rosto. Você quer me levar com gentileza para o seu próprio calabouço. Me quer de noite e de dia; No jantar e no almoço.
Você quer me pôr numa corrente ao redor do seu pescoço. Que ajustar minha lentes ao teu grau tão absurdo.
Faz uso do seu magnetismo para me  manter em sua órbita. Me colocar entre seus dedos como se eu fosse um de seus charutos.
Quer me jogar no mundo para apreciar minhas peripécias. Mas com uma corda no meu pescoço ou correntes em minhas pernas. Você quer todos ângulos do que existe em meu mundo. Quer penetrar neste prisma tosco com teu golpe mais profundo.
Gosta de me ver brincando fora, mas contanto que seja em seu jardim.
Você quer absolutamente tudo
Que conseguir extrair de mim.

domingo, 15 de janeiro de 2012

I wanna hold your hand

Your pale, beautiful, soft hand. I wanna hold you tight. Like we did tonight, like we'll do tomorrow but like we won't be able to do for much more days to come. I wanna hold you in me. Your scarying face, your tender face, your weird face, your intense face, your concentrate face while you listen Pink Floyd. Our jokes, our songs, our weird foods, our endless talks, our many mornings at your house, our many afternoons anywhere, our many nights around the town and around the wine. Our games, our inner nicknames, our private world we built so beautiful, so complete and so incomplete because it'll end soon. Sometimes i feel nothing towards you. Sometimes i feel everything there is to feel, like now. Maybe it's the night, maybe it's this cheating dawn, improving my senses. Maybe it's the sweet perspective of the end. Or maybe it's the still fresh scent of yours in this shirt you gave me. Maybe it's everything, maybe nothing. Maybe it's all in my mind.


"-Nossa, você, se pudesse, andava com ele pendurado no pescoço."

Oh well, maybe, maybe.

Good Friday - Coco rosie (Só que ao contrário)

Foi sutil o momento. Quase imperceptível.
Ela tinha ido dormir pensando nele e acordado pensando nele. O dia anterior repleto de pensamentos nele, pensamentos sorridentes. Ele tinha se tornado para ela o sorriso fora de hora. A sensação de “Tenho que mostrar isso a ele”, a delicadeza da alegria.
Mas houve esse momento e houve o próximo.
Ela não saberia dizer o que se perdeu, se perdeu-se aos poucos, no rastro sutil dos dias de ouro ou se perdeu-se no repente estranho entre descer daquele ônibus e tocar a campainha.
Mas o fato é.
O que houve? Como houve? Quem ouve?
Tornou-se o vácuo dos ouvidos do coração, irrelevante o toque de mão, apuradíssima sua poética visão.
Preto no branco foi o que viu.
Bem mais real.
Não mais anil.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

La dulce.

Olhando em retrospecto, desde o começo anunciava-se o fim.
No coração de uma somente criança, na época, que dialogava com as criaturas imaginárias de seu jardim.
Ela costumava imaginar a sombra negra de outra vida sobre sua pessoa, 
mas na verdade era dela mesma; A sombra do futuro que hoje lhe envolve.
Pode-se dizer, em termos simples, então, que desde o começo aquela criança não foi bem normal.
Suas palavras versavam sobre algo muito distante de sua realidade, mas com um perigoso cheiro de 'mal'.
O problema prático se deu mesmo quando passou a tornar suas palavras ariscas, realidade: Um laboratório vivo literário.
Estranhamente sentia-se bem próxima do lado mais sombrio da vida, E com seus pés já não tão de menina, pisou nesse pântano sem malícia.
O procedimento agora era preencher o vazio com o vil. Como esperar que a sanidade dessa menina ficasse saudável com tudo isso?
No entanto, foi chegado o dia, em que olhando pela janela 
A já não tão menina, mas mulher, relembrou-se do nome dela.
Da criança que escrevia sobre bules de chá de peixinho dourado,
Que dialogava com a noite, Que era a tinta de seu próprio quadro.
Percebeu então insuficiente Sua arte mestra de versar sobre o vazio,
que conquanto a consumia, sua pureza antiga dirimiu!

Como, depois de tudo isso, então
Resgatar aquela criança, aquela menina
Que achava que maldade era só nome de poesia?


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Na sala de cirurgia

Que mania feia, que mania besta. Anos a fio, anos enfim. E você continua cometendo o mesmo pecado, minha querida Evinha?
O pecado original ao contrário, colocando a venda e amarrando o laço - Não crês estar na hora de mudar de estratégia?
O momento é este, a hora é esta. É hoje e há 10 anos atrás quando ainda criança você descobria o que era ou não eficaz.
Sua razão, tão dotada de emoção, é falhíssima. A íris translúcida - cor da natureza bruta é ceguíssima! A piada de teu nome, tão inadequado à tua fonte - Tão condescendente à tua essência. Clemência - A clama e clama logo. Implora, pede colo. Vem cá, me dá um sorriso.
-O problema é que o sorriso dele é o mais lindo do mundo.
Do teu mundo, meu amor. E nesse segundo. Semana que vem é um mundo que vem. Vê apesar, meu doce. Vê além.
Tantas vezes prostituistes teu sentimento - Em troca de simples e simplórios lamentos. Julgando visar em cada cão uma visão.
-Não voga.
Não vale, destoa. Chega cá, abre mais. A mente do coração, eu sei que você é capaz.
Acende a luz, ascende a alma. E que inicie o procedimento.
Não precisa de tempero, Eva,
Só de sentimento.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Não é uma pergunta de "Sim" ou "Não".

nossa, é impossível prosseguir assim. veja bem, não sei nem como começar. não posso mais ficar jorrando céus em expoente de luz ou bandos de pássaros ao entardecer. não posso mais ficar gastando minha tinta fina, elegante, caríssima, para pintar retratos de esgotos. não posso mais proceder na minha ferrenha batalha, minha ferrenha procura por uma água benta, por uma cura. que não existe. meu coração já não resiste. o agridoce sabor do desgosto.
existe tanto e existe tão pouco. afora, existem casas brancas e opacas. elas são brancas não por serem tudo  mas porque ainda não são nada. dentro, possuo meu contingente ilimitado de demônios. fizeram da minha alma o emaranhado que é hoje. e numa equação estranha com esta essência latente, jorram cores por todo o exterior, desde o extremo oriente até o meu corredor. 
a maldita, a bendita, a inescrupulosa ilimitação da mente.
-mas é claro que é uma busca.
mas não é para fora e sim adentro. como é difícil encarar este fato! mas enquanto eu não o fizer, tudo isso será mera peça de teatro.
-ocorre que dentro, chove e não é de aurora. chove doendo, fininho, ao redor do próprio coração, dentro dele.
eu vejo as avenidas de corações apressados, vejo as almas de rachaduras latentes, vejo nossa realidade  emocionalmente doente. e me pergunto - é o mesmo vírus, é a mesma praga, é a mesma maçã que a todos acometeu? ou tudo isso é só um desvio
um desvario que minha razão não previu
e o verdadeiro problema sou eu?


-

(E sim, a partir de agora eu me recuso, terminantemente, a escrever sobre quaisquer coisas doces sem ter a mínima certeza de que são reais!)

sábado, 3 de dezembro de 2011

O vazio.

Para mim, esse é o primeiro e último assunto essencial e que valha à pena a discussão na nossa existência. Nele estão inclusas as respostas e as perguntas mais famosas. O começo, o fim, e nesse caso específico, o interregno entre.
Eu me lembro que houve uma época em que eu era arrogante o suficiente para achar que algumas pessoas não possuíam o vazio. No entanto, hoje eu entendo que o que ocorre é que a maioria das pessoas não está ciente dele.
Suas mentes fazem-lhe um favor e um crime, no momento em que automaticamente o preenchem. Automaticamente.
Em que puxam matéria de tudo que é canto e que fazem delas os "Ídolos", que à propósito vêm tomando formas cada vez mais variadas com o passar do tempo. Olhando assim, talvez os ídolos sejam as fugas, das quais vivo falando. Eu não queria fazer isso: Eu costumo exemplificar quando falo disso, mas não vou fazer
dessa vez porque me parece agora preconceituoso e pedante. E de acordo com meu último conceito disso, recém reformulado, me parece impossível delimitar o número de ídolos.
Descrevamos somente como "tudo que cobre um buraco cuja origem não foi sua própria culpa", em termos bem vulgares.
-Olhar as coisas pelo que elas são.
Para fazer isso, seria preciso compreender a essência das coisas. Inicialmente, seria preciso considerar que existe uma essência nas coisas. E isso me parece, genuinamente, uma conquista impossível para nossa mentalidade atual. Nós, esses vasos de barro já moldados por tantas mão(e)s que nem nos distinguimos no
espelho. Eu, ao menos, não me distingo.
E só assim, vendo as coisas pelo que elas são (e pensar que antes eu desdenhava do  tanto que a filosofia se questionava sobre 'a essência'!), poderíamos entender que uso fazemos disso em nossa mente. Poderíamos compreender por etapas como nos é feita a materialização do pensamento, a internalização e significação das ideias para fins próprios, para fins de auto sobrevivência mental ou meramente fraqueza e covardia.
Enquanto eu escrevo esse texto, o vazio me consome.
Porque eu sei que mesmo estando ciente dele, isso não altera seu procedimento.
Isso não me impede de ter ídolos.
Ajuda minha razão, é verdade.
Me impede de fanatizar obviamente qualquer coisa. De tentar manter minha mente aberta para qualquer ideia.
Mas isso, meus caros, é um mito.
Porque eu não tenho nem ideia dos preconceitos que me formam. Eu não conseguiria racionalizar, nem com a ajuda do próprio Freud o quanto o que não é meu me compõe.
Se é que algo é meu.
Então, será que não é melhor ser cego?
Não ver o crime que cometemos contra nossa própria inteligência?
Admirável? Intolerável mundo novo!
Paremos por aqui, por enquanto. Sem resposta.

