sexta-feira, 16 de março de 2012

Meet me on the equinox. (O conto.)




“Existem mais coisas entre um mundo e outro que nossa vã...”




Pisou naquela areia como se fosse nada. Chegou naquela praia como se fosse óbvio. Como se não pudesse ser de outra maneira. E lá ela o esperava. Seus pés faziam seus papéis afundando-se na areia clara, que recebia carícias da água negra. Em frente a eles, enfim, o horizonte escuro. As estrelas brancas eram a única iluminação para aqueles dois rostos pálidos que encaravam a escuridão infinita. Elas os observavam, assistiam a ironia dos acontecimentos (sobre-)humanos. São jocosas, as estrelas. Sempre fascinadas por nossa doce miséria. Sempre fascinantes. 

-Então é isso, não é?
 

-É. É isso.
 

Ela olhou para cima:
-Hoje Júpiter faz lua conosco. Conclui seu ciclo. Eu acho que hoje vai ser um dia importante.
 

-Hoje nunca aconteceu, agora que é importante... E você sequer acredita nessas coisas.
 

Ela sorriu:
-Eu acredito em tudo.
 

-E em nada.
 

Eles riram aquele riso de fim. Não de dia, mas de mundo. Amanhã seria outra vida, jamais saberiam. Ninguém podia imaginar que as respostas eram proibidas, que com elas viria o esquecimento. Agora, eles sabiam. Agora tudo parecia claro. Claro e calmo: a conformidade das mortes múltiplas.
 

 -Nada será sempre o mesmo depois de hoje. – Ela disse e o olhou, enquanto uma estrela se fazia cadente acima deles.

Ele tocou sua mão como se ainda fossem humanos, como se ela ainda fosse a menina de saia laranja e óculos redondos. (Parecia ter sido há tanto tempo atrás...)


-Nada nunca foi como antes. Nunca houve um antes.


-Não desde que você entrou no meu apartamento no primeiro dia de nossas verdadeiras vidas.


-E você abriu a porta esbaforida, sem fôlego por correr para atender a campainha. Antes daquele momento ainda era você, a menina de olhos grandes, antes de nossos olhos se baterem pela primeira vez. Antes daquilo ainda era tudo... – Parou de falar e sua mão pressionou a dela com um pouco mais de força.


Ela o olhou clemente, embora compartilhasse do resquício de angústia:
-Aquilo foi outra vida.


-É, foi. – Ele soltou o fôlego e sua mão, no momento em que uma rajada de frio o acalmou, o trazendo de volta para o todo ao qual agora pertenc(er)ia, tão distante do uni que outrora fora. Do corpo que outrora fora.


-Sabe. – Ela dizia com um sorriso no rosto. –Aqui foi assim, mas em outra dimensão nos conhecemos num café. Você passou por mim e foi aí que seus olhos me disseram.


Ele riu também, pois conhecia além dessa outras versões: 

- Sempre é diferente, mas o resultado é sempre igual.  E ao mesmo tempo é só aqui agora.

Ela não podia discordar, mas não fazia sentido concordar. Todas as palavras que proferiam, de fato, eram supérfluas e desnecessárias. Todas as palavras o foram desde o momento em que seus olhos fizeram a ponte. Em que seu corpo foi somente o meio. 
A malícia tornou-se inócua, a nudez natural. Poderiam andar nus se o mundo fosse seu país. E de fato era, de fato foi por um tempo, enquanto descobriam a verdade aos poucos sem terem ainda tornado-se estrelas. Quando ainda humanos, descobriam-se mutuamente, sem entender o reflexo e o espelho que eram. 
Nas tardes de chuva e sol e sorrisos sutis que cada vez os levavam para mais longe de seu contexto. Quando ainda humanos, aos poucos vítimas da mutação que seu encontro proporcionara, redescobriam o que adormecido em seus interiores os definia.
 

Mais uma rajada de vento frio.
 

Nesse momento mais três estrelas caíram e eles perceberam que se aproximava o momento:
 

Ela levou a mão esquerda ao seio, o desnudando. Ele compreendeu e fechou os olhos. Já não eram mais corpos nem homem e mulher. Já não eram as palavras que serviam para comunicarem-se (A conversa deles era mera distração). Não desde que ela abriu a porta esbaforida, a menina de saia laranja. E até antes disso, quando eles se viram pela primeira vez naquele lugar de gente improvável e seus olhos se bateram. Sim, uma colisão e tanto. Bateram-se e disseram verbos sobre a vida. Até então adormecidos. Não desde que os olhos dele atingiram os dela naquele segundo fatal, que os levaria de volta para casa.
 

 A queda de duas estrelas ofuscou o mar opaco.

Tudo era absolutamente tranqüilo e cheio de conformidade no fim.


terça-feira, 13 de março de 2012

Nós-fantoches: A facilidade de ignorar fontes. (Ou sobre KONY 2012 e afins)


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Por volta de uma semana atrás chegou até mim o vídeo da campanha KONY 2012, que têm repentinamente ganhado muita visibilidade aqui no Brasil, e me propus a ajudar na divulgação imediatamente. Alguns amigos que também partilham de uma certa preocupação teórica em relação a causas sociais também estavam se mobilizando e diante do apelo do vídeo realmente tivemos a incrível sensação de finalmente estarmos aptos a interferir de modo positivo no quadro geral (de dentro do conforto de nossas casas...)

Mas não era bem assim (geralmente não é) e há poucos dias tenho visto no meio online (o mesmo pelo qual tomei conhecimento do vídeo) argumentos e fatos que se contrapõem sobre a veracidade do mesmo, apontando os crentes na premissa do vídeo como ignorantes e manipuláveis por crerem em qualquer coisa com um mínimo de apelo social que é exibida na internet.

No entanto, ao terminar de ler as muitas críticas, percebi que a veracidade dos fatos alegados nelas era tão duvidosa quanto a dos fatos jogados no vídeo. São todos fatos que indicam fontes, mas quando fui em busca das fontes (de ambos), elas jorram de mais textos de meios onlines com discursos enfáticos (seja para um lado e para outro), mais textos que buscam convencer o leitor e cujas motivações verdadeiras talvez jamais saibamos. No entanto, eu não estou aqui para falar sobre os dados apresentados nas críticas, as informações novas ou os depoimentos de ugandenses.

O fato é, meus caros, que se eu acreditasse piamente nas críticas ao vídeo eu estaria sendo tão ignorante quanto talvez tenha sido ao me impulsionar tão fortemente por conta do mesmo, sem ter o conhecimento necessário a respeito. Eu estaria sendo tão manipulável quanto, deixando convencer-me por argumentos bem elaborados e afiados que, de fato, não me mostram nenhuma fonte convincente. Portanto não, eu que tão impetuosamente os tentei mobilizar para participar dessa campanha, não irei agora chegar aqui e apontar o dedo para os que o fizeram, desconstruir o que até há pouco acreditava. O que eu quero dizer é o seguinte:

A conclusão, para mim, sobre a veracidade história de KONY é, portanto, é nula. A conclusão sobre nosso comportamento, no entanto, é bem consistente: No meio em que estamos vivendo é praticamente impossível saber a “verdade”. E não estou falando de termos filosóficos agora e sim da verdade dos fatos, pura e simplesmente: O que aconteceu, como aconteceu, quem fez e por quê. Nós, que vivemos no meio civil e habitual, longe do olho furacão, recebemos mensagens centenas de vezes filtradas antes de chegarem a nossas mãos. Recebemos o que querem que recebamos, do modo como querem. Informações que se contrapõem totalmente, apresentando “fatos” que se contrapõem totalmente se impõem sobre nós diariamente e qual (e se) alguma delas é certa, é real... Talvez nunca saibamos. Porque como se não bastasse a facilidade com a qual chegam a nós, me parece também que somos acometidos por uma preguiça crônica de buscar fontes. Ou simplesmente de nos conformar com o que é secamente nos apresentado.

O que eu concluo com toda essa palhaçada, que sinceramente, se você for parar para pesquisar bem, dá é nojo (Não do mérito, mas sim de como é possível pender como um bonequinho para lá e para cá diante de combos duvidosos de informações) é que apesar da suposta inveracidade do vídeo em si, seria bom que o público que tanto se mobilizou com o apelo cinematográfico do vídeo conseguisse conservar um pouco desse espírito. Mesmo que KONY 2012 seja uma farsa, existe algo de aproveitável na reação do público (muito embora meu desencanto e desapontamento com toda essa história no momento não me permita explorar esse elemento).

Percebo, porém, depois de ter me sentido tola, manipulada e até ignorante, que talvez seja mais plausível para quem busca fazer alguma "diferença" começar pelo nosso quintal, pela nossa rua e pelo nosso bairro – o que está ao nosso alcance e cuja realidade podemos ver com nossos próprios olhos.  Talvez seja mais sensato buscarmos primeiro consertar o que está errado aqui e depois aumentar o alcance do raio de nossa inter(circun)ferência. Em vez de tentar, através de meios muito menos eficazes e bem mais duvidosos, interferir em problemas (a nós, incognoscíveis) que estão em um lugar bem mais longe do mundo.

sábado, 10 de março de 2012

(...)


Meus trechinhos
pra você
como bolhas 
de sabão
como flores
de crochê
como um co-
ração na mão.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Words fail me

Eu não preciso de muita coisa para ser feliz.
(Sequer preciso que você precise de mim)
Basta você tomando aquele café muito doce comigo, de manhãzinha. Andando pela cidade.  Sorrindo ou não. Aqui.
Sem sequer chamar isso de amor.

Mas agora,
isso está tão longe,
não?

quinta-feira, 1 de março de 2012

O Grande Crime. (Ensaio sobre a alienação)

Esse é longo: Tome fôlego ou vá para outro.



Quando eu digo que nossa realidade atual faz eu me sentir emocionalmente doente, acho que devo ao menos uma explicação. Veja bem... Eu me sinto literalmente absorta com a natural normalidade  com a qual a maioria de nós acorda e passa seus dias em atividades habituais sem sentir ao menos uma centelha pulsante de repulsa pela situação robótica em que nos enquadramos.

