Este tipo de ocasião era precisamente o que ela denominava como "uma grande palhaçada". Todo mundo já sabe como a nossa Mírian estava mal adaptada à vida em sociedade, mas o que estava havendo estava ultrapassando seus limites subjetivos. Tinha escolhido ficar quietinha, para ser bem clara com vocês. Haviam algumas vozes em sua cabeça - como sempre - mas ouvir as vozes em sua cabeça nunca deu certo. Desafogar sua consciência nunca deu certo. Acalmar seu coração... bom, isso deu certo algumas vezes mas já fazia tanto tempo e estava tão distante que ela já enxergava essa época como uma vida de outrem. Era inviável descrever esta imitação de vida que vinha vivendo.
O silêncio dela era aterrador. Era um silêncio gritante, cuja voz saía diretamente do peito ferido. Absurda como só ela, continuava em esperas ineficazes - pensava. Continuava esperançosa. Era uma junkie pela esperança, uma verdadeira viciada. Era um caso perdido, condenada à morte prematura dentro do próprio corpo. Ele continuava estático, porém. Olhos grandes expressivos - ou não? Quão impossível era saber, porque não dizia nada. Ela também não dizia, não diria. Não podia mais dizer, o tempo tinha-lhe atados as cordas vocais, impedia-lhe de tentativas de pular na água. Mas isso não significava menos, não, não, isso não significava nada. Ela ainda era a mesma. Temia que fosse para sempre, até uma morte interior - que ocorreria em breve caso nada mudasse. E aí tudo se desfaria como cal na água, tão breve, bonito, como a asa de uma borboleta morta. Mas até lá, jogava cordas para alpinistas que nunca subiriam. Não precisava de salvadores, não, não, somente de uma mão quente e humana tocando a sua. Lhe dizendo que também via tudo. Dizendo isso sem usar uma palavra.
Encarou a mão dele, involuntariamente. Tremia de hesitação, intenção ou somente tique nervoso, quem sabe? O fato de ocorrerem-lhe as três alternativas na mesma proporção denotava como sua percepção é alterada e confusa. Engraçado, porque sua percepção é sua única companheira, sempre ajudando-lhe a cometer julgamentos horríveis ou simplesmente certeiros.
Tudo que ela queria, honestamente, e em meio àquelas indefiníveis possibilidades de tudo, era um pouco de nada. Deitar e morrer um pouquinho em sua cama, por algumas horas, nos braços de seus algozes e consoladores, os sonhos. Queria o nada de pensamentos por só um tempinho. Sem dúvidas, suposições, arrependimentos ou expectativas. Sem dor, sem nada. A total neutralidade parecia-lhe tentadora ao extremo agora. Neutro estava bom, neutro estava ótimo. Estava acostumada ao neutro, à apatia, ao cinza. À esta imitação de vida, como supramencionado. Só queria evitar a dor. Verdade seja dita, estava era com medo da dor. Encolhida, como uma criança na tempestade, seu espírito estava assustado pela chama. Então tudo bem, a inconsciência. Anestésico mais eficiente que o álcool, o sangue ou o pó (vai saber). Queria afundar-se no nada para fugir, isso mesmo, nem que só por algumas horas. Queria isso porque já não esperava nada - Frase corriqueira em seu vocabulário - e que significava, precisamente, que ainda esperava tudo.
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