sábado, 26 de novembro de 2011

Contos (V) - A estupradora



Entramos no seu quarto cheio de dúbias intenções e o resultado óbvio a nos encarar. Você disfarça, sorri, abre espaço. Vejo em seus movimentos uma fórmula pré-calculada, com o tempo aperfeiçoada e já muito utilizada. Me abarca com os braços, numa demonstração de carinho absolutamente inócua a mim. Danço: - Eu sempre danço.- Te abraço e sorrio, digo palavras doces, transmito calor no olhar. A verdade, meu caro (leitor), é que procuro. Procuro nas minhas mentiras alguma ponta de verdade. E para isso enalteço-as. Para isso, enlargueço-as!  Digo palavras de amor, uma mais seca que a outra. Talvez eu entenda os homens naquilo que tanto são criticados, no final das contas.
E observo sorrindo quando você deixa seu ego inflar, sua expressão aguçar-se como um caçador. Mal sabe que não há caçada ali, mal sabe que não há nada a conseguir! De dentro de mim, saio e sento na sua cadeira velha de balanço, observando aqueles dois  estranhos. Coloco a mão no queixo e como quem programa um servidor, calculo os movimentos da minha marionete. 
Ela beija, ela grita, ela rosna, ela excita. Ela certamente é uma figura, essa menina.
Mas observo isso com olhos entediados, com olhos condescendentes. Observo com tédio, para ser bem sincera. O modo como você se desmancha nas mãos dela apenas abate minhas expectativas. Tão carnal é a nossa carne. Tão insignificante!
De todo modo o resultado meramente empírico foi coletado. Volto a ela, me sentindo somente um pouquinho estuprada por minha própria personalidade caprichosa e doentia; E me afasto no  segundo em que você começa a transmitir aquele olhar de afeto escrachado: Olha para mim e faz menção de palavras. Faz menção de gestos, faz menção de promessas. E a cada passo dessa sua dança repulsiva, o encaro mais alienígena. Encaro completamente absorta de quão alienado você pode ser da verdade!
Me olha, porém. E constato, com este crescente enfado, seu latente sentimento. Se soubesses o quanto te odeio nesse momento, me temeria. Mesmo sendo eu um corpo tão frágil ante o teu, um rosto tão doce e uma voz tão calma, eu garanto, meu amigo, temeria.
Espero que vire para o lado e conto os minutos. É abril e estou me sentindo generosa então numa breve contenção de danos, parto em silêncio, decidindo fazer à sua sanidade um favor - e jamais me ver novamente na vida.



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(P.s: Minha gente, alguém conhece algum site bom de imagens? Ultimamente só tenho conseguido umas bem ruinzinhas para ilustrar meus contos. Sugestões, me mandem por comentários, por favor? Grata!)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Contos (IV) - Considerações sobre o ciúme.



Eu não vou mentir, é claro que foi um choque.
Muito embora o tempo, o espaço, e as modificações naturais que ocorrem à matéria abstrata, colidiu a mim como um acidente a imagem de você e ela.
Então era essa, ela. - Minha curiosidade instintiva de mulher aguçou, procurando na primeira visão os defeitos visíveis mais evidentes. Você sorriu, me abraçou. Não estava prestando muita atenção na sua 
reação, mas se não me engano a senti estrangeira. Estava constrangido. Quase como se tivesse sido pego no flagra. Irônico, no mínimo. Não acha?
Eu senti minha expressão endurecer e a encarei com um sorriso seco. O corpo dela se comprimiu um pouco, involuntariamente? Sua energia era fraca e, eu percebia agora, inteiramente atrelada à sua. Deprimente.
Você, como sempre, um predador. E sua presença englobava a dela quase que num círculo perfeito. Permissiva do início ao fim desde a postura até à frágil tentativa infrutífera de impôr-se à mim. Paciência, nada mais perfeito para sua personalidade dominante. Quase revirei os olhos.
Esperei que você fosse embora, se despedisse, como provavelmente reza o protocolo, mas nada. Ficou e desconversou. Eu não entendi, mas e daí, achei interessante. Queria vê-la. Queria vê-los. Minha obsessão me soou como um choque ainda maior que o anterior. Veja só!
Você, por motivos obscuros a mim e provavelmente à ela, nos orquestrou, como diapasão:
-Vamos todos tomar um café, pois não?
E a tríade indecente em seu elogio ao absurdo prolongou:

Você a olha com amor.
Desculpa a escolha óbvia de palavras, mas nada mais convém.
Ela interpreta como numa dança, boneca móvel de porcelana,
Ainda se amolda à tua ânsia. - Natural.
Nós não poderíamos ser mais diferentes. Ela com seu ar de donzela inconsequente. Na verdade imita teus passos e repete teus desatinos.
Me lembro de criticar tuas verdades e entender teus erros, me lembro de muitas coisas, na verdade, enquanto esqueço de nossa conversa, diluída no fundo da xícara de café.
-Ei, está aí? - Você pergunta, a mão em frente ao meu rosto.
-Ah, desculpa. - Tomo um gole do café. Minha mão toca a aba da xícara enquanto a sua segura o ombro dela num movimento inequívoco. Inconsciente. 
Percebo o quão estão inconscientes da simbiose. "-Fala sério, é dose."
-Você parece meio distraída.
-Apenas pensando na vida.
E sorrimos ao mesmo tempo como que numa interna rima.
Ela não disfarça, se contorce toda. Bonequinha frágil, sua rima é falha e rota.
E me surpreendo com meu próprio pensamento de mulher traída.
Mas traição jamais houve, ao menos não nessa ordem dos fatores e quando retorno à órbita, o olhar de vocês combina.
-Sim, falem mais sobre a viagem.
Você fala, sempre você, nunca ela. Ela observa e procura entre nós reservas, mas veja só, não encontra.
Mantenho o olhar de um para o outro. A disciplina sempre foi meu esporte tosco e a manejo com distância e diplomacia.
Seu olhar não passa mais que alguns segundos longe dela e reconheço, com aquele ressentimento em sequela, essa fascinação que o domina. Você nunca foi bom em reter sentimentos e esse afeto todo te transborda pelas retinas como outrora era a mim que se dirigia. Tenho ânsia de sacodir a cabeça, mas não o faço. Outro gole de café e o movimento é quase falho - E eu percebo quando o olhar ansioso dela sobre isso se ilumina.
Ela está insegura - Grande bela ironia. 
Você faz uma de suas piadas, mistura com uma de suas ideias e solta um de seus sorrisos-luz. Ela não resiste, a desconfiança dá lugar à admiração de praxe e o rosto dela se volta, se seduz. Olho para baixo e retenho um sorriso conformado: O engraçado, meu caro, é que nem te quero.
Porque tua piada me soou fraca, tua ideia pareceu manjada e o sorriso pura beleza estética. Percebo meu erro, o equívoco conceitual na substância do meu sentimento. Com um muxoxo e um sorriso, lamento. 
-Ai, ai. - Digo na certeza de não ser entendida. -Mulheres, homens e principalmente lagostas - e suas manias feias que impõem à vida.

domingo, 16 de outubro de 2011

"A vida é eterna em 5 minutos", pílula vermelha e afins. (Ou, fluxograma sobre o tempo, extremamente divagante.)

(Esse é outro daqueles, quase gigante demais para ser postado. Dou um doce para quem ler até o fim.)



Tempo: Esse é um daqueles assuntos nos quais eu temo um pouquinho ingressar. É muito mais fácil viver na superficialidade, mas já faz um tempinho que decidi tentar tomar a pílula vermelha, então vamos lá.
Falando em pílula vermelha, - e deixe-me fazer uma divagação antes de entrar no assunto da postagem - é muito difícil isso. É como tentar fincar os pés no chão em meio a uma ventania, é tentar ver através das cores opacas e na maior parte do tempo, se a gente não se mantém firme, acaba achando que é uma grande perda de tempo. E para ser bem sincera eu ando encontrando muita dificuldade nisso, porque é um objetivo que meio que requer a ajuda das  pessoas. É a velha história da dialética: Sozinha, eu não vou muito longe. Não tem como dialogar comigo mesma, por mais que uma pessoa, qualquer pessoa, tenha muito conhecimento, seu conhecimento chega a um limite e por mais que choques de informação possam fazer brotar nova informação, a menos que haja interação com o que se origina  da fonte de OUTRA mente, você será eternamente uma criatura limitada. E taí minha dificuldade. 