Não, eu não estou falando do "Sistema", não especificamente, embora esteja intimamente atrelado à essência do "problema". Estudar, se esforçar e trabalhar, a meu ver, são precisos para quem pretende viver nessa formação social atual - o troco e a moeda - não vejo nenhum problema nisso. É uma questão de pesos e medidas, um contrato de compra e venda que firmamos (ou melhor que FIRMARAM por nós) em algum momento aí perdido no tempo. A formação teórica do Estado de Direito é linda, é simplesmente linda, sinto-me até emocionada em falar nela - sinceramente. Mas não. Definitivamente não é esse o problema.

Não parece estranho que ao passo que nossas Leis mais do que em qualquer momento na história ditam sobre liberdade, dignidade, segurança e igualdade - amoldando todos seus dispostivos para tentar alcançar estes objetivos - o nosso povo encontra-se mais e mais ausente da realidade por trás disso?

Realidade... Esse certamente é um conceito engraçado de ser discutido na atual formação de  "VERDADES " múltiplas em que nós vivemos. Nosso jovem, nós, somos todos donos da verdade. Empenhar a verdade, a revolta e o sarcasmo sobre questões que sequer compreendemos, que absorvemos muito pouco através de meios eletrônicos, parece ter tornado-se a bandeira da nova geração.

O desuso da subjetividade, meus caros, é alarmante. O desuso da subjetividade é literalmente  preocupante. Eu, diariamente, me sinto extremamente assustada em diversos momentos pela averiguação da quase cômica semelhança que nossos semelhantes porventura apresentam com robôs.

Sabe por que? porque o grito de guerra nunca foi tão alto. O jovem nunca clamou tanto por justiça como clama hoje em dia...NO FACEBOOK. Ele clama por algo que ele não entende, ele clama por algo que ele não idealizou, ele clama pois seu inconsciente coletivo o diz que é isso que deve fazer, porque ele viu na internet, porque um professor apresentou essa visão, porque ele OUVIU, não porque ele pensou. E olha que aí eu estou falando do jovem que ao menos digna-se em pseudo importar-se com isso.

No entanto, meus bens, eu sinto extremamente falta de pessoas que tenham chegado a essa conclusão por si mesmas. Eu sinto saudade do desenvolvimento mental, da elaboraçao de ideias que (eu prefiro acreditar que) existia outrora. Porque do jeito que as coisas estão, as ideias parecem vitrines vazias exibindo filmes antigos, repassando as mesmas histórias. Mas nisso tudo... onde estão as ideias novas? Onde está o pensamento além? Onde está aquilo que demonstra que ainda podemos pensar por nós mesmos, fazer SURGIR origem, não só ser espelho?

O grito de justiça que ecoa (em silêncio) é nulo, portanto. É inócuo. Sua existência é um elogio ao ridículo.

Me deprime como hoje em dia o jovem pensante é marginalizado, me deprime esta consciência pseudo-evoluída de que não adiante pensar, de que isso é hipocrisia, de que o "correto é ser sincero em relação a seu papel nulo no mundo", que o certo é se render.

Me DEPRIME que hoje em dia diz-se em alto em bom som, alegue-se, orgulhe-se:


"Eu sei que tais coisas são importantes, mas eu tenho preguiça ideológica."


É preocupante o alcance tenebroso que essa PREGUIÇA IDEOLÓGICA provocou no nosso jovem, na nossa vida, nessa preciosa dádiva da qual só dispomos aqui e agora e que graças a esta doença, está sendo desperdiçada em sua vertente mas transcedental, em sua vertente PENSANTE.

...


A culpa? A culpa não é nossa. A culpa não é dessa geração, não, não é.

A culpa é de uma tragédia friamente arquitetada por criaturas degradantes e degradadas em prol de seus próprios fins.
Calma, não estou falando de alienígenas e sim de algo bem pior chamado nossa própria raça humana. O VAZIO ideológico que se instaurou soberano sobre nossas cabeças, alimentado pela preguiça a qual fomos acostumados desde pequenininhos por cores brilhantes e inutilidades necessárias é arquitetura fantástica (no sentido literal da coisa) imposta com intuito de supressão de nossa capacidade cognitiva, de nossa capacidade de questionar, de gerar, de crescer?

Palmas, governantes. Realmente foi um trabalho de mestre.

Cabe aqui esclarecer que me refiro a um instante específico na história, precisamente (sendo até precisa demais, talvez) ao momento histórico onde houve o que gosto de chamar de O grande crime. Ocorre, meus caros, que houve um momento em nosso país, aqui mesmo, no Querido Brasil, onde a intelectualidade, artes e cultura estavam desenvolvendo-se como nunca. O jovem era militante porque o jovem estava revoltado com o que se opunha ao dever ser. O jovem sentia fervilhar a chama de fazer justiça e não só buscava distrair-se pois seu seriado favorito estava em hiatus.

A chama da razão começava a apontar para a capacidade humana, começava a dizer: "Ei, meu caro. Você pode fazer isso."

Houve isso e então houve a tragédia. Um genocídio mental e intelectual imposto pelo regime do terror que CONDICIONOU a massa social à simples, pura e PERIGOSÍSSIMA ideia de que é perigoso pensar.


E isso mudou tudo.


Até hoje.


Pois a partir daí passaram a nos mudar e moldar desde a raiz, desde nossa primeira ida à escola, desde o discurso e sistema a que somos academicamente e escolarmente submetidos, desde os comerciais que assistimos na TV em nosso tempo livre, desde a impossibilidade de adquirirmos livros e a memória histórica que nossos ascendentes nos transmitem mesmo que inconscientemente. Desde todo o jorro infindável de necessidades falsas que nos são apresentadas como verdadeiras, muitas vezes fruto de real e intensivo estudo mental, o que, meus caros!, é extremamente assustador.

Então não. Não podemos ser responsabilizados (ao menos integralmente) por este quadro. Por este crime.


...


Eu lamento do fundo do meu coração o que aconteceu com o nosso país e acredito que vocês (vocês? alguém aguentou até o fim desse texto maçante?) sabem exatamente do que eu estou falando quando me refiro a todo esse processo histórico.
Se bem que... Eu também não sei se foi bem assim, como posso saber? Mas espero que tenha sido. Porque por mais trágico que possa parecer este ceifamento, me parece mais trágico ainda pensar que tudo sempre foi assim, como apresenta-se hoje.

E pensar que já houve algum dia essa erupção intelectual torna possível obter esperança de alcançá-la novamente, por mais que pareçamos estar caminhando em direção ao seu extremo oposto: O maior inimigo do caminho à obtenção de um conhecimento é a falsa ideia de já se o possui.


É isso. 

Hoje eu vou fazer algo muito atípico de mim e pedir, pela primeira vez desde que criei este blog, que quem ler este texto, comente. Por favor, acrescente sua ideia a essa ideia. Estou curiosa.



Um abraço.

(F)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Estou cansando vocês, bebês?


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Eu vejo falhas nesta superfície tão plana que eu construí. Aqui, neste mar calmo, me fiz senhora de mim. Te fiz passado de nós. Os outros amores hoje são só complementos, a subtração é meramente artística, para fins literários. Está tudo bem, enfim.
(Porém,) eu vejo falhas nesta construção que, tão plana, ergui. Seria mais fácil, talvez, explorar estas rachaduras. Procurar a base das minhas rupturas. Mas são breves e esporádicas. São doces, não mais trágicas.

Sabe, eu andei recebendo críticas por escrever demais sobre amor. Mas o que, possivelmente, se poderia esperar de mim? Eu sou toda amor, é insuportável. Eu sou amor por todas as coisas, inclusive pelas que me machucam. Talvez por isso às vezes eu precise negá-lo com tanta força. Não sei administrar isso: Não cabe em mim, não caibo em mim (...)

Eu tenho plena consciência de quão daninha me tornei. O que aconteceu comigo foi tenebroso e assustador: Pular do ápice para o poço e vice-versa tantas vezes não tinha como passar ileso. A autodestruição... Bom, todo jogo perigoso tem seu preço. E o resultado desta roleta russa é que a arma apontou para uma parte de mim e atirou.
Oh-oh.

As coisas jamais voltarão a ser como antes. Assim como o choro, o grito também é livre e passível de morte natural. Porém eu continuarei amando intensamente. Mas ninguém mais precisa ouvir isso. De fato, parece que às vezes incomoda. Por isso, me deixe desaguar ao menos em textos. E se até isso desagradar... Bom, toda sala tem uma porta.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A quem interessar possa


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Senta aqui, presta atenção e escuta o que eu vou dizer: A gente não deve nunca se desculpar por ser quem somos. Você não deve jamais se sentir mal ou culpado por não ser o que alguém quer, por não preencher uma lista de pré-requisitos. É claro, todo mundo tem uns defeitos horríveis e você também tem, e devia trabalhar nisso. Mas de forma alguma isso quer dizer que você deve se amoldar à vontades alheias, não, não... Você tem que melhorar para fazer o melhor por si mesmo. E se for se preocupar com o que alguém pensa que seja com o que pensam aqueles que te amam. E que você ama também. Porque se tem uma coisa que eu aprendi é que isso é a única coisa que importa. As pessoas que você ama. É por isso que mantenho todas bem juntinho de mim e com as outras tento só ser educada – na medida do possível. Mas fora isso, bom, em nada vai acrescentar o desgaste de tentar mudar pelos outros e no final do dia só vai te fazer se sentir vazio. Até porque infelizmente a maioria das pessoas que você conhece vai se aproximar por motivos superficiais. (E não é que você não valha a pena conhecer ou amar, mas porque tem muita gente cretina nesse mundo mesmo.) Essas são as que eu chamo “pessoas do coração supérfluo”, elas vão ficar perto de você porque você tem uma imagem, aparência, status, bens ou outra coisa boba assim que as atraia. Mas eu aprendi que a gente não deve ter raiva delas, porque elas só pensam assim pois acham que não tem mais nada a oferecer também. Mas elas só acham. Todo mundo tem algo bonito, mesmo que pareça improvável. Então é só isso. Parece difícil de acreditar, mas existe sim gente bonita no mundo. E você as reconhecerá porque elas nunca vão lhe pedir para mudar e serão capazes de te amar exatamento pelo que você é. Por dentro.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Introdução ao problema primo. (Ou: Início tosco para "os Estudos")


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I

Não tá fácil, nunca esteve. Mas esses dias frios me deixam muito bem na esquina da mente. Eu me sinto bem aqui, no meu cantinho. Eu sempre me senti bem no meu cantinho. As palavras são metralhas doces que me ajudam a expulsar um pouco dessa impossibilidade do ser. É necessário para mim – ou seria, caso eu me desse ao trabalho – explicar a impossibilidade do ser. Um dia desses eu quebrei minhas regras e expliquei para outra pessoa porque eu não podia viver bem nesse mundo. Nenhum de nós pode, a maioria só não sabe. Eu gostaria de viver de modo displicente em relação ao absurdo da nossa realidade. Eu gostaria de ignorar a tortura que é a mente e a ironia que é a sanidade. Mentira, eu não gostaria. Me chame de melancólica ou o que for, mas eu me sinto real nesse meu canto semi-escuro. Porque apesar de escuro, as brechas de claridade que me são fornecidas não são de uma luz plástica e artificial e sim descobertas sutis e ainda imaturas de alguma coisa a mais que a nós todos sustenta sem a ninguém explicar-se. Ou talvez não. Ou talvez eu seja a maior de todas as alienadas, pensando, vã, estar chegando a alguma razão.
(Qualquer dia eu falo mais sobre isso.)

