sábado, 4 de fevereiro de 2012

Diálogos (V)

-Então qual o seu problema?
-Doçura.
Era a mentira mais obviamente deslavada, como de praxe.
-Doçura? E por que é um problema?
-Porque infelizmente eu vivo entre seres humanos. E seres humanos são idiotas, insensíveis e absurdos. Então eu tenho que me adaptar ao modo de sentir nojento deles.
Ela olhou de lado e ignorou o fato de quão humana soava aquela afirmativa cretina.
-E como você está fora isso?
-Fora isso eu estou. Somente. Me conformo com o fato de um dia para o outro as estrelas terem perdido as cores.
Isso era verdade, sob alguns ângulos.
-E o destino?
-Prossegue. Eu finalmente descobri minha alma gêmea antes de ontem num café na Rua da Liberdade. Nós nos olhamos por alguns momentos e soubemos que nós éramos nós, e eu peguei meu frapê e saí. Foi estupidamente desencantador aquele momento.
-E a saudade, você não sente? Do tempo antes?
-Eu sinto saudade do tempo que nunca existiu, porém que durante algum tempo antes da ruptura eu acreditava que existiria.
-Ruptura?
-É, a ruptura da mente. A que se dá naquele quase imperceptível aterrador momento em que seus olhos são abertos para a real cor das coisas a nova dimensão é adicionada pelos sentidos. A ruptura da alma, quando percebemos o absurdo irônico de seu conceito.
-Ah, entendo. Prossiga...
-Então, você já sentiu isso? Saudade do que nunca existiu?
-Bom, que eu saiba a gente só sente saudade do que nunca existiu. Da forma que nossa cabeça faz das coisas que na verdade não tiveram nada a ver com aquilo...
-É, eu sei, eu sei. A velha história da mente moldadora.
-É, isso mesmo. Até porque se você pensar bem a gente não vive o que ocorre, vive o filme da nossa cabeça que fazemos do que ocorre.
-We fuckin love the drama.
-Yes, we fuckin do.
-E o presente? Você, que gosta tanto de perguntar, por que não me responde essa?
-Que tem ele?
-Você não sente saudade dele? Se bem que...Imagino que você vá dizer que ele também não existe. Ou existe?
(Esperou a resposta e nada.)
-Alô?
Mais alguns minutos, nada. Chegou a bater no vidro de sua superfície, mas pelo resto da noite o espelho decidiu permanecer calado.

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