Mas pulando essa conversa toda que já é de outra postagem e já tá me parecendo fiada, eu queria falar e se alguém tiver algo a acrescentar, eu queria ouvir também sobre essa questão do tempo:

Minha razão fica eternamente oscilante  entre "Feche um mundo e abra o próximo" e "Nada nunca morre", e na verdade eu tenho pensado que a "resposta", se é que isso existe é uma intercessão sutil (como todas as intercessões) entre ambos. Um tempo desses enquanto eu tentava resolver a equação do tempo, eu cheguei a conclusão (imatura e mutável, como todas as em que eu chego, graças a Deus) de que só existe o passado e isso eu vou explicar o por quê de estar dizendo aqui: O presente, nós sabemos, é imensurável. Esse negócio de "segundos" é uma convenção matemática para fins organizacionais então vamos cortando logo essa medida pela raiz. É impossível essa história de sentir o presente porque na verdade, se pensar bem, a partir do momento em que você nasce, só vai acontecendo uma série de coisas no passado na sua vida. A partir do momento em que algo acontece contigo, já tá no passado. E todos os prazeres que se sente, segundo eu tenho constatado, por mais que sejam imediatos são de coisas que ocorreram segundos atrás, no mínimo. Ou milésimos, sei lá. Até porque a nossa mente precisa traduzir o que acontece para que a razão nos permita sentir ou não prazer com isso. Só é prazer (ou dor) a partir do momento em que já aconteceu e teu cérebro traduz isso. O que te dá a sensação é a tradução, não a coisa. A mente precisa fazer isso: Entender se é bom ou não. Vem aí o mito do chocolate: Eu me pergunto, muitíssimas vezes se chocolate é mesmo bom. Tirando a historinha das endorfinas, eu tenho minhas dúvidas se o gosto, em si, é agradável. E aí já entra a história do que é culturalmente colocado nas nossas cabeças. É claro que todo mundo acha que chocolate é bom e às vezes é pelo fato de ter essa representação positiva na nossa cabeça que colocamos o chocolate na boca e nosso cérebro nos diz que é bom e sentimos prazer. Essa é só minha teoria. A questão que estou tentando demonstrar nesse exemplo, é que quando eu digo que só existe o passado, você poderia dizer: "Ah, mas e os sentidos? Você sente prazer e dor imediatamente, na sensação está se fazendo fato o presente, não é?". Bom, quanto à dor, nós já sabemos que é mais uma das armadilhas do nosso cérebro/sentidos e etc. Olha bem, vai me dizer que você nunca se cortou feio para passar um tempão para perceber que se cortou e só depois de perceber, sentir dor? Eu não digo que isso é absoluto, nada disso. Só quero demonstrar com esses dois exemplos prazer/dor pobrinhos que os sentidos não são tão sinceros quanto nós pensamos. Nada é. Sentimentos, sentidos, razão. E nem adianta colocar letrinhas e tentar fazer uma equação deles porque pelo menos eu não consigo visualizar uma amplitude matemática que seja incrível a ponto de abarcar tudo isso e chegar a um resultado.

Bom, daí voltamos à minha teoria de que só temos o passado "porque o presente é o passado passando e o futuro é uma conjectura  passada do que logo tornar-se-á ele", essa foi uma frase que disse mais ou menos desse jeito, no dia que eu tive esse insight - e que me pareceu fazer bem mais sentido no momento, afinal. 
Mas daí, meus caros, o problema é que essa ausência de medida real de tempo me deixa extremamente confusa. Eu vou dizer o que isso me faz sentir: Isso me faz sentir que cada momento (eu ia falando 'segundo', olha como as coisas são), cada momento X, momento TCHAN, sem uma medida de tempo, é uma eternidade que existe... para sempre. Entende? 

Olha, uma vez meu ex professor de filosofia disse a seguinte frase na sala "A vida é eterna em 5 minutos" e pediu para a gente analisar e dizer o que entendiamos dela. Isso faz um bocado de tempo e eu fiquei matutando um tempão até que cheguei a uma conclusão que não consegui colocar em palavras corretamente no dia e ainda hoje não consigo. Eu respondi a ele algo do tipo "Acredito que cada momento que existe, no momento que existe, passa a existir eternamente pelo simples fato de ter existido. Isso o torna eterno." - Essa ideia é a síntese do que eu coloquei aí encima em prolixas linhas. Daí o professor olhou para mim, riu e disse algo do tipo "Poético, mas não filosófico." - Eu não sei. Eu realmente não devo ter me expressado bem porque eu não tive a mínima intenção de ser poética e na verdade quando eu falei isso o que veio à minha cabeça foi um conceito mais físico do que de qualquer outra ordem. Ok, eu esperava não ter que fazer isso, mas acho que vou ter que revelar outra ideia minha que complementa isso e que certamente vai parecer viagem: Eu não sei nem entendo nem estudei nada sobre universos e dimensões paralelas, mas a simples falta de uma medida de tempo - e a impossibilidade de existência dessa devido ao simples caráter transitório do tempo me faz parecer lógico que a cada momento imensurável que existe, uma dimensão paralela é criada a partir dele. - Ok, antes de qualquer coisa, eu não estou alterada nem nada. Para me fazer mais clara eu teria que transportar você, leitor (provavelmente imaginário, porque duvido que alguém tenha resistido a essa altura da postagem), e te mostrar uma imagem que perfaz essa ideia porque palavras (como eu seeempre digo), mais uma vez são insuficientes. - Pronto, já sei: Você tem duas hipóteses: Ou há continuidade entre todos os eventos que existem ou não há. E ambas as hipóteses são inegáveis. Por que há continuidade? Porque nosso passado mais recente sempre é consequência do passado mais antigo. Porque tudo o que acontece é somente a sucessão LÓGICA de acontecimentos de acordo com o que já passou. Porque é isso que a gente chama de justiça natural, de lei da natureza, de "destino" até. Porque, meus caros, eu acredito que um matemático tão gênio que consiga utilizar sua capacidade de pensamento em 100% seria capaz de prever o "futuro". 
Isso porque todos os acontecimentos são variáveis. "Quer saber o que vai acontecer? Estude história." Tem uma frase mais ou menos assim, não é?
Olha, algumas pessoas me dizem que me acham perceptiva ou bem inteligente. É que eu tenho uma brincadeira com alguns amigos meus de dizer o que eles vão dizer antes deles dizerem num diálogo (só acerto algumas vezes, claro.). Mas eu não sou nem uma coisa nem outra e eu vou explicar o por quê disso: Eu entendi faz um tempo já que existe esse lance de matematizar as pessoas. E que todo mundo é como uma grande e complexa fórmula matemática que se divide em três níveis (segundo Freud.) Só que quando a gente tá no nível superficial e consciente, no meio de uma conversa, por exemplo, se você juntar os elementos da história recente daquela pessoa, com a personalidade aparente dela e o rumo que o diálogo está tomando torna-se inequívoco (em certas ocasiões) o que a pessoa vai te dizer a seguir. É só isso. 
Então, se eu que tenho uma capacidade mental mediana, um conhecimento limitado e uma percepção só "boa" consigo fazer isso (num nível extremamente superficial, lógico), imagine alguém  que estuda, sei lá, física quântica. Está entendendo o que eu quero dizer? 
Bom, de qualquer modo vamos voltar às duas hipóteses que nesse assunto aí da matematização a gente ingressa depois.
A segunda hipótese, de que não há continuidade, é consequência direta da primeira, por mais bizarro e mindfuck que isso possa parecer. A partir do ponto em que UM evento existe e repercute em outros eventos, esse UM evento é eterno em suas consequencias. Olha, nada jamais deixa de existir, jamais, porque nada passa em branco. Teoria  do Caos etc e tal, tu percebe que considerando que o universo, natureza, o que seja, é um equilíbrio entre tudo o que existe e não poderia ser diferente, qualquer diferença MÍNIMA vai ter a autonomia de interferir em todo o resto e por isso mesmo, em uma certa instância vai ser única, individual e fonte de uma outra dimensão própria. 
Então, o que acontece? Acontece que acho que no final das contas nada acaba, tudo se reinventa eternamente e esse negócio de "Fechar um mundo abrir o próximo" é extremamente relativo, porque, afinal, quem disse que o próximo mundo vai estar desvinculado do anterior? Se fosse assim, seria inviável, senão...Não haveria tempo, de fato - E eu não sei dizer se há mesmo ou não. Haveria só presentes, eternos, jamais passado. Jamais conjectura de futuro. Jamais história.

Bom, acho que eu vou ficando por aqui mesmo. Essa postagem deve ser a maior que eu já fiz e provavelmente a mais incoerente. Se eu não fosse tão preguiçosa e acomodada, seria fantástico estudar matemática, física, ciência e religião para conseguir dar um embasamento para todas essas minhas teorias meramente intuitivas e abertas e incompletas, como toda teoria deve ser. E isso porque não citei todas as outras ciências, porque não sei se já disse isso, mas acredito piamente que a ciência, de fato, é uma só e UNA. Mas deixemos esse assunto para outra postagem, porque já é uma outra história.
Só sei que no final das contas, por mais que eu divague, no final sempre fico com essa impressão de total incompletude de ideias. E aceitando alegremente companhia para realizar uma boa dialética (: 


Um beijo no olho e uma tulipa violeta para o leitor hipotético que terminou este post.


Bye.  

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"Por favor, não me venha com esse olhar de amor."