II

Pensando bem, creio que o que dói nessa “luz” é que nem sempre ela existiu. Você pode me achar pesada, densa e definitivamente inconvivível (não os culpo por isso), mas acredite, um dia foi diferente. Afinal, todos já fomos crianças. O que ocorre é que em algum momento o presente tornou-se lembrança. Ele sempre torna-se, não se iluda; - É só por isso que ele parece tão doce. É só por isso que ele parece tão puro.
Talvez eu deva já ter nascido com defeito, talvez tenha sido para ser assim desde o começo. Acredito, em momentos assim, em que me sinto um pouco mais conectada com o todo, que tudo de algum modo, faz sentido. Não falo de destino, mas de uma interligação inerente à gente. À tudo: Um dia desses disse para um rapaz que imagino que no final tudo vai fazer sentido. E imagino mesmo. O filme em nossas mentes seria só a demonstração de cada motivo de qual advém cada ação. Seria a prova.
Temo mesmo é que o fato de eu ter visto isso em vida
signifique que embora viva, já esteja
um pouquinho morta.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Breves visualizações da pseudo-matrix

Entenda -
há na felicidade insatisfação plena.
As nuvens estão caindo nesse céu
anil
como bolotas de algodão. Estão quase engraçadas.
Graças a Deus* por este fevereiro frio
de mãos pálidas deliciosamente congeladas.
Espero (ainda) por pura displicência com a razão,
mas o que eu espero arqueia as sobrancelhas,
conta piadas bestas,
foge na contramão.
Espero, ainda, algum sopro de verdade.
Meu vampiro imaginário nunca mais veio.
Minha loucura existencial consumiu meu anseios
me tornando vítima da utopia da liberdade.
Sentada nessa cadeira de balanço velha, vejo tudo interligado
é bastante fascinante, é pouquíssimo surpreendente
é assustadoramente pulsante, é ligeiramente comovente.
Honestamante? É uma piada e tanto, meu caro.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

I see what you did here...

Eu vejo o que você fez aqui...
Não poderia ser diferente. Tomei doses largas, em goles cheios. -
Te sequei.
o mesmo hábito ruim que tenho com garrafas de vinho, fiz disso droga.
Droga não era. Porque depois de um tempo
eu não podia mais te comprar num beco escuro da Madre Vilac.
Não poderia ser diferente. Eu vejo o que você fez aqui.
Passou por mim, passou depressa. Acenou e sorriu como quem se interessa.
Mas
que conversa,
não?
Te dei pão, pediu circo. Pediu asas, te dei ninho.
Suguei o que pude, criatura insalubre... Como pude confundir tua natureza?
Mas veja só o que eu fiz aqui (Que destreza!);
Hoje o vento está tufão. Tenho uma flor roxa sem nome entre os dedos,
teu cheiro controverso em meus cabelos, tua tatuagem em meu peito.
(E tudo dói.)
Tentei te amoldar a mim, onda furiosa!
Te engolir, tornando-me dona deste furacão
Tentei desvendar tua natureza curiosa.
Em vez disso sendo eu mudada e contornada por tua indefectível mão.
Que bobinha eu,
que bobinha.

Ora, ora...

Caro Tempo,

eu vejo o que você fez aqui.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Cappucino

(Breve conto sobre um Cappucino)


(O)

Faz calor, intenso. Faz calor, inspirador. Ela me inspira, por favor. Com suas palavras, armas tácitas, com a maciez de sua apaticidade. Ela inspira ao fundir-se ao tudo justamente por não ser nada. E é amável. É amável o modo como significa tudo o que vê, como molda e transforma até, por si, tornar-se também uma mera significação. É encorajador e forte e portanto transborda. Seu nada transborda em mim, e ao nadar assim me transporta: adorável a tinta que sua folha branca me fornece. E entre seus cabelos, seus quadris, suas pressões, me guarnece. Possesso me vejo vítima do nunca mais; Aliás,


(A)

de tintas brancas o construí. Logo vi. Era do tipo que procura as estrelas, que vira o chinelo. Que fica por perto; Não quis. Virei de lado e virei a página, prendi  minhas pernas contra suas costas pálidas: "É ela". Não me convenceu pois eu vi em seu olhar o místico passageiro dos que hão de se superar. Convencida, então, quis ser capítulo. Entediado, portanto, ele quis ser escrito. Um acordo.
Que saudade,
que saudade do místico impossível. Do impreciso sabor das limpas bolhas de sabão. Do domingo à tarde, de brincar lá fora, de desenhar o vento, porque tudo é possível.

Impossível.
Improvável que sua visão seja tão alterada assim:
Olho, não me conformo. Te odiando, peço teu colo.
E penso,
Sim,
Querubim,
Vai ter fim.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

sutil


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Deixa eu deitar no teu colo, deixa eu provar os teus óculos. Deixa eu dizer que sou má só para enganar e por dentro morrer de medo de você acreditar. Deixa eu me fazer de forte, deixa eu testar minha sorte, deixar eu brincar de ser. Mas me deixa tentar fazer certo, e enquanto deixa, vê se fica por perto. Mas, pelo amor de deus, me deixa parar de tentar ser de ferro.

segunda-feira


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Perdi o dom, perdi o tom, perdi a hora. Saí atrasada, não arrumei a sala, esqueci o trabalho. Me vi desarmada, joguei a toalha, esqueci teu retrato. Fechei as janelas, mas esqueci as frestas. O tempo frio não me viu, o tempo frio não dá trela. Esqueci o forno, queimei o bolo, esses dias tão osso. Pedi arrego, pedi com jeito, pedi um beijo. Perdi o dom, perdi o tom, perdi a hora. Perdi o passo, perdi as chaves e perdi você.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A vilã

Fruto de uma combinação de circunstâncias, timing e nuances particularmente
periculosos, tornava-se um problema, é verdade. O belo conceito que o definia em nada consonava com o desgastante "ser" de sua existência.
As consequências daquele elemento vilaniamente adocicado extendiam-se pela longitude de seu receptáculo, a vítima. Embaralhando dinamismos simples, óbvios, necessários e racionais com as famosas e tão características a essa situação "dúvidas". Embriagando tantas fontes mais - vai saber quais são, oras; Descobrir as fontes seria descobrir a essência. E essa não podemos, ao menos, cabe-nos somente admitir que vil deve ser, dadas suas consequências.
À distância parece belo, é compreensível. Afinal, quão atraente é o vermelho que expande-se pelos lábios chorosos? Quão saudáveis parecem as bochechas rosadas de quem está em prantos? Quão adorável é o pássaro ferido prostado ao chão vulneravelmente?
Mas não.
Porque o pranto é a consequência fática para o embaralhamento total de ideias provocado por este vilão. Não sozinho, claro. Os grandes gênios sempre agem com aliados. Este encontrou alguns, tais quais, enraizados nos mais fracos receios de suas vítimas, usou de seus calcanhares defeituosos e fez com essas malditas doenças d'alma a cama para deitar sua deusa do mal. Deusa cruel. Que através de incogniscível
procedimento arranca tripas sem o toque, inflama a alma sem o fogo, destrói a mente sem violência.
Mascarada, ironicamente, por um "sentimento" que para o consenso geral é belo, doce e equivocadamente almejado.

Afinal, meu Deus,
quem foi o insano sádico que inventou o mito de que é bom se apaixonar?

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Diálogos (V)

-Então qual o seu problema?
-Doçura.
Era a mentira mais obviamente deslavada, como de praxe.
-Doçura? E por que é um problema?
-Porque infelizmente eu vivo entre seres humanos. E seres humanos são idiotas, insensíveis e absurdos. Então eu tenho que me adaptar ao modo de sentir nojento deles.
Ela olhou de lado e ignorou o fato de quão humana soava aquela afirmativa cretina.
-E como você está fora isso?
-Fora isso eu estou. Somente. Me conformo com o fato de um dia para o outro as estrelas terem perdido as cores.
Isso era verdade, sob alguns ângulos.
-E o destino?
-Prossegue. Eu finalmente descobri minha alma gêmea antes de ontem num café na Rua da Liberdade. Nós nos olhamos por alguns momentos e soubemos que nós éramos nós, e eu peguei meu frapê e saí. Foi estupidamente desencantador aquele momento.
-E a saudade, você não sente? Do tempo antes?
-Eu sinto saudade do tempo que nunca existiu, porém que durante algum tempo antes da ruptura eu acreditava que existiria.
-Ruptura?
-É, a ruptura da mente. A que se dá naquele quase imperceptível aterrador momento em que seus olhos são abertos para a real cor das coisas a nova dimensão é adicionada pelos sentidos. A ruptura da alma, quando percebemos o absurdo irônico de seu conceito.
-Ah, entendo. Prossiga...
-Então, você já sentiu isso? Saudade do que nunca existiu?
-Bom, que eu saiba a gente só sente saudade do que nunca existiu. Da forma que nossa cabeça faz das coisas que na verdade não tiveram nada a ver com aquilo...
-É, eu sei, eu sei. A velha história da mente moldadora.
-É, isso mesmo. Até porque se você pensar bem a gente não vive o que ocorre, vive o filme da nossa cabeça que fazemos do que ocorre.
-We fuckin love the drama.
-Yes, we fuckin do.
-E o presente? Você, que gosta tanto de perguntar, por que não me responde essa?
-Que tem ele?
-Você não sente saudade dele? Se bem que...Imagino que você vá dizer que ele também não existe. Ou existe?
(Esperou a resposta e nada.)
-Alô?
Mais alguns minutos, nada. Chegou a bater no vidro de sua superfície, mas pelo resto da noite o espelho decidiu permanecer calado.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Só um momento

