Seria muito mais fácil viver por alguém.
Seria bem mais simples dizer (como eu já quis dizer antes): "Me diga o que você quer, que eu faço. Me diga o que você quer que eu seja, eu sou. Eu posso muito bem viver por você, a partir de agora." Mas isso, meus caros, não é um ato de altruísmo e nem de dependência emocional. É simplesmente mais uma fuga. Quão
conveniente é jogar seu destino nas mãos de outrem, não acham? Quão conveniente é jogar a responsabilidade de nossas próprias decisões para outra pessoa e ainda ganhar o bônus de poder culpá-la, caso dê errado? "Eu te dei tudo isso e você ainda me decepcionou." O que você deu, meu bem, foi um grande ônus, isso sim.
Nossa interação com o outro é uma das variáveis mais interessantes da nossa existência porque diz muito sobre nós mesmos. Não mais ou menos nobre, mas é incrivelmente mais difícil ser senhor do próprio destino. Relacionar-se com outras pessoas é possível sim, mas só se torna tão complicado porque, inicialmente, não sabemos nos relacionar bem com nós mesmos. As coisas exteriores de modo geral, são simples. São claras. Os caminhos benéficos e maléficos apresentam-se para nós. O problema está na nossa lente, que embaçada pelas nossas próprias batalhas internas nos impossibilita de ver com clareza. Ora, não são as batalhas internas as mais desafiadoras e definitivas? Sem o medo, o orgulho e o egoísmo, me parece que a "felicidade" seria o caminho natural a ser seguido. Mas não é tão simples livrar-se desses fantasmas, não é? Não, não é.
Por isso delegamos a imensa responsabilidade de curar nossas feridas a outrem. É, vivemos fazendo isso. Eu mesma já fiz muito. Mas veja bem, cada pessoa já tem suas próprias batalhas para lutar então além de cruel essa delegação, também é inócua. Inócua porque qualquer benefício que alguém te proporcione em ordem de te "curar" não passará de mero analgésico para um problema duradouro. Isso mesmo. Somente nós mesmos podemos derrotar nossos demônios. E só podemos viver por nós mesmos. Ao aprender a fazer isso, aí sim, podemos tentar adicionar algo à vidas alheias.
De certo modo isso traz uma solução positiva para a pessimista hipótese do texto passado. Talvez nem sempre todo mundo seja espelho. Talvez os outros sejam espelhos somente quando não conseguimos viver conosco mesmos. Uma vez executado este aperfeiçoamento interno, aí sim, quem sabe, consigamos olhar para as outras pessoas nos olhos.
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