-Não, pare com isso. Tudo menos esses olhos.
Não me olhe com esses olhos assustadores. Não me olhe assim tão docemente.
Não faça menção de dizer aquela frase. Não respire ofegantemente só porque encostei minha boca na sua.
Por favor, não... Não enquanto meu coração é manchado.
Não enquanto fui eu quem plantei essa armadilha. Mas vê-lo cair tão absolutamente nela... Eu não tenho estômago para isso.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Meet me on the equinox



A primeira estrela despontou no extremo nórdico. Extremo sórdido.
Uma estrela apontou no extremo oriente. Apontou sua rota, extremamente quente. 
Golpes de luz, prismas de energia. A aurora boreal as envolveu; Véu de densa magia.
Talvez elas se encontrem.
Talvez no cair da noite da mais noturna das ruas elas se cruzem.
Talvez se vejam nuas. De preconceito e sujeira lunar estejam cruas.
Duas estrelas despontaram no inócuo infinito.
Será que elas se encontrarão
ou serão apenas delírio lírico?

domingo, 18 de setembro de 2011

Pequenos suicídios aleatórios

Justifique meus meios cruéis
por suas adoráveis finalidades
Do fogo ao fogo, uma ave de rapina
Beija-me no epitáfio da redenção
Me dê teu vinho, não me interessa o pão;
Nos embebeda com o amargo de teu açúcar
e derrama lágrimas de graxa, untadas com música.
Brindemos o veneno que jamais tomamos
Encarando o abismo que jamais escalamos
E daí faz-se fantasia, vivamos nessa maestra poesia:
A arte de criar.
(Onde tudo deu certo
e o amor foi um feto
que soubemos procriar)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Íntimo

Ainda ando pelas mesmas ruas de casas coloridas todo fim de manhã,
ainda escuto Bach em La menor em alguns dias chuvosos.
Sei que os caminhos não se cruzam depois de certo ponto 
e não importa o que diga, as gestalts, sim, meu caro, se fecham.
Mas eu não lido bem com mortes de gênero nenhum, muito menos com as minhas
Tenho medo dessa cidade, ovo dilatando em expansão negativa.
Tenho medo das loucuras delicadas e cada vez mais sui generis que vejo pelas pessoas dessa vida.
Estou cansada numa proporção ilógica ao meu coração e ao meu tempo de existência.
Estou exausta de resistir numa ferrenha batalha automática chamada desistência.
Ainda vejo o coelho na lua e fico esperando o sol nascer.
Ainda me arrepio ao passar pela tua rua e confundo transeuntes com você.
Ainda sorrio por piadas bobas e gosto de olhar nos olhos das pessoas;
E passo pela biblioteca Municipal toda tarde e fico tensa quando o sino das seis horas soa.
Ainda penso em futuros impossíveis toda hora de dormir.
Ainda amo as pessoas sem motivo nenhum e isso acaba comigo.
Ainda penso em você,
e te desejo todo o amor dessa vida.
Sou um caso perdido.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A visão do Hotel Panorama é medonha. (Ou "Conto sobre um menino-demônio.)

Os lábios inchados e rachados de mordidas. As mãos finas de veias saltadas. Droga e também substâncias químicas, que mais? Minha camiseta florida porque talvez seja a mais cínica em tuas mãos quentes, extremamente assim. Entra uma luz estranha pela janela, entra uma luz multi colorida entre cortinas anil. E daí mãos e pés e lábios e calores e não há absolutamente nada de erótico nisso, é necessário ressaltar . Teu corpo de menino andrógino, olhos grandes, olhos mortos, olhos de ancião sarcástico. Gosto dos lençóis. Curto teus lençóis alucinógenos como curto você. - E por isso mesmo encurto minha estadia, por um pavio também curto que já já vai apagar, logo após acender. Não importa, nada importa. Te vi 3 mil anos atrás, semana passada, numa noite onde tudo anunciava a tragédia num gramado daquele lugar de gente profana. Fumava e sorria, olhava para baixo, olhava para o nada. - Sabia. Eu, claro. Tu já não sabia de nada e isso te trazia imensa sabedoria. Intensamente sensorial do começo ao trágico e previsível fim. E naquela noite tosca, naquela noite prima olhei o céu e a lua zombou de mim ao me dar o vislumbre inicial do começo, meio e - De certo modo, portanto, ao te ver com teus amigos fumando enquanto eu, espectro no lugar errado, na hora errada, seguindo fielmente o que ditaram as linhas do tal destino, eu, então, de certo modo, naquele simplesmente trágico ou obviamente banal momento, já me vi deitada numa cama que não era minha num quarto que não era meu, cuspindo o horror do meu corpo ao lado do teu. Gosto de tocar a ferida, de tocar em frente a banda do desatino. E foi assim que toquei aquele formigueiro, despertei o que já sabia que era vil, e que vil viria como uma tempestada de peste, como uma maldição enfim. Toquei o prisma proibido ou seja lá como queira chamar. Vi em ti outros mais e em seguida veria em tantos a ti, como é natural. Toquei fantasmas, troquei fantasmas. Suspirei no teu ouvido - Lençóis molhados, alguns mosquitos, as cortinas absolutamente infames cobrindo aquela janela do Hotel acabado - suspirei no teu ouvido, gultural, inconsciente, comovido - Suspirei no teu ouvido:
"-Teus fantasmas te mandam lembranças."
Vi teu olhar de pavor e é importante ressaltar, meu amor, que também eu sou pavorosa. 

sábado, 27 de agosto de 2011

The boy who blocked his own shot - Letra e música.

Silêncio.
Você não diz nada, não me diz nada. Não percebo mais em teus olhos o impulso de tentar me ferir, se proteger ou projetar qualquer sentimento em mim. Estão vazios e opacos e nem cheios das lembranças parecem, embora eu saiba que foram elas que os deixaram assim.
Isso acaba comigo, me desespera. Digo uma, digo outra vez. Exploro feridas antigas, uso das palavras com a destreza cruel com a qual fui ensinado. Nada, nenhum efeito, reação. Só um pouco mais de vazio, depois, enfim.
Desespero.
Pego sua mão, subitamente. Tento o efeito inverso. Meu orgulho começa a se apagar. Mas nem isso, meu Deus. Temo que algo, sua alma, seu espírito, essas coisas das quais você sempre falou e nas quais eu nunca acreditei, tenham morrido. Essas coisas, cujas existências são essenciais para minha sobrevivência - embora só perceba tudo isso agora - e que arduamente tentei destruir.
-O que eu posso fazer, o que eu posso te dar? Quer que eu vá embora, que eu fique?
Você não diz nada, não me diz nada. Dá de ombros, puxa o fôlego. Tenta ser gentil, mesmo na dor. Tenha ter reciprocidade, mesmo no vazio. Retribui os meus carinhos, mas quando encosta seus lábios nos meus uma lágrima escorre de seus olhos mortos, porque se viola ainda mais. Vejo o que sou para você: Vejo que me tornei um poço de tristeza, o grande estopim de todas as tuas dores. Não posso mais te dar nada, percebo. Nada.
Pela primeira vez na vida, talvez, tento pensar no que você precisa em vez de no que eu quero. De repente me pergunto, afoito, como se uma venda tivesse acabado de ser tirada de meus olhos, como/por que não pensei nisso antes. E percebo, em aflição, que foi isso que você fez o tempo todo. E que ainda faz agora.
Frágil e doce, mesmo na amargura. Seus olhos são bondosos e seus finos braços pálidos me abraçam com compaixão. Seu corpo todo tão frágil, sua doce alma tão imensamente forte. Destruída pela única força maldita que poderia tê-lo feito. Te olho, te gravo, te tatuo. Jamais te esqueço. Parto. – Porque é a única coisa a fazer por ti agora.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Crash into me - Dave Matthews Band (Essencial, por favor.)

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Era simples e geralmente chovia bem no meio da tarde, às 16h.
Ela morava num lugar pequeno que tinha uma janela de tela furada para um corredor tosco e o céu branco. Sua cama era o melhor lugar do mundo e ela nem imaginava que tudo que a rodeava tinha o inequívoco aroma de sua frágil existência.
Ela já começava a conhecer as coisas belas e tristes, a doçura, o céu à noite e a importância dos olhares. Havia um ou dois apanhadores de sonho por seu quarto porque à noite, às vezes, fantasmas que nunca tinha conhecido lhe visitavam, mas há também quem diga que vezenquando um ou outro anjo mal beijava seus lábios durante o sono.

Ela gostava de vê-lo entrar sorrindo, com os cabelos molhados de quando a chuva estava no começo.
Te adocicar, te amaciar - era complexamente fácil embalá-lo numa melodia muito natural com gosto de infância e outras iguarias tais.
Às 16h o céu chuvoso é magnífico, repare bem.
Não era muito diferente de passar a tarde em casa, na infância, tomando o picolé do carrinho que apitava todos os dias pela rua e sorrindo por coisas que lhe eram inocentemente e genuinamente engraçadas, na época.
Não era muito diferente do vento frio que entrava de supetão pela janela, anunciando o começo de chuva e embora frio era sutil, e era doce e formava uma atmosfera de sonho no quarto com o lustre antigo às 16h da tarde, de qualquer tarde qualquer.
Não era muito diferente de não precisar forçar sorrisos ou piadas, bagunçar os cabelos castanhos e quase longos dele e fazê-lo sorrir também sem nenhuma intenção disso.
Era simples deitar naquela cama com cheiro de tudo que um dia já foi seguro, com ele, com a música baixinha vindo do rádio e o vento levemente frio os envolvendo e muitas vezes sem toques, muitas vezes sem nudez nem nada do gênero e sorrir e brincar de palavras ou músicas  e olhares e amor ou algo que o valha e dormir e sonhar um com o outro e por causa disso, de tudo isso, acordarem felizes, totalmente felizes, sem sequer terem consciência disso.
Era simples como o rebentar de uma pequena mas refrescante onda na praia durante a chuva do meio da tarde, porque dizem que não existe nada mais doce do que o céu chuvoso às 16h, se você quer saber.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Para não dizer que não falei do feeling.