As mentiras que a gente conta para si mesmos
as mentiras em que a gente tende a acreditar
as mentiras que só a gente entende
Duas décadas de erros
uma pequena lista de coisas a consertar
Ela queria comprar uma saída daquela cidade
Não estava fácil viver naquele corpo de gente
Ela queria comprar uma entrada para o mar
Não estava fácil viver dentro daquela mente.
A verdade podre
é que todo mundo quer ser cuidado,
todo mundo quer amar
e o que é que tem de errado?
Mas e quem não tem nada
de puro para oferecer?
Quem já viveu seu ápice
e agora vive seu perecer?
Eu não acho justo essa natureza humana
nos engolindo em simbolismos,
Jung e seus arquétipos,
Freud e seus incestos.
E ao findar do dia que somos nós
além da ponta de um iceberg
que embora aterradoramente denso
para a existência
é insustentavelmente leve?

Não-soneto sobre a posse

Você me quer colocar num chaveiro e pendurar no seu bolso. Você quer trançar meus cabelos, quer pintar o meu rosto. Você quer me levar com gentileza para o seu próprio calabouço. Me quer de noite e de dia; No jantar e no almoço.
Você quer me pôr numa corrente ao redor do seu pescoço. Que ajustar minha lentes ao teu grau tão absurdo.
Faz uso do seu magnetismo para me  manter em sua órbita. Me colocar entre seus dedos como se eu fosse um de seus charutos.
Quer me jogar no mundo para apreciar minhas peripécias. Mas com uma corda no meu pescoço ou correntes em minhas pernas. Você quer todos ângulos do que existe em meu mundo. Quer penetrar neste prisma tosco com teu golpe mais profundo.
Gosta de me ver brincando fora, mas contanto que seja em seu jardim.
Você quer absolutamente tudo
Que conseguir extrair de mim.

domingo, 15 de janeiro de 2012

I wanna hold your hand

Your pale, beautiful, soft hand. I wanna hold you tight. Like we did tonight, like we'll do tomorrow but like we won't be able to do for much more days to come. I wanna hold you in me. Your scarying face, your tender face, your weird face, your intense face, your concentrate face while you listen Pink Floyd. Our jokes, our songs, our weird foods, our endless talks, our many mornings at your house, our many afternoons anywhere, our many nights around the town and around the wine. Our games, our inner nicknames, our private world we built so beautiful, so complete and so incomplete because it'll end soon. Sometimes i feel nothing towards you. Sometimes i feel everything there is to feel, like now. Maybe it's the night, maybe it's this cheating dawn, improving my senses. Maybe it's the sweet perspective of the end. Or maybe it's the still fresh scent of yours in this shirt you gave me. Maybe it's everything, maybe nothing. Maybe it's all in my mind.


"-Nossa, você, se pudesse, andava com ele pendurado no pescoço."

Oh well, maybe, maybe.

Good Friday - Coco rosie (Só que ao contrário)

Foi sutil o momento. Quase imperceptível.
Ela tinha ido dormir pensando nele e acordado pensando nele. O dia anterior repleto de pensamentos nele, pensamentos sorridentes. Ele tinha se tornado para ela o sorriso fora de hora. A sensação de “Tenho que mostrar isso a ele”, a delicadeza da alegria.
Mas houve esse momento e houve o próximo.
Ela não saberia dizer o que se perdeu, se perdeu-se aos poucos, no rastro sutil dos dias de ouro ou se perdeu-se no repente estranho entre descer daquele ônibus e tocar a campainha.
Mas o fato é.
O que houve? Como houve? Quem ouve?
Tornou-se o vácuo dos ouvidos do coração, irrelevante o toque de mão, apuradíssima sua poética visão.
Preto no branco foi o que viu.
Bem mais real.
Não mais anil.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

La dulce.

Olhando em retrospecto, desde o começo anunciava-se o fim.
No coração de uma somente criança, na época, que dialogava com as criaturas imaginárias de seu jardim.
Ela costumava imaginar a sombra negra de outra vida sobre sua pessoa, 
mas na verdade era dela mesma; A sombra do futuro que hoje lhe envolve.
Pode-se dizer, em termos simples, então, que desde o começo aquela criança não foi bem normal.
Suas palavras versavam sobre algo muito distante de sua realidade, mas com um perigoso cheiro de 'mal'.
O problema prático se deu mesmo quando passou a tornar suas palavras ariscas, realidade: Um laboratório vivo literário.
Estranhamente sentia-se bem próxima do lado mais sombrio da vida, E com seus pés já não tão de menina, pisou nesse pântano sem malícia.
O procedimento agora era preencher o vazio com o vil. Como esperar que a sanidade dessa menina ficasse saudável com tudo isso?
No entanto, foi chegado o dia, em que olhando pela janela 
A já não tão menina, mas mulher, relembrou-se do nome dela.
Da criança que escrevia sobre bules de chá de peixinho dourado,
Que dialogava com a noite, Que era a tinta de seu próprio quadro.
Percebeu então insuficiente Sua arte mestra de versar sobre o vazio,
que conquanto a consumia, sua pureza antiga dirimiu!

Como, depois de tudo isso, então
Resgatar aquela criança, aquela menina
Que achava que maldade era só nome de poesia?


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Na sala de cirurgia

Que mania feia, que mania besta. Anos a fio, anos enfim. E você continua cometendo o mesmo pecado, minha querida Evinha?
O pecado original ao contrário, colocando a venda e amarrando o laço - Não crês estar na hora de mudar de estratégia?
O momento é este, a hora é esta. É hoje e há 10 anos atrás quando ainda criança você descobria o que era ou não eficaz.
Sua razão, tão dotada de emoção, é falhíssima. A íris translúcida - cor da natureza bruta é ceguíssima! A piada de teu nome, tão inadequado à tua fonte - Tão condescendente à tua essência. Clemência - A clama e clama logo. Implora, pede colo. Vem cá, me dá um sorriso.
-O problema é que o sorriso dele é o mais lindo do mundo.
Do teu mundo, meu amor. E nesse segundo. Semana que vem é um mundo que vem. Vê apesar, meu doce. Vê além.
Tantas vezes prostituistes teu sentimento - Em troca de simples e simplórios lamentos. Julgando visar em cada cão uma visão.
-Não voga.
Não vale, destoa. Chega cá, abre mais. A mente do coração, eu sei que você é capaz.
Acende a luz, ascende a alma. E que inicie o procedimento.
Não precisa de tempero, Eva,
Só de sentimento.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Não é uma pergunta de "Sim" ou "Não".

nossa, é impossível prosseguir assim. veja bem, não sei nem como começar. não posso mais ficar jorrando céus em expoente de luz ou bandos de pássaros ao entardecer. não posso mais ficar gastando minha tinta fina, elegante, caríssima, para pintar retratos de esgotos. não posso mais proceder na minha ferrenha batalha, minha ferrenha procura por uma água benta, por uma cura. que não existe. meu coração já não resiste. o agridoce sabor do desgosto.
existe tanto e existe tão pouco. afora, existem casas brancas e opacas. elas são brancas não por serem tudo  mas porque ainda não são nada. dentro, possuo meu contingente ilimitado de demônios. fizeram da minha alma o emaranhado que é hoje. e numa equação estranha com esta essência latente, jorram cores por todo o exterior, desde o extremo oriente até o meu corredor. 
a maldita, a bendita, a inescrupulosa ilimitação da mente.
-mas é claro que é uma busca.
mas não é para fora e sim adentro. como é difícil encarar este fato! mas enquanto eu não o fizer, tudo isso será mera peça de teatro.
-ocorre que dentro, chove e não é de aurora. chove doendo, fininho, ao redor do próprio coração, dentro dele.
eu vejo as avenidas de corações apressados, vejo as almas de rachaduras latentes, vejo nossa realidade  emocionalmente doente. e me pergunto - é o mesmo vírus, é a mesma praga, é a mesma maçã que a todos acometeu? ou tudo isso é só um desvio
um desvario que minha razão não previu
e o verdadeiro problema sou eu?


-

(E sim, a partir de agora eu me recuso, terminantemente, a escrever sobre quaisquer coisas doces sem ter a mínima certeza de que são reais!)

sábado, 3 de dezembro de 2011

O vazio.

