Tenho andado meio misantropa esses dias. Meio arredia. Tenho minhas pessoas preferidas - sinto muito, mas é verdade, eu tenho. Mas fora isso, estou com dois passos atrás para todo mundo. E o porquê é o que quero compartilhar aqui.
Viver deveria ser tão fácil, mas relacionamentos humanos são tão cheios de variáveis... Eu ando cética, confesso. Quanto à tudo e a todos. Mas isso é culpa das minhas últimas observações. Me parece que existem dois tipos de pessoas: As que falam e as que escutam. É uma generalização grotesca, eu sei, mas é o jeito. As pessoas que falam estão sempre querendo ouvir o som das próprias palavras. Via de regra, elas gostam muito das pessoas que escutam, por serem receptáculos tão pertinentes. As pessoas que escutam são paredes brancas recebendo a tinta das palavras das que falam. Tornam-se um retrato das outras, portanto. E quem não gosta da própria obra? O que não percebemos com facilidade, no entanto, é que as pessoas que escutam também gostam muito do som do próprio silêncio.
De certo modo então, dá no mesmo. Parece que tanto os falantes quanto os escutantes* somente estão pintando um quadro em seus interlocutores.
Eu costumo dizer que na verdade não nos relacionamos com outras pessoas; Nos relacionamos com nós mesmos através de outras pessoas. E não é uma sensação muito legal esta: A de se sentir instrumento de outrem. Eu sei que eu já disse aqui que egocentrismo é o curso natural das coisas, mas às vezes me parece que o que predomina é o "egoabsolutismo". Só nós mesmos, não o outro. O outro somente como espelho. "Eu amo o outro, cuido do outro, me relaciono com o outro, mas no fundo estou fazendo isto apenas comigo mesmo. De fato, eu não vejo o outro. Vejo a mim. A partes de mim." Este pensamento me assusta e entristece muito.
Eu tenho me sentido só espelho alheio e por mais que haja carinho, preocupação e até o tal do amor em minha direção, não é para mim. Bate e volta. Reflete.
Eu gostaria de um mundo em que realmente se vê o outro, se toca o outro. Não para benefício próprio, exercício de autoaperfeiçoamento ou coisa assim. E sim por puro interesse em se conhecer profundamente outrem. Eu me encanto e desencanto intensa e rapidamente pelas pessoas. Me encanto ao conhecer alguém, praticamente qualquer pessoa. Isso porque todas as pessoas tem algo de bonito.
Cada ser humano é um universo incrível, dotado de características, cultura, história e "n" variáveis únicas. E isso me deixa extremamente curiosa. Mas me desencanto no momento em que passo a me sentir objeto de suas auto necessidades. Eu ainda almejo encontrar pessoas a quem eu possa olhar nos olhos sem procurar meu reflexo. E que olhem-me nos olhos da mesma maneira.
Nossas necessidades e fragilidades humanas são tantas e tão diversas que nos fazem viver procurando; Procurando imagens. Já me tomaram por mãe, por projeção, por projeto, por filha, por dona ou por propriedade. Já me colocaram em todo tipo de túnel moldador para preencher seus vazios interiores. Mas nunca me tomaram por mim mesma. Não, não, nunca me olharam nos olhos.
Nossas necessidades e fragilidades humanas são tantas e tão diversas que nos fazem viver procurando; Procurando imagens. Já me tomaram por mãe, por projeção, por projeto, por filha, por dona ou por propriedade. Já me colocaram em todo tipo de túnel moldador para preencher seus vazios interiores. Mas nunca me tomaram por mim mesma. Não, não, nunca me olharam nos olhos.
Kristal,
ResponderExcluirEu li e reli o seu texto varias vezes e ao invés de compreender realmente (embora você tenha sido bem clara), meio que intuí algo das suas palavras e talvez tenha intuído errado. Me acontece com frequência. É que o tema sobre o qual você escreveu é exatamente o que tem me dado noites insones e dias sonambulísticos.
Ha algo nas suas palavras, mas se eu olhar demais e diretamente para elas, perco o que devia ver, então, considere o meu comentário não como uma reflexão sobre, mas uma manifestação de apreço pelo que você escreveu. E uma impressão.
A constituição do que nós somos é uma dialética que não me parece nunca uma coisa linear. Eu sou um Eu formado tanto em relação, quanto em oposição aqueles com quem me relaciono.E me encanta nos outros mais a consciência que os outros por vezes têm de sua própria singularidade do a singularidade em si, da qual estão cientes...
Estas são pessoas genuínas, seres humanos reais. E são reais para si, não para mim ou para a minha vaidade ou para meu anseio por ser real.
Agora penso que talvez seja possível ser um Eu, se estruturando nas próprias forças, mas esse "talvez" é tão tênue, que esse caminho pode acabar levando a um autismo onde, de olhos virados para dentro (já que, dizem, os olhos são o espelho da alma) veremos apenas o vazio nos olhando de volta.
Sinto muito pelo comentário gigantesco. O tema do seu post é mais do que importante. É fundamental para nos compreender. E aos outros, como um agradável efeito colateral dessa compreensão.
Até mais!