Então preste atenção: Nunca amor, isso é bobagem. Eu ainda não encontrei um bom motivo para ingressar nisso porque apesar de tudo as porradas que a gente leva não satisfazem e os benefícios que nos acometem anestesiam uma parte muito intensa e viva e importante da gente e veja bem, você nunca pode ter um só foco porque isso te destrói e te limita. É conversa-fiada esse negócio de ter só um foco porque nenhuma ciência é una, todas se complementam, você sabe, e a menos que você esteja desprendido o suficiente de cada coisa para apreciar todas ao menos um pouco, você vai estar tão profundamente dentro que vai perder a sublime capacidade de ver de fora. Por isso que em dias assim em que o céu está magnífico eu imagino que talvez não tenha sido criada para amar, ao menos romanticamente e individualmente, como vocês falam, porque todas as vezes em que me enquadrei neste conceito estranho, morri mais que vivi e tentava fervorosamente me convencer de que estava viva. Uma vez tendo aceitado essa condição meio nômade meio cigana meio raposa eu finalmente me sinto amando de tudo um pouco do fundo do meu coração, esse órgão sangrento que é grande demais para caber em um só par de mãos.

sábado, 6 de agosto de 2011

Fluxograma resenhado de Pensamento (Ou “A preguiça e etc.”)

Esse é um texto longo e maçante. Só comece a ler se estiver com muito saco.


Engraçado. Toda e qualquer linha de raciocínio na qual me atrevo a ingressar com mais profundidade do que o habitual, finda por me levar à consciência de minha total e absoluta ignorância sobre a grande maioria das coisas. É tão desesperador ser cônscia das minhas próprias barreiras limitadoras. Vejo muitas coisas: Vejo ego, vejo medo, vejo covardia, vejo preguiça. Talvez seja a maior de todas as covardias, a própria preguiça. Estar ciente da capacidade de ser capaz e ainda assim ignorá-la. A acomodação parece, de certo modo, ser SIM o caminho natural das coisas. Nós, como fomos criados, parecemos ter sido primariamente colocados numa esteira inútil. Postos num caminho quase autocondutor, sendo guiados pelo amigo tempo de certo modo que só passamos pelas vitrines dos elementos, nunca descendo da esteira para aprofundarmo-nos nas lojas (com o devido perdão pela comparação cretina); Desse modo somos “levados a levar” uma vida medíocre e superficial cujo destino é nada menos que a morte – Uma experiência que com a subjetividade limitada que desenvolvemos, é provável que nem sejamos capazes de apreciar. Mas a culpa, amiguinhos, não é do “sistema” não. Não é da mídia, do governo ou dos cambal de bodes expiatórios que é de praxe usarmos. A culpa é nossa porque a gente é máquina porque a gente gosta de ser máquina. É mais fácil, não traz maiores indagações e ainda por cima, se você manejar direitinho, nos faz sentirmo-nos produtivos. Triple bonus. Acontece que, no final das contas, é tenso pensar. É extremamente angustiante viver confrontando a realidade – Cansa. É como forçar um limite invisível, uma barreira impensável. Principalmente quando, ora, existe uma alternativa tão mais fácil. É como tentar estudar matemática para a prova do dia seguinte enquanto se está com sono. E o sono vai aumentando à medida que você tenta estudar, esse sacana. É de propósito, parece. Aposto que se você não tivesse prova, ia estar ligadão jogando videogame até de madrugada. Agora me pergunto: Por que eles fazem isso? O cérebro, a mente? Por que não querem que a gente estude matemática, por que não querem que a gente pense? Me deixam abismada as armadilhas cretinas nas quais nos metem. Quando você menos percebe, lá está você julgando alguém por causa de uma roupa, fechando um livro de filosofia porque “é complicado”, gastando seus dias/anos/vida(s) em uma série de movimentos físicos e mentais extremamente padronizados. Mas engraçado também é que parece que de alguma forma, em alguma instância, não satisfaz. Parece existir uma criatividade inerente, pulsante, que como a gente não usa, se manifesta de outras formas, força saída (Ao menos a porção dela que não se atrofiou.). Daí nascem as mais variadas idiotices, porque se tem algo babaca é o resultado de uma criatividade mal canalizada. Daí nascem os draminhas, os joguinhos, toda aquela movimentação desnecessária em aspectos (semi) irrelevantes da vida que fazemos para nos sentirmos vivendo-a! Porque aí fica uma equação legal. Fácil, não? Você não tem trabalho pensando nas coisas “grandes” (que na verdade são naturalmente  simples) e exercita o... (Sei lá que palavra recebe isso), bom, exercita alguma coisa aí nessas pequenas atividades tolas. E daí? Daí nada, como sempre. Sempre concluo assim: Daí nada. Porque por mais que eu fale aqui, “tô nessas”, meu amigo. E tenho bastante certeza de como daqui para a meia noite, vou arrumar algo idiota com o que me ocupar também.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"I have never fail to fail."

Eu tentei ser doce
Eu tentei ser viva
Eu tentei ser luz
e apaguei em seguida.

Não me dê nada,
não quero nada nada.
Teu amor que seduz
me adoece a ferida
minha ferida é tão doce
chocolate, a querida.


De nada serei refém.
De ninguém serei a vaidade;
A nada direi amém,
A ninguém cantarei saudade.

A nada entregarei meu bem
Minha amada tranquilidade
Veja bem,
depois de tanta insanidade -
Já cansei.
Sem rimas, liberdade.





(Tô cansando desse blog, meus bens. Sinto que ele chega a seus momentos finais...)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O meu refrigerador voltou a funcionar

Outra variação de derrota,
Te conduzo pelo zíper dos meus lábios
Tente acompanhar essa linha de pensamentos doentia
E pelas rotas do riso cínico me fazer companhia
Ou vá lá, mas vamos cá
Só, por favor, não me venha chorar.

Pega um punhado de preces e outro de promessas
Meio fio, por um fino, tô nessas.
E te deixar de olhos rotos em poesia
Eu vou te dar o nascer do sol ao meio dia

Tua energia trágica nas tuas costas embriaga
E traço nelas com meus dedos essa linha curvilínea
Abre esses lábios, bafora em mim tua fumaça e traga.
Traz o corpo, traz a alma, quero ao menos ser faminta
Mas nada, beijo ou tato, descongela essa menina.

Acode aqui alguém, por favor.
Aquece, esquenta. Sei lá, ao menos tenta.
Alguém precisa fazer alguma coisa, porque desculpa, Mutantes, por desparafrasear*,
Mas é que meu refrigerador voltou a funcionar.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Te encontro na Madre Vilac

Acende o esqueiro. Apaga o esqueiro. Acende, apaga.
Para com esse barulho, cara.
Era noite, claro. Naquele cruzamento enfim. A avenida era estranha para quem passava, que não se passasse por aí a essa hora, garoto, mas era familiar a ele. Aquela era sua vida. Ele olhava entediado enquanto os outros fumavam, brincavam. Um dia foi interessante, era ele ali, mas agora carregava uma certa tranquilidade, mesmo depois de tão pouco tempo. O novo era interessante, o costume desgasta. Daí, assim. Não era ruim não, só de praxe. E aquele dia estava um pouco apreenssivo. Será que não devia algo acontecer, devia?
O que você tá fazendo aí cara, vamo puxar uma. Olhou de lado. Ia chegar em casa muito, muito tarde de novo. Quer dizer, cedo. Da manhã. Lembrou quando a velha dizia alguma coisa ainda, agora nem um pouco. Sentia até falta às vezes. Era tão fácil já.
-Você tá bem, Thales?
Perguntou a menina.
Ele olhou de lado. Uhum, assim com a cabeça. Tinha alguma coisa o puxando para trás. Estavam no meio fio, bem no meio da Avenida e ele a viu: Aquela rua era estranha para o diabo, uma ruazinha assim, o chamando. Dava para ver dali aquela rua estranha, mais estranha que essa Avenida ainda, entrando pelo um  bequinho, umas casas em que talvez nem houvesse ninguém e que pareciam ter um quê de antigas. Rua Madre Vilac.
Pulou dos entulhos sobre onde estava sentado.
-Vai pra onde, Thales?
Perguntou o primo.
Ele não respondeu, nem precisava. O outro estava chapado mesmo e ele só...Parou no caminho, tenho nada a fazer nessa rua não.
Vou pra casa. Mas por quê, são nem 5, tem nem sol ainda. Eu vou porque, sei lá. Saiu. Odiava se explicar.
Chegou em casa e dormiu com a mesma roupa, o sino da igreja tocando 5 horas, que estranho ele achava que só tocava às 6. Pegou no sono, sonhando com a Madre Vilac.

Pela manhã, a escola. Tedioso, automático. Não acabava nunca essa escola, se bem que sabia que quando acabasse talvez fosse pior, ou não. "Tanto faz". Tinha sonhado e era importante, mas o que era?
O que era, o que era? Se perguntava enquanto seguia para casa, seguido pela menina. O cabelo desarrumado, a mochila jogada sobre os ombros, ah Thales costumava ser um menino tão bom... Daí passou pela Avenida. Tchau, você dobra aqui, né? É, vem hoje à noite? Claro, provavelmente, todo dia, não?
Daí olhou de lado, cadê a ruazinha? A Madre Vilac? Diabos, não identificava. Olhou pelo quarteirão, uma entrada, outra. Nada do bequinho. Devia ser muito diferente à luz do dia. Continuou seguindo pelo meio fio, sempre o meio fio, afinal, né.