Para mim, esse é o primeiro e último assunto essencial e que valha à pena a discussão na nossa existência. Nele estão inclusas as respostas e as perguntas mais famosas. O começo, o fim, e nesse caso específico, o interregno entre.
Eu me lembro que houve uma época em que eu era arrogante o suficiente para achar que algumas pessoas não possuíam o vazio. No entanto, hoje eu entendo que o que ocorre é que a maioria das pessoas não está ciente dele.
Suas mentes fazem-lhe um favor e um crime, no momento em que automaticamente o preenchem. Automaticamente.
Em que puxam matéria de tudo que é canto e que fazem delas os "Ídolos", que à propósito vêm tomando formas cada vez mais variadas com o passar do tempo. Olhando assim, talvez os ídolos sejam as fugas, das quais vivo falando. Eu não queria fazer isso: Eu costumo exemplificar quando falo disso, mas não vou fazer
dessa vez porque me parece agora preconceituoso e pedante. E de acordo com meu último conceito disso, recém reformulado, me parece impossível delimitar o número de ídolos.
Descrevamos somente como "tudo que cobre um buraco cuja origem não foi sua própria culpa", em termos bem vulgares.
-Olhar as coisas pelo que elas são.
Para fazer isso, seria preciso compreender a essência das coisas. Inicialmente, seria preciso considerar que existe uma essência nas coisas. E isso me parece, genuinamente, uma conquista impossível para nossa mentalidade atual. Nós, esses vasos de barro já moldados por tantas mão(e)s que nem nos distinguimos no
espelho. Eu, ao menos, não me distingo.
E só assim, vendo as coisas pelo que elas são (e pensar que antes eu desdenhava do  tanto que a filosofia se questionava sobre 'a essência'!), poderíamos entender que uso fazemos disso em nossa mente. Poderíamos compreender por etapas como nos é feita a materialização do pensamento, a internalização e significação das ideias para fins próprios, para fins de auto sobrevivência mental ou meramente fraqueza e covardia.
Enquanto eu escrevo esse texto, o vazio me consome.
Porque eu sei que mesmo estando ciente dele, isso não altera seu procedimento.
Isso não me impede de ter ídolos.
Ajuda minha razão, é verdade.
Me impede de fanatizar obviamente qualquer coisa. De tentar manter minha mente aberta para qualquer ideia.
Mas isso, meus caros, é um mito.
Porque eu não tenho nem ideia dos preconceitos que me formam. Eu não conseguiria racionalizar, nem com a ajuda do próprio Freud o quanto o que não é meu me compõe.
Se é que algo é meu.
Então, será que não é melhor ser cego?
Não ver o crime que cometemos contra nossa própria inteligência?
Admirável? Intolerável mundo novo!
Paremos por aqui, por enquanto. Sem resposta.

sábado, 26 de novembro de 2011

Contos (V) - A estupradora



Entramos no seu quarto cheio de dúbias intenções e o resultado óbvio a nos encarar. Você disfarça, sorri, abre espaço. Vejo em seus movimentos uma fórmula pré-calculada, com o tempo aperfeiçoada e já muito utilizada. Me abarca com os braços, numa demonstração de carinho absolutamente inócua a mim. Danço: - Eu sempre danço.- Te abraço e sorrio, digo palavras doces, transmito calor no olhar. A verdade, meu caro (leitor), é que procuro. Procuro nas minhas mentiras alguma ponta de verdade. E para isso enalteço-as. Para isso, enlargueço-as!  Digo palavras de amor, uma mais seca que a outra. Talvez eu entenda os homens naquilo que tanto são criticados, no final das contas.
E observo sorrindo quando você deixa seu ego inflar, sua expressão aguçar-se como um caçador. Mal sabe que não há caçada ali, mal sabe que não há nada a conseguir! De dentro de mim, saio e sento na sua cadeira velha de balanço, observando aqueles dois  estranhos. Coloco a mão no queixo e como quem programa um servidor, calculo os movimentos da minha marionete. 
Ela beija, ela grita, ela rosna, ela excita. Ela certamente é uma figura, essa menina.
Mas observo isso com olhos entediados, com olhos condescendentes. Observo com tédio, para ser bem sincera. O modo como você se desmancha nas mãos dela apenas abate minhas expectativas. Tão carnal é a nossa carne. Tão insignificante!
De todo modo o resultado meramente empírico foi coletado. Volto a ela, me sentindo somente um pouquinho estuprada por minha própria personalidade caprichosa e doentia; E me afasto no  segundo em que você começa a transmitir aquele olhar de afeto escrachado: Olha para mim e faz menção de palavras. Faz menção de gestos, faz menção de promessas. E a cada passo dessa sua dança repulsiva, o encaro mais alienígena. Encaro completamente absorta de quão alienado você pode ser da verdade!
Me olha, porém. E constato, com este crescente enfado, seu latente sentimento. Se soubesses o quanto te odeio nesse momento, me temeria. Mesmo sendo eu um corpo tão frágil ante o teu, um rosto tão doce e uma voz tão calma, eu garanto, meu amigo, temeria.
Espero que vire para o lado e conto os minutos. É abril e estou me sentindo generosa então numa breve contenção de danos, parto em silêncio, decidindo fazer à sua sanidade um favor - e jamais me ver novamente na vida.



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(P.s: Minha gente, alguém conhece algum site bom de imagens? Ultimamente só tenho conseguido umas bem ruinzinhas para ilustrar meus contos. Sugestões, me mandem por comentários, por favor? Grata!)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Contos (IV) - Considerações sobre o ciúme.



Eu não vou mentir, é claro que foi um choque.
Muito embora o tempo, o espaço, e as modificações naturais que ocorrem à matéria abstrata, colidiu a mim como um acidente a imagem de você e ela.
Então era essa, ela. - Minha curiosidade instintiva de mulher aguçou, procurando na primeira visão os defeitos visíveis mais evidentes. Você sorriu, me abraçou. Não estava prestando muita atenção na sua 
reação, mas se não me engano a senti estrangeira. Estava constrangido. Quase como se tivesse sido pego no flagra. Irônico, no mínimo. Não acha?
Eu senti minha expressão endurecer e a encarei com um sorriso seco. O corpo dela se comprimiu um pouco, involuntariamente? Sua energia era fraca e, eu percebia agora, inteiramente atrelada à sua. Deprimente.
Você, como sempre, um predador. E sua presença englobava a dela quase que num círculo perfeito. Permissiva do início ao fim desde a postura até à frágil tentativa infrutífera de impôr-se à mim. Paciência, nada mais perfeito para sua personalidade dominante. Quase revirei os olhos.
Esperei que você fosse embora, se despedisse, como provavelmente reza o protocolo, mas nada. Ficou e desconversou. Eu não entendi, mas e daí, achei interessante. Queria vê-la. Queria vê-los. Minha obsessão me soou como um choque ainda maior que o anterior. Veja só!
Você, por motivos obscuros a mim e provavelmente à ela, nos orquestrou, como diapasão:
-Vamos todos tomar um café, pois não?
E a tríade indecente em seu elogio ao absurdo prolongou:

Você a olha com amor.
Desculpa a escolha óbvia de palavras, mas nada mais convém.
Ela interpreta como numa dança, boneca móvel de porcelana,
Ainda se amolda à tua ânsia. - Natural.
Nós não poderíamos ser mais diferentes. Ela com seu ar de donzela inconsequente. Na verdade imita teus passos e repete teus desatinos.
Me lembro de criticar tuas verdades e entender teus erros, me lembro de muitas coisas, na verdade, enquanto esqueço de nossa conversa, diluída no fundo da xícara de café.
-Ei, está aí? - Você pergunta, a mão em frente ao meu rosto.
-Ah, desculpa. - Tomo um gole do café. Minha mão toca a aba da xícara enquanto a sua segura o ombro dela num movimento inequívoco. Inconsciente. 
Percebo o quão estão inconscientes da simbiose. "-Fala sério, é dose."
-Você parece meio distraída.
-Apenas pensando na vida.
E sorrimos ao mesmo tempo como que numa interna rima.
Ela não disfarça, se contorce toda. Bonequinha frágil, sua rima é falha e rota.
E me surpreendo com meu próprio pensamento de mulher traída.
Mas traição jamais houve, ao menos não nessa ordem dos fatores e quando retorno à órbita, o olhar de vocês combina.
-Sim, falem mais sobre a viagem.
Você fala, sempre você, nunca ela. Ela observa e procura entre nós reservas, mas veja só, não encontra.
Mantenho o olhar de um para o outro. A disciplina sempre foi meu esporte tosco e a manejo com distância e diplomacia.
Seu olhar não passa mais que alguns segundos longe dela e reconheço, com aquele ressentimento em sequela, essa fascinação que o domina. Você nunca foi bom em reter sentimentos e esse afeto todo te transborda pelas retinas como outrora era a mim que se dirigia. Tenho ânsia de sacodir a cabeça, mas não o faço. Outro gole de café e o movimento é quase falho - E eu percebo quando o olhar ansioso dela sobre isso se ilumina.
Ela está insegura - Grande bela ironia. 
Você faz uma de suas piadas, mistura com uma de suas ideias e solta um de seus sorrisos-luz. Ela não resiste, a desconfiança dá lugar à admiração de praxe e o rosto dela se volta, se seduz. Olho para baixo e retenho um sorriso conformado: O engraçado, meu caro, é que nem te quero.
Porque tua piada me soou fraca, tua ideia pareceu manjada e o sorriso pura beleza estética. Percebo meu erro, o equívoco conceitual na substância do meu sentimento. Com um muxoxo e um sorriso, lamento. 
-Ai, ai. - Digo na certeza de não ser entendida. -Mulheres, homens e principalmente lagostas - e suas manias feias que impõem à vida.

domingo, 16 de outubro de 2011

"A vida é eterna em 5 minutos", pílula vermelha e afins. (Ou, fluxograma sobre o tempo, extremamente divagante.)

(Esse é outro daqueles, quase gigante demais para ser postado. Dou um doce para quem ler até o fim.)



Tempo: Esse é um daqueles assuntos nos quais eu temo um pouquinho ingressar. É muito mais fácil viver na superficialidade, mas já faz um tempinho que decidi tentar tomar a pílula vermelha, então vamos lá.
Falando em pílula vermelha, - e deixe-me fazer uma divagação antes de entrar no assunto da postagem - é muito difícil isso. É como tentar fincar os pés no chão em meio a uma ventania, é tentar ver através das cores opacas e na maior parte do tempo, se a gente não se mantém firme, acaba achando que é uma grande perda de tempo. E para ser bem sincera eu ando encontrando muita dificuldade nisso, porque é um objetivo que meio que requer a ajuda das  pessoas. É a velha história da dialética: Sozinha, eu não vou muito longe. Não tem como dialogar comigo mesma, por mais que uma pessoa, qualquer pessoa, tenha muito conhecimento, seu conhecimento chega a um limite e por mais que choques de informação possam fazer brotar nova informação, a menos que haja interação com o que se origina  da fonte de OUTRA mente, você será eternamente uma criatura limitada. E taí minha dificuldade. 