Os grilos começavam a cantar quando o celular vibrou
"Vem não?"
Bem na hora que a mãe passou pelo quarto com a porta aberta e até olhou com um espanto:
-Não vai sair hoje, Thales?
Olhou de lado, aborrecido. Era tão incomum assim?
Mas não queria ir para a Avenida não, quer dizer, queria, intensamente. Praticamente sentia-se puxado até lá hoje, especificamente. Mas aquela apreenssão...Não queria, então.
-Vou sim.
Claro que para ele sempre funcionava a lei dos contrários.
Mas quando chegou na Avenida, não tinha ninguém. Checou o celular. Uma festinha, em algum lugar. Imaginou o cenário, álcool, drogas, sexo... Uma típica comemoração grega...Em nada o atraiu. O que estava havendo? Virou de lado. Lá estava ela.
Eu lembrei o que sonhei, lembrei que sonhei com uma cartomante.
Ela tirava-lhe as cartas e sorria um riso de gato sinistro. Seu nome era Madre Vilac. Ou o nome da carta era Madre Vilac. Um arrepio atravessou seu corpo moço. Riu. Que besteira. Não era supertiscioso, nem um pouco. Era tudo besteira, coisa que sua irmã mais nova ficava vendo em revista. E ria cada vez mais forçado, enquanto atravessava a avenida.
Pisou na calçada com seu tênis gasto. A entrada da rua à sua frente o encarava. A plaquinha já velha com
o "Madre" quase apagado. Parecia mais escura ainda, mas sozinha ainda, mais encantada ainda. Olhou de lado, para o caminho que levava à sua casa. Olhou para frente.
Agora ouça bem que essa é uma lição para a vida: Sempre há uma bifurcação, sempre.
Thales sorriu, olhou para baixo, acendeu um cigarro. Teve a impressão de ver uma moça nas profundezas daquela rua e sacodiu a cabeça. Voltou-se para o lado e deu um passo em direção à sua casa.
Mas para Thales, como eu disse, sempre funcionava a lei dos contrários.
Ele girou nos calcanhares e entrou na Rua Madre Vilac.
Mas é claro que ele nunca voltou.

sábado, 9 de julho de 2011

No jardim do bem e do mal.

-Desculpe, minha amiga, mas assim não dá.
-Mas. Portanto. Porém?
Ela sempre pediu mais, jamais menos; Ela sempre foi mais que menos e no entanto quem disse que basta, porque não sei se você sabe, mas de presença também se faz ausência. E ela queria tanto, portanto, queria todo e de tantos, de todos queria tudo.
-Não faça assim. Te olhando, me vejo tão ancião! Do alto de meus vinte e poucos anos, te vejo repetindo meus erros e plantando o motivo de suas preces futuras, que já não tardam tanto.
-Eu esnobei esse crucifixo. Esnobei ter um endereço fixo e suas raízes joguei no lixo.
Mas, portanto, porém...
-Você dizia que não amava apesar de, e sim por causa de, mas você dizia isso para todos que você amava e você amava tantos e o problema, minha cara Madalena, é que todos, todos, todos eram amáveis. Não era o que você dizia? "Sempre vale a pena"?
Mas veja só o quão penosa foi a tal pena.
Agora não adianta, não adianta vir aqui nesse pôr de sol, porque todos com quem você conversar serão fantasmas. Serão lembranças.
Marcadas em brasa na sua carne de criança.
-E você sempre, sempre, sempre foi uma criança.
O problema é que você nunca entendeu
Que um adulto é só uma criança que já cresceu.
E daí que você ficou aí. Esperando, esperando. E enquanto você esperava, a gente foi andando.
-E agora, a gente faz o quê?
A gente não faz nada, a gente senta e lamenta. Quer dizer, eu lamento, você eu não sei. Quem sabe você não tenta?
-Eu lamento porque o sol está se pondo e não tem nada, nada, nada que a gente possa fazer. São quase dezoito horas e esse tom assim meio laranja com azul e às vezes rosa coral só faz a gente lamentar, minha amiga e adversária.
E independentemente de tudo, apesar de tudo e porquantos todos, você é infinitamente amável e eu gosto muito, muito, muito de você.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Menininho - A improvável (e breve) continuação

(Este pequeno texto já tem um par de meses, mas eu estive protelando publicá-lo por aqueles receios bestas dos quais vocês já sabem. No entanto, estou sem coisas novas, então aqui vai)


Ah, meu menininho.
Cá estamos nós novamente.
E o tempo, este coringa vadio.
Olha só o que ele fez com a gente!

Seus lábios estão mais doces;
Sua fúria agora jaz ausente.
Mas meus olhos já não vêem cores;
Neste torpe carinho que sentes.

Seus olhos são petróleo vazio;
E sua cabeleira ainda assanhada.
Escolho "Adeus", meu anjo sombrio.
Nos revemos na madrugada.

domingo, 19 de junho de 2011

Poderia sair melhor, mas sairá assim mesmo.

É triste ver como vocês me deixaram com medo.
De ser quem eu era, de ser quem eu sou.
Vocês me meteram medo sem eu nem perceber.
Com aquele olhar atravessado, com o riso e o comentário;
Com a possibilidade do pensamento, com as hipóteses e as teorias.
Vocês me deixaram com medo quando me chamaram de quente e me deixaram com medo quando me chamaram de fria.
Me fizeram temer entre ambos os extremos da temperatura, que
foi onde e somente onde eu sempre consegui estar; E o fizeram tão
intensamente que eu acabei me colocando no morno,
me equilibrando no neutro; No "nada a declarar".
Unica e somente por medo do que vocês poderiam pensar
Mas a culpa, no fundo, não é de vocês. É minha que deixei sangrar mais do que devia; As cicatrizes que antes eu tão bem costurava.
E o sangue afrouxou os laços de proteção que me seguravam;
Que me mantinham ilesa em mim mesma na tempestade;
Que não se preocupavam com quem ou quantos questionavam minha sanidade.
Eu não quero mais ser morna e não quero mais ser medrosa.
E definitivamente não quero mais ser um produto do que vocês podem pensar.
Tomem suas pranchetas; À postos com suas canetas!
Porque a partir de agora, o de antes está de volta
e não importa o que irão anotar.




(À propósito, eu retirei a moderação de comentários.
Comentem o que quiserem, benzinhos.
)

sábado, 18 de junho de 2011

"Vamos fingir que nunca partimos."

Inspirado por 'Breve' de 'Pouca Vogal'  [Escutem, se puderem.])

O despertador toca. Ela tira as mãos de baixo das cobertas com esforço e o abate. Adia o momento de abrir os olhos o máximo possível enquanto procura em algum lugar ao seu lado o corpo familiar.
Permite-se um rápido vislumbre da nuca pálida e os cabelos bagunçados pelo sono e levanta, reconhecendo pelo tique taque agoniante do relógio que já está mais que na hora de acordar.

Toma um banho rápido e quente, porque o clima que entra pelas janelas está congelante. Quando sai do boxe de toalha, sorri ao ver um recado feito no vapor do espelho do banheiro.

Na cozinha, ela coloca a chaleira para trabalhar. É claro que o café da manhã está em pacotinhos no armário. Ela nunca soube cozinhar e embora sempre achasse que por volta de seus vinte e tantos anos já teria aprendido, nunca  isso aconteceu e já começava a se conformar que jamais iria.

A grande janela da cozinha lhe permite uma visão panorâmica da segunda feira nublada. Escuta o som do quarto ligar seguido do barulho de água caindo do chuveiro e um arrepio estranho passa por seu corpo quando tira as chinelas e seus pés tocam o chão gelado. Por um momento tudo parece estranhamente surreal, mas ela sacode a cabeça e serve as xícaras de café.

Está perto de ficar atrasada e enquanto coloca o blazer, sente os dois braços ainda molhados a envolvendo por trás. Ela sorri e reclama que ele a está molhando. Ele não liga e a arrasta novamente para a cama.

Às 18h, o alarme da usina toca indicando que é hora de fim de turno. Do lado oposto da cidade, ela desce as escadas do escritório falando com a mãe pelo celular, e pega  o carro para encontrar duas amigas do tempo de faculdade num cineminha que inaugurou no subúrbio.
Elas riem de besteiras e histórias antigas e quando o filme começa ela percebe que nem reparou no título.

Os minutos passam e quando ela resolve prestar atenção, repara no que parece ser o clímax dramático. Nessa cena um garoto e uma garota jovens se encaram com tristeza e raiva, e por não saberem direito o que dizer, dizem "Adeus". Uma sensação muito estranha se acomoda na boca de seu estômago e ela diz que vai sair para tomar um ar porque na verdade ela começa a sentir vontade de vomitar.

Ela espera que a visão de começo de noite lhe acalme, mas de repente a rua do cinema lhe parece igualmente ameaçadora e uma estranha nostalgia parece querer forçar-se em sua mente. Tem a impressão de que tem algo a se lembrar daquela rua, e o impulso que todas essas sensações de estranheza  lhe dão é o de ligar para ele, pois ela sente que tem que confirmar alguma coisa, conferir algo essencial.
Mas quando ela liga, ele não atende.
Manda um torpedo se desculpando para as amigas e pega o carro para casa, reconhecendo que tem algo muito errado acontecendo.

Embora o normal fosse que àquele horário ele ainda estivesse no trabalho ou em sua própria casa, é ele que quem abre a porta quando ela começava a girar a chave e a olha confuso quando percebe seu olhar de nervosismo.

Ela solta um grande suspiro de alívio o abraçando, e todas as sensações estranhas se dissipam. Quando ele a pergunta o que houve, nem ela mesma sabe responder e começa a se perguntar o que diabos tinha acontecido consigo para ter se comportado daquele jeito. Ele a leva para o sofá e começa a  falar sobre o seu dia. Abrem uma garrafa de vinho cuja familiaridade que o rótulo lhe provoca ela também resolve ignorar, e no decorrer da noite ela adormece ainda com a roupa do trabalho em seu ombro.


O despertador toca. Ela abre os olhos num susto, o coração à mil.
Olha de lado e os fecha novamente, num suspiro.
É claro que nada disso nunca aconteceu.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Modus operandi

Eu escrevo mentiras para mim mesma. Eu escrevo mentiras tão bonitas.
Eu escrevo mentiras de amor. Eu escrevo mentiras de vida.
Eu enfeito o que é tosco, e acentuo o que é bonito.
Eu poetizo o que é roto, e eufemismo teu egoísmo.
De uma estrutura côncova, faço um arco; Do inevitável faço trágico.
Bebo na fonte da minha própria visão, e tomo por reais tuas flores de plástico.
Nada disso é pessoal. É pura literatura, baby.
Qualquer palavra é sempre banal, não resiste às mudanças de quem a escreve.
Eu escrevo mentiras para mim mesma. Eu sou minha maior traiçoeira.
Mas para vocês, só escrevo verdades; Não julgue o arco pelo destino da flecha.
Literariamente falando, até amo. Mas sou infidelíssima, pode crer.
Se for esteticamente coerente, no segundo seguinte posso não mais te querer.

(Guardo meus eufemismos e exclamações na manga
como temperos para nossa exaustiva dança.)

O texto que não deveria ser escrito.

Você olha para baixo, para o relógio e eu sei: Estou te irritando. Toco sua nuca, dou aquele sorriso sem jeito de quando admito meu próprio erro; E te vejo ceder novamente, mas já não tão flexível. Mais tarde, longe de tudo, longe do seu aroma amadeirado, eu finalmente sei que sei o que estou fazendo. E daí, de repente, vem aquele desespero estranho, aquele desespero mudo. Porque eu percebo, assim, simples como quem percebe a luz ambiente, que não posso te perder. Estive te afastando com todas as células do meu corpo desde que tudo isso (re)começou, e faço isso sem perceber e sem saber o por quê, sem conscientemente estar ciente
do medo causador de todos esses males. Mas daí, agora, nessa hora, onde só a escuridão ilumina meus pensamentos, percebo assustada, petrificada, que eu realmente não quero perder isso. Isso... Suas piadas ruins e sua boca zombeteira. Suas mãos congelantes e suadas de carinhos sutis e discretos. Seu senso de humor distorcido e a extravagante megalomania de seus pensamentos. Seus olhos escuros, olhos fundos, duas poças de petróleo que eu não consigo encarar por muito tempo porque elas me empurram. E todos os pensamentos que essa combinação estranha e perigosa traz me irritam. Me irritam porque eu percebo que já caí nessa armadilha não foi hoje nem há alguns meses e sim desde o primeiro momento do primeiro dia em que nos descobrimos. E me irritam ainda mais porque me dou conta, novamente, do simples e absoluto fato de que com você eu jamais consigo vencer. Seja nas notas, no xadrez ou no amor, você está sempre me derrotando. Me derrotou anos atrás e me derrotou agora, onde me rendo escrevendo um texto que me jurei jamais escrever quando jurei jamais escrever novamente sobre você (e que, pelos céus, espero que você nunca leia). Mas principalmente, me derrotou naquele momento, onde com a mão sob o coração acelerado
e uma bandeira branca hasteada nele, fechei os olhos, e constatei o inegável e aterrorizante:
"-Ah, de novo não..."

terça-feira, 24 de maio de 2011

Para uma amiga querida, com o maior carinho possível.

Abriu os olhos. A cor do céu através de sua janela era de laranja fogo flamejante.
Tudo ao seu redor irradiava calor. A música que tocava em seus tímpanos era um rock 'n roll doce, melódico e aterrorizante. Seu coração pulsava forte, forte e quase sentia o sangue banhando todos os tecidos de seu
corpo várias vezes por minuto. Ele, seu coração, ela viu no espelho, estava intacto. As fibras se abraçavam, mais fortes que nunca, mais fortes que tudo. Seu escarlate intenso e altamente vivo impedia que se imaginasse que já houveram lá grandes buracos, um dia.

Lá fora, o mundo era a catástrofe. E esse catastrófico caos a alimentava. Elevava sua energia, aumentava sua força. Aguçava seu olhar, sensibilizava seu odor, impulsionava sua mente. Sua mente, esse eterno animal selvagem e faminto. Queria mais o tempo todo, mesmo quando muito recebia: Mais informação, mais conhecimento, mais poder, mais do doce gosto da vitória que atrai novos desafios.

O crucifixo em seu pescoço era uma promessa e uma piada. O tocou com seus dedos finos, finos demais e sorriu sutilmente para seu amigo há tanto tempo visitado. Haveria um acerto de contas, estava certa, e aquela Cruz como uma vigia em seu colo recolhia todos seus pecados de amor para o dia do balanço final. Mas, por enquanto, ele que esperasse. Estava vivendo.

O quarto ao seu redor parecia estranho porque o dia de ontem tinha sido há 10.000 anos atrás e o hoje era completamente fascinante e isento de suas feridas, não obstante, equipado de seus ensinamentos. Sua mente trabalhava rápido enquanto o mundo ao redor a esperava entrar, mas sem nunca parar. Porque não pára e não pára nunca, estando ela quebrada ou inteira. Então por que, pelos Céus, ela teria motivo para se abster da extrema satisfação de ser forte nesse mundo?

domingo, 15 de maio de 2011

She delays

Ela atrasa. Ela atrasa no gesto e atrasa na ação. Ela adia a palavra na esperança vã de que tenha efeito. Ela adia a desistência, resistindo na resistência. Ela atrasa o ponto final, se enchendo de reticências. Ela continua tomando doses, esperando sentir a diferença. Ela atrasa o próximo gole, minando as próprias defesas. Ela atrasa o momento, a atencipação antes do beijo. Ela o atrasa tanto, que quando vem, vem sem efeito. Ela não se importa de chegar por último, por isso atrasa na corrida. Ela adia o ponto de chegada só para continuar a ouvir a torcida.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Munique

Munique acordou com o badalar dos sinos da 6 horas. A grande janela trincada do quarto velho trazia a visão daquele céu cinza. Cinza e pesado. Era cinza, mas não era um céu de algodão. Algum dia, talvez,
tivesse sido. Mas hoje não. Hoje era só uma ameaça de chuva.
Ela olhou para o corpo ao seu lado e imaginou que não significava nada, nada, nada. Ela fitou o rosto de homem. O sorriso zombateiro mesmo enquanto dormia. Pegou o travesseiro com as duas mãos e o aproximou do rosto daquele corpo. Poderia sufocá-lo. Por um momento, até imaginou os braços dele a se debaterem quando atingisse a consciência da morte iminente. Mas nem isso.
Nem essa ideia a empolgou, a excitou. Munique soltou o travesseiro. Aquele corpo não valia nem a morte.
Munique não tinha mãe e não tinha pai. Filha da noite e filha do dia, ela colecionava defuntos que ainda não tinham morrido. Munique partiu. Deixou aquele corpo, aquele lugar que nunca seria lar e subiu num ônibus para voltar nunca mais. É que Munique também colecionava despedidas.
Despedidas mudas, amantes e promessas.
Antes de tudo e de todos que tinham dado aquela curvatura insana a seu lábio de ainda vinte e poucos anos, havia coisas que Munique queria. Munique queria ser cantora. Munique queria ir para Munique. Queria encontrar qualquer movito ou semente para si, para ser quem era, para seu nome; Qualquer motivo que não o nazismo de seus pais.
Enquanto partia, ao encarar a brancura funerária daquele céu defunto, regurgitou essa ideia de uma outra Munique que já não lhe pertencia. Isso era de praxe. Munique sempre regurgitava. O café da manhã, o gozo, as palavras e até a vida que uma vez cometeu o ingênuo equívoco de instalar-se em si.
A única coisa que Munique engolia eram as lágrimas. Na verdade, não lembrava da última vez que estas fizeram menção de sair.
Munique lembrava nitidamente do dia em que percebeu que estava mudando. Era um verão escandalte e com os pés descalços naquela areia branca e o pôr de sol laranja ofuscando sua vista, Munique percebeu que estava se tornando má. Teve também, naquele segundo eterno, aquele segundo em que as linhas invisíveis do futuro são fiadas, a consciência de que ainda havia volta. Aquele caminho que no segundo seguinte estaria lacrado ainda estava aberto; A primeira Munique ainda estava viva, ainda podia voltar. Se ela deixasse.
Mas não o fez.
Porque junto da consciência do demônio que instalava-se em si, Munique sentiu poder. Sentiu a excitação corrente da energia nova que de tantas dores boas a pouparia.
Acontece que, apesar ou por causa de tudo, Munique era má. Munique, com seus olhos azuis grandes e seu frágil corpo alvo de moça, não possuia arrependimentos. Não, isso não a incomodava.
E isso, meus caros, por mais assustador que pareça, é possível.

domingo, 3 de abril de 2011

Capítulo Final

Hoje eu tive um sonho.
Nele, a gente se abraçava com tanta força, com tanta força, que eu sentia meu corpo imerso em alguma substância mágica, simples e surreal. Isso mesmo.
Era um abraço mais pleno e com um amor mais forte do os que nossos
abraços reais jamais contiveram. Era um abraço de reencontro de uma saudade extrema que nunca existiu.
Era um abraço de felicidade.
E esse, meu bem, foi um sonho impossível.