Mas pulando essa conversa toda que já é de outra postagem e já tá me parecendo fiada, eu queria falar e se alguém tiver algo a acrescentar, eu queria ouvir também sobre essa questão do tempo:

Minha razão fica eternamente oscilante  entre "Feche um mundo e abra o próximo" e "Nada nunca morre", e na verdade eu tenho pensado que a "resposta", se é que isso existe é uma intercessão sutil (como todas as intercessões) entre ambos. Um tempo desses enquanto eu tentava resolver a equação do tempo, eu cheguei a conclusão (imatura e mutável, como todas as em que eu chego, graças a Deus) de que só existe o passado e isso eu vou explicar o por quê de estar dizendo aqui: O presente, nós sabemos, é imensurável. Esse negócio de "segundos" é uma convenção matemática para fins organizacionais então vamos cortando logo essa medida pela raiz. É impossível essa história de sentir o presente porque na verdade, se pensar bem, a partir do momento em que você nasce, só vai acontecendo uma série de coisas no passado na sua vida. A partir do momento em que algo acontece contigo, já tá no passado. E todos os prazeres que se sente, segundo eu tenho constatado, por mais que sejam imediatos são de coisas que ocorreram segundos atrás, no mínimo. Ou milésimos, sei lá. Até porque a nossa mente precisa traduzir o que acontece para que a razão nos permita sentir ou não prazer com isso. Só é prazer (ou dor) a partir do momento em que já aconteceu e teu cérebro traduz isso. O que te dá a sensação é a tradução, não a coisa. A mente precisa fazer isso: Entender se é bom ou não. Vem aí o mito do chocolate: Eu me pergunto, muitíssimas vezes se chocolate é mesmo bom. Tirando a historinha das endorfinas, eu tenho minhas dúvidas se o gosto, em si, é agradável. E aí já entra a história do que é culturalmente colocado nas nossas cabeças. É claro que todo mundo acha que chocolate é bom e às vezes é pelo fato de ter essa representação positiva na nossa cabeça que colocamos o chocolate na boca e nosso cérebro nos diz que é bom e sentimos prazer. Essa é só minha teoria. A questão que estou tentando demonstrar nesse exemplo, é que quando eu digo que só existe o passado, você poderia dizer: "Ah, mas e os sentidos? Você sente prazer e dor imediatamente, na sensação está se fazendo fato o presente, não é?". Bom, quanto à dor, nós já sabemos que é mais uma das armadilhas do nosso cérebro/sentidos e etc. Olha bem, vai me dizer que você nunca se cortou feio para passar um tempão para perceber que se cortou e só depois de perceber, sentir dor? Eu não digo que isso é absoluto, nada disso. Só quero demonstrar com esses dois exemplos prazer/dor pobrinhos que os sentidos não são tão sinceros quanto nós pensamos. Nada é. Sentimentos, sentidos, razão. E nem adianta colocar letrinhas e tentar fazer uma equação deles porque pelo menos eu não consigo visualizar uma amplitude matemática que seja incrível a ponto de abarcar tudo isso e chegar a um resultado.

Bom, daí voltamos à minha teoria de que só temos o passado "porque o presente é o passado passando e o futuro é uma conjectura  passada do que logo tornar-se-á ele", essa foi uma frase que disse mais ou menos desse jeito, no dia que eu tive esse insight - e que me pareceu fazer bem mais sentido no momento, afinal. 
Mas daí, meus caros, o problema é que essa ausência de medida real de tempo me deixa extremamente confusa. Eu vou dizer o que isso me faz sentir: Isso me faz sentir que cada momento (eu ia falando 'segundo', olha como as coisas são), cada momento X, momento TCHAN, sem uma medida de tempo, é uma eternidade que existe... para sempre. Entende? 

Olha, uma vez meu ex professor de filosofia disse a seguinte frase na sala "A vida é eterna em 5 minutos" e pediu para a gente analisar e dizer o que entendiamos dela. Isso faz um bocado de tempo e eu fiquei matutando um tempão até que cheguei a uma conclusão que não consegui colocar em palavras corretamente no dia e ainda hoje não consigo. Eu respondi a ele algo do tipo "Acredito que cada momento que existe, no momento que existe, passa a existir eternamente pelo simples fato de ter existido. Isso o torna eterno." - Essa ideia é a síntese do que eu coloquei aí encima em prolixas linhas. Daí o professor olhou para mim, riu e disse algo do tipo "Poético, mas não filosófico." - Eu não sei. Eu realmente não devo ter me expressado bem porque eu não tive a mínima intenção de ser poética e na verdade quando eu falei isso o que veio à minha cabeça foi um conceito mais físico do que de qualquer outra ordem. Ok, eu esperava não ter que fazer isso, mas acho que vou ter que revelar outra ideia minha que complementa isso e que certamente vai parecer viagem: Eu não sei nem entendo nem estudei nada sobre universos e dimensões paralelas, mas a simples falta de uma medida de tempo - e a impossibilidade de existência dessa devido ao simples caráter transitório do tempo me faz parecer lógico que a cada momento imensurável que existe, uma dimensão paralela é criada a partir dele. - Ok, antes de qualquer coisa, eu não estou alterada nem nada. Para me fazer mais clara eu teria que transportar você, leitor (provavelmente imaginário, porque duvido que alguém tenha resistido a essa altura da postagem), e te mostrar uma imagem que perfaz essa ideia porque palavras (como eu seeempre digo), mais uma vez são insuficientes. - Pronto, já sei: Você tem duas hipóteses: Ou há continuidade entre todos os eventos que existem ou não há. E ambas as hipóteses são inegáveis. Por que há continuidade? Porque nosso passado mais recente sempre é consequência do passado mais antigo. Porque tudo o que acontece é somente a sucessão LÓGICA de acontecimentos de acordo com o que já passou. Porque é isso que a gente chama de justiça natural, de lei da natureza, de "destino" até. Porque, meus caros, eu acredito que um matemático tão gênio que consiga utilizar sua capacidade de pensamento em 100% seria capaz de prever o "futuro". 
Isso porque todos os acontecimentos são variáveis. "Quer saber o que vai acontecer? Estude história." Tem uma frase mais ou menos assim, não é?
Olha, algumas pessoas me dizem que me acham perceptiva ou bem inteligente. É que eu tenho uma brincadeira com alguns amigos meus de dizer o que eles vão dizer antes deles dizerem num diálogo (só acerto algumas vezes, claro.). Mas eu não sou nem uma coisa nem outra e eu vou explicar o por quê disso: Eu entendi faz um tempo já que existe esse lance de matematizar as pessoas. E que todo mundo é como uma grande e complexa fórmula matemática que se divide em três níveis (segundo Freud.) Só que quando a gente tá no nível superficial e consciente, no meio de uma conversa, por exemplo, se você juntar os elementos da história recente daquela pessoa, com a personalidade aparente dela e o rumo que o diálogo está tomando torna-se inequívoco (em certas ocasiões) o que a pessoa vai te dizer a seguir. É só isso. 
Então, se eu que tenho uma capacidade mental mediana, um conhecimento limitado e uma percepção só "boa" consigo fazer isso (num nível extremamente superficial, lógico), imagine alguém  que estuda, sei lá, física quântica. Está entendendo o que eu quero dizer? 
Bom, de qualquer modo vamos voltar às duas hipóteses que nesse assunto aí da matematização a gente ingressa depois.
A segunda hipótese, de que não há continuidade, é consequência direta da primeira, por mais bizarro e mindfuck que isso possa parecer. A partir do ponto em que UM evento existe e repercute em outros eventos, esse UM evento é eterno em suas consequencias. Olha, nada jamais deixa de existir, jamais, porque nada passa em branco. Teoria  do Caos etc e tal, tu percebe que considerando que o universo, natureza, o que seja, é um equilíbrio entre tudo o que existe e não poderia ser diferente, qualquer diferença MÍNIMA vai ter a autonomia de interferir em todo o resto e por isso mesmo, em uma certa instância vai ser única, individual e fonte de uma outra dimensão própria. 
Então, o que acontece? Acontece que acho que no final das contas nada acaba, tudo se reinventa eternamente e esse negócio de "Fechar um mundo abrir o próximo" é extremamente relativo, porque, afinal, quem disse que o próximo mundo vai estar desvinculado do anterior? Se fosse assim, seria inviável, senão...Não haveria tempo, de fato - E eu não sei dizer se há mesmo ou não. Haveria só presentes, eternos, jamais passado. Jamais conjectura de futuro. Jamais história.

Bom, acho que eu vou ficando por aqui mesmo. Essa postagem deve ser a maior que eu já fiz e provavelmente a mais incoerente. Se eu não fosse tão preguiçosa e acomodada, seria fantástico estudar matemática, física, ciência e religião para conseguir dar um embasamento para todas essas minhas teorias meramente intuitivas e abertas e incompletas, como toda teoria deve ser. E isso porque não citei todas as outras ciências, porque não sei se já disse isso, mas acredito piamente que a ciência, de fato, é uma só e UNA. Mas deixemos esse assunto para outra postagem, porque já é uma outra história.
Só sei que no final das contas, por mais que eu divague, no final sempre fico com essa impressão de total incompletude de ideias. E aceitando alegremente companhia para realizar uma boa dialética (: 


Um beijo no olho e uma tulipa violeta para o leitor hipotético que terminou este post.


Bye.  

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"Por favor, não me venha com esse olhar de amor."

-Não, pare com isso. Tudo menos esses olhos.
Não me olhe com esses olhos assustadores. Não me olhe assim tão docemente.
Não faça menção de dizer aquela frase. Não respire ofegantemente só porque encostei minha boca na sua.
Por favor, não... Não enquanto meu coração é manchado.
Não enquanto fui eu quem plantei essa armadilha. Mas vê-lo cair tão absolutamente nela... Eu não tenho estômago para isso.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Meet me on the equinox



A primeira estrela despontou no extremo nórdico. Extremo sórdido.
Uma estrela apontou no extremo oriente. Apontou sua rota, extremamente quente. 
Golpes de luz, prismas de energia. A aurora boreal as envolveu; Véu de densa magia.
Talvez elas se encontrem.
Talvez no cair da noite da mais noturna das ruas elas se cruzem.
Talvez se vejam nuas. De preconceito e sujeira lunar estejam cruas.
Duas estrelas despontaram no inócuo infinito.
Será que elas se encontrarão
ou serão apenas delírio lírico?

domingo, 18 de setembro de 2011

Pequenos suicídios aleatórios

Justifique meus meios cruéis
por suas adoráveis finalidades
Do fogo ao fogo, uma ave de rapina
Beija-me no epitáfio da redenção
Me dê teu vinho, não me interessa o pão;
Nos embebeda com o amargo de teu açúcar
e derrama lágrimas de graxa, untadas com música.
Brindemos o veneno que jamais tomamos
Encarando o abismo que jamais escalamos
E daí faz-se fantasia, vivamos nessa maestra poesia:
A arte de criar.
(Onde tudo deu certo
e o amor foi um feto
que soubemos procriar)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Íntimo

Ainda ando pelas mesmas ruas de casas coloridas todo fim de manhã,
ainda escuto Bach em La menor em alguns dias chuvosos.
Sei que os caminhos não se cruzam depois de certo ponto 
e não importa o que diga, as gestalts, sim, meu caro, se fecham.
Mas eu não lido bem com mortes de gênero nenhum, muito menos com as minhas
Tenho medo dessa cidade, ovo dilatando em expansão negativa.
Tenho medo das loucuras delicadas e cada vez mais sui generis que vejo pelas pessoas dessa vida.
Estou cansada numa proporção ilógica ao meu coração e ao meu tempo de existência.
Estou exausta de resistir numa ferrenha batalha automática chamada desistência.
Ainda vejo o coelho na lua e fico esperando o sol nascer.
Ainda me arrepio ao passar pela tua rua e confundo transeuntes com você.
Ainda sorrio por piadas bobas e gosto de olhar nos olhos das pessoas;
E passo pela biblioteca Municipal toda tarde e fico tensa quando o sino das seis horas soa.
Ainda penso em futuros impossíveis toda hora de dormir.
Ainda amo as pessoas sem motivo nenhum e isso acaba comigo.
Ainda penso em você,
e te desejo todo o amor dessa vida.
Sou um caso perdido.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A visão do Hotel Panorama é medonha. (Ou "Conto sobre um menino-demônio.)

Os lábios inchados e rachados de mordidas. As mãos finas de veias saltadas. Droga e também substâncias químicas, que mais? Minha camiseta florida porque talvez seja a mais cínica em tuas mãos quentes, extremamente assim. Entra uma luz estranha pela janela, entra uma luz multi colorida entre cortinas anil. E daí mãos e pés e lábios e calores e não há absolutamente nada de erótico nisso, é necessário ressaltar . Teu corpo de menino andrógino, olhos grandes, olhos mortos, olhos de ancião sarcástico. Gosto dos lençóis. Curto teus lençóis alucinógenos como curto você. - E por isso mesmo encurto minha estadia, por um pavio também curto que já já vai apagar, logo após acender. Não importa, nada importa. Te vi 3 mil anos atrás, semana passada, numa noite onde tudo anunciava a tragédia num gramado daquele lugar de gente profana. Fumava e sorria, olhava para baixo, olhava para o nada. - Sabia. Eu, claro. Tu já não sabia de nada e isso te trazia imensa sabedoria. Intensamente sensorial do começo ao trágico e previsível fim. E naquela noite tosca, naquela noite prima olhei o céu e a lua zombou de mim ao me dar o vislumbre inicial do começo, meio e - De certo modo, portanto, ao te ver com teus amigos fumando enquanto eu, espectro no lugar errado, na hora errada, seguindo fielmente o que ditaram as linhas do tal destino, eu, então, de certo modo, naquele simplesmente trágico ou obviamente banal momento, já me vi deitada numa cama que não era minha num quarto que não era meu, cuspindo o horror do meu corpo ao lado do teu. Gosto de tocar a ferida, de tocar em frente a banda do desatino. E foi assim que toquei aquele formigueiro, despertei o que já sabia que era vil, e que vil viria como uma tempestada de peste, como uma maldição enfim. Toquei o prisma proibido ou seja lá como queira chamar. Vi em ti outros mais e em seguida veria em tantos a ti, como é natural. Toquei fantasmas, troquei fantasmas. Suspirei no teu ouvido - Lençóis molhados, alguns mosquitos, as cortinas absolutamente infames cobrindo aquela janela do Hotel acabado - suspirei no teu ouvido, gultural, inconsciente, comovido - Suspirei no teu ouvido:
"-Teus fantasmas te mandam lembranças."
Vi teu olhar de pavor e é importante ressaltar, meu amor, que também eu sou pavorosa. 

sábado, 27 de agosto de 2011

The boy who blocked his own shot - Letra e música.

Silêncio.
Você não diz nada, não me diz nada. Não percebo mais em teus olhos o impulso de tentar me ferir, se proteger ou projetar qualquer sentimento em mim. Estão vazios e opacos e nem cheios das lembranças parecem, embora eu saiba que foram elas que os deixaram assim.
Isso acaba comigo, me desespera. Digo uma, digo outra vez. Exploro feridas antigas, uso das palavras com a destreza cruel com a qual fui ensinado. Nada, nenhum efeito, reação. Só um pouco mais de vazio, depois, enfim.
Desespero.
Pego sua mão, subitamente. Tento o efeito inverso. Meu orgulho começa a se apagar. Mas nem isso, meu Deus. Temo que algo, sua alma, seu espírito, essas coisas das quais você sempre falou e nas quais eu nunca acreditei, tenham morrido. Essas coisas, cujas existências são essenciais para minha sobrevivência - embora só perceba tudo isso agora - e que arduamente tentei destruir.
-O que eu posso fazer, o que eu posso te dar? Quer que eu vá embora, que eu fique?
Você não diz nada, não me diz nada. Dá de ombros, puxa o fôlego. Tenta ser gentil, mesmo na dor. Tenha ter reciprocidade, mesmo no vazio. Retribui os meus carinhos, mas quando encosta seus lábios nos meus uma lágrima escorre de seus olhos mortos, porque se viola ainda mais. Vejo o que sou para você: Vejo que me tornei um poço de tristeza, o grande estopim de todas as tuas dores. Não posso mais te dar nada, percebo. Nada.
Pela primeira vez na vida, talvez, tento pensar no que você precisa em vez de no que eu quero. De repente me pergunto, afoito, como se uma venda tivesse acabado de ser tirada de meus olhos, como/por que não pensei nisso antes. E percebo, em aflição, que foi isso que você fez o tempo todo. E que ainda faz agora.
Frágil e doce, mesmo na amargura. Seus olhos são bondosos e seus finos braços pálidos me abraçam com compaixão. Seu corpo todo tão frágil, sua doce alma tão imensamente forte. Destruída pela única força maldita que poderia tê-lo feito. Te olho, te gravo, te tatuo. Jamais te esqueço. Parto. – Porque é a única coisa a fazer por ti agora.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Crash into me - Dave Matthews Band (Essencial, por favor.)

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Era simples e geralmente chovia bem no meio da tarde, às 16h.
Ela morava num lugar pequeno que tinha uma janela de tela furada para um corredor tosco e o céu branco. Sua cama era o melhor lugar do mundo e ela nem imaginava que tudo que a rodeava tinha o inequívoco aroma de sua frágil existência.
Ela já começava a conhecer as coisas belas e tristes, a doçura, o céu à noite e a importância dos olhares. Havia um ou dois apanhadores de sonho por seu quarto porque à noite, às vezes, fantasmas que nunca tinha conhecido lhe visitavam, mas há também quem diga que vezenquando um ou outro anjo mal beijava seus lábios durante o sono.

Ela gostava de vê-lo entrar sorrindo, com os cabelos molhados de quando a chuva estava no começo.
Te adocicar, te amaciar - era complexamente fácil embalá-lo numa melodia muito natural com gosto de infância e outras iguarias tais.
Às 16h o céu chuvoso é magnífico, repare bem.
Não era muito diferente de passar a tarde em casa, na infância, tomando o picolé do carrinho que apitava todos os dias pela rua e sorrindo por coisas que lhe eram inocentemente e genuinamente engraçadas, na época.
Não era muito diferente do vento frio que entrava de supetão pela janela, anunciando o começo de chuva e embora frio era sutil, e era doce e formava uma atmosfera de sonho no quarto com o lustre antigo às 16h da tarde, de qualquer tarde qualquer.
Não era muito diferente de não precisar forçar sorrisos ou piadas, bagunçar os cabelos castanhos e quase longos dele e fazê-lo sorrir também sem nenhuma intenção disso.
Era simples deitar naquela cama com cheiro de tudo que um dia já foi seguro, com ele, com a música baixinha vindo do rádio e o vento levemente frio os envolvendo e muitas vezes sem toques, muitas vezes sem nudez nem nada do gênero e sorrir e brincar de palavras ou músicas  e olhares e amor ou algo que o valha e dormir e sonhar um com o outro e por causa disso, de tudo isso, acordarem felizes, totalmente felizes, sem sequer terem consciência disso.
Era simples como o rebentar de uma pequena mas refrescante onda na praia durante a chuva do meio da tarde, porque dizem que não existe nada mais doce do que o céu chuvoso às 16h, se você quer saber.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Para não dizer que não falei do feeling.

Então preste atenção: Nunca amor, isso é bobagem. Eu ainda não encontrei um bom motivo para ingressar nisso porque apesar de tudo as porradas que a gente leva não satisfazem e os benefícios que nos acometem anestesiam uma parte muito intensa e viva e importante da gente e veja bem, você nunca pode ter um só foco porque isso te destrói e te limita. É conversa-fiada esse negócio de ter só um foco porque nenhuma ciência é una, todas se complementam, você sabe, e a menos que você esteja desprendido o suficiente de cada coisa para apreciar todas ao menos um pouco, você vai estar tão profundamente dentro que vai perder a sublime capacidade de ver de fora. Por isso que em dias assim em que o céu está magnífico eu imagino que talvez não tenha sido criada para amar, ao menos romanticamente e individualmente, como vocês falam, porque todas as vezes em que me enquadrei neste conceito estranho, morri mais que vivi e tentava fervorosamente me convencer de que estava viva. Uma vez tendo aceitado essa condição meio nômade meio cigana meio raposa eu finalmente me sinto amando de tudo um pouco do fundo do meu coração, esse órgão sangrento que é grande demais para caber em um só par de mãos.

sábado, 6 de agosto de 2011

Fluxograma resenhado de Pensamento (Ou “A preguiça e etc.”)

Esse é um texto longo e maçante. Só comece a ler se estiver com muito saco.