O tempo passou, e com ele você mudou.
No entanto, eu tenho a impressão de que você seguiu um caminho inverso ao que deveria ser. Um caminho antinatural. Quando eu te conheci, você era uma folha em branco. Limpa, uma folha limpa. E extremamente pura.
Em meio às possibilidades a serem desenhadas nessa folha, havia uma bifurcação. Uma das ruas era clara, era leve, era viva em relação a tudo e todos. Nela, você via tudo como uma possibilidade. E por isso mesmo, era tão encantadora. Você parecia já ter um pé nessa rua. Com seus sorrisos mágicos e seu
olhar de dia tranquilo. No entanto, algo aconteceu. Alguma coisa aconteceu. Algum joguete
do tempo, destino ou das meras coincidências:
Você enveredou pela outra rua. E isso, eu demorei muito para perceber. Nesse outro caminho, que era mais pesado, inflexível e aparentemente seguro... Você era rei. Suas palavras eram as certas; Suas ideias, imutáveis. E você era o jovem mestre de um microuniverso que não aceitava interrupções. Interferências.
E nesse mundo eu te perdi.
Perdi, porque as substâncias em mim que eram estranhas a ti não entravam nesse mundo. Eram consideradas corpos estranhos e você mandou os seus anticorpos da frieza e da indiferência para combatê-las. E as atacou numa batalha tão árdua onde o golpe final foi a desistência.
Touché.
Talvez, na outra rua, meus antígenos não fossem um problema. Talvez, como antes, tudo se  misturasse - o meu e o seu mundo - formando uma coisa muito mais diferente, bizarra e principalmente, muito mais bonita.
No entanto, como no começo foi dito, o tempo passou.

Eu acho que, no final das contas, é como Oscar Wilde disse mesmo, e todos possuímos dentro de nós o céu e o inferno. Mas, por incrível que possa parecer, há quem prefira viver em um e também há quem prefira viver no outro.
Quanto a mim,
Boa sorte, adeus e amém.
Lidar com o amor morto é fácil.
Mas o que fazer com o amor que ainda não morreu?
O que fazer quando uma das pontas daquele laço ainda se debate,
reluta e resiste, sem nenhuma conformidade?
E quanto mais a gente pisa nela e pede que silencie de vez,
mais ela força seus pulmões já fracos, porém ainda cheios
de indignação, e agoniza lentamente?
O que fazer com essa ponta solta, essa ponta só, se a outra
extremidade desse laço já, há tanto tempo, descansa em paz?

quinta-feira, 31 de março de 2011

O vôo da quimera

Parecia simples, sem riscos e descomplicado.
Aberta foi uma porta da emoção por nada menos que a racionalidade.
E de dentro dela veio a disponibilidade, a intenção - De criar
tal formosa construção, que traria para esse furacão, quem sabe,
alguma tranquilidade.
Levou tempo, é verdade. Levou espaço e muitas dimensões a mais.
O cientista, assim, pegou aquilo que via como pedra bruta,
e adicionando tolerância e bravura,
criou e transmutou até formar-se uma figura
que poderia, então, ser amada.
A quimera estava, então, pronta. Uma criação cujos ingredientes
estavam somente na imaginação - daquele que tencionava amá-la.
Experiência esta, que resultou positiva.
O cientista apaixonou-se por sua quimera querida.
E tanto amor doou a ela, quanto esta precisava.
No entanto, um dia, a entrega foi demais.
A quimera passou a perceber ter poderes tais;
E o amor de seu cientista, antes fonte de água e vida;
Tornou-se uma substância rude. A quimera queria mais.
Desprendeu-se então de seus zelos, e com a força adquirida por estes,
farfalhou asas de substância nova,
e partiu para longe de seu criador;
Levando junto seu amor,
que agora, enojada, rejeitou
talvez por ter sido demais.

terça-feira, 22 de março de 2011

Anabella e o botão

Um "obrigada" à Débora, porque tenho quase certeza de que foi por causa de algum texto de seu blog que pensei no nome da personagem.



Anabella tinha uma blusa preferida que usava quase todos os dias. Era clara, cor de pôr do sol e ao mesmo tempo um pouco rosa. Eram cores que Anabella nunca pensou que gostaria, ou que quereria em si, mas mesmo assim, quando as vestiu, serviram perfeitamente.
Haviam cinco botões e um deles ficava à altura do coração. Era  de uma cor destoante, diferente. Mas pareceu encaixar-se perfeitamente à blusa de Anabella e deixar todo o conjunto mais harmônico.
Este botão puxava a costura da blusa de Anabella para o centro, deixava cada fio em seu lugar. Anabella temia que se aquele botão se soltasse, a blusa inteira seria prejudicada. Todos os dias, quando a vestia, Anabella olhava-se no espelho e pensava "Minha nossa. Ainda bem que tenho esse botão."
Um dia, Anabella tropeçou e feriu-se, e seu botão preferido descosturou-se da blusa. No começo, Anabella não percebeu. Estava tão acostumada com sua presença, que sentiu como se ele ainda estivesse consigo. Até porque a blusa continuava intacta.
Acontece que o botão não era tão vital assim. E os outros botões, de algum modo, amoldaram-se para não deixar a costura ruir, a blusa abrir, e sequer Anabella perceber.
Um dia, no entanto, Anabella percebeu que seu botão à altura do peito tinha descosturado. Por um momento extremo sentiu dor e medo intensos. Sua blusa preferida iria descosturar, e agora?
No entanto, quando analisou melhor, Anabella percebeu que há tempos seu botão tinha se soltado e ela não percebera. Então, percebeu também, que tinha mais medo da ideia de perdê-lo do que a perda em si. E uma vez que percebeu isso, Anabella sentiu-se bem. Ela agradeceu a seus outros botões por serem tão fortes, e terem fortificado-se com a ausência do botão do meio.
Anabella sorriu, então, e tão sincera foi a fonte daquele sorriso, que começou a nascer outro botão em seu peito.

Drogas alternativas.

O único contato ao qual eu me disponho com você é o abusivo.
Se você quiser me tragar, tudo bem.
Mas depois tem que me soltar em baforadas. Entende?
Aos poucos, vezenquando. Sem itinerários ou limitações.
Ao passo disso, estarei vez ou outra tomando overdoses de você;
Somente para enjoar - eventualmente vomitar -
e depois  de alguns tempos de desintoxicação, voltar a te chamar.
Você, digo agora e prometeria se eu fosse das que cumprisse -
poderá sempre vir aqui e derramar sobre mim uma ou dez palavras.
Poderá vir até com ódios, assim como irei a ti;
Poderá exigir mais de afeição do que eu posso dar - por vezes, somente -
e eu corresponderei, encontrando-a sei lá onde.
E as palavras poderão ser sem sentido, poderão ser nervosas
e até mordazes.
E os olhares poderão ser ressentidos, poderão ser demorados,
ou quem sabe fulgazes.
Agora, por favor,
só não venha me falar de amor.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Pequeno trechinho antigo para evitar que isto aqui crie mofo.

O que pensas que sabe,
Criança presunçosa.
Não sou mágica, nem trágica.
Tampouco tenebrosa.
Não te liguei na minha tomada,
Porque se tivesse, a descarga
Já teria feito uma tragédia
Daquelas bem horrorosas.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Não me levem tão à sério

Ah não, minhas crenças são todas deturpadas.
Hora acredito em tudo, hora não me convence nada.
Meus métodos são extremistas e nunca foram saudáveis. Não lembro de ter dito o contrário a ninguém.
Meus sorrisos são escassos porque os resguardo verdadeiros.
Eu sou toda incerta e a segurança que posso lhes dar é a sinceridade das minhas emoções e basta.
Eu nunca me atraí por pontos brilhantes ou por salvações óbvias.
Eu sempre tive esse problema crônico de não ter medo.
Eu não tenho inimigos mas eles acham que me tem. Haja paciência...
Eu me importo demais e de menos numa proporção ilógica e consecutiva.
E às vezes, sabem, aqui parece um lugar estranho;
E vocês todos parecem aliens;
E meu corpo parece um meio diverso de mim;
E eu sinto saudade de algo que nunca existiu.
E esses textos aqui, bom, eles não significam nada.
Decifrar-me por eles é em vão, pois representam um momento ínfimo;
Às vezes composto apenas de meros minutos e mais vezes ainda adocicados por conveniente ficção.
Não faça(m) drama com isso, meus benzinhos.
Se quiserem saber mesmo o que eu sinto,
não percam tempo tentando decifrar as minhas palavras
ou desvendar meus sinais.
Basta chegar bem perto,
E olhar em meus olhos.
O resto, acreditem, é banal.