Engraçado. Toda e qualquer linha de raciocínio na qual me atrevo a ingressar com mais profundidade do que o habitual, finda por me levar à consciência de minha total e absoluta ignorância sobre a grande maioria das coisas. É tão desesperador ser cônscia das minhas próprias barreiras limitadoras. Vejo muitas coisas: Vejo ego, vejo medo, vejo covardia, vejo preguiça. Talvez seja a maior de todas as covardias, a própria preguiça. Estar ciente da capacidade de ser capaz e ainda assim ignorá-la. A acomodação parece, de certo modo, ser SIM o caminho natural das coisas. Nós, como fomos criados, parecemos ter sido primariamente colocados numa esteira inútil. Postos num caminho quase autocondutor, sendo guiados pelo amigo tempo de certo modo que só passamos pelas vitrines dos elementos, nunca descendo da esteira para aprofundarmo-nos nas lojas (com o devido perdão pela comparação cretina); Desse modo somos “levados a levar” uma vida medíocre e superficial cujo destino é nada menos que a morte – Uma experiência que com a subjetividade limitada que desenvolvemos, é provável que nem sejamos capazes de apreciar. Mas a culpa, amiguinhos, não é do “sistema” não. Não é da mídia, do governo ou dos cambal de bodes expiatórios que é de praxe usarmos. A culpa é nossa porque a gente é máquina porque a gente gosta de ser máquina. É mais fácil, não traz maiores indagações e ainda por cima, se você manejar direitinho, nos faz sentirmo-nos produtivos. Triple bonus. Acontece que, no final das contas, é tenso pensar. É extremamente angustiante viver confrontando a realidade – Cansa. É como forçar um limite invisível, uma barreira impensável. Principalmente quando, ora, existe uma alternativa tão mais fácil. É como tentar estudar matemática para a prova do dia seguinte enquanto se está com sono. E o sono vai aumentando à medida que você tenta estudar, esse sacana. É de propósito, parece. Aposto que se você não tivesse prova, ia estar ligadão jogando videogame até de madrugada. Agora me pergunto: Por que eles fazem isso? O cérebro, a mente? Por que não querem que a gente estude matemática, por que não querem que a gente pense? Me deixam abismada as armadilhas cretinas nas quais nos metem. Quando você menos percebe, lá está você julgando alguém por causa de uma roupa, fechando um livro de filosofia porque “é complicado”, gastando seus dias/anos/vida(s) em uma série de movimentos físicos e mentais extremamente padronizados. Mas engraçado também é que parece que de alguma forma, em alguma instância, não satisfaz. Parece existir uma criatividade inerente, pulsante, que como a gente não usa, se manifesta de outras formas, força saída (Ao menos a porção dela que não se atrofiou.). Daí nascem as mais variadas idiotices, porque se tem algo babaca é o resultado de uma criatividade mal canalizada. Daí nascem os draminhas, os joguinhos, toda aquela movimentação desnecessária em aspectos (semi) irrelevantes da vida que fazemos para nos sentirmos vivendo-a! Porque aí fica uma equação legal. Fácil, não? Você não tem trabalho pensando nas coisas “grandes” (que na verdade são naturalmente  simples) e exercita o... (Sei lá que palavra recebe isso), bom, exercita alguma coisa aí nessas pequenas atividades tolas. E daí? Daí nada, como sempre. Sempre concluo assim: Daí nada. Porque por mais que eu fale aqui, “tô nessas”, meu amigo. E tenho bastante certeza de como daqui para a meia noite, vou arrumar algo idiota com o que me ocupar também.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"I have never fail to fail."

Eu tentei ser doce
Eu tentei ser viva
Eu tentei ser luz
e apaguei em seguida.

Não me dê nada,
não quero nada nada.
Teu amor que seduz
me adoece a ferida
minha ferida é tão doce
chocolate, a querida.


De nada serei refém.
De ninguém serei a vaidade;
A nada direi amém,
A ninguém cantarei saudade.

A nada entregarei meu bem
Minha amada tranquilidade
Veja bem,
depois de tanta insanidade -
Já cansei.
Sem rimas, liberdade.





(Tô cansando desse blog, meus bens. Sinto que ele chega a seus momentos finais...)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O meu refrigerador voltou a funcionar

Outra variação de derrota,
Te conduzo pelo zíper dos meus lábios
Tente acompanhar essa linha de pensamentos doentia
E pelas rotas do riso cínico me fazer companhia
Ou vá lá, mas vamos cá
Só, por favor, não me venha chorar.

Pega um punhado de preces e outro de promessas
Meio fio, por um fino, tô nessas.
E te deixar de olhos rotos em poesia
Eu vou te dar o nascer do sol ao meio dia

Tua energia trágica nas tuas costas embriaga
E traço nelas com meus dedos essa linha curvilínea
Abre esses lábios, bafora em mim tua fumaça e traga.
Traz o corpo, traz a alma, quero ao menos ser faminta
Mas nada, beijo ou tato, descongela essa menina.

Acode aqui alguém, por favor.
Aquece, esquenta. Sei lá, ao menos tenta.
Alguém precisa fazer alguma coisa, porque desculpa, Mutantes, por desparafrasear*,
Mas é que meu refrigerador voltou a funcionar.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Te encontro na Madre Vilac

Acende o esqueiro. Apaga o esqueiro. Acende, apaga.
Para com esse barulho, cara.
Era noite, claro. Naquele cruzamento enfim. A avenida era estranha para quem passava, que não se passasse por aí a essa hora, garoto, mas era familiar a ele. Aquela era sua vida. Ele olhava entediado enquanto os outros fumavam, brincavam. Um dia foi interessante, era ele ali, mas agora carregava uma certa tranquilidade, mesmo depois de tão pouco tempo. O novo era interessante, o costume desgasta. Daí, assim. Não era ruim não, só de praxe. E aquele dia estava um pouco apreenssivo. Será que não devia algo acontecer, devia?
O que você tá fazendo aí cara, vamo puxar uma. Olhou de lado. Ia chegar em casa muito, muito tarde de novo. Quer dizer, cedo. Da manhã. Lembrou quando a velha dizia alguma coisa ainda, agora nem um pouco. Sentia até falta às vezes. Era tão fácil já.
-Você tá bem, Thales?
Perguntou a menina.
Ele olhou de lado. Uhum, assim com a cabeça. Tinha alguma coisa o puxando para trás. Estavam no meio fio, bem no meio da Avenida e ele a viu: Aquela rua era estranha para o diabo, uma ruazinha assim, o chamando. Dava para ver dali aquela rua estranha, mais estranha que essa Avenida ainda, entrando pelo um  bequinho, umas casas em que talvez nem houvesse ninguém e que pareciam ter um quê de antigas. Rua Madre Vilac.
Pulou dos entulhos sobre onde estava sentado.
-Vai pra onde, Thales?
Perguntou o primo.
Ele não respondeu, nem precisava. O outro estava chapado mesmo e ele só...Parou no caminho, tenho nada a fazer nessa rua não.
Vou pra casa. Mas por quê, são nem 5, tem nem sol ainda. Eu vou porque, sei lá. Saiu. Odiava se explicar.
Chegou em casa e dormiu com a mesma roupa, o sino da igreja tocando 5 horas, que estranho ele achava que só tocava às 6. Pegou no sono, sonhando com a Madre Vilac.

Pela manhã, a escola. Tedioso, automático. Não acabava nunca essa escola, se bem que sabia que quando acabasse talvez fosse pior, ou não. "Tanto faz". Tinha sonhado e era importante, mas o que era?
O que era, o que era? Se perguntava enquanto seguia para casa, seguido pela menina. O cabelo desarrumado, a mochila jogada sobre os ombros, ah Thales costumava ser um menino tão bom... Daí passou pela Avenida. Tchau, você dobra aqui, né? É, vem hoje à noite? Claro, provavelmente, todo dia, não?
Daí olhou de lado, cadê a ruazinha? A Madre Vilac? Diabos, não identificava. Olhou pelo quarteirão, uma entrada, outra. Nada do bequinho. Devia ser muito diferente à luz do dia. Continuou seguindo pelo meio fio, sempre o meio fio, afinal, né.

Os grilos começavam a cantar quando o celular vibrou
"Vem não?"
Bem na hora que a mãe passou pelo quarto com a porta aberta e até olhou com um espanto:
-Não vai sair hoje, Thales?
Olhou de lado, aborrecido. Era tão incomum assim?
Mas não queria ir para a Avenida não, quer dizer, queria, intensamente. Praticamente sentia-se puxado até lá hoje, especificamente. Mas aquela apreenssão...Não queria, então.
-Vou sim.
Claro que para ele sempre funcionava a lei dos contrários.
Mas quando chegou na Avenida, não tinha ninguém. Checou o celular. Uma festinha, em algum lugar. Imaginou o cenário, álcool, drogas, sexo... Uma típica comemoração grega...Em nada o atraiu. O que estava havendo? Virou de lado. Lá estava ela.
Eu lembrei o que sonhei, lembrei que sonhei com uma cartomante.
Ela tirava-lhe as cartas e sorria um riso de gato sinistro. Seu nome era Madre Vilac. Ou o nome da carta era Madre Vilac. Um arrepio atravessou seu corpo moço. Riu. Que besteira. Não era supertiscioso, nem um pouco. Era tudo besteira, coisa que sua irmã mais nova ficava vendo em revista. E ria cada vez mais forçado, enquanto atravessava a avenida.
Pisou na calçada com seu tênis gasto. A entrada da rua à sua frente o encarava. A plaquinha já velha com
o "Madre" quase apagado. Parecia mais escura ainda, mas sozinha ainda, mais encantada ainda. Olhou de lado, para o caminho que levava à sua casa. Olhou para frente.
Agora ouça bem que essa é uma lição para a vida: Sempre há uma bifurcação, sempre.
Thales sorriu, olhou para baixo, acendeu um cigarro. Teve a impressão de ver uma moça nas profundezas daquela rua e sacodiu a cabeça. Voltou-se para o lado e deu um passo em direção à sua casa.
Mas para Thales, como eu disse, sempre funcionava a lei dos contrários.
Ele girou nos calcanhares e entrou na Rua Madre Vilac.
Mas é claro que ele nunca voltou.